4 FORMAÇÃO DO COORDENADOR PEDAGÓGICO
4.2 O coordenador como formador de professor: suas ações formativas
4.2.4 Devolutiva da formadora, baseada nas produções dos professores
aos colegas. Os resultados são bons, e o formador planeja situações a partir da leitura em voz alta para trabalhar com os professores o comportamento leitor12. Além disso, em discussões coletivas posteriores, os professores também discutem e se apropriam da condição didática da leitura em voz alta, dialogando sobre procedimentos utilizados.
Neste caso, o formador/coordenador tem mais condições de explicitar a importância de ler aos alunos diariamente, pois os professores estão vivenciando esses momentos, e são capazes de compreender as relações que os alunos realizam com a leitura, quais estratégias formam as melhores para chamar a atenção para a história, os propósitos envolvidos etc.
Segundo as autoras, é importante frisar que a situação de dupla conceitualização aproxima os professores do ponto de vista do aluno e com isso observam os problemas, as dificuldades que podem ser apresentadas, colaborando com maior facilidade para superá-los. Afirmam que:
Compreender melhor a natureza da atividade intelectual que as crianças terão que realizar permite valorizar seus esforços, produções e descobertas e obriga – também – a afinar as condições que consideram ao organizar a classe (CARDOSO et al., 2007, p. 101).
Essa estratégia de formação contribui para que os docentes, além de incorporarem aspectos necessários dos conteúdos a serem ensinados aos alunos, também geram reflexões didaticamente relevantes do saber fazer, do ensino, da metodologia e situam-no na posição de sujeito da aprendizagem.
4.2.4 Devolutiva da formadora, baseada nas produções dos professores
Antes de relatar sobre a estratégia de devolutiva do coordenador, é importante destacar o registro, a escrita, como importante instrumento para o desenvolvimento profissional.
Weisz afirma que documentar permite trazer a prática como análise de reflexão. Explica:
12 Comportamento leitor.
O ato de refletir por escrito possibilita a criação de um espaço para que a reflexão sobre a prática ultrapasse a simples constatação. Escrever sobre alguma coisa faz com que se construa uma experiência de reflexão organizada, produzindo, para nós mesmos, um conhecimento mais aprofundado sore a prática, sobre as nossas crenças, sobre o que sabemos e o que não sabemos (2004, p. 129). A escrita auxilia a organização das ideias, criando condições para refletir sobre a prática e avançar no conhecimento sobre o trabalho pedagógico.
Normalmente, o professor não gosta da ideia de registrar, pois se acumulam muitas atividades diárias, como elaboração de atividades, correção, avaliações etc. O registro passa normalmente a ideia de que transcrever o que fez, sem feedback; é apenas mais uma atividade desnecessária do professor.
Para tornar a escrita uma boa estratégia para o desenvolvimento do professor, Fujikawa apresenta algumas contribuições da escrita profissional:
Os registros são portadores de histórias: histórias das práticas (dos equívocos e dos acertos) e das teorias que as fundamentam (mesmo que não estejam explicitadas, pois o registro possibilita esse olhar para o que está por detrás das práticas). Histórias dos afetos e das parcerias, marcadas pelas pessoas que constituem e complementam nossa formação, história de um tempo e de um espaço vividos.
Os registros podem gerar mudanças na prática: a análise do que foi registrado (e, portanto, teorizado, sentido, praticado) permite um distanciamento entre o autor e sua obra. Na medida em que analisa, avalia tenta enxergar a teoria que iluminou as suas ações, verifica o que faltou ou o que poderia ser feito, possibilita a revisão e a reflexão da prática pedagógica, permitindo, assim, antecipação e planejamento de ações futuras.
Os registros favorecem a construção de identidade profissional: o registro documenta, traduz aquilo que se faz (ou que se pensa que se faz). Nesse processo, o professor/educador é o protagonista de sua ação/prática pedagógica. Assim, portanto a autoria daquilo que faz, de suas escolhas, opções, avaliando as decisões tomadas ao longo de seu percurso profissional.
