Da contemplação da pluralidade dos seres que constituem o teatro da nossa experiência cognitiva e existencial, percebe-se que algo há que funciona como certo paralelo ou gabarito de perfeições existenciais, paralelo ou gabarito que é atingido de maneira idêntica e em igual proporção por uma inumerável multidão de seres, correspondendo ao que se tem designado como gênero, espécie. Assim é que se classificam como dentro de um gênero todos os seres que atingem um idêntico gabarito de perfeições existenciais e, como dentro de uma espécie, os que atingem perfeições existenciais num gabarito que ultrapassa ao atingido pelos que se igualizam no gênero, considerando-se como diferença específica aquelas perfeições que foram atingidas por um gênero a mais do que as que estão atingidas pelos que
422“À noção (mental) de universalidade corresponde externamente, como fundamento, aquilo em que Sócrates tem de conformidade com as outras coisas”. “Intentioni universalitatis respondet extra, ut fundamentum, illud in
quo Socrates est conformis aliis rebus”. Santo TOMAS DE AQUINO. Summa totius Logicae, tract. I, c. 3.” O
animal comum ou o homem comum não é alguma substância na realidade ôntica. Todavia a forma de animal e de homem tem essa comunidade, na medida que esta no intelecto, o qual recebe uma única forma como sendo comum a muitos, enquanto faz abstração de todas as notas que a individualiza. Santo TOMAS DE AQUINO.
Comentário ao VII da Metafísica, Lição 13.
423“o animal comum ou homem comum não é alguma substância no mundo real. Todavia esta comunidade tem-na a forma de animal ou de homem, enquanto está no intelecto, o qual recebe uma única forma como sendo comum a muitos, na medida em que faz abstração de todas as notas individuantes”. “ Animal commune vel homo communis non est aliqua substantia in rerum natura. Sed hanc communitatem habet forma animalis vel hominis secundum quod est in intellectu, qui unam formam accipit ut multis communem, inquantum abstrahit eam ab omnibus individuantibus” TOMÁS DE AQUINO. In VIIm Met., lec. 13.
formam outro gênero inferior. Sem dúvida, certos seres atingem um grau de perfeição existencial, que designamos como vegetalidade; outros atingem o gabarito de perfeição existencial que inclui as perfeições verificadas nos vegetais e, ademais dessas, atingem ainda perfeições existenciais de animalidade, ao passo que outros seres atingem aquelas perfeições existenciais atingidas pelos que estão nos gêneros vegetalidade e animalidade e atingem ainda, mais do que os que só até aquele grau de perfeição existencial chegaram, atingem também a perfeição-racionalidade, ou, dizendo melhor, a humanidade.
A esse gabarito de perfeições existenciais que é atingido diversamente por cada ser individuado, a saber, por uns a vegetalidade, por outros a animalidade e, por outros a humanidade, a esse gabarito se atribuiu a designação estatística e classificadora de essência, natureza, substância, gênero, espécie, expressões em que se engloba o universo de seres que atingem idêntico grau de perfeições existenciais.
A controvérsia dos Universais, suscitada e debatida, mesmo com certo calor nos séculos XII-XIII, nas Universidades da Europa ocidental, centrava-se em se definir se esses conceitos universais eram meras palavras, vazias de sentido ontológico – flatus vocis – ou se a eles correspondiam realidades ônticas ou ontológicas. Discutia-se, destarte, sobre se às expressões “substância”, “natureza”, “essência” corresponde algo na realidade fenomenológica, existencial, ou se são meras palavras ou meros conceitos, com existência puramente lógica424. Pergunta-se então: – Haverá uma natureza humana universal, da qual participam cada um dos seres que existem no mesmo grau de perfeição existencial? – Haverá uma humanidade distinta da humanidade dos indivíduos homens? – Ou haverá somente homens? – Não haverá um algo, no qual todos os homens, não apenas se igualam, mas, ademais, do qual todos participam proporcionalmente, ontologicamente?
Em se afastando a possibilidade de se atribuir a essas expressões ou conceitos uma realidade ôntica (numa tal hipótese, tais realidades já seriam, por sua vez, partes de uma mesma espécie e sic usque ad infinitum) incidia-se no nominalismo defendido por Pedro ABELARDO (1079–1142)425, ou no conceptualismo defendido, entre outros, por Guilherme
424 Nota Bene – Existência lógica. Há nessa expressão mais metáfora do que propriedade de expressão. Efetivamente, existência se diz de algo que está “fora das causas”, in rerum natura, mesmo se a nível espiritual; lógico se diz do que a mente produz, seja por abstração do real ôntico, seja por abstração do próprio fantasma, mas que não tem presença in rerum natura.
