1. INTRODUÇÃO
1.4 DETALHAMENTO DO PROBLEMA DE PESQUISA
Partindo-se do pressuposto teórico de que a educomunicação contribui para a aprendizagem de educação ambiental crítica, foi preciso descobrir os limites e as possibilidades de seu uso nas escolas de ensino fundamental.
O problema de pesquisa que se apresentou foi delineado inicialmente por meio da pergunta: os sujeitos pesquisados incorporam visão crítica das questões ambientais a partir da introdução da educomunicação como forma de educar? Consequentemente, para além desta dúvida, mediante as percepções obtidas, pretendeu-se responder, com esta pesquisa, à seguinte indagação: como a educomunicação contribui para a prática da educação ambiental crítica? Surgiram, a partir destas perguntas, outras indagações, que foram esclarecidas por
meio da observação direta: 1) A concepção crítica de educação ambiental foi facilitada com a aplicação da educomunicação? 2) Que transformações ocorreram na concepção de meio ambiente desde o momento em que se iniciaram as oficinas de formação? 3) Desenvolver a educação ambiental por meio dos pressupostos da educomunicação ampliou a visão crítica dos professores? 4) Quais foram as possíveis implicações do uso de educomunicação no ensino de educação ambiental e como surgiu o tema gerador?
O problema desta pesquisa foi norteado teoricamente pela compreensão de que educar para o meio ambiente é uma recomendação universal, porque se necessita de uma mudança de mentalidade. Na problematização deste estudo considerou-se que as discussões ambientais realizadas em eventos internacionais vêm construindo um processo de reelaboração de políticas públicas para implementar mudanças na legislação e na educação para o meio ambiente.
Há diversos problemas ambientais que são vivenciados em todo o mundo. Consequentemente, esta questão vem gerando preocupações em nível global. Há quase meio século (desde 1968) esta discussão vem acontecendo. Neste estudo, a evolução das conferências internacionais representa uma oportunidade de contextualizar educação ambiental em cada período e ajuda a entender dificuldades a ela adjacentes.
A Conferência considerada o marco inicial em defesa do meio ambiente é a de Estocolmo, realizada em 1972. Durante a sua realização, a discussão principal foi a percepção de que os mecanismos de intensa produção industrial eram a causa da degradação, e:
o que fica evidente na declaração de Estocolmo é a ênfase na defesa da necessidade de conciliar desenvolvimento e meio ambiente, principalmente em relação aos países ‗em desenvolvimento‘, por intermédio do planejamento, conforme já afirmamos. Nessa perspectiva, a conferência destaca o papel da educação ambiental, tendo tanto nos jovens, quanto nos adultos, o seu público alvo. (BATISTA, 2007, p.110).
Pouco antes, em 1965, na Inglaterra, ocorreu uma conferência de educação que lançou o termo educação ambiental. Este evento aconteceu na Universidade de Keele, na Grã- Bretanha. (BOTELHO, 1998).
Em 1977, a Conferência Intergovernamental sobre Educação Ambiental, realizada em Tbilisi, na Geórgia, aplicou o uso do termo educação ambiental nas suas publicações. No entanto, conforme Sorrentino (1998), esta temática acadêmica antes era tratada como ecologia. A partir deste evento cria-se uma disposição global para formar uma nova consciência sobre o valor da natureza, de forma interdisciplinar e sistêmica.
Em 1987, o relatório ―Nosso Futuro Comum‖ considerou que a produção cada vez maior esgota os recursos naturais, pois requer cada vez mais matéria-prima para manter a atividade industrial crescente. O impacto do sistema capitalista sobre o meio ambiente é cada vez maior porque, para atender a uma demanda demográfica em expansão e com o interesse pelo lucro progressivo, há escassez de recursos naturais que atendam às necessidades apresentadas pelas populações mundiais.
Desde esta ocasião se considera que a solução para os problemas ambientais está no desenvolvimento sustentável. A primeira aplicação do termo sustentabilidade ocorreu quando, por meio do Relatório de Brundtland, se criou a expressão desenvolvimento sustentável. Esta seria uma tentativa dos países para se encontrar o equilíbrio na utilização dos recursos naturais. Seria uma tentativa de harmonizar o crescimento econômico e o equilíbrio ambiental.
Nesta ocasião se entendeu que a produção precisa aumentar para atender à demanda de um crescimento demográfico crescente, aumento dos lucros e desenvolvimento econômico, porém de maneira a garantir a sobrevivência de gerações futuras. O raciocínio que sustenta esta teoria é a preservação e manutenção das riquezas naturais existentes.
