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Princípios constitucionais tributários gerais

2 O IMPOSTO SOBRE A RENDA NA CONSTITUIÇÃO FEDERAL E NA LE

2.4 OS PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS TRIBUTÁRIOS CONFORMADORES DA

2.4.1 Princípios constitucionais tributários gerais

O subsistema constitucional tributário apresenta diversos princípios gerais, aplicáveis a todo e qualquer tributo, dentre eles o Imposto Sobre a Renda. Assim, neste subcapítulo, faremos algumas considerações a respeito de alguns princípios constitucionais gerais, que em nosso entendimento são relevantes para a instituição de qualquer regime de Imposto Sobre a Renda.

Trataremos, então, na sequência, dos princípios da igualdade, da legalidade, da anterioridade, da irretroatividade da lei tributária, da capacidade contributiva, da proibição de tributo com efeito de confisco e da proteção do mínimo existencial:

i) princípio da igualdade: a Constituição Brasileira prescreve no seu artigo 5º, caput,

que todos são iguais perante a lei. Também no artigo 150, II, entre as limitações do poder de tributar, há a vedação de tratamento desigual entre contribuintes que se encontrem em situação equivalente. Como leciona Celso Antônio Bandeira de Melo, “o alcance do princípio não se restringe a nivelar os cidadãos diante da norma legal posta, mas que a própria lei não pode ser editada em desconformidade com a isonomia”. Assim, esse preceito é voltado tanto ao aplicador quanto ao legislador da lei. No campo do Imposto Sobre a Renda, esse princípio determina um tratamento igualitário a todos os contribuintes que se encontrem em situação equivalente. Todavia, como veremos adiante, isso não significa, no nosso entendimento, que seja vedada a instituição de regimes diferenciados de tributação da renda adequando o regime a especificidades da atividade desenvolvida pelo contribuinte, como ocorre com a tributação da renda oriunda da atividade rural, pois o fator de discriminação está em consonância com outros interesses protegidos na Constituição;

ii) princípio da legalidade: este princípio está prescrito em dois momentos no texto constitucional. Primeiro, no artigo 5°, II, que dispõe que “ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei”. Segundo, no artigo 150, I da CF (chamado também de princípio da estrita legalidade), que se localiza no subsistema constitucional tributário, demonstrando uma redundância do legislador, com o intuito de deixar clara a vedação de instituição ou aumento de tributo por qualquer veículo normativo que não seja lei, no sentido formal. Decorre deste princípio o princípio da tipicidade tributária, segundo o qual a lei que instituir o tributo deverá conter todos os elementos necessários à denominada regra-matriz de incidência tributária. No caso do IRPF da atividade rural, como veremos, o legislador editou lei ordinária instituindo tal regime de tributação da renda. Importante sempre pautar a interpretação do regime jurídico da tributação da renda pela análise dos textos constitucional e legal, evitando-se a sobreposição despreocupada do que diz os regulamentos, portarias, e demais textos infralegais;64

iii) princípio da anterioridade: segundo o comando do artigo 150, III, b da CF, é

vedado aos entes competentes cobrar tributos no mesmo exercício financeiro em que haja sido publicada a lei que os instituiu ou aumentou. Assim, segundo este princípio, que se trata de limite objetivo que busca implementar o valor da segurança jurídica, a lei que instituir ou aumentar tributo ficará protraída para o ano seguinte ao da sua publicação, possibilitando que os contribuintes possam programar suas atividades;

iv) princípio da irretroatividade da lei tributária: conforme determina o artigo 150,

III, a da CF, é vedada a cobrança de tributos em relação a fatos ocorridos antes do início da vigência da lei que os houver instituído ou aumentado. Esse princípio visa proteger o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada, garantias essas protegidas pelo Constituinte no artigo 5°, XXXVI. Visa-se, mais uma vez, proteger a segurança jurídica, evitando-se surpresas ao contribuinte durante o desenvolvimento de suas atividades, e possibilitando o planejamento;

