Um dos temas importantes desta pesquisa diz respeito à sociogênese dos conflitos. Vamos entrar agora no fator grupal.
Elias (2000) fala de outsiders e estabelecidos , para descrever que, entre grupos, existe sempre uma tensão, um clima de guerra, o que ele chama de Diferencial de Poder 55 (ELIAS, 2000, p. 32).
Assim, nesta pequena comunidade (Wiston Parva), deparava-se com o que parece ser uma constante universal em qualquer figuração de estabelecidos e outsiders: o grupo de estabelecidos atribuía a seus membros características humanas superiores, excluía todos os membros do outro grupo do contato social não profissional com seus próprios membros; e o tabu em torno destes contatos era mantido através de meios de controle social como a fofoca elogiosa (praise gossip), no caso dos que o observavam, e a ameaça de fofocas depreciativas (bleme gossip), contra os suspeitos de transgressão (ELIAS, 2000, p. 20).
Os estabelecidos são os que detêm o poder, e os outsiders são os que possuem pouco poder. Para Elias (2000, p. 33), um dos fatores fundamentais para ser estabelecido é ter melhores condições materiais. Ter mais dinheiro, ser proprietário de meios de produção, ter redes econômicas e políticas são fatores que ajudam os estabelecidos a tentar a supremacia sobre os outsiders. Mas, para Elias (2000, p. 35-36), essa é uma meia verdade. Nesse aspecto, Marx tem razão, em relação à supremacia dos estabelecidos, que ele chamou de classe dominante, mas só isso não explica a diferença de poder para Elias.
Um fator considerado fundamental por Elias (2000, p. 35) é a chamada Fantasia Coletiva , que é criada pelo grupo estabelecido e pode ser baseada em fantasmas proto- históricos, que são fantasias coletivas ou individuais, experiências afetivas que moldam afetos e condutas . Por exemplo: um grupo pode se achar portador de uma verdade religiosa, uma pureza racial, uma habilidade artística ou outro fator diferenciador que gere diferenças entre grupos. Na realidade, funciona na base do: nós somos melhores que eles .
É certo que, quando existe predomínio material, esse diferencial de poder torna-se um fator de grande pressão entre grupos, mas não é a condição necessária. Pessoas da mesma classe social podem-se digladiar por questões religiosas, rixas de famílias. Nesse ponto, a crueldade é exercida através de fofocas, difamação, lutas corporais, impedimento do acesso a
55 Este diferencial em Elias diz respeito à estrutura material, poder simbólico, como por exemplo, deter
melhores instituições de educação, ter acesso a arte e lazer. Falar mais corretamente a linguagem, ter mais coesão social e união.
empregos por parte dos estabelecidos em relação aos outsiders. O estudo de Elias (2000) foi realizado no bairro operário de Winston Parva, em Londres, entre a década de 40 e 50 do século XX, um fator fundamental para ser estabelecido é a coesão grupal. São famílias e grupos mais estruturados e organizados, que têm acesso à educação, à rede social, a empregos, a cuidadores para crianças. Enquanto os outsiders apresentam pouca coesão, dificuldade de redes sociais são alvos de fofocas e discriminação. Elias (2000, p. 117-124) coloca que a discriminação e a falta de oportunidades dos outsiders pode ser um fator importante na formação da delinquência juvenil. Mais uma vez, estamos falando de adolescentes como idade de risco, e o fato de serem outsiders, pouca coesão grupal, famílias desestruturadas contribuem para grupos de delinquentes.
Fazendo uma ponte com os estudos da socióloga brasileira, Glória Diógenes (2008), a formação de gangues, principalmente juvenis, é um fenômeno que vem crescendo na América latina e do Norte e na Europa. Gangues de skinheads, neonazistas, homofóbicas, ligadas ao narcotráfico, ao tráfico humano, à cultura hip-hop, ao racismo branco ou negro, ao ódio por imigrantes. Esse é apenas um lado da violência, que não pode ser resumida ao grupo, pois é também individual; pode acontecer entre duas pessoas, ou ser silenciosa, como a negligência e a omissão. Segundo a autora:
Talvez a faceta mais peculiar das práticas da violência seja o seu caráter difuso, imprevisível, sem lugar definido no corpo social. A violência é uma prática que foge do curso presumivelmente disciplinado e estável da ordem social. Ela emerge como aquilo que não deveria ocorrer, ela parece resvalar de outra ordem (DIÓGENES, 2008, p. 55).
