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Diálogo do Estado Constitucional com o transconstitucionalismo

No documento CHRISTINE OLIVEIRA PETER DA SILVA 0919598 (páginas 55-68)

CAPÍTULO I DO ESTADO DE DIREITO AO ESTADO CONSTITUCIONAL E COOPERATIVO

1.3. Do Estado de Direito ao Estado Constitucional

1.4.1. Diálogo do Estado Constitucional com o transconstitucionalismo

A proposta de um possível diálogo entre a ideia de Estado Constitucional com o

fenômeno denominado por Marcelo Neves como transconstitucionalismo justifica-se pelo fato

de o paradigma do cooperativismo, necessariamente acoplado ao de Estado Constitucional no

presente estudo, exigir conexões daquilo que se conceituou como Estado Constitucional com

o chamado transnacionalismo.

Se, para Marcelo Neves, o fato de a mesma questão de natureza constitucional ser

enfrentada concomitantemente por diversas ordens leva ao transconstitucionalismo, presumo

que o fato de os direitos fundamentais serem concretizados a partir de referências a elementos

variados advindos de diversas ordens constitucionais também esteja contemplado pelo mesmo

fenômeno.

O transconstitucionalismo, em regra, é pluridimensional, pois tende a envolver mais de

duas ordens jurídicas, sejam elas de mesma espécie ou de tipos diversos.

203

Para explicar esse

      

201SARLET, Ingo W. A eficácia dos direitos fundamentais. Porto Alegre : Editora Livraria do Advogado, 1998, p. 185.

202SARLET, Ingo W. A eficácia dos direitos fundamentais. Porto Alegre : Editora Livraria do Advogado, 1998, p. 147-148.

fenômeno, Marcelo Neves recorre ao conceito de “sistema de níveis múltiplos” que, na

verdade, tem origem na concepção de “política de níveis múltiplos”.

204

A ideia permeia uma “pluralidade de ordens cujos tipos estruturais, formas de

diferenciação, modelos de autocompreensão e modos de concretização são fortemente

diversos e peculiares, uma multiplicidade da qual resultam entrelaçamentos nos quais

nenhuma das ordens pode apresentar-se legitimamente como detentora da ultima ratio

discursiva.”

205

Isso implica, para Marcelo Neves, a ideia de um “sistema multicêntrico, no qual,

embora haja hierarquia no interior das ordens, prevalecem entre elas as relações heterárquicas.

O nexo circular entre as ordens admite apenas a noção de uma hierarquia entrelaçada, que é

incompatível com uma conexão escalonada entre elas.”

206

Dessa forma, é possível afirmar que a transjusfundamentalidade, que pretendo

apresentar como conceito metodológico no presente trabalho, aproxima-se da

transconstitucionalidade, proposta por Marcelo Neves. Isso porque, se aqui proponho uma

análise transnacional do fenômeno da concretização dos direitos fundamentais, ou seja, uma

análise da concretização das partes dogmáticas das constituições por meio de métodos que

prestigiam a migração e circulação de ideias jusfundamentais, não há como deixar de

reconhecer a necessidade de uma visão dialógica entre as diversas ordens constitucionais

estatais, tal como proposta no transconstitucionalismo de Marcelo Neves

207

.

Não obstante, é preciso também afirmar que a proposta de transjusfundamentalidade

afasta-se da de transconstitucionalidade, na medida em que a transjusfundamentalidade

assume a possibilidade de estarmos diante de mudança de critérios do próprio

constitucionalismo, o que implica aceitar que o fato de outras ordens “não-constitucionais”

entrarem no diálogo proposto, não significa que os problemas comuns deveriam, ou mesmo

seria desejável que aderissem, aos critérios do constitucionalismo, como sugere Marcelo

Neves.

      

204 NEVES, Marcelo. Transconstitucionalismo. São Paulo : Editora Martins Fontes, 2009, p. 236, notas 2 e 3. 205 NEVES, Marcelo. Transconstitucionalismo. São Paulo : Editora Martins Fontes, 2009,p. 236-237. 206 NEVES, Marcelo. Transconstitucionalismo. São Paulo : Editora Martins Fontes, 2009, p. 237.

