Publicada em 16 de dezembro de 1987, em O Estado de S. Paulo, “Despedida provisória” foi escolhida para entrar neste estudo por causa de uma frase que revela muito do autor e que é a chave para entender o fascínio que ele provocava em suas crônicas: suas fragilidades. Na crônica, Caio escreve: “Um amigo me avisou que exponho demais fragilidades, fiquei preocupado. Talvez expor fragilidades seja o único jeito de ser que eu tenho, então não sei se isso tem solução”(ABREU, 2012, p.137-138).
Não é fácil expor as próprias fragilidades. Ao exibi-las, o escritor fica desarmado, nu. Por isso é que o ser humano veste máscaras, como defesa, artifício e autopreservação. Não é de estranhar, então, que o amigo que Caio cita o tenha alertado para esse “perigo”: expor-se. No fundo, o alerta nada mais é que um temor alheio, ou seja, é o amigo que projeta em Caio um medo seu. Mas Caio, que fez de sua crônica um espaço de divagação e mesmo de análise, não teme essa exibição porque a resposta nem ele a tem: “então não sei se isso tem solução”.
A exposição dessas fragilidades será mais explorada quando o autor noticiar seu estado soropositivo, conforme veremos na análise das crônicas mais adiante, principalmente na trilogia das Cartas além dos muros. Por isso é interessante perceber a dinâmica do autor, que não é contido. Ele exibe sua dor, seu desânimo, aborrecimento e outros estados de espírito sem, contudo, ser um exibicionista. Como já estudamos, Caio se aproxima do leitor como de um amigo. Mesmo nesta singela crônica, na qual poderia apenas escolher um tema qualquer para desenvolver, ele prefere fazer um movimento contrário. Permite-se contar ao seu leitor que está vivenciando um momento difícil para escrever e ainda justifica sua breve ausência: “Despedida rápida, provisória: vou ficar algum tempo fora sem escrever aqui, pelo menos até o dia 6 de janeiro”. E então conta o que fará.
Essa franqueza agrada o leitor, cativa-o. Estabelece um vínculo porque ao ler as agruras do cronista é como se ele escutasse as queixas de um amigo ou parente querido. Em entrevista à revista MIX Magazine Caio diria a respeito da sua coluna no jornal: “[...] eu sempre fui muito pessoal no que escrevo” (BARRA, 1995, p. 6). E ao
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narrar desta forma afasta-se do estilo de crônica de um Rubem Braga, por exemplo, e mostra como a crônica pode ser tão ampla e explorada de tantas formas diferentes.
“Despedida provisória” apresenta um escritor sem muita inspiração nem vontade de escrever (“Ando meio esvaziado”), tal qual Clarice Lispector - influência confessa do escritor – de modo particular em sua obra A hora da estrela (1977). Nela, a autora – na pele de um narrador masculino - reflete sobre o ato de escrever e suas agruras: “Não, não é fácil escrever” (LISPECTOR, 1999, p. 19). Mas, apesar de tudo, é a escrita o que o mantem vivo: “Estou absolutamente cansado de literatura; só a mudez me faz companhia. Se ainda escrevo é porque nada mais tenho a fazer no mundo enquanto espero a morte” (LISPECTOR, 1999, p. 70). Seguindo essa trajetória da Lispector, Caio comenta o cansaço que sente devido às energias que a escrita do seu livro de contos Os dragões não conhecem o paraíso exigiu. Dá a impressão de que o livro retirou dele toda a sorte de inspiração e, para recuperar essa energia, comunica ao leitor que se afastará por um tempo. Daí o título da crônica. Mas, ao justificar o porquê da sua ausência, ele começa a aprofundar diversas questões que vão surgindo e conta, assim, ao seu leitor que “acha muito difícil sobreviver” e que muitas de suas questões “o tempo resolverá”.
Revela que as “manhãs são brancas”, insistindo na sua repetição em três parágrafos e no subtítulo: “Dentro da manhã branca. Para dar um tempo, aterrissar de um livro e de alguns sonhos”; depois, no 3º. Parágrafo: “As manhãs são brancas, parecem feitas mais para se olhar as coisas do que para se dizer algo sobre elas [...]”; 4º. Parágrafo: “Estou tentando me mexer, agora, dentro desta manhã branca, no meio desse branco que não dá forma nem cor ao futuro [...]”; 5º. Parágrafo: “Nos últimos dias, não vi nenhum filme, não ouvi nenhuma música. Foi um tempo branco, também [...]”; 6º. e 7º. Parágrafo: “Preciso que esse tempo passe e me leve dentro dele, porque até lá, honestamente e sem nenhuma espécie de modéstia, estou mesmo meio burro. E tão assustado no meio desta manhã branca. [...]”. [O destaque é meu]. A repetição das palavras “manhãs brancas” e “tempo branco” remete-nos ao conto Noites brancas de Dostoievski. No conto, o narrador-protagonista é um jovem melancólico e solitário na cidade de São Petersburgo que vê no encontro casual que tem com a jovem Nastenka, a oportunidade de ser feliz. A moça, contudo, já entregou seu coração a
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outro e apenas aguarda seu regresso para se casar com ele. A demora da chegada do rival acende uma faísca de esperança no narrador, pois Nastenka também nutre sentimentos por ele. Mas o pretendente de Nastenka retorna e ela corre ao seu encontro.
