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Observamos, que nem tudo que é visto como bem, numa sociedade, é visto de igual maneira por outra. Assim, tem-se verificado que num determinado grupo social a família

476 Esse é um dogma defendido pela doutrina católica e ardorosamente propugnado contra os pelagianos por Agostinho de Hipona. Cf. de Marcos Roberto Nunes da COSTA. O Problema do Mal na Polêmica

monogâmica é considerada como um bem e, por isso mesmo, num tal grupo tem-se consciência de que esse modo de organizar a família é que deve ser mantido; mas, verificamos também, noutros grupos sociais, que o bem que é apreendido como devendo ser mantido é a família poligâmica. Tratando-se de intuição experiencial, que identifica o bem a se fazer como situado em modos de agir opostos, tal constatação parece desautorizar a afirmação de que resultariam de uma inferência de uma Lei Natural, pois os preceitos que se aduzem como conclusão do preceito fundamental, impõem práticas diferentes e, às vezes, antagônicas: na verdade, ou é bem organizar-se uma família monogamicamente ou bem será organizar-se uma família poligamicamente. Incontestavelmente, saber o que seja mais adequado ao viver melhor de uma sociedade – conseqüentemente, em que consiste o bem a se dever praticar – pode não ser tão claro à razão humana, e freqüentemente não o é; daí a constatação da diversidade na maneira de consagrarem-se como bem posturas de comportamento social.

Poderá mesmo ocorrer que a respeito de um problema, suscitado numa sociedade, concernente à definição do que seja melhor, se verifique controvérsia, precisamente pela natural inclinação que domina a consciência de cada um de todos de uma comunidade, no afã de descobrir o modo de agir comum, que melhor atenda às aspirações da coletividade ou, pelo menos, da maioria de seus integrantes. Entretanto, mesmo se verificando entre duas opções opostas, uma como sendo a melhor, será sempre sub specie boni que é apreendida a opção vigente em um determinado grupo social e, como tal, se impõe como devendo ser feita.

Podemos já intuir que o apreender em que consiste o verdadeiro bem para uma coletividade, bem que é preceituado pela Lei Natural depende, em certos casos, do grau de cultura e de conhecimentos de cada grupo, tanto quanto da evolução e progresso da ciência. Alguns bens são apreendidos como valores, de maneira universalmente igual e em todos os tempos em que é constatada a presença de alguma civilização; seja, por exemplo, a veracidade, a lealdade, a boa fé, a integridade física, a paz, a justiça. São bens cuja destruição ou obstaculização contraria a psicologia de qualquer pessoa normal. Já o mesmo se não dirá a respeito do roubo, da vingança privada, da imolação de um inocente por motivos religiosos, do incesto, do adultério.

Advertira Santo TOMÁS que “a Lei Natural, enquanto aos primeiros princípios comuns, é a mesma para todos, tanto no que concerne à sua retidão em si, como no que se refere ao conhecimento da mesma”. Entretanto, quanto a certas particularidades que se seguem como conclusões – incidimos aqui no terreno dos chamados preceitos secundários –

“vulgarmente falando,” diz ele, “são igualmente retas e claras para todos; mas podem falhar em alguns casos, quer quanto à retidão, por causa de alguns obstáculos (tal como ocorre com as naturezas sujeitas à geração e à corrução e que, por causa de algum impedimento podem falhar), quer quanto ao conhecimento”. E reportando-se aos costumes dos germanos, costumes relatados por César no De Bello Gallico, observa que entre eles o latrocínio não era tido como crime, apesar de ser expressamente contra a Lei Natural477.

Poder-se-á acrescentar que no mundo ocidental moderno algumas práticas manifestamente incompatíveis com o bem social e individual têm sido consagradas por legisladores, contrariando o bom senso de grande parte dos que integram o grupo social. De certo, não se podem elevar à condição de valor absoluto bens, cuja fruição não pode prejudicar o bem comum, tais como a liberdade, a comunicação, a propriedade e a própria vida, bens que se usufruídos dentro dos limites do meio termo, preconizado por Aristóteles478, não comprometerão o bem comum. Ora, derivando da natureza do homem e da sua essência a Lei Natural, um conhecimento errôneo sobre a finalidade do homem e sobre a dignidade da pessoa humana, dominante num ambiente social, explica os erros e as idéias confusas a respeito dos preceitos da Lei Natural479.

Dentro dessa consideração, o homem moderno, enriquecido pela evolução do pensamento político, sobretudo no ocidente cristão, tem uma visão sobre o valor da dignidade da pessoa humana, visão mais clara do que a que dela poderiam ter tido as gerações da antiguidade. Em quase todo o mundo contemporâneo, a consciência coletiva de todos os grupos sociais intui como um mal tirar a vida de um inocente; isso, entretanto, não era tão evidente para civilizações antigas, nas quais se acreditava que para aplacar a ira dos deuses, nos casos de calamidade pública, considerava-se como um bem – ou mal necessário, diríamos hoje – imolar donzelas ou crianças em sacrifício.

Em conclusão, constata-se que, no que concerne aos preceitos secundários da Lei

477 “Sic igitur dicendum est quid lex naturae, quantum ad prima principia communia, est eadem apud omnes et secundum rectitudinem, et secundum notitiam Sed quantum ad quaedam propria, quae sunt quasi conclusiones principiorum communium, est eadem apud omnes ut in pluribus et secundum rectitudinem et secundum notitiam: sed ut in paucioribus potest deficere et quantum ad rectitudinem, propter aliqua particularia impedimenta (sicut etam naturae generabiles et corruptibiles deficiunt ut in paucioribus, propter impedimenta), et etiam quantum ad notitiam; et hoc propter hoc quod aliqui habent depravatam rationem ex passione, se ex mula consuetudine, seu ex mala habitudine naturae; sicut pud Germanos olim latrocinium non reputabatur iniquum, cum tamen sit expresse contra legem naturae, ut refert Iulius Caesar, in libro de Bello Gallico”. Santo TOMÁS DE AQUINO. Summa Theol. I-II, Q. 94, art.4º.

478ARISTÓTELES. Ética a Nicomaco. Tradução de Pietro Nasseti.São Paulo: Martin Claret 2000, p.111. 479 Cf. Javier HERVADA. Introduzione al Diritto Naturale. Milano: Giuffrè Editore, 1990, p.153.

Natural, os quais são apreensíveis através das inclinações naturais da pessoa, por não serem evidentes, o conhecimento dos mesmos é precário, podendo atingir um grau maior ou menor de clareza, determinado pela consciência axiológica de cada grupo. Assim, aquilo que num determinado grupo social é apreendido, sentido e intuído como melhor e mais adequado às condições e necessidades humanas impõem-se como um preceito da Lei Natural.

Fazendo uma divagação da ótica filosófica em que estamos trabalhando, e olhando por uma ótica teologal, observamos que, segundo a revelação interpretada pela tradição católica, o Criador pode vir em auxílio da falibilidade humana e, por meio de uma revelação, aperfeiçoar os conhecimentos sobre o que atende melhor aos fins existenciais, suprindo destarte a defectibilidade da razão humana. Os preceitos do decálogo, cuja essência tem sido recepcionada pelos códigos penais de todos os povos civilizados, insere-se nesse gênero de nomogênese moral.