No Rio de Janeiro, em 1992, aconteceu a conferência chamada de ECO-RIO 92. Este foi um encontro que reuniu os mais importantes líderes mundiais. Tratava-se da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (Cnumad). O foco das discussões ainda estava voltado para ecossistemas biológicos e introduziu a ideia de desenvolvimento sustentável como responsabilidade mundial, resultando na proposta de execução das tarefas em ação global.
A Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento –Cnumad- (1992) trouxe a reflexão de que os esforços para manter o progresso humano e para atender às necessidades e ambições da sociedade são insustentáveis. Alertou que se retira demais do meio ambiente, a um ritmo acelerado, em uma conta que já está a descoberto e que se torna cada vez mais insolvente.
Em 2002, em Johanesburgo, reafirmaram-se os compromissos da Rio-92 e começou-se a pensar em energias renováveis. Em sequência, 20 anos depois da Cnumad, em 2012, aconteceu a Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável, evento conhecido como Rio+20, por meio do qual os chefes de Estado reafirmaram o compromisso com o desenvolvimento sustentável. Os principais temas discutidos foram a economia verde e a erradicação da pobreza, ocasião em que se incluíram os aspectos econômicos e sociais nas reflexões.
É bastante reflexivo perceber que houve muitas conferências sobre meio ambiente, mas nenhuma delas trouxe resultados efetivos para as sociedades. As decisões eram generalistas e, por se tratarem de princípios norteadores, os compromissos poderiam ser efetivados ou não. Os documentos resultantes destes eventos eram declarações de intenções que em sua maioria não se realizaram.
Todavia, o que se verificou foi que muitas decisões se tornaram leis nos países, como ocorreu também no Brasil. Os objetivos do desenvolvimento sustentável, com o passar dos anos, incluíram questões que contemplavam países com diferentes níveis de desenvolvimento humano. Com o tempo foram criados indicadores que parametrizam a prática de sustentabilidade em nível global. Porém:
Diante das várias concepções de desenvolvimento sustentável e das relações entre trabalho, meio ambiente e educação que delas se estabelecem, torna-se imprescindível enfrentar o desafio de propor alternativas ao modelo de educação vigente no sentido da construção de uma proposta educacional crítica comprometida com um projeto de desenvolvimento justo, solidário e sustentável para o país. (DELUIZ;NOVICKI, 2004, p. 14).
A reflexão acima contribuiu para se pensar em um problema de pesquisa, portanto, que propusesse uma alternativa ao modelo de educação ambiental conservacionista e que se realizasse por meio da aplicação de educomunicação.
É objetivo da educação ambiental crítica possibilitar que as sociedades aprendam a verificar, entre outras coisas, se há respeito e cumprimento dos protocolos realizados até o momento, como vimos ao citar as conferências de meio ambiente. Decorreu daí a produção de uma divisão teórica nesta tese que tratasse da legislação e das políticas públicas educacionais relativas ao tema em estudo.
O problema desta pesquisa considerou a possibilidade de permitir aos educandos fazerem uma nova leitura de mundo por meio da educação ambiental crítica. A perspectiva crítica possibilita a superação da situação de subordinação aos ideais capitalistas. ―Implica no reconhecimento crítico, na ‗razão‘ desta situação [opressora], para que, através de uma ação transformadora que incida sobre ela, se instaure uma outra, que possibilite aquela busca do ser mais‖. (FREIRE, 1985, p.35).
O problema teórico surgiu da possibilidade de mudar as ações educativas praticadas no cotidiano escolar tradicional; Guimarães (2007) apresenta sua crítica ao modelo vigente:
O que chamo de uma ―armadilha paradigmática‖ (Guimarães, 2004) é a reprodução nas ações educativas dos paradigmas constituintes da sociedade moderna e que provoca a ―limitação compreensiva e a incapacidade discursiva‖ (Viégas, 2002) de forma recorrente, gerando uma ―pedagogia redundante‖ (Grün, 1996). Armadilha essa, produto e produtora de uma leitura de mundo e um fazer pedagógico, atrelado ao ―caminho único‖ traçado pela racionalidade dominante da sociedade moderna e que busca ser inquestionável. (GUIMARÃES, 2007, p.30).
A educação ambiental é vista, na minha compreensão, como uma oportunidade para se orientar e atingir o desenvolvimento sustentável. Existe a situação, portanto, de que muitas escolas brasileiras deixam de cumprir a lei, pois esta determina à educação ambiental ser trabalhada de forma transversal em todos os níveis e modalidades de ensino do território nacional. Esta fragilidade na incorporação da educação ambiental na escola é mais uma reflexão que compõe o problema desta pesquisa.
Esta situação foi comprovada por publicações científicas a serem citadas nesta tese (VEIGA; AMORIM; BLANCO, 2005) e (TRAJBER; MENDONÇA, 2006), considerando-se que há dificuldades em se encontrar escolas que pratiquem educação ambiental de forma sistematizada - e não em condição esporádica.
