Capítulo I - Revisão da Literatura:Enquadramento Teórico
1. Revisão da Literatura: Enquadramento Teórico
1.4 A Manipulação de Resultados
1.4.2 Determinantes da Manipulação de Resultados
A manipulação de resultados é utilizada pelos gestores apenas quando os benefícios que esperam retirar forem superiores aos potenciais custos associados. Caso a manipulação de resultados seja detetada, a entidade e gestores perdem a credibilidade junto dos seus principais parceiros, assim como aumenta o custo de capital usado pelas empresas em virtude dos investidores reverem em baixa as suas estimativas sobre o valor da empresa e da
credibilidade das suas demonstrações financeiras (Dechow et al., 1996).
A prática de manipulação de resultados não é de fácil observação: empiricamente têm sido desenvolvidos vários estudos, os quais tem como objetivo definir os principais fatores que levam os gestores às práticas contabilísticas criativas. Foi através da Positive Accounting Theory (PAT) desenvolvida por Watts e Zimmerman (1978), que foram introduzidos os
conceitos de custos políticos e custos contratuais8 como determinantes das escolhas
contabilísticas das empresas num contexto de assimetria de informação. De acordo com Mendes e Rodrigues (2007), a manipulação de resultados é fortemente influenciada por:
o Determinantes relacionados com o normativo contabilístico;
o Determinantes relacionados com o ambiente empresarial.
Relativamente aos fatores relacionados com o normativo contabilístico, destaca-se a discricionariedade na aplicação de determinados princípios contabilísticos; o predomínio do princípio de apresentação de uma imagem verdadeira e apropriada, que por muitas vezes serve como justificação da gestão para a utilização de determinadas práticas contabilísticas; a
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A ISA 240 define a fraude como “um ato intencional, praticado por uma ou mais pessoas, com intenção deliberada de obter uma vantagem ilegal, que resulta numa representação indevida nas Demonstrações Financeiras”.
flexibilidade das normas contabilísticas, podendo o gestor de determinada empresa optar por normas alternativas que vão ao encontro do seu objetivo; necessidade da empresa efetuar algumas previsões na contabilização, como é o caso da determinação da vida útil de um bem ou do valor residual no caso das depreciações/amortizações de ativos, situação caraterizada pela subjetividade e incerteza; e, a existência de lacunas/vazios nas normas contabilísticas dando azo à aplicação contabilística que melhor servir os interesses da empresa.
Quanto aos determinantes relacionados com o ambiente empresarial, Mendes e
Rodrigues (2007) destacam variáveis avançadas pela Teoria Político-Contratual da
Contabilidade, assim como a estrutura de Controlo da empresa, como fatores influenciadores de manipulação contabilística. Face à informação mencionada, a Teoria Político-Contratual pressupõe três situações passíveis de manipulação:
Custos Políticos: esta hipótese indica que pelo facto de algumas empresas
apresentarem uma maior visibilidade política que outras entidades, existe uma maior propensão de atração dos poderes públicos, ou seja, uma maior probabilidade destas empresas serem alvo de intervenções governamentais que podem envolver custos. De acordo com o estudo desenvolvido por Zimmerman (1983), empresas de grande dimensão são objeto de maior tributação, logo custos políticos mais elevados. No entanto, outras medidas de custos políticos têm sido analisadas, como a quota de mercado da empresa (aumenta a probabilidade de adoção de medidas antimonopolistas por parte do Estado, o que por sua vez aumenta os custos políticos a suportar pela empresa); grau de sindicalização de uma empresa; graus de concentração da indústria. Estas últimas medidas tem-se demonstrado de difícil comprovação empírica.
Custos Contratuais (Contratos de Remuneração dos gestores): a relação entre
gestores e acionistas pode, por vezes resultar em conflitos uma vez que, como os gestores atuam em nome dos acionistas de determinada entidade, tem acesso a informação privilegiada, o que muitas vezes pode resultar numa manipulação da informação publicada com uma finalidade estritamente pessoal. Assim, de forma a contrariar a ocorrência deste tipo de situações, os acionistas podem definir contratos de remuneração (com atribuição de prémios face ao desempenho da empresa) que incentivem o gestor a maximizar o valor da empresa. Empiricamente tem-se concluído que os gestores de empresa que laboram tendo como base contratos de remuneração indexados aos resultados das empresas, tem uma maior tendência para escolher métodos contabilísticos que maximizam o valor da empresa. No entanto, é importante referir que autores como Moses (1987) alertaram para o fato de que nem sempre a maximização do resultado é o objetivo pois, a maioria dos contratos de remuneração
tem incluído um limite mínimo e máximo de resultados. Assim, quanto maior o resultado, maior será o imposto a pagar, logo o gestor pode optar por diminuir os resultados, constituir uma “reserva” que pode ser utilizada em períodos mais difíceis dado que um aumento adicional nos resultados não implica um prémio adicional e, envolve assim menos custos para o gestor. Este estudo foi comprovado empiricamente assim como estudos posteriormente realizados por outros autores.
