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3. CAMINHOS DO PENSAMENTO

3.4 RISCO X VULNERABILIDADE

Ações coletivas e individuais são norteadas pelas relações causais evidenciadas pelas relações entre exposições e doença, tendo sido culminada no século XIX a racionalidade epidemiológica moderna, que passou a utilizar estudos estatísticos para analisar a probabilidade da interferência de determinantes.

A epidemiologia dos fatores de risco se aprimorou no século XX impulsionada pelo crescimento das doenças crônico degenerativas que abasteceram o desenvolvimento das técnicas de análise de risco, uma vez que as causas não eram diretamente identificáveis. A abordagem por diferentes perspectivas confere à noção de risco, avaliações históricas, epistemológicas e socioculturais na promoção da saúde.

Os estudos epidemiológicos para epidemiologia de risco obedecem ao rigor do estudo experimental para analisar a relação de causa e efeito para inferir o risco de uma população a um fator ou grupo de fatores. Contudo, os estudos epidemiológicos de risco se restringem ao se desconectar da individualidade orgânica que pode ou não se expor a questões afetivas, sociais e econômicas (CZERESNIA;

MACIEL; OVIEDO, 2013).

A avaliação de risco é um termo utilizado para a interpretação da saúde a partir de uma política, ação ou intervenção. O manejo do risco é aplicado na implementação de ações para reduzir ou eliminar os riscos à saúde, envolve a monitoração da exposição e riscos à saúde, após a implementação das medidas de controle (BONITA; BEAGLEHOLE; KJELLSTRÖM, 2010).

A descrição de risco como um processo analítico, baseia-se na abordagem comportamental que busca o reconhecimento da probabilidade fenomenológica centrada no indivíduo, e intervenções voltadas para o indivíduo. Já o entendimento de vulnerabilidade se desenvolve como uma condição social ou circunstância de ciclo vital deficitária, relativa a grupos em sua trajetória de vida. Assim o grau de

vulnerabilidade pode variar de acordo com a modificação da condição social, sendo que o reconhecimento dos componentes que compõem o fenômeno por meio da vulnerabilidade possibilita maior integralidade das ações em saúde (NICHIATA et al., 2008).

O risco tem sentido dialético de oportunidade e perigo, racional e irracional. A concepção racionalista de risco consiste na distinção entre riscos objetivos e percepções de risco mensuráveis. A irracionalidade na percepção de risco provém da insuficiência de informações, e consequentemente a redução da centralidade do papel do conhecimento, tendo a subjetividade como fator não mensurável. A conjuntura de ameaças e incertezas que são condições gerais da existência humana, são componentes da semântica do risco e especificamente com o processo de modernização, em que as decisões, incertezas e probabilidades adquirem maior significado à tematização no presente de perigos futuros, percebidos como resultado da civilização sob o enfoque da experimentação (BECK, 2009).

O conceito de vulnerabilidade teve destaque nos estudos interdisciplinares em saúde a partir da década de 1990, em um estímulo teórico capaz de captar e avaliar os níveis de vulnerabilidade nos campos individual, social e político-programático (GARCIA; SOUZA, 2010).

O modelo de vulnerabilidade que interliga elementos individuais, sociais e programáticos reconhece a determinação social da doença como prática social e histórica entre diferentes setores da sociedade. A vulnerabilidade aponta para a necessidade da transdisciplinaridade, na medida em que a complexidade do objeto da saúde requer diferentes aportes teórico metodológicos, e deve levar em conta a dimensão relativa ao indivíduo e o local social por ele ocupado. O processo de construção conceitual da vulnerabilidade supera o caráter individualizante e probabilístico do clássico conceito de risco, indo para além do individual, abrangendo aspectos coletivos, contextuais, que levam à suscetibilidade a doenças ou agravos.

Além disso, leva em conta aspectos da disponibilidade ou a carência de recursos destinados à proteção das pessoas. Ações que envolvam resposta social são indispensáveis para intervir em situações de vulnerabilidade (SÁNCHEZ;

BERTOLOZZI, 2007).

Na dimensão programática, a vulnerabilidade se caracteriza por ações e programas voltados para prevenção por meio de informação e educação, assim como

monitoramento contínuo e acessibilidade aos serviços sociais e de saúde qualificados democraticamente instituídos (GARCIA; SOUZA, 2010).

O risco corresponde ao conceito de situação grupal e pode gerar o distanciamento do compromisso coletivo de preocupação frente as incertezas da vida, que deveriam ser enfrentadas e respondidas individualmente. Já o termo vulnerabilidade tem se relacionado ao individual, considera as susceptibilidades, que potencializam os efeitos estressores, e impedem uma resposta satisfatória do indivíduo fragilizado. Destarte que as definições de risco e vulnerabilidade são processos associados a diferentes contextos histórico-sociais e se desenvolveram por diferentes áreas científicas para tratar de seus objetos (JANCUZURA, 2012).

Apesar da estreita relação entre os conceitos de risco e vulnerabilidade, suas definições, abordadas como um processo associado a diferentes contextos históricos e sociais e a diferentes áreas científicas que as desenvolveram, não podem ser tratados como o mesmo fenômeno. Os termos risco e vulnerabilidade têm origem no processo econômico social dos séculos XVIII e XIX. A sociedade pós industrial, ao ser considerada como uma sociedade de risco, principalmente pelos efeitos que o mundo globalizado produziu sobre os indivíduos, não pode desconsiderar que grupos em situação de vulnerabilidade se evidenciaram frente às mudanças sócio econômicas.

O deslocamento da análise epidemiológica em saúde pública do perfil de

“risco”, à epidemiologia da saúde coletiva a partir do perfil da “vulnerabilidade”, sem desconsiderar as “evidências” epidemiológicas obtidas pelos indicadores de saúde, se estabelece como um obstáculo a ser superado pelas políticas públicas de saúde.

Pois requer a modelagem epidemiológica das informações provenientes dos indicadores, somadas aos saberes interdisciplinares e ações interseririas que se complementam, para o deslocamento do centro das ações e programas em saúde dos grupos de risco, redirecionando-o nas relações socialmente estabelecidas pelos grupos populacionais e suas similaridades recíprocas (AYRES, 2002b).