207 E aqui, obrigatoriamente, tenho que esclarecer que o objeto da presente tese é menor do que aquele que conduziu o Professor Marcelo Neves à sua obra sobre o transconstitucionalismo, pois, diferentemente dele, não pretendo abordar outras ordens além das nacionais. Isso entretanto, não retira o caráter “trans” do trabalho de pesquisa, pois o tratamento metodológico será o mesmo, havendo apenas um recorte consciente da pesquisa empírica.

Ora, a visão de que os problemas comuns não estão aderindo aos critérios do

constitucionalismo, como premissa teórica, pressupõe um dualismo ou um pluralismo de

sistemas jurídicos em concorrência – mas que, a meu ver, nesse novo contexto, não implica

necessariamente que uns ou outros tenham que rever suas premissas dogmáticas, para

integrar-se ao diálogo transnacional (e digo, transjusfundamental) de forma plena.

208

Tenho a pretensão de integrar, com ajuda do conceito de transjusfundamentalidade, o

constitucionalismo (que, à moda clássica, é nacional) às outras ordens normativas – locais,

regionais, internacionais, supranacionais e transnacionais –, sem que nenhuma tenha que

ceder à outra, mantendo suas próprias identidades dentro do sistema de interações recíprocas.

Porém, tenho consciência de que tal tarefa exige um diálogo com posições contrárias,

todas elas muito sólidas e sustentáveis. E aqui já surge o primeiro paradoxo da pesquisa.

Vinculo-me às idéias centrais da formulação transconstitucionalista, principalmente da

racionalidade transversal que implica aprendizado recíproco e intercâmbio criativo.”

209

,

todavia não concordo com objetivo de Marcelo Neves de buscar uma solução para a eventual

concorrência entre sistemas jurídicos internos e externos (nacionais de um lado; regionais,

internacionais ou transnacionais de outro)

210

, porque esta solução para mim não se revela

importante, nem viável no modelo de Estado Constitucional do século XXI.

O transconstitucionalismo importa a questão inevitável da dupla contingência, que

significa, por sua vez, a permanente necessidade de reconhecimento recíproco entre as

diversas ordens. “O problema do reconhecimento põe-se precisamente quando um dos pólos,

na relação de observação recíproca entre ego e alter, não se dispõe a suportar a liberdade do

outro, tanto porque não considera o seu comportamento como ação.”

211

Aqui é importante ressaltar que a alteridade ganha relevo, para a metodologia

transconstitucionalista, na medida em que a reconstrução permanente da identidade

      

208 O monismo é objeto de reflexão da obra de Marcelo Neves, a partir da seguinte colocação: “Afirmada essa emergência dos problemas constitucionais perante ordens jurídicas as mais diversas, reaparecendo a cada momento em forma de hidra, não há mais uma Constituição-Hércules que possa solucioná-los. A fragmentação dos problemas constitucionais permaneceria desestruturada se cada ordem jurídica pretendesse enfrentá-los isoladamente a cada caso. Impõe-se, pois, um diálogo ou uma conversação transconstitucional. É evidente que o transconstitucionalismo não é capaz de levar a uma unidade constitucional do sistema jurídico mundial. Mas ele parece que tem sido a única forma eficaz de dar e estruturar respostas adequadas aos problemas constitucionais que emergem fragmentariamente no contexto da sociedade mundial hodierna” NEVES, Marcelo.

Transconstitucionalismo. São Paulo : Editora Martins Fontes, 2009, p. 121-122.

209 NEVES, Marcelo. Transconstitucionalismo. São Paulo : Editora Martins Fontes, 2009, p. 115. 210 NEVES, Marcelo. Transconstitucionalismo. São Paulo : Editora Martins Fontes, 2009, p. 118 211 NEVES, Marcelo. Transconstitucionalismo. São Paulo : Editora Martins Fontes, 2009, p. 271-272.

constitucional é dela dependente, o que significa uma pronta disposição para aberturas

cognitivas e normativas entre as ordens entrelaçadas.

212

Afilio-me à tese de Marcelo Neves, portanto, na parte em que afirma que o

transconstitucionalismo implica conversações constitucionais, e, assim, reconhece a

incorporação recíproca de conteúdos, a qual envolve uma “certa desconstrução do outro e

uma autodesconstrução: tanto conteúdos de sentido do outro são desarticulados (falsificados!)

e rearticulados internamente, quanto conteúdos de sentido originários da própria ordem são

desarticulados (falsificados!) e rearticulados em face da introdução do outro.”