Os registros contribuem para a sistematização do trabalho e a organização dos saberes: o exercício da escrita permite a “materialização” do pensamento (WEFFORT, 1995, p. 44) e, dessa forma exige o estabelecimento de relações entre as intenções e as realizações entre as expectativas e os alcances e entre as conquistas e as faltas. [...]
A socialização dos registros possibilita diálogo, troca de experiências e favorece a construção de vínculos profissionais: no processo de socialização, cada indivíduo(s) expõe ao outro(s) as suas perspectivas de análise da realidade, possibilitando o confronto e a partilha de conhecimentos, experiências e concepções (SOLIGO; PRADO, 2007, p. 237).
Os registros podem, assim como descritos, contribuir para formação do professor na escola, tanto realizando diários, relatórios de alunos ou do grupo, registro de reuniões ou alguma construção de gênero com fim específico. Com a prática da escrita, o docente ou qualquer outro profissional da escolar pode tornar-se observador consciente de sua prática, capaz de refletir sobre o seu trabalho.
O registro reflexivo torna-se, nesse contexto, um valioso instrumento para análise da prática pedagógica, já que sistematiza os saberes adquiridos na sua profissão. Zabalza (1994) considera o diário um bom recurso para reflexão pessoal, profissional, numa perspectiva distanciada para atividade cotidiana. Os textos escritos nos diários são narrativas pessoais, reflexivas, com relatos e descrições de algumas situações vivenciadas.
Essa escrita tem maior significado quando destinada a alguém e compartilhada, e o coordenador pode usá-la como instrumento do seu trabalho. É a partir dos registros de semanários13, por exemplo, ou dos diários, que o coordenador
aproxima-se da concepção que está por trás da prática dos seus professores, mesmo que de forma implícita. A partir da leitura, é possível realizar intervenções sobre a prática realizando devolutivas aos educadores.
Segundo Carvalho et al. (2006), quando encarado com ética e respeito, o coordenador, através da leitura dos registros, pode buscar estratégias para desestabilizar as crenças e hipótese encontradas nos relatos, nas escritas dos docentes. Uma delas é fazer comentários elogiando e propondo sugestões de atividades, no caso do planejamento, ou realizando boas problematizações nas reflexões dos professores. Essas devolutivas também são escritas e os autores sugerem algumas possibilidades:
a) sugestões quanto à forma de escrever no diário. Neste caso, o coordenador pode pedir que o professor descreva sobre a participação dos alunos, intervenções, encaminhamentos ou dificuldades, para continuar a refletir sobre a ação pedagógica;
b) sugestões relativas à forma de conduzir a atividade. O coordenador pode sugerir atividades, uma nova organização na rotina, pedir justificativa da necessidade de determinada atividade, sugerir materiais etc.;
13 Termo utilizado pelos professores em relação à planilha de planejamento semanal utilizada em algumas escolas.
c) sugestões sobre encaminhamentos relativos às questões de estudo: problematizar situações, sugerir replanejamento, textos complementares para leitura, lembrar de questões estudadas etc.
A devolutiva escrita do formador é também um meio para aproximar-se do professor e mostrar-se capaz de auxiliar sua prática pedagógica. A partir desses registros individuais, em forma de devolutivas, cartas, bilhetes, é possível criar uma relação de confiança e parceria entre coordenador e professor, além de contribuir de fato com a formação da equipe de docentes.
É importante destacar que essas estratégias têm benefícios se tiverem por trás um conteúdo a ser ensinado ao aluno. Tanto o foco da observação, quanto da tematização, da dupla conceitualização e de qualquer devolutiva proposta deve ter o conteúdo subjacente a estas práticas. O coordenador, além da metodologia, deve selecionar conteúdos necessários para aprofundamento dos professores de Ensino Fundamental I, pois são polivalentes. Isso dependerá da realidade de cada unidade escolar.
Essas estratégias formativas confirmam a complexidade da função do coordenador pedagógico e a exigência de busca constante de formação.