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A DETERMINAÇÃO DO SENTIDO DA MATERIALIDADE “RENDA” NA LE

2 O IMPOSTO SOBRE A RENDA NA CONSTITUIÇÃO FEDERAL E NA LE

2.5 A DETERMINAÇÃO DO SENTIDO DA MATERIALIDADE “RENDA” NA LE

O Código Tributário Nacional (CTN) foi recepcionado pela Constituição Federal de 1988 com status de lei complementar.

Prosseguindo na análise da cadeia de positivação da tributação da materialidade “renda”, é importante também mencionar que o artigo 146, III, “a”, da Constituição Federal de 1988, prevê a edição de normas gerais de direito tributário para, dentre outras coisas, a definição de tributos e de suas espécies, bem como, em relação aos impostos, a dos respectivos fatos geradores, bases de cálculo e contribuintes.

74 Mais a frente, no subcapítulo que versará sobre as alíquotas do IRPF da Atividade Rural, demonstraremos as

Não obstante as pertinentes discussões doutrinárias a respeito o alcance de tal norma constitucional, com relação aos tributos estaduais e municipais, acreditamos que com relação aos tributos federais, como é o caso do imposto sobre a renda, na hipótese de existir legislação complementar com o intuito de definir o tributo, ela será de constitucionalidade induvidosa.75

Não obstante o texto da Constituição Federal de 1988 tenha sido editado posteriormente ao do Código Tributário Nacional (Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966), por questão de regras de hierarquia entre normas, entendemos que não é a Constituição que tenha de se adequar ao que prescreve o CTN, mas sim o contrário.

Pelo fato de a interpretação do conceito de renda do CTN, a nosso ver, coincidir com o conceito obtido pelo contexto constitucional, alguns defendem que a Constituição usou a definição do CTN. Todavia, como essa lei complementar pode ser revogada a qualquer tempo, entendemos que a interpretação correta reside no fato de que a definição do CTN apenas se ajusta ao conceito de renda construído através do contexto constitucional.

A determinação do conceito de renda no CTN foi prescrita no artigo 4376, I e II. O

legislador definiu no inciso I do citado dispositivo que o imposto incidiria sobre a “aquisição da disponibilidade econômica ou jurídica e complementou que de renda, assim entendido o produto do capital, do trabalho ou da combinação de ambos”.

75 Como conclui Paulo de Barros Carvalho: “Não tenho poupado críticas a esse dispositivo, naquilo em que fere,

de maneira contundente, os princípios federativos e da autonomia municipal, podendo prestar-se a servir de instrumento à União para imiscuir-se nas faixas de competência outorgadas aos Estados-membros e aos Municípios. No que tange, porém, aos interesses competenciais da pessoa política União, nada há que objetar, porquanto o Congresso, como seu órgão legislativo, pode operar com a legislação complementar, regulando assuntos de interesse federal ou com a legislação ordinária. Tudo, aliás, como bem lhe aprouver. É nesse estrito sentido que entendo perfeitamente cabível a disciplina dos arts. 43 e 44, do CTN, em que a União autolimita sua possibilidade legiferante, estipulando a determinação do conceito de “renda”, ao mesmo tempo em que alude à base de cálculo do imposto” (CARVALHO, Paulo de Barros. Direito tributário: linguagem e método. 3. ed. São Paulo: Noeses, 2009, p. 674).

76 Art. 43. O imposto, de competência da União, sobre a renda e proventos de qualquer natureza tem como fato

gerador a aquisição da disponibilidade econômica ou jurídica:

I - de renda, assim entendido o produto do capital, do trabalho ou da combinação de ambos;

II - de proventos de qualquer natureza, assim entendidos os acréscimos patrimoniais não compreendidos no inciso anterior.

De forma que o legislador complementar expressamente adotou o conceito de renda como produto da fonte produtiva (capital, trabalho ou a combinação de ambos), o que coincide com o conceito constitucional acima construído consistente num acréscimo patrimonial. A redação do inciso II do mesmo dispositivo confirma nossa conclusão,77 ao

prescrever que proventos de qualquer natureza seriam os “acréscimos patrimoniais não compreendidos no inciso anterior”.

Entendemos que a expressão aquisição de disponibilidade econômica ou jurídica é desnecessária, pois só haverá acréscimo patrimonial se houver disponibilidade dos direitos no patrimônio do contribuinte.78

No que tange ao IRPF da atividade rural, como veremos adiante, o legislador não permite a tributação da disponibilidade jurídica, uma vez que adotou o regime de caixa para apuração anual do tributo, o que faz pressupor que apenas o que efetivamente for disponibilizado no caixa equivale ao que será contabilizado como receita, sendo depois abatidas despesas e investimentos para se chegar ao resultado tributável.

Neste contexto, entendemos que a determinação do conceito de renda empreendida de forma estipulativa pelo legislador complementar apenas confirmou o conceito existente no contexto do texto da constituição.

77 Assim descreveu Roberto Quiroga Mosquera: “O termo “renda” ficou redefinido como o produto do capital, do trabalho ou da combinação de ambos, enquanto a expressão “proventos de qualquer natureza” teve seu significado indicado como os acréscimos patrimoniais não compreendidos no conceito de renda. Da definição estipulada extrai-se, por consequência, o raciocínio de que se os acréscimos patrimoniais não compreendidos no conceito de “renda” são denominados “proventos de qualquer natureza”, “renda” é também acréscimo patrimonial (MOSQUERA, Roberto Quiroga. Renda e proventos de qualquer natureza – o imposto e o conceito constitucional. São Paulo: Dialética, 1996, p. 44-45).

78 Humberto Ávila assim discorre sobre a questão: “Com efeito, o Código Tributário Nacional determina que o

imposto sobre a renda incidirá sobre a aquisição da disponibilidade econômica ou jurídica de renda ou proventos de qualquer natureza. Disponibilidade econômica significa sua efetiva percepção em dinheiro ou em outros valores. Disponibilidade jurídica significa o direito incondicional, atual e efetivo de aferir a renda e de sobre ela dispor livremente. Fala-se em disponibilidade jurídica sobre a renda quando o sujeito passivo adquire o direito incondicional de perceber a renda e de sobre ela dispor livremente, embora não a tenha recebido. Quando isso ocorrer, e ele efetivamente dispuser do rendimento, haverá disponibilidade econômica, qualificada justamente pela possibilidade de trocar livremente um direito no mercado” (ÁVILA, Humberto. Conceito de renda e compensação de prejuízos fiscais. São Paulo: Malheiros, 2011, p. 35).

2.6 A DEFINIÇÃO DAS BASES DE CÁLCULO POSSÍVEIS DO IR NA LEI