CONTRIBUIÇÕES PARA O APRIMORAMENTO DA PRESTAÇÃO JURISDICIONAL TRABALHISTA
2. DO ABUSO DO PROCESSO PELAS PARTES 1 D IREITOS PROCESSUAIS DAS PARTES
2.2. b Dever de cooperação com a Justiça
Outro dever de extrema importância é aquele contido no art. 339 do CPC, segundo o qual “ninguém se exime do dever de colaborar com o Poder Judiciário para o descobrimento da verdade”266.
Trata-se de dispositivo claramente inspirado no caráter público e, principalmente, instrumental do processo, que impõe que todos que dele participam (não só as partes como também terceiros) contribuam para o esclarecimento da verdade (indispensável para a pacificação social com justiça), seja ativamente (oferecendo os meios de prova necessários ao esclarecimento dos fatos litigiosos), seja passivamente (eximindo- se de criar obstáculos à produção probatória):
A jurisdição, atividade essencial do Estado, é realizada no interesse não apenas dos próprios litigantes mas também do Estado e da sociedade como um todo, preocupados com a afirmação do ordenamento jurídico e com o ideal de pacificação. Daí decorre a necessidade de que, na medida do possível, todos colaborem para com seu desenvolvimento, independentemente de seu envolvimento pessoal no litígio e da perspectiva de obtenção de benefício direto, sempre levando-se em conta a conotação publicística do processo.
266 Dispositivo que, segundo entendemos, deve ser interpretado da forma mais ampla possível, como sendo
dever das partes (e demais sujeitos processuais) cooperar com a Justiça em todas as instâncias, fases e atos processuais – iniciando por não postular o que não é seu nem se opor a cobranças legítimas. De forma semelhante a ele dispõe o art. 8º do Código de Processo nos Tribunais Administrativos de Portugal, que muito bem ilustra o conteúdo do dever em comento: “Princípio da cooperação e boa fé processual: 1 - Na condução e intervenção no processo, os magistrados, os mandatários judiciais e as partes devem cooperar entre si, concorrendo para que se obtenha, com brevidade e eficácia, a justa composição do litígio.”.
A obrigação de colaboração, considerada em sua plenitude, vai muito além do campo meramente probatório, incluindo todos e quaisquer atos que de alguma forma possibilitem o progresso da marcha processual e a consecução de seus objetivos; para os estritos fins do artigo ora comentado, que menciona o descobrimento da verdade, importa entretanto, acima de tudo, aquele aspecto em particular.267
Muito embora não esteja previsto na seção do Código relativa aos deveres das partes, é indiscutível que a elas ele também se aplica, face à clareza do texto legal, que não exime ninguém de colaborar com a Justiça268. Esse é o espírito que deve guiar todos os atos das partes, especialmente (mas não apenas), aqueles de natureza probatória (como a juntada de documentos, seu depoimento pessoal e até mesmo a indicação de testemunhas).
Confira-se as excelentes considerações de Fábio Tabosa sobre o dever em comento:
Não pode escapar ao intérprete o alcance do termo absoluto (v.g., ninguém) empregado pelo legislador, alusivo numa primeira impressão a pessoas estranhas ao processo (órgãos públicos e privados diversos, além dos cidadãos em geral), mas abrangente também, e inequivocamente, dos próprios integrantes do litígio. Tanto assim é que o CPC, nos dois artigos subseqüentes, desdobra e explicita esse dever de colaboração quanto às partes (art. 340) e quanto aos terceiros (art. 341), no tocante às primeiras estabelecendo importante compromisso ético, que vai além da mera possibilidade de prova das alegações pessoais.
As partes, desse modo, devem colocar à disposição do juiz ou não impedir que cheguem a ele os dados – aí incluída, antes da prova, a própria narrativa real dos fatos – relevantes ao julgamento justo da causa, não criando além disso embaraços à atividade probatória da parte adversa ou controvérsia em torno de fatos que sabem verdadeiros, e de seu turno atendendo às determinações judiciais em torno
267 Fábio Tabosa, Código de Processo Civil Interpretado, p. 1026.
268 Sobre a importância de tal dever, assim se posiciona Antônio Cláudio da Costa Machado: “O dever de colaborar com o Poder Judiciário, esculpido nessa norma jurídica, corresponde a verdadeiro dever cívico, assim como o são o serviço militar ou o serviço prestado como jurado. Ninguém pode eximir-se de tal colaboração porque a função jurisdicional é função estatal para a realização da justiça e para o reequilíbrio das relações jurídicas, importando, assim, à própria sobrevivência da sociedade. Trata-se, portanto, de dever processual de todos para com o juiz. O CPC disciplina, a cada passo, os limites desse dever (v.g., os arts. 340, 341, 362 e 399).” (Código de Processo Civil Interpretado, p. 492).
do esclarecimento de pontos duvidosos ou controvertidos (v. art. 342) e da exibição de documentos ou coisas relevantes (arts. 355 e 381 – 382), por exemplo.269
Quanto ao seu conteúdo, até mesmo por estar inserido no capitulo do Código relativo às provas, tem-se que ele disciplina, principalmente, o comportamento das partes em matéria probatória – ou, mais precisamente, o dever das partes de colaborar com o juízo na produção das provas necessárias ao esclarecimento da verdade270.