213

Rejeito, por outro lado, toda forma de racionalização binária que possa reduzir as

relações entre tais ordens nacionais, internacionais, supranacionais ou transnacionais a inputs

e outputs entre sistemas

214

. Isso porque, não entendo como premissa relevante para o estudo

aqui proposto o reconhecimento das ordens diferenciadas para o tratamento das mesmas

questões, nem muito menos pontos referenciais estanques, ou binários, de onde partem as

premissas para a concretização dos direitos fundamentais

215

.

Não enxergo direções e vetores conhecidos nas relações transnacionais, nem soluções

previamente identificáveis ou, muito menos, controláveis, mas, sim, uma construção

compartilhada de experiências que se aproximam e se distanciam, mediadas por si mesmas, e

pela própria história dos acontecimentos.

Distancio-me da tese de Marcelo Neves quando ele afirma que “o problema consiste

em delinear as formas de relação entre ordens jurídicas diversas”

216

. E explica: “dentro de um

      

212 Segundo Marcelo Neves: “Só em um modelo de alteridade, que se construa exatamente na busca de uma permanente possibilidade de alteração da identidade em face do outro, pode-se processar o paradoxo da colisão entre direitos fundamentais.”NEVES, Marcelo. Transconstitucionalismo. São Paulo : Editora Martins Fontes, 2009, p. 272; 274.

213 Nesse contexto Marcelo Neves afirma: “O transconstitucionalismo faz emergir, por um lado, uma fertilização constitucional cruzada (nota 9 Slaughter). As cortes constitucionais citam-se reciprocamente não como precedente, mas como autoridade persuasiva.” (NEVES, Marcelo. Transconstitucionalismo. São Paulo : Editora Martins Fontes, 2009, p. 118 - 119)

214 É de sua própria pesquisa que colho a fundamentação para essa minha refutação: “A sociedade mundial constitui-se como uma conexão unitária de uma pluralidade de âmbitos de comunicação em relação de concorrência e, simultaneamente, de complementaridade. Trata-se de uma unitas multiplex (NEVES, Marcelo.

Transconstitucionalismo. São Paulo : Editora Martins Fontes, 2009,p. 26, nota 95, referência a Tyrell).

215 E aqui vale a observação de que a sociedade mundial “não se confunde com a ordem internacional, pois essa diz respeito fundamentalmente às relações entre Estados. A ordem internacional é apenas uma das dimensões da sociedade mundial.” NEVES, Marcelo. Transconstitucionalismo. São Paulo : Editora Martins Fontes, 2009, p. 26-27.

216 Marcelo Neves anota: “(...) para que o transconstitucionalismo se desenvolva plenamente é fundamental que, nas respectivas ordens envolvidas, estejam presentes princípios e regras de organização que levem a sério os

mesmo sistema funcional da sociedade mundial moderna, o direito, proliferam ordens

jurídicas diferenciadas, subordinadas ao mesmo código binário, isto é, lícito/ilícito, mas com

diversos programas e critérios (Nota 1, Luhmann, 1986c).”

217

Mas, certamente, aproximo-me

dela quando afirma:

“não só a sociedade mundial, mas também o seu sistema jurídico é multicêntrico, de tal maneira que, na perspectiva do centro (juízes e tribunais) de uma ordem jurídica, o centro de uma outra ordem jurídica constitui uma periferia.(...)Essa situação importa relações de observação mútua, no contexto da qual se desenvolvem formas de aprendizado e intercâmbio, sem que se possa definir o primado definitivo de uma das ordens, ultima ratio jurídica.”218

E não posso negar que há muito mais convergência dos que divergências entre a

transjusfundamentalidade e o transconstitucionalismo, principalmente se se considerar que:

“A questão do transconstitucionalismo não se refere, portanto, à referência inflacionária à existência de uma Constituição em praticamente toda nova ordem jurídica que emerge com pretensão de autonomia. Não interessa primariamente ao conceito de transconstitucionalidade saber em que ordem se encontra uma Constituição, nem mesmo defini-la como um privilégio do Estado. O fundamental é precisar que os problemas constitucionais surgem em diversas ordens jurídicas, exigindo soluções fundadas no entrelaçamento entre elas.”219

       problemas básicos do constitucionalismo.” NEVES, Marcelo. Transconstitucionalismo. São Paulo : Editora Martins Fontes, 2009, p.p. 129

217 NEVES, Marcelo. Transconstitucionalismo. São Paulo : Editora Martins Fontes, 2009, p.115

218 E aqui vale destacar a idéia de que se fala em conversações ou diálogos entre cortes, mas que tal conversação a rigor não necessariamente tem embutida a idéia de cooperação permanente, no sentido de ausência de conflitos, pois “No limiar, toda conversação entre cortes carrega em si o potencial de disputa.” NEVES, Marcelo.