425“Entretanto, agora que já se apresentaram as razões pelas quais as coisas tomadas individualmente ou coletivamente não podem ser chamadas de universais pelo fato de serem predicadas de vários seres, resta a solução de atribuir essa universalidade apenas às palavras”. Pedro ABERLADO. Logica Ingredientibus. Tradução de `Prof. Dr. Ruy Afonso de Costa Nunes. São Paulo: Editor Victor Civita. Coleção Os Pensadores.
de Ockam (1298 aproximadamente –1349)426.
Por outro lado, em face do risco de com tal posicionamento se negar à razão a capacidade de se atingir a verdade ontológica, – com o que estaria incidindo no erro do nominalismo – não querendo por outro lado também incidir no erro do realismo exagerado, a corrente realista moderada matou a charada, admitindo a famosa “distinção mental com fundamento na realidade”427.
Na mesma direção realista se insere a seguinte afirmação de Michel VILLEY:
Na visão de ARISTÓTELES e de um Santo TOMÁS, o mundo aparece, não como um amontoado de indivíduos ou de átomos heterogêneos, mas como uma coleção bem feita e racionalmente ordenada de gêneros e de espécies; a ponto de que, ao lado das substâncias primeiras (os indivíduos), pode-se reconhecer a existência (sic) de substâncias segundas (os universais: o animal, – o homem, o vegetal, o mineral, etc.); e a Natureza compreende também esses universais428.
E vai além VILLEY, afirmando que ”é à Natureza inteira, à Natureza universal, (sic) que parece razoável atribuir uma finalidade: pois ela se revela ordenada, como em vista 1979. p. 232. – Quanto a inserção de ABELARDO entre nominalistas ou conceptualistas, FERRATER MORA entende que em refutando Roscelino, Abelardo foi realista, ao passo que teria sido nominalista em atacando Guilherme de Champeaux; de qualquer forma, não teria sido um realista moderado. Cf. FERRATER MORA.
Diccionario de Filosofia, verbete Abelardo, Pedro.
426“ [...] deve-se conceder simplesmente que nenhum universal é substância, seja qual for a maneira que de o considerar. Qualquer universal é, porém, uma intenção da alma, que, segundo uma opinião provável, não difere do ato de inteligir. Assim, dizem que a intelecção pela qual intelijo homem é um signo natural dos homens – natural, assim como o gemido é signo da enfermidade e é tal signo que pode estar pelos homens nas proposições mentais, assim como a palavra falada pode estar pelas coisas nas proposições faladas. Guilherme de OCKHAM.
Lógica dos Termos. –Tradução de Fernando Pio de Almeida Fleck (Introdução de Paola Müller) Coleção
Pensamento Franciscano, v. III Porto Alegre:EDIPUCRS.1999 p.164.
427 O argumento psicológico com que fundamentam essa tese, está, segundo V.REMER, na natureza do nosso intelecto que “ intelige abstraindo a espécie inteligivel da matéria individual;de sorte que aquilo que é abstraído da matéria individual seria o universal. O argumento ontológico consistiria na conformidade em natureza, que possuem os entes singulares, existindo como coisas reais; “ daí que o intelecto, apreendendo (por exemplo) a humanidade, não enquanto é deste ser, mas enquanto é humanidade, forma uma intencionaliadade comum a todos – “unde intellectus accipiens (e.g.) humanitatem, non secundum quod est huius, sed ut est humanitas, format intentionem communem omnibus”. Santo TOMAS DE AQUINO. In IIum Sententiarum, D.XVII, q.1,
art.1.”. Ainda no mesmo sentido, o Angélico: “O animal comum ou o homem comum não é alguma substância
na realidade ôntica do existir. Todavia, esta comunidade está na forma de animal ou de homem, na medida em que se encontra no intelecto, que recebe uma única forma como sendo comum a muitos, enquanto a abstrai de todas as notas individuantes”. – animal commune vel homo communis non est aliqua substantia in rerum natura. Sed hanc communitatem habet forma animalis vel hominis secundum quod est in intellectu, Qui unam formam accipit ut multis communem inquantum abstrahit eam ab omnibus individuantibus” Idem In VII Met., lec. 13. –
Cf. a respeito Vicente REMER. Summa Philosophiae Scholasticae - Logica Maior. Roma: Universidade Gregoriana, 1921, p.23; Mathaeus LIBERATORE. Institutiones Philosophicae Vol. primum. Logica et
Metaphysica Generalis. Prati: Ex Officina Giachetti, Filii et Soc. MDCCCLXXXIX, p,187. Wilhelm
WINDELBAND, Historia de la Filosofia, trad. espanhola de Francisco Larroyo. México: Antigua Libreria Robredo, 1942, Tercera parte, pp. 81-103.
