Coraline observou o gato andar lentamente pelo gramado. Passou por trás de uma árvore e não reapareceu do outro lado. Coraline foi até a árvore e olhou por detrás. O gato havia sumido. (GAIMAN, Coraline, 2003, p. 41).
Para Lestel (2006, p. 15-29), uma autêntica ciência do comportamento animal surgiu apenas há dois séculos. Citando Descartes, que tem como precursor Gomes Pereira (século XVI), Lestel (2006, p. 16) coloca que a visão do animal como máquina sem alma influenciou filósofos e cientistas, incluindo Malebranche (1638-1715), segundo o qual animais e relógios são regidos pelo mesmo princípio. Buffon (1707-1788) segue os passos do animal-máquina, colocando que a vida dos animais é monótona, e eles nada criam. Faz uma exceção para os chimpanzés, mas, mesmo assim, considera-os animais desprovidos de interioridade e de criatividade e, utilizando uma metáfora, afirma que são um aborto retardado do homem .
Lestel (2006, p. 20-21) cita Charles-George Le Roy (1723-1789), como um dos primeiros cientistas a tentar analisar o comportamento animal, fazendo analogias com o comportamento humano. Locke (1632-1704), Leibniz (1646-1716) e, principalmente, Condillac (1715-1780) aprofundarão estudos sobre o comportamento animal, abrindo o campo epistemológico que nutrirá Darwin (1809-1882), Huxley (1825-1895), Haeckel (1834- 1919) e Lamarck (1744-1829).
Le Roy, com o livro Lettres sur les animaux (1710), torna-se, para Lestel (2006, p. 20), o precursor da etologia. Faz estudos de campo e começa a tentar pesquisar o que diferencia e o que assemelha o homem a outras espécies animais. Para Le Roy e Condillac, o estudo sobre os animais lança luzes sobre o homem, uma vez que a sensibilidade ou a emoção une homens e outras espécies. Essa é a grande revolução que se afasta do animal-máquina e abre caminho para o reconhecimento da existência de uma sensibilidade comum entre homens e animais. Le Roy, segundo Lestel (2006, p. 21), apresenta uma ideia audaciosa para sua época: a de que os animais possuem uma linguagem artificial.
Podemos citar ainda Hobbes, Rousseau e Hume como pensadores que já apontam para um caminho de analogias entre homens e animais, na época moderna. Estava dado o passo para Lamarck, Darwin e outros, finalmente, sistematizarem a teoria da evolução das espécies. A etologia, que dá seus primeiros passos com Le Roy, no final do século XIX e no início do XX, ganha consistência, principalmente com estudos de Spalding, Haldane, Lloyd Morgan, os quais utilizam o conceito de condicionamento , dando um passo importante para a fundamentação e o desenvolvimento do Behaviorismo.
Em 1931 e em 1941, finalmente, Lorenz publica oito artigos que definem e cria a etologia como estudo do comportamento animal. Dos homens-máquinas a Lorenz, as hipóteses científicas modificam-se. A filosofia também muda e é obrigada a mudar, uma vez que se tornava complicado, a partir de Darwin, ignorar a Biologia. Com o século XX, a Química, a Física, a Biologia molecular e a genética adquiririam o estatuto de ciências que detêm as respostas significativas sobre a natureza humana.
Wilson (1975) chega ao exagero hiperbólico de pedir para esquecer a filosofia, a sociologia, a antropologia e a psicologia, já que a Sociobiologia, que utiliza os estudos sobre o comportamento animal, a genética, as neurociências e a Biologia molecular respondem a tudo. O homem destronado ou morto , como diz Foucault (1982, p. 89), ocupa, agora, apenas um determinado lugar no interior da cadeia dos seres vivos e recebe um nome: homo
sapiens . Para Trigg (1988) e Perugini (2004), as ciências sociais e a filosofia são debitárias
da Biologia, desde a revolução de Darwin, e não podemos realizar pesquisas importantes sem trazer a contribuição dessa ciência.
A revolução produzida por Darwin na Biologia foi e continua sendo profunda. No século XX, dentro do marco conceitual darwinista, surge a Etologia, a Biologia molecular, o Behaviorismo, a Físico-química, a Biossociologia e a Genética. Com Watson e Crick (1953), precedidos por Mendel (1820-1884), as Parcas da mitologia vão finalmente assumir um estatuto cientifico22. Todas estas transformações acarretam um deslocamento no conceito de animal, aproximando o homem, cada vez mais, das outras espécies aparentadas.
