• Nenhum resultado encontrado

Deva e avatāra: as divindades entre os homens

No documento Celia Maki Tomimatsu.pdf (páginas 31-42)

Capítulo I – Um contexto preliminar arqueológico-religioso da Índia antiga

2. Hinduísmo – um viver antes de um conceituar

2.4. Deva e avatāra: as divindades entre os homens

Nas representações das divindades, brāhmaṇ correspondiam aos deuses Varuṇa e Mitra; os kṣatriya, ao deus Indra e os vaiśya, aos gêmeos Nastya (ELIADE, 2010a, 189). Os textos védicos apresentavam o deus Varuṇa como um deus soberano, que reinava sobre o mundo, sobre os deva (deuses) e sobre os homens, mas não tinham o mesmo prestígio da popularidade de Indra. No entanto, ele, Varuṇa, estava ligado a duas noções religiosas importantes: o ṛta e o māyā. O vocabulário ṛta significa “adaptar-se” ou “curso, caminho”, designando a ordem do mundo, simultaneamente a ordem cósmica, litúrgica e moral. Também possui a conotação de “ordem fixada ou estabelecida, lei, regra, lei divina” (FONSECA, 2009, 145). A criação do mundo foi efetuada conforme o ṛta, os deuses agiam segundo o ṛta e ṛta organizava tanto os ritmos cósmicos quanto as condutas morais. Por isso Varuṇa era aquele que detinha o poder de restabelecer a ordem conforme os erros e as ignorâncias. Posteriormente, na língua clássica, o termo ṛta foi substituído pelo vocábulo dharma (ELIADE, 2010a, 196).

À primeira vista, parece paradoxal que o guardião do rta esteja ao mesmo tempo ligado intimamente a maya. A associação é, porém, compreensível, se levarmos em conta o fato de que a criatividade cósmica de Varuna possui também um aspecto “mágico”. Sabe-se que o termo maya deriva da raiz may, “mudar”. No Rig Veda, maya designa “a mudança destruidora ou negadora dos bons mecanismos, a transformação demoníaca e ilusória, e também a alteração da alteração (DUMÉZIL, apud ELIADE, 2010a, 196).

Assim, Varuṇa, em sua ideia de poder criador, altera a norma cósmica, apreendendo o sentido de māyā como “mudança desejada”, tanto como criação como destruição. Observa-se, portanto, que a origem do conceito filosófico de māyā, como sendo a ilusão cósmica, irrealidade, está associada simultaneamente com a ideia de “alteração”. Trata-se, portanto, de uma māyā ambivalente, pois não se trata apenas uma alteração da ordem cósmica; é também da criatividade divina (ELIADE, 2010a, 197).

Indra é o mais popular dos deuses, um herói por excelência, modelo de guerreiro a ser seguido, enfim, um temível adversário. Representa a vida e a energia cósmica. Por isso, sua presença é bastante constante em Mahābhārata.

Fig. 4

Indra - Templo de Banteay Srei, Camboja

Fig. 5 Varuṇa

Brahmā, juntamente com Śiva e Viṣṇu, forma a trindade da divindade hindu, a trimūrti.

Fig. 6

Da esquerda para direita: Brahmā, Viṣṇu e Śiva – Caverna de Ellora, Índia

Brahmā representa a força criadora do universo. Esse universo criado por ele tem a duração de um dia no calendário hindu (yuga). Ao fim do dia, quando anoitece, Brahmā cerra seus olhos e adormece. É o momento em que o universo sucumbe e tudo é consumido pelo fogo, pondo fim a um ciclo de vida. Brahmā possui quatro cabeças e oito braços. As quatro cabeças são para poder ver a sua amada Sarasvati, pela direita, pela esquerda, por trás e pela frente. Em seus braços, ele segura uma flor de lótus, um vaso, seu cetro, um rosário, uma colher e os Veda.

Śiva, por sua vez, é conhecido como o deus destruidor ou também deus da transformação, pois ele destrói para poder reconstruir e transformar o universo. Nos hinos védicos ele aparece com o nome de Rudra. Em um de seus braços ele segura o tridente para destruir a ignorância dos homens. A serpente que sempre o acompanha simboliza a imortalidade, pois Śiva conseguiu dominar a mais mortal delas. No topo de sua cabeça encontra-se a lua crescente e a água que jorra desse topo não é senão o Rio Ganges. No centro de sua testa encontra-se o terceiro olho, que simboliza sua superior sabedoria e poder de visão. Sua cabeça é escura por ter bebido o veneno letal que surgiu do fundo do oceano cósmico, para assim, poder salvar outros deuses da destruição. Śiva é associado à potência demoníaca, ou no mínimo pode se dizer que essa potência é ambivalente, pois simboliza o perigo, inspira o terror, é imprevisível, mas o seu poderio tem função também de fertilidade. Pode ser ao mesmo tempo cruel e complacente, praticante de yoga e também dançarino. Nas altas

montanhas de Kailāsa, localizadas no Himālaya, Śiva é o grande yogī, que fica sentado sobre a pele de um tigre, em sua profunda meditação e é através dessa meditação que Śiva mantém o universo. Assim, com seu poder divino, ele consegue mostrar sua variedade de personalidade: ele não só é o deus místico, mas também o senhor da dança, o Naṭarāja.