64 Como argumentou José Artur Lima Gonçalves: “Essas noções relativas ao conteúdo e alcance do princípio da

legalidade não podem ser menosprezadas – como frequentemente acontece – no trato de questões relacionadas ao imposto sobre a renda (como, de resto, em matéria tributária em geral). O vício de tomar o regulamento (para não referir as chamadas portarias, instruções normativas, pareceres normativos, etc.) como ponto de partida da análise de questões relativas ao imposto sobre a renda é frequente. O recurso à lei ordinária é raro; a referência ao texto constitucional chega a causar surpresa” (GONÇALVES, José Artur Lima. Imposto sobre a renda: pressupostos constitucionais. São Paulo: Malheiros, 2002, p. 58).

v) princípio da capacidade contributiva: o artigo 145, §1° da CF, determina que os tributos deverão observar a capacidade contributiva dos contribuintes. Segundo Regina Helena Costa,65 o conceito de capacidade contributiva pode ser definido como “a

aptidão da pessoa colocada na posição de destinatário legal tributário para suportar a carga tributária, numa obrigação cujo objeto é o pagamento do imposto, sem o perecimento da riqueza lastreadora da tributação”. Classifica-se a capacidade contributiva em: (i) absoluta ou objetiva, que retrata a obrigatoriedade de eleição pela autoridade legislativa competente, de fatos que ostentem riqueza; (ii) relativa ou subjetiva, consistente na obrigatoriedade de a tributação levar em consideração do efetivo tamanho econômico do acontecimento a ser tributado, de modo que o contribuinte contribua na medida de suas possibilidades econômicas. A nosso ver, como veremos adiante, o regime jurídico tributário do IRPF da atividade rural foi instituído de modo diferenciado, visando atender justamente à capacidade contributiva daqueles contribuintes, cuja atividade merece tratamento diferenciado, para que se possa, com efetividade, apurar a renda auferida em tais atividades;

vi) princípio da proibição de tributo com efeito de confisco: segundo o disposto no

artigo 150, IV da CF, é vedada a utilização de tributo com efeito de confisco. Em que pese a dificuldade reconhecida pela doutrina em se definir o conceito deste princípio,66

entendemos que o mesmo atua como um valor, que funciona como uma advertência ao legislador ordinário, de que há limite para a carga tributária. Tangente ao IRPF da atividade rural, pensamos que o regime jurídico deverá não apenas evitar a incidência do tributo sobre o próprio patrimônio, pois na atividade rural há constante mutação, como também a graduação da parcela da renda cabível à União (noutras palavras, a alíquota eleita pelo legislador ordinário) deverá ser razoável e proporcional.

vii) princípio da proteção do mínimo existencial: as limitações constitucionais à

tributação do Imposto Sobre a Renda sobretudo no caso das pessoas físicas, não se limita à questão de observar apenas os acréscimos patrimoniais. Também há, por decorrência até mesmo de justiça social, de se observar que esses acréscimos só são

65 COSTA, Regina Helena. Princípio da capacidade contributiva. 4. ed. São Paulo: Malheiros, 2012, p. 112. 66 Como explica Paulo de Barros Carvalho ao tratar do princípio em questão: “Aqui está outro princípio que não

constava expressamente da Constituição anterior, mas de difícil configuração. A ideia de confisco não tem em si essa dificuldade. O problema reside na definição do conceito, na delimitação da ideia, como limite a partir do qual incide a vedação do art. 150, IV, da Constituição Federal. Aquilo que para alguns tem efeitos confiscatórios, para outros pode perfeitamente apresentar-se como forma lídima de exigência tributária” (CARVALHO, Paulo de Barros. Curso de direito tributário. São Paulo: 22. ed. Saraiva, 2010, p. 211).

tributáveis se superarem o mínimo vital67 necessário a garantir a cada um uma

existência digna. Como arremata a Regina Helena Costa,68 “a capacidade contributiva

só pode reputar-se existente quando se aferir alguma riqueza acima do “mínimo vital”. Somente se observar essas limitações constitucionais estará, então, o legislador ordinário trabalhando pela construção de uma democracia plena, na qual a dignidade humana e a cidadania sejam consideradas como ponto central e de maior relevância para suas atenções.

Firmadas essas considerações a respeito dos princípios constitucionais tributários gerais, passaremos, no tópico seguinte, a tratar dos princípios específicos do Imposto Sobre a Renda.