Transconstitucionalismo. São Paulo : Editora Martins Fontes, 2009,p. 116-117

219 E aqui vale a explicação complementar de Marcelo Neves: “Assim, um mesmo problema de direitos fundamentais pode apresentar-se perante uma ordem estatal, local, internacional, supranacional e transnacional (no sentido estrito) ou, com freqüência, perante mais de uma dessas ordens, o que implica cooperações e conflitos, exigindo aprendizado recíproco.” NEVES, Marcelo. Transconstitucionalismo. São Paulo : Editora Martins Fontes, 2009, p. 121.

Para Marcelo Neves, “a semântica constitucionalista relaciona-se com mudanças na

estrutura social”

220

o que implica considerar a metáfora não apenas como um deslocamento

entre palavras, mas verdadeira transação entre contextos. A construção transjusfundamental

implica o ampliar de horizontes, se não por força de vontades particulares, certamente por

força de contingências da modernidade. Assim, se se reconhece com Marcelo Neves que:

“todo uso de linguagem natural carrega uma carga metafórica maior ou menor”

221

, é de

também com ele concluir-se que “nesse sentido, não há dúvida de que Constituição é uma das

metáforas da semântica social contemporânea”.

222

E pensando na Constituição como uma metáfora cultural das sociedades

contemporâneas modernas, é preciso mais uma vez concordar com Marcelo Neves

223

que

“(...) não se pode recorrer, indiscriminadamente, ao conceito de Constituição em contextos

sociais os mais diversos, convertendo-o em um componente de jogos de linguagem estranhos

à respectiva forma de vida, no sentido wittgensteiniano, ou seja, sem suporte estrutural.”

224

A crítica oportuna é de que a utilização metafórica do conceito de Constituição, sem a

correspondente concretização de seus termos, abriu espaço para um constitucionalismo

simbólico, no qual a Constituição deixa de ser um conceito-guia para tornar-se um conceito-

panacéia.

225

E aqui a advertência ganha relevância concreta em minha pesquisa: não é mais o

tempo de se estudar direitos fundamentais pela racionalidade puramente semântica.

O único é possível ambiente semiótico para se investigar os direitos fundamentais é a

pragmática, ou seja, o ambiente contextualizado, com suas circunstâncias, contingências e

exigências estruturais plurais e multifacetadas.

Marcelo Neves, ao discorrer sobre a sociedade moderna multicêntrica, ensina, com

apoio na doutrina de Luhmann

226

, que ela se torna policontextural e que “qualquer forma de

      

220 NEVES, Marcelo. Transconstitucionalismo. São Paulo : Editora Martins Fontes, 2009, p. 1-2 221 NEVES, Marcelo. Transconstitucionalismo. São Paulo : Editora Martins Fontes, 2009, p. 2 222 NEVES, Marcelo. Transconstitucionalismo. São Paulo : Editora Martins Fontes, 2009, p. 2 223 Aqui mais uma vez a doutrina de Luhmann (1980 e 1990a).

224 NEVES, Marcelo. Transconstitucionalismo. São Paulo : Editora Martins Fontes, 2009, p. 3

225 E nesse particular afirma o professor: “Esse problema relaciona-se com o fato de que a Constituição passou a ser suporte de esperança e o seu conceito, assim como o de constitucionalização, partiu para uma ofensiva vitoriosa, assumindo o caráter de um conceito político de luta.” NEVES, Marcelo. Transconstitucionalismo. São Paulo : Editora Martins Fontes, 2009, p. 5

autismo desenvolvido em uma esfera pode ter efeitos destrutivos nas outras esferas sociais e,

por fim, também sobre a integração social e sistêmica de uma sociedade complexa.”

227

Muito relevante o conceito de racionalidade transversal para a obra de Marcelo Neves.

