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3. CAMINHOS DO PENSAMENTO

3.1 DETERMINANTES SOCIAIS E O PROCESSO SAÚDE-DOENÇA

A busca pelo conhecimento das estruturas que determinam a saúde e a doença, é uma caminhada histórica da humanidade desde os tempos antigos, em que este entendimento era nutrido por crenças místicas e de cunho religioso.

O modelo biomédico clássico assimilado pelo senso comum, foi embasado na Biologia, que denota uma compreensão da doença como desajuste ou falta de mecanismos de adaptação do organismo ao meio, ou ainda como uma presença de perturbações que desarranjam o organismo. Nessa lógica causal, o restabelecimento da normalidade se fundamenta pela visão positiva da saúde, que se valoriza pela noção de prevenção sobre as doenças (PUTTINI; PEREIRA JÚNIOR; OLIVEIRA, 2010).

O modelo positivista unicausal em pouco tempo se mostra insuficiente para explicar o processo saúde-doença, diante da ampliação do arsenal de conhecimentos da biologia e da ecologia que dá espaço a teoria de interação do agente com o hospedeiro em um ambiente composto por elementos de diversas ordens, sejam elas físicas, biológicas ou sociais. Assim se desenvolve a teoria da multicausalidade para explicar o processo saúde-doença. Esta visão parte do método positivista para interpretar a sociedade como um agregado de elementos tidos como homogêneos, de caráter natural, na qual um sistema ecológico equilibrado passa a ser o sinônimo de normalidade ou de bom funcionamento e onde significa anormalidade desequilíbrio (FONSECA; EGRY, 2010; LOURENÇO et al., 2012).

A partir da década de 1960, frente ao progresso técnico e tecnológico das atividades da medicina surge no contra fluxo da hegemonia do modelo biomédico a medicina social. Este novo campo de saberes e conhecimentos nasce da crítica a insuficiência da epidemiologia tradicional em abordar a saúde como um fenômeno radicado na organização social (PUTTINI; PEREIRA JÚNIOR; OLIVEIRA, 2010).

Constitui-se um paradigma civilizatório da humanidade o reconhecimento da saúde como bem estar, satisfação, bem coletivo e de direito. Este arquétipo representa, em uma perspectiva emancipatória, a ruptura com as desigualdades e as iniquidades das relações sociais, levando-se em conta, as diferentes culturas e formas de cuidado do ser humano (BREILH, 2006).

Com a globalização, as transformações econômicas decorrentes do capitalismo, determinaram na evolução do conceito de “saúde”, o qual foi influenciado pelas transformações no desenvolvimento da humanidade (LOURENÇO, 2012).

Em saúde, as desigualdades sociais são reveladas diante do adoecer e morrer. As possibilidades de redução dessas desigualdades devem visar condições de vida e saúde mais iguais para todos, implicando em redistribuição da oferta de ações e serviços, além da redefinição do perfil dessa oferta, de modo a priorizar a atenção em grupos sociais que apresentem riscos diferenciados de adoecer e morrer por determinados problemas em função de características genético-hereditárias, econômico-sociais, histórico-políticas e culturais (TEIXEIRA, 2011).

Um movimento global desencadeado pela retomada da importância dos Determinantes Sociais de Saúde (DSS) foi impulsionado com a criação da Comissão sobre Determinantes Sociais de Saúde (CDSS). O relatório da CDSS lançado em 2008 propõe enfrentar a distribuição desigual de poder, dinheiro e recursos para atenção à saúde, além da melhoria das condições de vida de grupos vulneráveis e melhor conhecimento das iniquidades em saúde (PAIM; ALMEIDA FILHO, 2013).

As definições de Determinantes Sociais de Saúde (DSS) expressam o conceito de que as condições de vida e trabalho dos indivíduos e de grupos da população estão relacionadas com sua situação de saúde. Para a Comissão Nacional sobre os Determinantes Sociais da Saúde (CNDSS), os DSS são fatores sociais, econômicos, culturais, étnico-raciais, psicológicos e comportamentais que influenciam na ocorrência de problemas de saúde e seus fatores de risco na população, uma vez que as condições de vida, que estão sujeitas a mudanças, interferem na saúde. Já para comissão homônima da Organização Mundial da Saúde (OMS), os DSS são as condições sociais em que as pessoas vivem e trabalham, que afetam as condições de saúde (BUSS; PELLEGRINI FILHO, 2007).

Com a percepção destes fatores, como objetos contrafáticos que necessitam ser tematizados e interpretados ativamente, pode-se potencializar e favorecer a

construção da saúde por meio da compreensão dos valores vitais e seus determinantes. Já no que diz respeito à doença, leva a reflexão sobre os modos em que a vida poderia se processar, motivando e buscando mudanças com o enriquecimento de suas qualidades. A incorporação deste movimento interpretativo de saúde-doença pode fazer emergir e criticar conteúdos valorativos e normativos que constituem a base da positividade, implicando em um movimento ativo de trânsito interdisciplinar, na criação de categorias com novos contornos e construções conceituais para uma releitura transdisciplinar, na qual a vulnerabilidade se desenha como um desafio na promoção da saúde (AYRES, 2002a).

Os devires que determinam a saúde-doença desenrolam-se mediante um conjunto de processos contraditórios que adquirem projeções distintas frente a condicionantes como o de construção saudável ou elementos de vida insalubre. Desta forma as condições históricas, que envolvem este processo, apresentadas dentro da coletividade de um sistema de reprodução social, podem ter efeitos protetores ou destrutivos, conforme os modos de vida correspondentes (ARREAZA, 2012).

A saúde pode ser dimensionada como objeto, como conceito, como processo ou como campo de ação. Como processo, ela se realiza na dimensão geral da sociedade, na dimensão particular dos grupos sociais e na dimensão singular dos indivíduos e seu cotidiano. Como campo de ação, é possível trabalhar nas dimensões curativa, preventiva e de promoção (BREILH, 2006).

Percebe-se que a visão biologicista não basta para explicar de forma abrangente o processo saúde-doença, uma vez que este é historicamente determinado na sociedade. Portanto, a Epidemiologia Social traz uma perspectiva de diagnóstico de saúde da população, sob o ponto de vista da influência de elementos determinantes que isoladamente ou em ação conjunta, potencializam o processo saúde-doença protegendo ou agravando a saúde, interferindo no adoecimento de acordo com a exposição que o indivíduo está sujeito ao longo de sua vida.

Considerando que o processo coevolutivo da dialética em que os diversos tipos de fatores determinantes da saúde-doença se influenciam em reciprocidade para explicar a complexidade biopsicossocial humana; a transdisciplinaridade se propõe a viabilizar a identificação de múltiplos determinantes do processo saúde-doença e suas interações dinâmicas na práxis da saúde-coletiva (PUTTINI; PEREIRA JÚNIOR;

OLIVEIRA, 2010).