Para Lorenz (1982, p. 76), o comportamento do homem é fundamentalmente semelhante ao dos outros animais, e os homens estão sujeitos às mesmas leis causais da natureza. Ainda de acordo com Lorenz, o critério para determinar que certo padrão de comportamento seja inato é que ele seja mostrado por todos os indivíduos normais da espécie,
de determinada idade e sexo, sem nenhum aprendizado anterior e sem tentativas e erros, tendo, como maior exemplo, o comportamento agressivo (LORENZ, 1982).
Lorenz (1994, p. 98) ainda postula que o homem tem o padrão inato do comportamento agressivo. Esse impulso, no homem, não é ilimitado em função de armas e artifícios que multiplicam o poder ofensivo. Além desse fator, o não respeito aos gestos de submissão feitos pelo perdedor, presente em outras espécies, encontra-se diminuído no homem, contribuindo para o aumento da agressividade intra-espécie.
Para Lorenz, a agressão intra-espécie é o mais grave de todos os perigos da humanidade (LORENZ, 1994, p. 45). A agressão é inata, mas a cultura humana e, principalmente, a situação atual da sociedade tecnológica propicia um aumento sem precedentes da agressividade entre os homens.
Ao considerar a agressividade como um componente inato da natureza humana, Lorenz aproxima-se de Hobbes; porém, para Lorenz (1994, p. 121), a guerra de todos contra todos, nos seres vivos não humanos, não redunda em uma agressão contra a mesma espécie, estando ligada à sobrevivência, demarcação de território e hierarquia. Já no homem, com o advento dos fatores sócio-culturais e simbólicos, esse instinto acentua-se a ponto de pôr em risco a própria espécie.
Lorenz representa apenas uma vertente do debate natureza-cultura, que para Matt Ridley (2008, p. 34), começa a se esboçar no século XVIII, com o Iluminismo e a partir do século XX até hoje provoca querelas entre corretes de pensamento que defendem que o homem é determinado pelo meio ou pela genética. Inato e adquirido são cara e coroa de uma mesma moeda, para Ridley (2008, p. 89), mas o dogmatismo persiste gerando falsas dicotomias.
Diferentemente de Lorenz, por exemplo, Skinner e Watson, criadores da corrente Behaviorista, partindo de Pavlov e seus reflexos condicionados, delegam ao meio ambiente um papel determinante na formação da natureza humana.
Neste aspecto, podemos interferir e mudar a natureza humana. Ridley (2008, p. 234) chega a colocar que nas fantasias de Watson (apud RIDLEY, 2008, p. 126) o homem poderia criar qualquer tipo de sociedade se conseguisse condicionar as crianças desde o nascimento para serem boas, más, artistas, cientistas. Foge ao escopo deste estudo fazer uma análise epistemológica deste tipo de psicologia, mas o Behaviorismo contrapõe-se, por exemplo, a toda interioridade e subjetividade da psicanálise, que parte de uma base instintiva e inata, pelo
menos em Freud e Piaget23, que cria o construtivismo a partir de uma base genética que determina as etapas do desenvolvimento da criança24.
Dentro destas querelas, em 1975, aparecia um livro de E. O. Wilson, intitulado
Sociobiologia, que tinha a pretensão de codificar a sociologia dentro de um ramo da biologia
evolutiva, abarcando todas as sociedades humanas, antigas e modernas, pré e pós industriais (WILSON, 1975, p. 8).
Para Wilson (1975, p. 102), a existência de indivíduos poderosos e dominantes, que governam despoticamente o resto do grupo, é um fenômeno que tem correlato nos primatas superiores; a agressão faz parte do ser vivo e serve para sobrevivência, sendo positiva. Ainda segundo Wilson o gene determina o comportamento egoísta no homem, e isto aproxima a sua teoria à de Hobbes. O altruísmo e as cooperações são estratégias do egoísmo genético em prol da sobrevivência do gene. Aproximando esta visão do pensamento de Hobbes, poderemos reinterpretar as leis da natureza hobbesianas como uma estratégia adaptativa presente no código genético.