Talvez esse seja o ponto de maior contato entre o transconstitucionalismo e a

transjusfundamentalidade. Por racionalidade transversal entenda-se uma metódica que propõe

sua realização através de pontes de transição entre as esferas heterogêneas, ou seja, pelo

aprendizado e intercâmbio recíprocos entre nacionalidades parciais mediante interferências

estruturais.

228

Advirta-se, entretanto, que há dois perigos iminentes na idéia de racionalidade

transversal: o perigo da atomização, em que “a alteridade é negada, tendo em vista que uma

esfera de racionalidade perde a capacidade de aprendizado em relação a outra ou atua

negativamente para o desenvolvimento dessa”

229

e o perigo da expansão imperialista de uma

racionalidade sobre as demais.

230

Se é verdade que o transconstitucionalismo é uma realidade crescente e perceptível,

que se desenvolve rapidamente no plano estrutural do sistema jurídico, também é verdade que

ele ainda é muito incipiente no contexto da sociedade mundial. Mas não há dúvidas de que já

é passado o momento de se perceber que o direito constitucional se projeta para além do

Estado, tornando-se evidente a necessidade de uma teoria e uma dogmática do direito

transconstitucional.

231

Para Marcelo Neves, utilizando lição de Luhmann, a soberania é “uma

responsabilidade política regional nas condições estruturais da sociedade mundial”

232

Ao

anotar que há soberania no plano interno – como responsabilidade do Estado perante seu

contexto social – e soberania externa – como responsabilidade no plano interestatal – Marcelo

      

227 E continua: “a sociedade moderna nasce como uma sociedade mundial, apresentando-se como uma formação social que se desvincula das organizações políticas territoriais, embora estas, na forma de Estados, constituam uma das dimensões fundamentais à sua reprodução.”NEVES, Marcelo. Transconstitucionalismo. São Paulo : Editora Martins Fontes, 2009,p. 24-26.

228 NEVES, Marcelo. Transconstitucionalismo. São Paulo : Editora Martins Fontes, 2009, p. 45 229 NEVES, Marcelo. Transconstitucionalismo. São Paulo : Editora Martins Fontes, 2009, p. 45

230 Nas palavras de Marcelo Neves isso ocorre “quando o sistema que dispõe de um código forte, ao relegar um outro à insignificância, não só prejudica as pontes de transição, como também dificulta que os respectivos sistemas atuem adequadamente em relação à sociedade: um por força da tendência hipertrófica; o outro, por força de uma propensão à atrofia.” Cfr. NEVES, Marcelo. Transconstitucionalismo. São Paulo : Editora Martins Fontes, 2009, p. 47

231 NEVES, Marcelo. Transconstitucionalismo. São Paulo : Editora Martins Fontes, 2009, p. 131. 232 NEVES, Marcelo. Transconstitucionalismo. São Paulo : Editora Martins Fontes, 2009,p.134.

Neves confirma que não se apresenta racional um modelo que pressupõe a soberania apenas

em um desses aspectos

233

, pois “a abertura da estatalidade, (...), trouxe consigo uma

interpenetração entre ordem estatal e internacional, que exige progressivamente um

aprendizado e um intercâmbio entre as experiências com racionalidades específicas nas duas

perspectivas, a estatal e a internacional.”

234

Nesse particular, é preciso deixar claro que não apenas os tribunais constitucionais

devem estar abertos ao diálogo com os tribunais internacionais

235

, mas também os tribunais

internacionais devem atentar para o desenvolvimento das “compreensões particulares dos

direitos fundamentais nas diversas ordens jurídicas nacionais.”

236

A maior novidade da racionalidade transversal é que ela propõe uma interação

dinâmica e circular entre as ordens estatal e transnacional, tendo em vista que o tratamento

univetorial aponta para uma lógica a ser superada

237

. E continua Marcelo Neves: “Nesse

sentido, cabe apontar antes para uma conversação constitucional fundada no aprendizado

recíproco do que em uma forma hierárquica monolítica.”