428 Michel VILLEY. La Formation de la pensée Juridique Moderne – Cours d´Histoire de Philosophie du
de atingir um certo resultado”. Daí essa outra perspectiva – que eu diria geométrica – da participação, perspectiva, aliás, em que se alinha ponderável corrente de inspiração tomista: “cada indivíduo – diz Michel VILLEY – participa, no sentido particular da palavra, de uma “natureza comum”, a do gênero ou da espécie da qual depende, por exemplo, a natureza do homem ou do cidadão, e que são suas causas formais”429.
Todavia, quer me parecer que se deve entender de outro modo essa condição de igualdade em perfeição existencial, condição de igualdade em perfeição existencial que – digo – todos os seres de uma mesma espécie atingem: cada ser que é, é dentro de uma medida e gabarito de existir, medida e gabarito de perfeição de ser, que é atingida por muitos seres que se dizem enquadrados numa mesma espécie – medida de perfeição de ser - que lhe foi previamente programada por uma forma substancial, mediante um processo de geração, no qual cada ser possui a semente de outros seres. Essa medida de ser é, verdadeiramente, o non plus ultra de perfeição existencial, definida, – enfatize-se – já no ato da criação, embora seja transmissível e atingível no processo da geração de cada um dos seres criados.
O aforismo, de inspiração aristotélica, consagrado pela Escola, a saber, corruptio unius generatio alterius, ou seja, no decompor-se de um ser está o gerar-se de outro, tal aforismo aponta para a presença germinal de uma forma na matéria que se modifica pela geração, de sorte que o novo ser atingirá aquele gabarito de perfeição que lhe vem assinalado na forma, e nada mais do que isso. Neste sentido, diziam os medievais que forma dat esse rei430.
Na verdade, “a essência concreta” de cada Ser é “aquilo que ele está sendo”, nos limites daquele non plus ultra-existencial que lhe foi reservado e destinado, reservado e destinado, – entenda-se – de imediato, pela forma substancial transmitida pelo gerador e, remotamente, pelo próprio Ato criador, através da Lei Eterna. Agora, no que à “essência lógica” se refere, dir-se-á tão somente que, como gabarito de perfeições existenciais que pode ser atingido por inumeráveis seres, essa não existe como realidade concreta, como aliquid a parte rei, – para usar a enérgica expressão escolástica – mas como “forma exemplar” na
429 Sobre o conceito de participação, vide entre outros, Louis de RAEYMAEKER. Filosofia del Ser – Ensayo
de Sintesis Metafísica. Madrid: Biblioteca Hispanica de Filosofia, p. 45 e ss.
430 Nota Bene – Interessante pela originalidade é a tese defendida pelo teólogo medieval, JOÃO DE BACONTHORP (floreceu na Universidade de Paris por volta do ano 1300) da Ordem Carmelitana, a respeito da pré-existência de uma matéria propinqua in nuce do gerador. A sentença exposta pelo aludido filósofo medieval foi exposta em tese, De formali Constitutivo Suppositi iuxta sententiam Johannis Baconthorp, defendida na Universidade Gregoriana, em 1933, por Frei Emílio WIENK, O.Carm., cuja redação em folhas datilogradas
Razão Criadora, e como resultado da abstração que a razão humana processou sobre a presença de muitos seres, todos definidos em sua limitação. É de Santo TOMÁS DE AQUINO o ensinamento de que a “própria natureza da coisa se encontra nos singulares... agora, quanto à noção de universalidade, esta se situa no intelecto”431.
Importa, pois, observar que o fundamento metafísico do direito não está propriamente no universal que a mente expressa pelo verbum, muito menos numa forma lógica a priori, cuja natureza não se sabe qual seja, mas sim, na realidade onto-social, individual-relacional-coexistente, a partir da qual esse conceito é abstraído.