CONTRIBUIÇÕES PARA O APRIMORAMENTO DA PRESTAÇÃO JURISDICIONAL TRABALHISTA
2. DO ABUSO DO PROCESSO PELAS PARTES 1 D IREITOS PROCESSUAIS DAS PARTES
2.2. f Dever de atender aos comandos judiciais
Em seguida, estabelece o Código o dever de “cumprir com exatidão os provimentos mandamentais e não criar embaraços à efetivação de provimentos judiciais, de natureza antecipatória ou final” (art. 14, inc. V). Esse dispositivo foi inserido no Código em 2001, pela Lei n.º 10.358/01, que instrumentalizou nova reforma processual.
Nele podem ser visualizadas duas previsões, uma de natureza positiva (“cumprir com exatidão os provimentos mandamentais”) e outra negativa (“não criar embaraços à efetivação de provimentos judiciais, de natureza antecipatória ou final”).
Provimentos mandamentais são aqueles em que o juiz ordena à parte que realize ou se abstenha de realizar determinada conduta; são provimentos em que, além do conteúdo condenatório, vem acoplada uma ordem para que seu destinatário os cumpra de imediato, e seu maior exemplo são as sentenças proferidas em mandados de segurança, que impõem à autoridade coatora que pratique ou se abstenha de praticar determinado ato.
Em primeiro lugar, não podemos deixar de notar a aparente desnecessidade de tal previsão, uma vez que os provimentos judiciais (e, em especial, aqueles de caráter mandamental) devem ser observados pela própria força que contêm, não por conta de um dispositivo adicional que assim estabeleça. Em outros termos, antes mesmo da inserção promovida no Código pela Lei n.º 10.358/01, as partes já estavam obrigadas à observância dos provimentos mandamentais (e de todas outras espécies, em verdade)281.
281 A esse respeito, bem observou Fabio Milman: “Aparentemente, o acréscimo do inciso V “justifica-se apenas pela preocupação do legislador em deixar claro, com mais ênfase, que as decisões judiciais, até como expressão da soberania estatal, devem ser cumpridas de forma ágil e sem delongas injustificáveis”, na medida em que as regras de conduta ali postas já estariam incluídas nas hipóteses dos incisos I até IV do art. 14, isolando uma “específica de desrespeito a outros deveres já cominados no artigo, descendo a minúcias no caso concreto, apenas à guisa de esclarecimento”.” (Improbidade Processual, p. 119).
Não obstante, a inovação legislativa não deixa de ter seus méritos, por tornar expresso esse dever e, assim, quem sabe, alertar os sujeitos do processo para a necessidade de sua observância.
Pela redação do dispositivo legal em comento, apenas os provimentos (não apenas as sentenças, vale frisar, mas também as decisões interlocutórias) de caráter mandamental teriam essa obrigação de imediato cumprimento pela partes. Pensamos, porém, que ele deve ser lido de modo ampliativo, abrangendo não apenas os provimentos mandamentais mas sim todos aqueles que necessitem de uma atitude de seu destinatário para se concretizar, inclusive, aqueles de natureza condenatória ou executiva lato sensu.
Como retomaremos adiante, todo e qualquer provimento judicial deve ser cumprido, tão logo seja proferido, não apenas aqueles de caráter mandamental. Na verdade, tamanha é a importância desse dever para o sistema processual que, na Espanha, o mesmo consta da própria Constituição Federal, que, em seu art. 118, prevê que o litigante “Es obligado cumplir las sentencias y demás resoluciones firmes de los Jueces y Tribunales, así como prestar la colaboración requerida por éstos en el curso del proceso y en la ejecución de lo resuelto”282.
A mesma visão se tem no direito inglês, em que “a desobediência ao comando sentencial, seja liminar, interlocutório ou definitivo, não se traduz em simples ônus que se converterá para ele, futuramente, em meras perdas patrimoniais: ao contrário, fará, de pronto, desabar sobre ele o braço coativo estatal, que poderá até mesmo levá-lo à prisão, para que lá melhor reflita sobre as conseqüências do acinte que representa a sua conduta de desafio a uma determinação baixada, em última análise, pelo poder real, dentro do devido processo legal e de acordo com a lei da terra”283.
Trata-se, aqui, da figura do contempt of court, própria do sistema jurídico da common law e que engloba:
282 É por conta do (correto) predomínio dessa concepção que, em alguns países, o processo de execução tem
papel meramente residual, como bem lembra Eduardo Henrique von Adamovich: “Não se pode olvidar, igualmente, que o processo de execução, muito embora longamente considerado na ZPO, de fato, não tem, para os alemães, a mesma importância que tem entre nós, pois, como atestam KOCH e DIEDRICH, ‘a vasta maioria dos processos nunca chega ao estágio de execução’, dirigindo-se a ênfase para a fase de conhecimento.” (A Tutela de Urgência no Processo do Trabalho: uma visão histórico-comparativa, p. 119). 283 Eduardo Henrique von Adamovich, A Tutela de Urgência no Processo do Trabalho: uma visão histórico- comparativa, p. 59/60.