238

Os diálogos transconstitucionais inspiram a possibilidade de um mínimo de equilíbrio

entre a consciência jurídica (interna) e a adequação jurídica (externa) das decisões das

diferentes Cortes, sejam elas nacionais ou internacionais. Mas para isso é necessária uma nova

      

233 E aqui vale a observação de Marcelo Neves: “Ou seja, tanto em uma perspectiva quanto em outra, os problemas constitucionais passam a ter uma relevância simultânea, exigindo novos modelos de análise: não só o provincialismo estatalista deve ser aqui rejeitado; igualmente é prejudicial a um modelo racionalmente adequado de solução de conflitos o pseudouniversalismo internacionalista, que, antes, constitui uma outra forma de visão provinciana dos problemas constitucionais.” NEVES, Marcelo. Transconstitucionalismo. São Paulo : Editora Martins Fontes, 2009, p. 135.

234 Afirma: “Em relação à pluralidade de constitucionalismos europeus, impõe-se ao Tribunal Europeu de Direitos Humanos uma posição flexível ao decidir com pretensão vinculante a respeito de casos que afetam diversos países considerando também as autocompreensões constitucionais específicas e suas metamorfoses.” NEVES, Marcelo. Transconstitucionalismo. São Paulo : Editora Martins Fontes, 2009,p. 134.

235 E ao comentar sobre a postura muitas vezes intransigente de tribunais constitucionais, relembra o debate entre Hans Kelsen (1931) e Carl Schmitt (1931) sobre quem deveria ser o guardião da Constituição, e afirma: “(...) O problema é que, na concepção de “hierarquia entrelaçada”, todo controle implica um contracontrole, não havendo, a rigor, o controle último e definitivo (Luhmann, 1987c, p. 63), mas apenas, eventualmente, o predominante ou hegemônico.” NEVES, Marcelo. Transconstitucionalismo. São Paulo : Editora Martins Fontes, 2009, p. 157, nota 112.

236 NEVES, Marcelo. Transconstitucionalismo. São Paulo : Editora Martins Fontes, 2009, p.137; 142.

237 Nesse sentido afirma Marcelo Neves: “(...) exemplos em torno do transconstitucionalismo entre ordens internacionais e ordens estatais apontam para a necessidade de superação do tratamento provinciano de problemas constitucionais pelos Estados, sem que isso nos leve à crença na ultima ratio do direito internacional público: não só aqueles, mas também este pode equivocar-se quando confrontado com questões constitucionais, inclusive com problemas de direitos humanos.”Cfr. NEVES, Marcelo. Transconstitucionalismo. São Paulo : Editora Martins Fontes, 2009, p. 151.

metodologia do transconstitucionalismo, a qual se fundamenta na alteridade e flexibilidade,

que se resume na tolerância acerca de concepções jusfundamentais diversas.

239

Aqui é preciso lembrar que Constituição, para Marcelo Neves, é a instância de

autofundamentação normativa do Estado, ou seja, critério básico de autocompreensão da

ordem jurídica estatal.

240

Reconhecendo a importância dos níveis entrelaçados de

fundamentação das decisões internas e externas do Estado, a Constituição nacional não

deixará de ter importância para a resolução dos problemas fundamentais

241

– especialmente

aqueles que envolvem direitos fundamentais e competências –, mas é preciso reconhecer que

a própria Constituição envolve-se no dinâmico jogo constitucional com outros níveis

decisórios.

242

Ao comentar o caso da prisão civil do depositário infiel do Supremo Tribunal Federal,

Marcelo Neves afirma que o referido caso é “um indício claro de que a ordem jurídica estatal,

autofundamentada constitucionalmente, importa hierarquias entrelaçadas ou “voltas

estranhas”, envolvendo inclusive o próprio nível – em princípio – inviolável, a

Constituição.”

243

Mas, como o próprio Marcelo Neves destaca, esse exemplo nada tem de extraordinário

em relação a qualquer outra decisão no contexto da jurisdição constitucional, revelando-se

apenas como mais um exemplo da “superação do constitucionalismo provinciano ou paroquial

pelo transconstitucionalismo.”

244

Isso realmente deve ser levado a sério pois é indiscutível que

o Estado deixa de ser a única alternativa para a solução de problemas constitucionais,

passando a ser mais um dos importantes interlocutores em cooperação e concorrência na

busca por soluções para esses problemas.

245

      

239 NEVES, Marcelo. Transconstitucionalismo. São Paulo : Editora Martins Fontes, 2009, p. 165-166. Afirma expressamente Marcelo Neves: “O diálogo transconstitucional

240 NEVES, Marcelo. Transconstitucionalismo. São Paulo : Editora Martins Fontes, 2009,p. 295.

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