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CAPÍTULO II – TRANSJUSFUNDAMENTALIDADE: DIÁLOGOS JUDICIAIS TRANSNACIONAIS

2.4. Comunidade global de Cortes Constitucionais?

2.4.1. Intróito

Anne-Marie Slaughter propõe, em um texto de 2003

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, a utilização da expressão

litigância transnacional para enfatizar a prática de disputas que incluem tanto aquelas

estabelecidas entre Estados Nacionais entre si (disputas as quais, ainda que de forma indireta,

também discutem direitos individuais), quanto aquelas entre indivíduos e estados e entre

indivíduos de nacionalidades diversas. Anota que disputas que antes somente poderiam ser

levadas a cortes domésticas ganham também a possibilidade de serem discutidas em tribunais

internacionais ou tribunais arbitrais, de forma paralela ou sequencial.

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A proposta de uma comunidade global de Cortes estava fundada na perspectiva

universalista das comunidades internacionais do início do século XXI, que estavam de um

lado impulsionadas pelos textos de vanguarda que viam com grande entusiasmo os rumos

tomados pelo método comparativo no final do século passado

565

, e de outro lado já envolvidos

      

563SLAUGHTER, Anne-Marie. A global community of courts, in Harvard International Law Journal, v. 44, p. 191-219, 2003.Disponível em: http://www.princeton.edu/~slaughtr/articles.html. acessado em outubro/2012. 564SLAUGHTER, Anne-Marie. A global community of courts, in Harvard International Law Journal, v. 44, p. 191-219, 2003, p. 192. Disponível em: http://www.princeton.edu/~slaughtr/articles.html. acessado em outubro/2012.

565 Dentre eles destacam-se: ACKERMAN, Bruce. The rise of world constitucionalism, in Virginia Law Review, v. 83, n. 4, p. 771-797, 1997; L'HEUREUX-DUBÉ, Claire. The importance of dialogue: globalization and the international impact of the Rehnquist Court, in Tulsa Law Journal, v. 34, n. 15, p. 15-ss, 1998; FLETCHER, George P. Comparative law as a subversive discipline, in The American Journal of Comparative Law, v. 46, n. 4, p. 683-700, 1998; CHOUDHRY, Sujit. Globalization in search of justification: toward a theory of comparative constitucional interpretation, in Indiana Law Journal, v. 74, n. 3, p. 819-948, 1999; KOKKOT, Juliane. From reception and transplantation to convergence of constitutional models in the age of globalization, in STARCK,

com a busca por soluções reguladoras exigidas no contexto dos episódios que se seguiram ao

ataque sofrido pelos Estados Unidos da América, em 11 de setembro de 2001.

Há quem afirme que o termo diplomacia judicial, que envolve relações e

procedimentos comuns de interação entre cortes domésticas e estrangeiras, bem como entre

cortes domésticas e cortes internacionais, também pode significar ações e interrelações com

intuito de integração entre as instituições responsáveis pelo exercício do poder judiciário.

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Nessa perspectiva, a diplomacia judicial promoveria o diálogo entre juízes e também o

intercâmbio de ideias entre eles, fomentando a consolidação de uma rede de informações e

dados relevantes e disponíveis para o fortalecimento da integração entre os países.

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Não há dúvidas de que a troca de informações e o intercâmbio de entendimentos

judiciais sobre determinados assuntos conduzem a um contínuo diálogo que se apresenta

promissor tanto no campo da atuação cada vez mais crescente das cortes internacionais,

quanto na atuação cooperativa entre tais cortes e as cortes domésticas e/ou na perspectiva das

interrelações das cortes domésticas entre si.

Porém, como anotado por Leandro Despouy

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, é de ter em mente que muitos países

       Christian (org.) Constitucionalism, universalism and democracy: a comparative analysis. Baden-Badens: Nomos Verlagsgesellschaft, 1999, p. 71-134; TUSHNET, Mark V. The Possibilities of Comparative Constitutional Law, in The Yale Law Journal, vol. 108, n. 6, ano: 1999, p. 1225-1310; MCCRUDDEN, Christopher. A common law of human rights? transnational judicial conversations on constitutional rights, in Oxford Journal of Legal

Studies, v. 20, n. 4, p. 499-532, 2000; GROVE, Tara Leigh. The international judicial dialogue: when domestic

Constitutional Courts join the conversation, in Faculty Publications, paper nº 1226, 2001. Disponível em:

http://scholarship.law.wm.edu/facpubs/1226 Acessado em fevereiro de 2013; JACKSON, V.; TUSHNET, M. (org.). Defining the field of comparative constitutional law. Westport: Fraeger, 2002.