A figura de Viṣṇu aparece no Ṛgveda e em outros textos védicos. Sua figura é representada com quatro braços, cada um segurando um símbolo de seus atributos: uma concha denominada pāñcajanya (“relativa aos cinco povos, às cinco aldeias”) que possui os cinco elementos da criação (ar, fogo, água, terra e éter) ou cinco classes ortodoxas de seres que habitam o mundo (os deva, os homens, os músicos/dançarinos celestiais, as serpentes e os ancestrais). Ao soprar essa concha ouve-se o som da origem de todo o universo – o OM. Em seu outro braço, há a roda de energia chamada sudarśana que representa o controle dos seis sentimentos. Serve também como arma para cortar as cabeças de seu inimigo. A flor de lótus chamada de padma simboliza a pureza e a verdade que está por trás de māyā. Por fim, o cajado kaumodaki representa a força física e mental do universo. Para os devotos do Viṣṇu, este deus é a fonte do universo e de todas as coisas que o pertence. De acordo com o mito cómico do Hinduísmo, Viṣṇu dorme no oceano sobre a serpente de mil cabeças, a Śeṣa. Durante o seu sono, uma flor de lótus cresce de seu umbigo e a partir desse lótus nasce Brahmā, que cria o mundo. Uma vez criado o mundo, Viṣṇu se desperta para reinar o céu mais elevado, o Vaikuṇṭha (BASHAM, 2004, 302-303).

Kṛṣṇa é um dos avatāra (descida de Deus à Terra sob forma de encarnação corporal) de Viṣṇu. Além de surgir nas epopeias, está também nos dezoito Grandes Purāṇas e dezoito Pequenos Purāṇas (ELIADE; COULIANO, 2003, 178). Devido a uma maldição, Viṣṇu foi condenado a nascer muitas vezes na Terra (MATHUR; CHATURVEDI, 2008, 75). Mas essa maldição fez com que Viṣṇu pudesse preservar e proteger seus devotos reencarnando e surgindo na Terra sempre quando o mal e os demônios tornam a vida insustentável. É função dele restabelecer a ordem e a justiça. Há dez avatāra que são geralmente aceitos popularmente. Matsya, Kūrma, Varāha, Narasiṁha teriam surgido em Satyayuga; Vāmana, Paraśurāma, Rāma teriam surgido na era de Tetrayuga; Kṛṣṇa na terceira era, ou seja, Dvāparayuga, e finalmente Buddha4, na quarta e última era, o Kaliyuga. Kalki, um avatāra

futuro, deverá surgir ao final da era de Kaliyuga. Vejamos brevemente as características de cada um deles (BASHAM, 2004, 304-306).

4Há uma versão de que o nono avatāra não teria sido o Buddha, e sim o irmão de Kṛṣṇa, o Balarāma

avatāra: Matsya (peixe) –Quando a terra estava para ser engolida pela grande inundação universal, Viṣṇu tomou a forma de um peixe e alertou o sábio Manu do perigo. Matsya salva os sete grandes ṛṣi, Manu e sua família, colocando-os numa embarcação. Matsya também consegue salvar os Veda da inundação.

Fig. 7

2º avatāra: Kūrma (tartaruga) -

Durante a grande inundação, muitos dos tesouros divinos se perderam, inclusive o amṛta, a bebida que preservava a juventude dos deuses. Viṣṇu torna-se uma grande tartaruga, mergulha até o fundo do oceano cósmico e em suas costas carrega o Monte Mandara. Envolve-o com a serpente Vāsuki no centro do oceano, rodopia-o puxando a serpente, como se girasse um peão puxando-o com a corda. Do redemoinho do oceano emerge o amṛta e vários dos tesouros perdidos.

avatāra: Vāraha (javali) – O rei demônio Hiraṇyākṣa afunda a terra novamente para o fundo do oceano cósmico. Viṣṇu toma a forma de um grande javali, mata o demônio e usando as presas, Vāraha resgata a terra da profundeza das águas.

