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Despacho de arquivamento ou de prosseguimento dos autos

APLICAÇÃO DE MEDIDAS DE COAÇÃO E SUSPENSÃO PROVISÓRIA DO PROCESSO 4 Suspensão provisória do processo – Incumprimento de injunções/regras de conduta, cumprimento defeituosos e

1. Enquadramento Jurídico Previsão legal

2.2. Incidente de incumprimento na suspensão provisória do processo: tramitação

2.2.4. Despacho de arquivamento ou de prosseguimento dos autos

Depois de recolhida a prova, o Ministério Público profere despacho de arquivamento, de modificação / readaptação do plano de conduta ou de prosseguimento dos autos.

APLICAÇÃO DE MEDIDAS DE COAÇÃO E SUSPENSÃO PROVISÓRIA DO PROCESSO 4.Suspensão provisória do processo – Incumprimento de injunções/regras de conduta, cumprimento defeituosos e

outras vicissitudes após a decisão. Enquadramento jurídico, prática e gestão processual Tais despachos são actos decisórios da competência do Ministério Público46, e não despachos

de mero expediente, pelo que devem revestir os requisitos formais dos actos escritos47 e

devem ser sempre fundamentados, com especificação dos motivos de facto e de direito da

decisão (cfr. artigo 97.º, n.ºs 3, 4 e 5 do Código de Processo Penal).

O dever de fundamentação das decisões48 constitui uma imposição constitucional (artigo 205.º

n.º 1 da C.R.P.) e uma manifestação do direito a um processo equitativo (artigos 6.º da Convenção Europeia dos Direitos do Homem, 14.º do Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos, 10.º da Declaração Universal dos Direitos Humanos e 20.º, n.º 4 da C.R.P.), cumprindo uma função de garantia de racionalidade, imparcialidade e ponderação da própria decisão.

Neste contexto, e antes de deduzir acusação49, deve o Magistrado do Ministério Público

proferir despacho com indicação dos elementos de facto e das razões de direito que justificam a sua decisão sobre o prosseguimento do processo, nos termos do n.º 4 do artigo 282.º, do Código de Processo Penal.

Como supra referido, a violação de uma qualquer injunção ou regra de conduta não implica a revogação automática da suspensão provisória, exigindo-se, para que tal aconteça, que a situação de incumprimento seja imputável ao arguido a título de culpa, competindo ao Ministério Púbico averiguar os motivos e circunstâncias do incumprimento e avaliar do grau de culpa, para decidir da revogação da suspensão e da prossecução dos autos para julgamento. Por outro lado, na alínea b) do n.º 4 do artigo 282.º do C.P.P., sanciona-se o arguido que, tendo beneficiado da aplicação da suspensão provisória do processo não adequou o seu comportamento ao respeito pelo bem jurídico que já havia violado, demonstrando que o cumprimento das injunções e regras de conduta não se mostrou resposta suficiente às exigências de prevenção.

A falta de fundamentação dos despachos decisórios, quando não tenha tratamento específico previsto na lei, constitui irregularidade, submetida ao regime do artigo 123.º do Código de Processo Penal.

A jurisprudência recente tem considerado admissível a realização de instrução, a requerimento do arguido, com o único propósito de apurar se o arguido, na fase de inquérito, incumpriu culposamente as condições a que tinha ficado subordinada a suspensão provisória do processo50.

46 Se a suspensão provisória tiver sido aplicada na fase de instrução, a competência é do Juiz de Instrução. 47 Cfr. artigos 94.º e 95.º do Código de Processo Penal.

48 A fundamentação variará, necessariamente, em função, designadamente, do maior ou menor poder de síntese do julgador e da melhor ou menos boa capacidade de expressão do mesmo, bastando-se a lei processual com uma possibilidade efectiva de compreensão do raciocínio exposto – Ac. TRC de 03.06.2015, Processo 248/09.2JALRA.C1, relator Vasquez Osório.

49 Em regra, e por razões de economia, celeridade e gestão processual, a decisão de revogação é proferida em simultâneo com a acusação, como despacho prévio. Não se trata aqui de um despacho prévio a fundamentar a decisão de acusar (isto é, a existência de indícios), mas de uma decisão em que se aprecia a conduta do arguido de apreciação da existência ou inexistência das causas de revogação da suspensão.