O universo hobbesiano é indivíduo contra indivíduo, mas podemos ampliar para grupos contra grupos e indivíduo contra si próprio. Do ponto de vista da Antropologia, Clastres (2004, p. 267) mostra que as sociedades ditas primitivas constroem-se para a guerra. A violência mantém os grupos coesos, as tribos passam a identificar, na outra tribo, o inimigo, a alteridade, o diferente, e passam a construir uma coesão interna sobre o inimigo da tribo rival. Existem alianças, pactos, mas a guerra permeia as tribos.
Qual a função da guerra primitiva? Assegurar a permanência da dispersão, da fragmentação, da atomização dos grupos. A guerra primitiva é o trabalho de uma lógica centrífuga, de uma lógica da separação, que se exprime de quando em quando em conflito armado. A guerra serve para manter cada comunidade em sua independência política. Enquanto houver guerra, há autonomia. É por isso que ela não pode, não deve cessar, é por isso que ela é permanente. A guerra é o modo de existência privilegiado da sociedade primitiva enquanto essa se distribui em unidades sociopolíticas iguais, livres e independentes: se não houvesse inimigos, seria preciso inventá-los (CLASTRES, 2004, p. 266).
Tudo isso se encaixa como uma luva no Conceito do político de Carl Schmitt. A famosa divisão amigo-inimigo, o diferencial de poder, os grupos lutando entre si por hegemonia compõem a paisagem da violência humana. Só o homem possui linguagem, cérebro desenvolvido, uso de ferramentas e é violento, tendo consciência do fato e da intencionalidade.
Aprofundando Elias (2000, p. 140-143), o estigma e o preconceito fazem parte da estratégia dos estabelecidos para dominar os outsiders. Um aspecto importante é que, geralmente, outsiders têm menos coesão social, vivem em famílias desestruturadas e têm menos opção de lazer, educação e emprego. Esse fato contribui para a delinquência juvenil.
Elias (2000, p. 140) alerta para o fato de que a sociogênese da delinquência tem um forte componente social. Focar em fatores individuais é reduzir, a uma parte, uma questão complexa. Ser outsider é ser estigmatizado, objeto de chacota, ter menos oportunidades sociais, menos coesão grupal. Concomitantemente, para Elias (2000, p. 178), podem ocorrer transformações de grupos, e outsiders podem passar a estabelecidos . Na realidade, não é um jogo de vítima e algoz, mas uma questão de diferencial de poder.
Utilizando René Girard (2008) podemos considerar que é impossível falar em sociedade sem violência. Todas as religiões funda-se em mitos que remetem à violência e ao sagrado (GIRARD, 2008, p. 23). Estamos seguindo um caminho que parte do individual ao coletivo e faz parte de toda a estrutura social humana. A sociedade é organizada em grupos, usando Elias (2000), de estabelecidos e outsiders. Dentro desses pólos, estabelece-se uma tensão, um conflito contínuo, onde a difamação, o ódio, o preconceito, o estigma, a guerra fundam a alteridade. Mas, perpassa o indivíduo e ecoa nele a marca do estigma, do preconceito, da exclusão. O indivíduo dentro do grupo pode-se desestabilizar e chegar a cometer homicídio e suicídio.
Ordenando o que foi colocado até aqui, podemos dizer que a sociedade é dividida entre grupos, que Elias (2000) denomina de estabelecidos e de outsiders; Clastres (2006), de sociedade contra o Estado, sendo que a violência instaura os grupos dentro de uma coesão que estabelece amigos e inimigos, o que corrobora, em alguns aspectos, a doutrina de Schmitt (2006). O indivíduo é parte dessa corrente, ele está no grupo, mas não é o grupo. Tem consciência, desejos e diferenças de temperamento e constituição que o torna singular em relação à homogeneização do grupo.
Analisando Girard (2008), o homem é governado por um mimetismo instintivo responsável por comportamentos de apropriação mimética geradores de conflitos e rivalidades, onde a violência é um componente natural das sociedades humanas. A origem da violência encontra-se no desejo humano. Aqui é que a situação fica complexa, em função de este desejo ser mimético e desejar o que o outro deseja. Inaugura-se assim um ciclo de violência entre os homens que passa a gerar conflitos. A vingança permeia o desejo; se muitos desejam a mesma coisa, por exemplo, uma caça que vai trazer prestígio, quem não conseguir o objeto de desejo será possuído por inveja e desejo de vingança. Assim começa um ciclo sem fim.