Fig. 9

avatāra: Nārasiṃha (homem-leão) – Hiraṇyakaśipu, irmão do demônio Hiraṇyākṣa, passa a nutrir um profundo ódio por Viṣṇu. Prahlāda, filho de Hiraṇyakaśipu, era um grande devoto de Viṣṇu, o que lhe causou um profundo desgosto. Mas Hiraṇyakaśipu foi abençoado por Brahmā devido a suas realizações de guerreiro, só podendo ser morto por alguém que não fosse nem homem nem animal, nem de dia nem de noite e nem por uma arma. Assim, Viṣṇu apareceu meio-homem e meio-leão, ao pôr do sol e com suas garras matou-o sobre suas coxas, cumprindo dessa forma todas as exigências de Brahmā.

avatāra: Vāmana (anão) – Bali, rei demônio e neto de Prahlāda, toma posse do universo, ameaçando os poderes dos deuses. Estes pedem ajuda a Viṣṇu, que agora assume a forma de um anão brāhmaṇ mendicante, aparecendo diante do rei Bali num momento de culto no qual atendia aos pedidos dos brāhmaṇ. Vāmana, aproveitando a oportunidade, pede que lhe conceda todos os espaços que ele pudesse medir com seus três passos. Logo que Bali aceita o seu pedido, Vāmana torna-se gigante e com o primeiro passo toma a terra, com o segundo passo, o céu, e ao tentar tomar a atmosfera com o terceiro, Vāmana decide deixar o mundo subterrâneo a Bali. Assim, Vāmana diz-lhe que a cabeça de Bali será pisoteado com o

terceiro passo até que fosse enviado às profundezas da terra.

Fig. 11

avatāra: Paraśurāma (Rāma-com-o- machado) – Paraśurāma obtém de Śiva seu machado chamado paraśu. É também com ele que Paraśurāma aprende a arte da destruição. É a primeira encarnação plenamente humana de Viṣṇu, que surge como filho do brāhmaṇ Jamadagni. Este foi morto pelos filhos do rei Kārtavīrya, depois que Paraśurāma destruiu todos os males dos kṣatriya, pois estes não estavam respeitando os brāhmaṇ e isso era imperdoável perante a tradição indiana.

avatāra: Rāma - Viṣṇu, agora é conhecido como Rāma, príncipe de Ayodhyā e herói da narrativa Rāmāyaṇa, epopeia escrito por Vālmīki. Surge para salvar o mundo das opressões do Rāvaṇa, demônio que capturou sua esposa Sītā. Hanuman, o deus macaco, é o seu fiel companheiro e amigo.

Fig. 13

avatāra: Kṛṣṇa – Certamente, dentre todas as encarnações, Kṛṣṇa é considerado o mais representativo avatāra de Viṣṇu. Filho de Vasudeva e Devakī, durante a infância realizou vários milagres, inclusive, o de aniquilar demônios. Na adolescência teve inúmeras relações com esposas e filhas de vaqueiros. É o personagem central de Bhagavadgītā. Seu nome significa literalmente “preto”.

avatāra (a): Buddha – Viveu entre 563- 483 a.C. É a única encarnação de Viṣṇu baseada em registros históricos. O Budismo de Gautama Śākyamuni tem como característica a não violência e a recusa em executar sacrifícios de animais, opondo-se assim, à tradição védica.

Fig. 15a

avatāra (b): Balarāma, irmão de Viṣṇu, também personagem de Mahābhārata.

Fig.15b

Kṛṣṇa e seu irmão Balarāma

10º avatāra: Kalki (destruidor do tempo) – Um avatāra do futuro, designado a surgir no final da era de Kaliyuga, no tempo em que o conhecimento sagrado estiver caído no esquecimento. Destinado a destruir os conflitos e o mal entre os seres, tem como objetivo por o fim do ciclo de yuga, para poder iniciar um novo Satyayuga, restabelecendo a verdade e a pureza no universo.

F. Max Müller, em uma de suas palestras proferidas (cf. MÜLLER, 1882), nota que os três primeiros avatāra de Viṣṇu estão relacionados às águas5, os quais em todos os casos

referem-se ao resgate da espécie humana do desastre proveniente das inundações. Quando a literatura védica tornou-se mais conhecida de forma geral, essas histórias sobre as grandes águas foram descobertas talvez não em forma de hinos, mas no mínimo escritas em prosas pertencentes ao período bramânico. Não somente a história sobre Manu e o Matsya, mas também sobre Kūrma e Vāraha. Esta passagem sobre a destruição causada pelas águas encontra-se nos textos de Catapatha Brāhmaṇa, no qual se encontra o diálogo onde Matsya alerta Manu sobre o desastre que levará todas as criaturas. Matsya, então, ordena Manu a construir um navio6e a meditar em nome de Matsya para poder se salvar.