O diálogo da crônica com o escritor russo surge nas divagações do narrador-protagonista (ele não se apresenta e não sabemos seu nome): “[...] dias inteiros errei pela cidade numa tristeza profunda, sem nada compreender do que se passava em mim” e “Passei duas tardes a me perguntar: que me falta no meu canto? Por que tenho encontrado tanta dificuldade em permanecer ali? (DOSTOIEVSKI, 1996, p. 8-10). Mais adiante, junto da amada, o narrador reflete: “Oh! De que serve a nossa vida? Ao seu olhar seduzido, você e eu, Nastenka, vivemos uma vida tão preguiçosa, tão lenta, tão largada! Ao seu olhar estamos todos tão descontentes com a nossa sorte, tão fatigados de nossa existência! E em verdade, considere, com efeito, como, à primeira vista, tudo entre nós é frio, amargo, como que hostil... [...]” (DOSTOIEVSKI, 1996, p. 40).
As indagações de Caio Fernando Abreu vão ao encontro das do protagonista de
Noites brancas por questionarem os sentimentos e o vazio que se sente em
determinados momentos da vida. O repertório literário latente de Caio faz esse jogo no qual as noites brancas se transformam em manhãs brancas. Manhãs de ausência, de melancolia, de vazio – como as do personagem russo.
A intertextualidade literária que aparece nesta análise (particularmente com
Noites brancas, de Dostoievski) estará presente em todas as crônicas que
analisaremos. Para Roland Barthes, muito influenciado pelas teorias de Julia Kristeva, a intertextualidade “trata-se de um recurso para tornar anônimo o autor, para cortar de seu texto o que é concebido como uma projeção de textos anteriores, por meio de derivações, transformações, paródia ou mesmo plágio” (CALVET, 1993, p. 205). Esse recurso não empobrece ou reduz um texto original como as crônicas de Caio Fernando Abreu, por exemplo. Pelo contrário, as enriquece e alcançam outras dimensões principalmente quando seu leitor souber associá-las ou compreender o jogo armado pelo escritor. Por isso, ainda que as crônicas do Caio tenham feito muito sucesso, elas
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são melhor compreendidas por um público leitor competente, capaz de fazer a leitura dessa intertextualidade tornando seu texto muito mais profundo do que as aparências apontam.
Leyla Perrone-Moisés observa que na intertextualidade
o escritor passeia pelos territórios da literatura com uma desenvoltura que não é permitida ao crítico: nada declara, pode dialogar com outros escritores sem os chamar pelo nome, utiliza os bens alheios como se fossem seus. Quando muito, pisca o olho ao leitor, que não exige dele o que requer do crítico: que defina muito claramente de quem e do que fala (PERRONE-MOISÉS, 1979, p. 211).
As palavras da Perrone-Moisés caem como luvas na narrativa de Caio, pois ele é esse autor que caminha com “desenvoltura” pelos mais diversos temas dialogando com “outros escritores” e obras utilizando esses “bens alheios como se fossem seus” – tal a maneira como se apropria deles para fala de algo seu, para ilustrar melhor um sentimento, uma emoção, uma experiência. Na narrativa contemporânea a intertextualidade – a exemplo das crônicas de Caio – estabelece um fecundo e contínuo diálogo também com a pintura, a fotografia, a música, o cinema e o vídeo. O discurso (no caso, a narrativa) recorre à intertextualidade como recurso de sentido. Ou seja, o diálogo com os outros textos ou expressões artísticas é um recurso para dizer o que apenas o texto original conseguiu expressar de maneira exata.
Por isso num texto se somam muitas leituras, não existe o texto monológico. A intertextualidade, segundo Julia Kristeva – oficialmente a autora que compõe e introduz o termo, “todo texto se constrói como um mosaico de citações, todo texto é absorção e transformação de um outro texto”(apud SAMOYAULT, 2008, p. 16). A síntese do termo intertextualidade não quer dizer que um texto (conto, novela, crônica) funcione meramente como uma colcha de retalhos, mas aponta que direta ou indiretamente uma obra escrita estará em constante diálogo com outras e isto acontece porque o escritor é também um leitor. Por leitor não nos referimos somente àquele que lê um livro, mas aquele que constrói um repertório de leituras e que faz uma leitura de mundo. “A leitura se realiza a partir do diálogo do leitor com o objeto lido – seja escrito, sonoro, seja um gesto, uma imagem, um acontecimento [...]” (MARTINS, 2007, p. 33). São essas leituras e discursos da sociedade (político, religioso,
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educacional, etc.) que entrarão no texto do escritor permitindo a realização da intertextualidade.
Nas crônicas de Caio Fernando Abreu, a intertextualidade acontece de maneira primorosa com a música, a literatura e o cinema. Ao dialogar com essas expressões artísticas, nos deparamos com um rico mosaico, parafraseando Kristeva, que transformam seu texto em uma narrativa sedutora, tenaz e deliciosa porque nos remete justamente a filmes, novelas, músicas, pinturas e fotografias que nos fazem entender a tônica da sua narrativa, o compasso do seu pensamento e a pulsação do seu sentimento. É uma maneira de compreendermos seu mundo.
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