Dentro desta corrente de pensamento, temos Richard Dawkins (2001), que com o livro
O Gene Egoísta de 1976, expõe a tese que todas as nossas condutas são estratégias de genes
para reproduzir-se e perpetuar-se. O mundo criado por esta máquina de genes é egoísta, competitivo, feito de exploração impiedosa, onde o altruísmo seria apenas uma estratégia para perpetuar o gene. Dawkins cria metáforas, pois ao falar de humanos recorre aos memes , como veremos adiante. Está dado um passo importante na eterna luta natureza/cultura. A psicologia evolucionista, a partir da década de 80, penetra de vez nos debates sobre a natureza humana: genes, neurociências, etnólogos, sociobiólogos, psicólogos evolucionistas, comportamentalistas, psicanalistas, todos querem uma fatia do bolo. Sonho (ou pesadelo) da biopolítica25, segundo Agamben (2007, p. 89), a Biologia foi a grande estratégia para controle
23 Piaget desenvolveu seus trabalhos no século XX, partindo do desenvolvimento da criança e da
interação desta com o meio ambiente. A criança parte de um estágio sensório motor, passa pelo estágio pré- operacional, depois de operações concretas e abstratas. Através da interação com o meio ambiente vai se construindo, modificando-se e modificando o meio. Freud parte do inconsciente, dos instintos que não são reconhecidos pelo ego consciente, criando uma meta-psicologia, onde segundo o qual, o homem é refém do inconsciente.
24 O construtivismo parte de um pressuposto que a crianças, ao interagir com o mundo, vai construindo- se e modificando o que está ao redor. Com os conceitos de estágios (sensório-motor, pré-operacional, operações concretas e abstratas), a criança vai seguindo uma sequência de interação biologia e meio ambiente, onde ambos influenciam-se. PIAGET (1994) é um dos principais pensadores do construtivismo.
25 Temos que nos reportar ao conceito de biopolítica e de governabilidade de Foucault. A biopolítica é
uma estratégia de controle dos corpos e das populações. A biologia é assim usada politicamente, em função de fazer parte de jogos de verdade e da relação saber-poder do Estado, que servem para controle dos corpos de um dado território. Foucault desenvolve o tema ligando-o à governabilidade que vai controlar as populações através
da população e dos indivíduos por parte do nazismo e do stalinismo e continuaria sendo, para Agamben, a estratégia das modernas democracias, principalmente em época de globalização26. Gene e ambiente compõem um jogo de dados, parodiando Hume, e os cálculos da aposta são políticos.
Esta redução dos comportamentos sociais ao gene ou ambiente é perigosa para Ridley (2008), Gould (1981) e Rüffiê (1980), pois grande parte da conduta humana é uma adaptação entre o gene e o meio. Nós somos capazes de dar outra direção ao determinismo genético através da cultura (GOULD, 1981, p. 177). A política entra neste cálculo, pois ela determina que uma versão ou outra prevaleça em determinado momento.
De Lorenz a Dawkins, passando por Wilson, temos uma visão biológica ou biologicista, que procura reduzir o comportamento humano aos seus condicionantes naturais ou genéticos e é ideologicamente comprometida com uma visão autoritária e conservadora da política, cuja solução para a agressividade é, como diz Hobbes, a espada (HOBBES, 2000, p. 108).
Esta visão é determinista e trabalha com a idéia central de que a agressividade é um instinto que é evolutivamente adaptativo, sendo o homem geneticamente egoísta e competitivo. Por outro lado, comportamentalistas, como Watson e Skinner, localizam a agressão e a violência na sociedade e propõem uma revolução política, que mude o homem através do condicionamento social.
Nosso foco é a agressividade e a violência; no entanto, apesar das diferenças, permanece uma certa confusão semântica, na Biologia, que não distingue claramente agressividade de violência e tende a naturalizar as duas.
Passaremos agora para estudos de primatologistas, que, principalmente, a partir da década de 90, vem trazendo importantes contribuições ao debate sobre a natureza humana.
de práticas higienistas que se centram na saúde. Uma população sadia e corpos dóceis é o ideal da biopolítica para tornar o corpo rentável e produtivo para o sistema capitalista. Esta ideia vai servir de parâmetro para a crítica da biologia como discurso hegemônico sobre o saber e criador de estratégias de poder.
26 Esta tese é questionável porque aplica indiscriminadamente o conceito de estado de exceção tanto
aos regimes democráticos como às ditaduras, assimilando assim dois sistemas radicalmente diversos com relação, por exemplo, ao respeito aos direitos humanos.
3.2 NOSSA HERANÇA PRIMATA E ADAPTAÇÃO HUMANA: Agressão, Pacifismo e