Esse dever de contribuição para o esclarecimento do litígio tem seu conteúdo desmembrado pelo artigo seguinte do Código (art. 340), que dispõe competir (especificamente) às partes: “I - comparecer em juízo, respondendo ao que lhe for interrogado; II - submeter-se à inspeção judicial, que for julgada necessária; III - praticar o ato que lhe for determinado”. De maior interesse para a análise são a primeira e a última previsões desse dispositivo.
Com relação à obrigação de “comparecer em juízo, respondendo ao que lhe for interrogado”, ela compreende, na verdade, três obrigações distintas, como bem aponta Antônio Cláudio da Costa Machado:
Três deveres distintos são aqui instituídos: o dever de comparecer a juízo para prestar depoimento sobre os fatos da causa (arts. 342 e 343) cujo descumprimento gera a sanção consubstanciada na pena de confissão (art. 343, § 1o); o dever de responder ao que for perguntado no caso de comparecimento, cuja inobservância gera identicamente a aplicação da pena de confesso (art. 345); e o dever de dizer a verdade ao juiz quando interrogado.271
269 Código de Processo Civil Interpretado, p. 1026/1027.
270 Aplicando-se, em especial, àquele litigante que dispõe das provas necessárias ao esclarecimento do litígio:
“Supuesto en que la demandada se encuentra en mejores condiciones para probar. Si la demandada se encuentra en mejor aptitud para proveer de un modo fácil la prueba de sus alegaciones y no lo hizo, no ha colaborado con el esclarecimiento de la verdad. La cómoda negativa o una actitud reticente o pasiva, no puede ser indiferente al orden jurídico, ya que este se apoya en la regla moral y en el principio de buena fe, que veda comportamientos reñidos con la lealtad y probidad procesal” (Alberto Luis Maurino, Abuso del Derecho en el Proceso, p. 89). Incisivo a esse respeito é o item 6 do art. 71 do CPC colombiano, que prevê como deveres das partes e seus advogados colaborar com o juiz na produção de provas, sob pena de sua recusa ser interpretada como um indício contra si.
271 Código de Processo Civil Interpretado, p. 493. Não concordamos, porém, com a afirmação seguinte do
autor, de que “Somente este último não corresponde à sanção específica, posto que a litigância de má-fé prevista pelo art. 17 não alcança o depoimento pessoal; se alcançasse, isso representaria por si só obstáculo ao direito da parte de se defender.”, eis que tal afirmação contraria a literalidade do texto legal (arts. 14, inc.
Vê-se, assim, que a primeira forma legalmente imposta (a lei expressamente fala em “dever”, vale lembrar) de cooperação das partes com o Judiciário é o de esclarecer, em seu depoimento pessoal, os fatos controvertidos – dever cuja violação tem severas conseqüências processuais: a pena de confissão e, conforme o caso, a punição por litigância de má-fé.
Outro dever em que se desdobra a obrigação das partes de colaborar com o Judiciário no esclarecimento da verdade é o de “praticar o ato que lhe for determinado” (para fins probatórios) – obrigação cujo conteúdo também remete a outras disposições do Código:
Ilustram, assim, as determinações aqui previstas as ordens de comparecimento para interrogatório ou depoimento (arts. 342 e 343), a ordem para exibir documento ou coisa (art. 355), a ordem para comparecer para fins de acareação (art. 418, II e III), a ordem para exibir coisa para fins periciais.272
Explicita-se, assim, de mais uma forma, o dever das partes de contribuir com o juízo na instrução do feito: agora, atendendo às determinações por ele emitidas, em especial, mediante a apresentação do documento ou coisa que servirá de prova dos fatos controvertidos.
De fato, ainda que não se espere que a parte, espontaneamente, carreie aos autos elementos de prova contrários aos seus interesses, é seu dever fazê-lo quando especificamente intimada para tanto (e aqui se ressalta a importância de uma postura ativa por parte do magistrado no sentido de lançar mão de todos os instrumentos previstos pela legislação para o esclarecimento da verdade273).
I, e 17, inc. II, do CPC), além de significar carta branca para a mentira e a deslealdade processual – cujas conseqüências para o processo seriam (ou melhor, são) desastrosas.
272 Antônio Cláudio da Costa Machado, Código de Processo Civil Interpretado, p. 494.
273 “Se o juiz cruza os braços e espera a instrução que virá das partes, ele poderá desviar-se dos rumos preferidos pelo ordenamento jurídico-material, porque a prova mal feita lhe oferece para o julgamento um quadro fático que não corresponde ao real: ele declarará direitos sem que haja base fática para isso, ou negará direitos apesar de na realidade ter se configurado a fattispecie concreta prevista em lei.” (Cândido Rangel Dinamarco, A Instrumentalidade do Processo, p. 305). Como bem sintetizou o autor, o juiz deve ser imparcial, mas não indiferente (p. 239).
As conseqüências previstas para o descumprimento do dever de praticar os atos instrutórios determinados pelo juízo são basicamente as mesmas previstas para a violação da obrigação de comparecimento pessoal: a pena de confissão e, eventualmente, a punição por litigância de má-fé, tendo em vista a violação a expresso dever legal274.
Verifica-se, assim, a existência de inúmeros deveres processuais impostos às partes em matéria probatória, que se resumem na fórmula genérica adotada pelo art. 339 do CPC, de “colaboração com o Judiciário para o descobrimento da verdade”.