Kṛṣṇa relata a Arjuna em uma das passagens do capitulo 4 de Bhagavadgītā sobre os diversos avatāra pelos quais ele já passou e explica que razão pelo qual ele surge:

O Venerável7 disse:

Muitos foram os nascimentos atravessados por mim e por ti, Arjuna; eu os conheço todos, Paraṃtapa8, tu não conheces. (4.5)

(...)

Toda vez que o dharma se torna débil, ó Bhārata,

O adharma se levanta - então eu surjo de meu ātman. (4.7)

E assim, mostra a Arjuna que toda vez que o homem esquece-se de seu verdadeiro dever, Kṛṣṇa se torna necessário surgir diante deles.

Não se sabe ao certo se os textos védicos são fontes de estrutura primordial dessas divindades. Eliade pondera que é preciso sempre levar em consideração que os hinos védicos e os tratados bramânicos foram compostos para uma elite, a saber, a aristocracia e os sacerdotes (ELIADE, 2010a, 207).

Ainda em Ṛgveda, além da várias dedicações aos deuses Indra, Varuṇa e Mitra, encontram-se hinos que aludem os conflitos entre diferentes tribos arianas. Mas os dados históricos desse Veda não aparecem em grandes quantidades. Alguns nomes das tribos védicas, como o dos Bhārata, reaparecem, no entanto, em literatura posterior, o Mahābhārata, composto pelo menos cinco ou seis séculos depois da época védica. Divindades como Indra, que aparece com bastante relevância e importância nos hinos védicos, aparece também no Mahābhārata.

5 Max Müller usa o termo deluge (cf. MÜLLER, 1882, 133); A. L. Basham usa o termo flood (cf. BASHAM,

2004, 304).

6 Max Müller usa o termo ship (cf. MÜLLER, 1882, 135). 7 Venerável = Kṛṣṇa.

Por último, apresentamos Gaṇeśa, filho de Śiva e Parvati. Conhecido como “destruidor de obstáculos”, é um semideus dotado de sabedoria. Foi a ele que Vyāsa recorreu para escrever a narrativa de Mahābhārata.

Fig. 17 Gaṇeśa

Embora certos Upanichades revelem exatamente um início discreto para o hinduísmo, a erupção maciça da religião se formou pelos Grandes Épicos, acima de todos pelo Mahabharata, texto que, pelo menos em seu conteúdo, certamente antecede a era cristã. (...) Em seu texto são tratados todos os valores mais profundos de hinduísmo no plano ético e jurídico, os deveres do indivíduo em si próprio e em sua relação quanto à sociedade. (RENOU, 1964, 19).

Dessa forma, vemos que quando encontramos palavras como Vedismo, Bramanismo ou Hinduísmo, os teóricos e estudiosos se distinguem entre si quanto às divisões (cronológicas e contextuais). No entanto, estamos na realidade observando partes integrantes de algo maior que engloba um todo: o universo indiano. Esse universo está ricamente narrado em Mahābhārata, como veremos no próximo capítulo. Podemos concluir este capítulo com a seguinte observação de Louis Renou:

O hinduísmo é realmente uma religião rica e complexa. Nenhuma iniciativa de um fundador, ou dogma, ou reforma, impôs restrições a seu domínio; muito ao contrário, as contribuições dos séculos se sobrepuseram, sem jamais desgastar as camadas anteriores de desenvolvimento. (...)

Finalmente, hinduísmo caracteriza a sociedade como um todo. O sistema de castas com seus diversos “estágios” de existência é parte dele e a vida é encarada como um rito. Não há qualquer linha divisória absoluta entre o sagrado e o profano. Na verdade, não há termo hindu correspondente ao que chamamos “religião”. Existem “atitudes” com relação à vida espiritual e existe o dharma ou “manutenção” (no caminho certo), ao mesmo tempo norma ou lei, virtude e ação meritória, a ordem das coisas transformada em obrigação moral – princípio este que governa todas as manifestações da vida indiana.

Pode-se perguntar quando o hinduísmo começou, mas a resposta terá de ser indireta – o hinduísmo começou na época em que a atividade original do ritual védico chegou a seu fim, quando se perdeu a antiga estrutura védica.

(...)

O nome de “bramanismo” às vezes é dado à mais antiga das formas eruditas do hinduísmo, mas levando-se tudo em conta é preferível encarar o mesmo como um todo, sem procurar subdivisões superficiais (RENOU, 1964, 13).

No documento Celia Maki Tomimatsu.pdf (páginas 31-42)