Contratos de Endividamento: trata-se de um fator que ganha cada vez mais
importância, principalmente no caso português (território constituído maioritariamente por PME’s com necessidades de recurso a financiamento bancário para a prossecução da sua atividade). De acordo com Mendes e Rodrigues (2007), a relação entre acionistas e credores pode gerar por vezes conflitos de interesses. Para atenuar esta situação, os credores optam muitas vezes por estabelecer cláusulas restritivas nos Contratos de endividamento de forma a controlar as ações do Órgão de Gestão, as
quais visam a diminuição do risco de transferência de riqueza a favor dos acionistas9.
Ora, tendo em conta esta limitação imposta pelos credores, o gestor tende a ser influenciado a manipular a informação financeira, respeitando sempre o normativo contabilístico em vigor, no sentido de minimizar o impacto que este tipo de restrições acarreta para a empresa. Estudos desenvolvidos demonstram que quanto maior o grau de endividamento de uma empresa, maior é a tendência do gestor para efetuar escolhas contabilísticas que aumentem os resultados apresentados. Carlson e Bathala (1997) também reforçam que o endividamento constitui um incentivo para a manipulação de resultados, dado que os gestores de empresa com um endividamento elevado tendem a manipular o resultado devido às restrições impostas pelos contratos de endividamento e de forma a minimizar o risco percebido pelos credores. Neste âmbito tem sido utilizadas diversas técnicas para aferir estas relações, nomeadamente a utilização de rácios financeiros que relacionam a dívida com o valor da empresa.
A estrutura de Controlo da empresa é também considerada por diversos autores, um determinante para a manipulação contabilística. No estudo desenvolvido por Mendes e Rodrigues (2007), verificam-se práticas diferentes quando uma empresa é gerida com propriedade concentrada (onde o controlo da empresa é assegurado pelos acionistas) ou quando é gerida com propriedade de capital difusa (tomada de decisão e propriedade de capital estão separadas). Enquanto no primeiro caso, é esperada a maximização do valor da empresa, o mesmo não acontece nas empresas com propriedade de capital difusa, dado que os gestores deste tipo de empresas preferem maximizar em primeiro lugar os seus interesses e, posteriormente a riqueza dos acionistas. A literatura sobre o tema, aponta para uma maior
9Como é o caso da cláusula de Autonomia Financeira (dada pelo rácio Capital Próprio/Ativo Líquido Total), a qual é utilizada diversas vezes por credores como a Banca, para impor a manutenção de um determinado nível de Capitais Próprios – matéria a ser desenvolvida na II Parte do presente trabalho.
tendência de práticas contabilísticas manipuladas no caso da propriedade de capital diversificada:
1.º O gestor pretende manter os acionistas da empresa satisfeitos, de forma a segurar o seu lugar na empresa;
2.º O gestor pretende reduzir o risco sistemático (caso se aborde uma empresa cotada na Bolsa de Valores);
3.º O gestor pretende reduzir as assimetrias de informação entre a gestão e os detentores de capital, transmitindo assim os seus objetivos para o futuro da empresa;
4.º O gestor visa planos de remuneração direta ou indiretamente relacionados com os resultados contabilísticos, situação que compreende um compromisso entre os interesses do gestor e dos detentores de capital de forma a assegurar um crescimento estável dos resultados e da remuneração do gestor.
Ainda sobre esta temática, de acordo com Marques e Silva (2010), das razões inerentes à utilização da manipulação de resultados no caso de empresas cotadas em bolsa, podem-se destacar as seguintes:
“- Manutenção de um fluxo constante de receitas: as empresas gostam de demonstrar uma tendência estável de crescimento da faturação e não de evidenciar oscilações bruscas, o que poderia ser interpretado como risco pelo mercado. (…); - A contabilidade criativa também pode ser utilizada para manter em alta o preço das ações, por meio de mecanismos que reduzam aparentemente o endividamento ou aumentem as receitas e os resultados;
- A contabilidade criativa pode ser utilizada também para atrasar a chegada de informações ao mercado financeiro, beneficiando alguns investidores que tenham acesso privilegiado a tais informações (…);
- A contabilidade criativa pode ser utilizada para mascarar o desempenho governamental.” (Marques e Silva, 2010:268).
No entanto, atendendo ao tecido empresarial português, composto maioritariamente por PME’s e onde existe uma grande interligação entre a fiscalidade e a contabilidade, o pagamento de um imposto sobre o rendimento inferior e a obtenção de financiamento bancário (Eilifsen et al., 1999) surgem como os principais incentivos para a manipulação dos resultados.