A vingança constitui um processo infinito, interminável. Quando a violência surge em um ponto qualquer da comunidade, tende a alastrar e ganhar a totalidade do corpo social, ameaçando desencadear uma verdadeira reação em cadeia, com consequências rapidamente fatais em uma sociedade de dimensões reduzidas. A multiplicação das represálias coloca em jogo a própria existência da sociedade. Por esse motivo, onde quer que se encontre, a vingança é estritamente proibida (GIRARD, 2008, p. 27).
Fundando a violência no desejo, temos, desde que haja mais de uma pessoa envolvida, a possibilidade de conflito. Podemos conjecturar que a violência estende-se a todo corpo social, começando pela instituição familiar. Mas, para Girard (2008, p. 34), a sociedade tem mecanismos reparadores que podem tentar conter e diminuir a violência e a vingança decorrente desta. Girard (2008) denomina meios preventivos, os artifícios sociais que servem para conter a sede de vingança e a retroalimentação da violência. Um dos artifícios mais antigos é o sacrifício ritual que algumas comunidades praticavam, como a maia, por exemplo. A religião tem, para Girard (2008), uma função importante em agir preventivamente contra a vingança. Os sacrifícios humanos e animais, ritos de expiação, culpabilização da consciência; são formas de tentar diminuir a violência, mas são meios preventivos que usam de violência para conter a violência. Duelos, formação de alianças, reparações, são outras estratégias preventivas utilizadas para coibir a violência, mas não são tão eficazes, para Girard (2008). Para o autor é o sistema judiciário o recurso mais eficaz para reparar a vingança e conter a violência. Criando uma hipotética evolução dos meios preventivos das sociedades ditas primitivas até a formação judiciária, esta exerce uma função curativa. Dos sacrifícios rituais das religiões ao sistema judiciário temos diversas maneiras de lidar com a violência.
Temos um problema em Girard (2008): a solução jurídica pode ser a mais eficaz, já que é o sistema judiciário que exerce o poder de vingança, limitando e punindo as ações dos algozes. Mas, ao mesmo tempo, oculta da vítima seu objeto de vingança, que vai ficar
encarcerado. E a justiça sofre o viés do Estado. Pode ser exercida arbitrariamente, em casos de ditaduras, por exemplo. Assim, formou-se, entre presos políticos e presos comuns no Brasil, na década de 70, a raiz do crime organizado no País56. A classe social pode fazer a justiça não ser aplicada a todos. Existem diferenças entre Países, aonde o sistema jurídico funciona mais equitativamente. Mas o risco de não ser equitativa, faz a vítima não limitar o desejo de vingança. Esta é uma questão complexa, que foge a nossos objetivos.
Mas, voltamos a Hobbes e Rousseau. Ambos tentam fornecer soluções jurídicas para conter a violência. Tanto o Leviatã, quanto a Vontade geral, são soluções jurídicas, que passa, segundo Girard (2008), por um processo não mais preventivo, mas curativo. A justiça atua após a consecução do ato de violência transgressora. Esta visão pode ser questionada por defensores do estado de direito. A justiça tem assim, também, um papel preventivo, de coibir a violência, mas esta posição merece ser questionada e aprofundada, o que foge do escopo da tese e das perspectivas que vem sendo desenvolvidas.
Em Girard (2008), temos o conceito da dupla face da violência: Os homens não conseguem penetrar no segredo desta dualidade. Eles não conseguem distinguir entre a boa e a má violência; desejam repetir incessantemente a primeira para eliminar a segunda (GIRARD, 2008, p. 53).
Outro aspecto que Girard (2008) fala é da associação entre sexualidade e violência. Ambas provêm do desejo e seguem a mesma trajetória de disputa, vingança e reparação para serem aplacadas. A sexualidade produz disputas, rivalidades, homicídios, ciúmes, e está associada à violência. Mas como a dupla face da violência, pode ser limitada por interdições e leis. Assim o incesto, longe de ser um dado biológico, é passível de controle social, através de tabus, leis e interdições.