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outras vicissitudes após a decisão. Enquadramento jurídico, prática e gestão processual

Optando o Ministério Público pelo prosseguimento do processo, deduzindo acusação, com base no invocado incumprimento, ainda que parcial, do arguido, esse juízo cabe exclusivamente ao Ministério Público. O juiz de julgamento não pode sindicar as razões da opção do Ministério Público, quando no final do prazo da suspensão este decide pelo prosseguimento do processo e, com esse fundamento, rejeitar a acusação.

Não obstante, tem-se defendido que, nestes casos, o arguido pode requerer a abertura de instrução, nela demonstrando que não houve incumprimento da sua parte ou havendo-o, ele

não ocorreu por culpa sua. Neste caso, a instrução não visa a matéria da acusação, mas o despacho do Ministério Público de revogar a suspensão provisória do processo.

«Deduzida acusação pública, com base na inobservância de injunções e/ou regras de conduta condição da suspensão provisória do processo, o arguido pode opor-se à referida opção do Ministério do Público, requerendo, em momento processual adequado, a instrução, para que nesta demonstre a inexistência do invocado incumprimento ou, havendo-o, que ele não ocorreu por culpa sua, obtendo, deste modo, a final, decisão de não pronúncia».

in Acórdão do TRC de 27.09.2017, Processo 361/11.6JFLSB.C1, Relator Paulo Valério A instrução visa a comprovação judicial da decisão de deduzir acusação ou de arquivar o inquérito em ordem a submeter ou não a causa a julgamento (cfr. artigo 286.º, n.º 1 do Código de Processo Penal). Logo, e como assevera Germano Marques da Silva, podemos dizer que a instrução tem uma dupla finalidade: por um lado, obter a comprovação jurisdicional dos pressupostos jurídico-factuais da acusação; e por outro, a fiscalização judicial da decisão processual do Ministério Público de acusar ou arquivar o inquérito51.

Como refere Figueiredo Dias, a instrução afirma-se pois como um mecanismo de controlo da decisão do Ministério Público de submeter ou não a causa a julgamento e não um suplemento autónomo de investigação, sob pena de se colidir com a estrutura acusatória do processo52.

Sendo assim, a amplitude atribuída à finalidade da instrução (“comprovação judicial de deduzir acusação”) não deve cingir-se à simples actividade de verificação da existência de indícios, mas a todo o enquadramento jurídico da decisão judicial de deduzir acusação. Daí se admitir a possibilidade de ser requerida a abertura de instrução pelo arguido para nela demonstrar que não houve incumprimento da sua parte ou havendo-o, ele não ocorreu por culpa sua.

Em processo abreviado, em que não é admissível a instrução (cfr. artigos 384.º, n.º 4, 391.º-B e 286.º, n.º 3 do C.P.P.), já se admite que a decisão do Ministério Público de submeter a causa a julgamento, possa ser sindicada em julgamento, constituindo uma excepção dilatória inominada que obsta a que o tribunal conheça do mérito da causa, dando lugar à absolvição da instância, nos termos do artigo 576.º, n.º 2 do Código de Processo Civil, ex vi artigo 4.º do Código de Processo Penal.

51 In Curso de Processo Penal, III, Editorial Verbo, 2009, pp. 134 e 135. 52 In Revista Portuguesa de Ciência Criminal, Ano 8, n.º 2, p. 211.

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outras vicissitudes após a decisão. Enquadramento jurídico, prática e gestão processual «I - Em processo abreviado, a decisão do Ministério Público em deduzir acusação pondo termo à suspensão provisória do processo, quando questionada, deve ser avaliada (sindicada) em julgamento.

II - A não se entender assim, impedir-se-ia a sindicância da opção do Ministério Público de deduzir acusação em vez de arquivar o processo, violando grosseiramente os direitos de defesa do arguido».

in Acórdão do TRP de 15.06.2016, Proc. 391/14.6PIPRT.P1, relatora Ana Bacelar53

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