O Estado precisa, então, criar mecanismos de participação neste processo de inserção da educação ambiental, para que seja trabalhada por meio de parâmetros aplicáveis à realidade educacional brasileira, pois, na condição atual:
Esse processo vem gerando, predominantemente, ações educativas reconhecidas no cotidiano escolar como Educação Ambiental e que, por essa armadilha paradigmática na qual se aprisionam os professores/as, apresenta- se fragilizada em sua prática pedagógica. As práticas resultantes (por não serem conscientes, levam a não fazer diferente) tendem a reproduzir o fazer pedagógico da Educação tradicional, enebriando a perspectiva crítica e criativa no processo pedagógico, produzindo dominantemente na realidade escolar uma Educação Ambiental de caráter conservador. Ou seja, limitados por uma compreensão de mundo moldada pela racionalidade hegemônica, geram-se práticas, entre elas a ação discursiva, incapazes de fazer diferente do ―caminho único‖ prescrito por essa racionalidade, efetivando-se a hegemonia.(GUIMARÃES, 2007, p.30).
Considerando-se a educação ambiental em um caráter mais complexo, atualmente estamos em um processo de discussão socioambiental e de sustentação da sociobiodiversidade. Pensar que a ONU possibilitou ao Brasil sediar dois encontros globais
(1992 e 2012) leva a entender o reconhecimento que outros Estados mundiais têm em relação aos avanços que o nosso país obteve nas questões ambientais.
Mas as contradições ainda são muitas em nosso país, quando se debruça sobre o desrespeito às leis que regem o meio ambiente e a desigualdade social. Para refletir sobre este problema, que pode repercutir em desconhecimento de direitos e obrigações, esta tese tentou aprofundar as reflexões sobre lacunas existentes na legislação e nas políticas que ainda impedem a prática de uma ética ambiental na sociedade.
Em busca da compreensão sobre as contradições e consensos, a problematização desta tese incluiu reflexões teóricas sobre os fundamentos conceituais de educação ambiental e de educomunicação.
Nos fundamentos da sustentabilidade tem-se mais um problema teórico a ser esclarecido, pois, embora seja amplamente citado, somente se poderia contabilizar a prática do desenvolvimento sustentável quando se obtivesse: a erradicação da pobreza; a superação dos problemas de violência; a oferta de qualidade de vida e a equidade econômica.
Seria a sustentabilidade um ideal atingível? Em busca de respostas para este questionamento, no referencial teórico desta tese se promoveram reflexões sobre a sustentabilidade e seus desafios transformadores.
Para se tornar uma realidade, o desenvolvimento sustentável precisa ser compreendido e praticado por meio de mudanças sociais. Para além disto, a oportunidade de participação social e política deveria ser ampliada, criando-se mudanças complexas que promoveriam a sociedade sustentável.
Portanto, diante da situação de desconfiança sobre a possibilidade de se atingir o desenvolvimento sustentável, desde 2012, nos eventos institucionais, se supõe ser necessário criar uma base socioambiental global, por meio da qual se pensa no crescimento econômico com inclusão social.
Este seria um parâmetro de proteção- criar um piso para assegurar justiça social- na garantia de que as populações teriam acesso ao desenvolvimento com qualidade ambiental. Todas as conferências mais recentes consideram que se deva assegurar, aos humanos, o direito a um ambiente saudável.
As declarações dos últimos 20 anos entendem que a educação ambiental é o meio para se promover o desenvolvimento sustentável no mundo. A busca de uma vida digna é um elemento reconhecido nos princípios da educação ambiental.
Nos documentos formulados sob a vertente crítica se reconhece o estímulo à aprendizagem de questões ambientais por meio da educomunicação. Ainda em percurso de
problematização, no meu entender como educadora e comunicadora social, as questões ambientais norteiam as condições sociais e econômicas de qualquer sociedade, pois os recursos naturais são a fonte de toda forma de produção humana.
Compôs o problema desta pesquisa promover, por meio de pesquisa participante, a articulação da educação ambiental com a educomunicação, sob a perspectiva de criticidade. O teórico que ancora esta articulação é Paulo Freire, aplicadas suas teorias em oficinas onde se praticou a educação libertadora.
Neste sentido, esta pesquisa se norteou pelo estudo das políticas educacionais de ensino ambiental e ainda se baseou nos princípios de educação libertadora preconizados por Paulo Freire. A pesquisa se realizou a partir do estudo de um problema que interessa tanto aos comunicadores quanto aos educadores e pesquisadores de questões socioambientais. Está delimitada às concepções da educação ambiental crítica e de educomunicação.