Percebemos então que autores como Elias, Clastres, Girard, deslocam a questão da violência do biológico para o social. Visão que também converge com a de Birman, que se utiliza do conceito de Bourdieu de violência simbólica para estruturar uma relação entre violência simbólica e real ou transgressora. Todas as soluções encontram-se na sociedade. E é através da violência, produto do desejo humano, que podemos enfrentar a violência. Cria-se assim uma solução partindo da violência contra a própria violência. É como se tivéssemos criado um problema no nosso processo de socialização e, através do problema criado, usando a própria violência, pudéssemos diminuir os efeitos destrutivos desta.
56 A convivência entre prisioneiros políticos e bandidos comuns deu a estes uma situação de coesão que
Dos ritos de sacrifício até as leis jurídicas, todas as soluções passam pela dupla face da violência: de um lado a violência é destruição, caos, subjugação de outros, homicídios, abusos, roubos, corrupção. De outro, é lei, ordem, criação de cultura, pactos de convivência, aplacamento da vingança por uma instância, como o sistema jurídico, por exemplo. O poder, quando exercido nos limites da lei e do consenso democrático, pode e deve ser um fator positivo na diminuição da violência individual e social.
A grande confusão, para Girard (2008, p. 54) ocorre quando não sabemos mais distinguir entre a boa e a má violência. Ou, parodiando Birman (2009, p. 57), quando o jogo entre violência simbólica e transgressora se confunde. Instaura-se o que Lebrun denomina de perversão comum (2008), ou seja: uma maneira de socialização sem hierarquia, definição de papéis, perda de identidade pessoal, ética individual em detrimento de uma ética coletiva, desrespeito as normas que regulam o simbólico do social, possibilitando um viver coletivo.
Chegamos a um ponto onde os resultados de nossa pesquisa começam a se delinear: a violência é produto da socialização humana, da consciência do eu, da intencionalidade, do cérebro humano, que apresenta grandes diferenças em relação à de outras espécies.
Podem existir fatores genéticos biológicos, característicos do cérebro, que predispõem a certos comportamentos, como os dos antissociais, das pessoas que não sentem emoções nem culpa, mas o que vai amplificar, ou amenizar tais fatores é a socialização humana , as relações interpessoais, sem as quais o eu não existiria como tal. Neste ponto, pode-se instaurar a violência, o conflito ou a solução pacífica do conflito. Então, temos agora uma chave importante: independente de fatores biológicos, transtornos mentais, arquitetura do cérebro e genes, é a estrutura social que vai instaurar, no homem, a violência transgressora. Lebrun (2008) remete à sociedade de mercado, ao homem como dimensão antropológica do capitalismo.
A economia de mercado sob sua forma sem rédeas, esse neocapitalismo liberal triunfa desde a última década do século XX. Com efeito, quando o vazio que habita tanto o singular quanto o coletivo vê-se desmentido pelo Imaginário Social, chegamos, como vimos, à suspensão de todo limite, de toda diferenciação dos lugares, de toda lei á qual temos que recorrer..., exceto a pretensa lei do mercado, que na verdade é apenas um modo de regulação espontânea da vida em sociedade,e não apenas da economia no sentido estrito, em função de interesses particulares (LEBRUN, 2008, p. 104).
A violência é humana, porque pensamos, refletimos e sabemos a direção que vamos imprimir aos atos. Podemos conscientemente negar a alteridade do outro e destruir a nós mesmos. É na formação da sociedade civil, na maneira como os grupos detêm o poder,
principalmente o econômico, que se instaura a desigualdade, a exploração e a violência transgressora.
Vamos remeter agora a fatos do cotidiano, a retratos da vida: abuso, negligência,
bullyng, para constatar que é no social que encontramos a violência transgressora, no
cotidiano, na relação entre os homens. Não podemos tornar biológica essa realidade, que é social. Quanto aos leitores, não se assustem; o quebra-cabeça vai sendo montado. Existem peças soltas. Viajamos por paisagens diversas. Fomos ao corpo humano, viajamos pelo cérebro, por grupos, por primatas. Agora vamos apresentar o que denomino máscaras da violência humana. Falaremos sobre nossa sociedade, o mundo humano, dos desejos, da cultura, da política e da violência. Como esta se instaura nas redes do social? Apresentemos a violência em sua negatividade.