566Nesse sentido cfr: OLIVEIRA, Maria Ângela Jardim de Santa Cruz. Judicial diplomacy: the role of the Supreme Courts in Mercosur legal integration, in Harvard International Law Journal, v. 48, 2007, p. 93-94. Disponível em: http://www.harvardilj.org/online/114; acessado em novembro/2012.

567Revela-se notório o avanço, principalmente na segunda metade da última década, dos bancos de dados em que são depositados os precedentes judiciais dos países para facilitar o acesso às informações sobre julgamentos e possibilidade de intercâmbio acerca dos mais diversos entendimentos de cortes domésticas e internacionais. Para citar três bons exemplos tem-se: a) o portal internacional do Supremo Tribunal Federal que possui um banco de dados especializado na jurisprudência constitucional de maior relevância do Mercosul (http://www.cortesmercosul.jus.br/forum/cms/verTexto.asp?pagina=jurisprudenciaMercosul); b) também a Comissão Europeia para a Democracia através do Direito, conhecida como Comissão de Veneza, que mantém um banco de dados chamado CODICES, com resumos de casos importantes das Cortes Supremas e

Constitucionais dos diversos países membros (http://www.codices.coe.int/NXT/gateway.dll?f=templates&fn=default.htm); c) por fim, já estão disponíveis

bancos de dados privados, com acesso mediante assinatura, os quais tem por escopo manter atualizadas as informações concernentes o direito internacional público referentes a cortes internacionais, cortes domésticas e também os tribunais ad hoc, como por exemplo o Oxford Reports on International Law – ORIL (http://www.oxfordlawreports.com/).

568Ele é um Relator Especial das Nações Unidas para assuntos referentes à independência dos juízes e advogados.

ainda carecem de uma apropriada educação jurídica e cidadã, faltando-lhes também

treinamento e experiência no trato de questões complexas da hermenêutica cooperativa e

dialógica.

É natural a conclusão de que não existe fórmula mágica nem uma única receita para tal

desafio, uma vez que há imensa diversidade de sistemas normativos e culturais ao redor do

mundo, e que a resistência encontrada em alguns países emergentes justifica-se no receio de

que essa cooperação e diálogo se traduzam numa nova fórmula de colonização disfarçada de

intercâmbio de decisões e normas estrangeiras

569

.

Ao mesmo tempo que adverte, é também Leandro Despouy quem encoraja os esforços

no sentido do diálogo e cooperação judiciais, afirmando que mesmo nos países em que a

complexidade de lidar com o direito contemporâneo, com o direito religioso e com as normas

tribais ou de tradição histórica e cultural torna o processo mais difícil o diálogo com respeito é

um caminho com grandes possibilidades de sucesso.

570

O importante a destacar é que, independentemente da nomenclatura, o fenômeno

observado pelos acadêmicos e profissionais envolvidos com o tema evidencia a participação

cada vez mais explícita dos magistrados e suas equipes no processo de intercâmbio e trocas

dialógicas. Seja no campo das decisões judiciais, das práticas administrativas ou dos

princípios e teorias jurídicas, há um crescente envolvimento dos sujeitos que movimentam as

instituições – sejam os próprios magistrados, seus assessores ou mesmo os servidores das

mais diversas áreas administrativas – para o diálogo jurisdicional.

Anne-Marie Slaughter já atentava para tal fenômeno no início da década passada

571

,

consignando que um dos resultados mais evidentes da comunidade global de Cortes seria a

participação dos magistrados, os quais passaram a perceber seus colegas – magistrados de

outras nações ou de outras jurisdições – não apenas como servidores e representantes de um

governo em particular, mas como parceiros profissionais para o enfrentamento de problemas

      

569 DESPOUY, Leandro O. Perspectives on Judicial Dialogue and Cooperation: Keynote Address, in Harvard

International Law Journal, v. 48, p. 49-53, 2007, p. 53. Disponível em: http://www.harvardilj.org/online/107;

acessado em novembro/2012.

570Nesse sentido afirma: “I am convinced that such dialogue, with all its limits and difficulties, should be

prompted and developed.” Cfr: DESPOUY, Leandro O. Perspectives on Judicial Dialogue and Cooperation:

Keynote Address, in Harvard International Law Journal, v. 48, p. 49-53, 2007, p. 53. Disponível em: http://www.harvardilj.org/online/107; acessado em novembro/2012.

571Para não ser leviana com a história, antes dela merece destaque o artigo de 1998 de L'HEUREUX-DUBÉ, Claire. The importance of dialogue: globalization and the international impact of the Rehnquist Court, in Tulsa

que transcendem as próprias fronteiras.

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No documento CHRISTINE OLIVEIRA PETER DA SILVA 0919598 (páginas 146-149)