Any willful disobedience to, or disregard of, a court order or any misconduct in the presence of a court; action that interferes with a judge's ability to administer justice or that insults the dignity of the court; punishable by fine or imprisonment or both. (...) A judge who feels someone is improperly challenging or ignoring the court's authority has the power to declare the defiant person (called the contemnor) in contempt of court. (…) There are two types of contempt - criminal and civil. Criminal contempt occurs when the contemnor actually interferes with the ability of the court to function properly - for example, by yelling at the judge. This is also called direct contempt because it occurs directly in front of the judge. A criminal contemnor may be fined, jailed or both as punishment for his act. Civil contempt occurs when the contemnor willfully disobeys a court order. This is also called indirect contempt because it occurs outside the judge's immediate realm and evidence must be presented to the judge to prove the contempt. A civil contemnor, too, may be fined, jailed or both. The fine or jailing is meant to coerce the contemnor into obeying the court, not to punish him, and the contemnor will be released from jail just as soon as he complies with the court order.284
Imperiosa é a adoção de figura semelhante no direito brasileiro – para o que pode ter grande utilidade a previsão do inc. V do art. 14 do CPC.
Defendendo a ampliação na interpretação desse dispositivo, confira-se o pensamento de Fabio Milman:
Não há que se limitar a aplicação da regra às sentenças mandamentais ou às executivas lato sensu. Necessária compreensão alargada quanto ao que venham a ser provimentos mandamentais, não os restringindo às sentenças. Há inúmeros atos a serem cumpridos pelos diversos personagens de um processo, atos estes cuja desatenção afasta as regras de efetividade e de qualidade da prestação jurisdicional. Mesmo pelo que constante da exposição de motivos da Lei n.º 10.358, evidente a pretensão do legislador em abraçar, com o inciso V, todo e qualquer descumprimento de uma ordem judicial: (...)
284 Electric Law Library, vocábulo “contempt of court”. Semelhante é a definição de Eduardo Henrique von
Adamovich, para quem se trata de um instituto que, “visando garantir obediência e, com isso, conferir efetividade às determinações da Corte, pune aqueles que se opuserem injustamente àquelas ordens emanadas do Judiciário no exercício do seu poder de imperium” (A Tutela de Urgência no Processo do Trabalho: uma visão histórico-comparativa, p. 76).
Chama, pois, atenção, a utilização, no texto que se contempla, da expressão “mandamentos judiciais”, tudo levando à conclusão de que a norma trata, realmente, de assegurar o cumprimento de, genericamente, toda e qualquer ordem de um juiz que contenha carga mandamental ou executiva.285
A necessidade de se interpretar esse dispositivo de forma ampliativa é reforçada pelo teor do segundo dever imposto pelo inciso V do art. 14 do CPC, o de “não criar embaraços à efetivação de provimentos judiciais, de natureza antecipatória ou final” - que, como se vê, não se restringe aos provimentos de ordem mandamental, abarcando todo e qualquer comando judicial286.
Essa previsão complementa a anterior, contendo a obrigação negativa de as partes se absterem de criar obstáculos à implementação dos comandos judiciais, adotando condutas procrastinatórias ou outras que, de qualquer forma, desviem o juízo da concretização de suas decisões287.
O quotidiano forense dá exemplos freqüentes de desrespeito a esse dispositivo pelas partes, como ao se dificultar o cumprimento das citações/intimações emitidas pelo juízo, a recusa na juntada de documentos exigidos pelo juízo e, principalmente, na fase de execução, adotando o devedor todas as medidas imagináveis para impedir a concretização da decisão.
De fato, a maior parte das medidas desleais que podem ser adotadas pelo devedor na fase de execução violam o art. 14, inc. V, do Código de Processo Civil, além de constituírem ato atentatório à dignidade da Justiça, nos termos do art. 600 do Código.
285 Improbidade Processual, p. 120/121. Cândido Rangel Dinamarco, porém, se posiciona contrariamente a
essa ampliação (A Reforma da Reforma, p. 62/65).
286 Nesse mesmo sentido: “A norma impõe às partes o dever de cumprir e de fazer cumprir todos os provimentos de natureza mandamental, como, por exemplo, as liminares (cautelares, possessórias, de tutela antecipada, de mandado de segurança, de ação civil pública etc.) e decisões finais da mesma natureza, bem como não criar empecilhos para que todos os provimentos judiciais, mandamentais ou não, de natureza antecipatória ou final, sejam efetivados, isto é, realizados.” (Nelson Nery Júnior e Rosa Maria de Andrade Nery, Código de Processo Civil Comentado, p. 298).
287 “Cumpriu a reclamada referida obrigação, ainda que espontaneamente, meses depois. Acrescente-se que a embargante manifestou-se nos presentes autos por inúmeras vezes, desde que os autos foram recebidos do E. TRT, mas a obrigação somente fora cumprida em 8.1.2007, o que caracteriza um manifesto descaso com as decisões judiciais, pois via de regra ordem judicial é para ser cumprida e no prazo estipulado. É inconcebível a conduta de qualquer uma das partes que retarda, propositadamente ou por desleixo, o cumprimento de uma ordem judicial.” (decisão proferida pela D. 71ª Vara do Trabalho, em 24.05.07, no processo 01666200207102001).
Com relação a esse último dispositivo legal, merece especial destaque a disposição de seu inc. IV, que pune o devedor que deixa de informar ao juízo onde se encontram seus bens, para que respondam à execução (e a faculdade do juízo de exigir que o devedor preste essa informação vem prevista nos arts. 652, § 3o, e 656, § 1o, do Código, modificados pela Lei n.º 11.382/06). Trata-se de previsão que, se devidamente utilizada, muito poderia contribuir para a efetividade da prestação jurisdicional e para o rápido encerramento do processo de execução – e cujo desatendimento viola não apenas o art. 600 do CPC como também o dever contido no inc. V de seu art. 14.