2. SOCIEDADE CIVIL, ESTADO E DIREITO: CONSIDERAÇÕES CRÍTICAS SOBRE A
2.2 O Projeto de Lei da Reforma Trabalhista: crise política, desdemocratização e
2.2.2 O diagnóstico dos atores sociais sobre processo legislativo do PL 6.787/16 a
Conforme explicitado na introdução da tese, a base empírica desta etapa da investigação foi construída por meio de um questionamento realizado com atores sociais do judiciário que atuam de maneira engajada no mundo jurídico trabalhista, na medida em que dirigiram ou presidiram associações profissionais de advogados – como a ABRAT (Associação Brasileira de Advogados Trabalhistas), a AGETRA (Associação Gaúcha de Advogados Trabalhistas), e a SATERGS (Associação de Advogados Trabalhistas de Empresas do Rio Grande do Sul) –, de magistrados – a AJD (Associação Juízes para a Democracia) –, ou de procuradores do trabalho – a ANPT (Associação Nacional dos Procuradores do Trabalho). Assim, os dados apresentados são o resultado de um excerto da investigação, e configuram a resposta dos atores à pergunta inicial de cada uma das entrevistas realizadas: “O(a) Sr.(a) entende que o Projeto de Lei da Reforma Trabalhista (PL 6.787/16) foi suficientemente debatido enquanto tramitava no Congresso Nacional?”
A resposta a seguir contém na sua essência uma indicação de que haveria um consenso no julgamento dos atores sociais acerca da tramitação do Projeto de Lei, fossem os entrevistados advogados de reclamantes ou de reclamados, magistrados ou membros do Ministério Público do Trabalho, como nesse caso: “Não foi debatido. Essa constatação é tão real, verdadeira e óbvia que eu duvido que alguém te diga o contrário. [...] Se tivessem levado todas essas questões da Reforma Trabalhista para um debate sério, ela não teria sido aprovada”. Assim, a fala do entrevistado, João Pedro Ferraz dos Passos, – atualmente advogado trabalhista, ex-Procurador Geral do Ministério Público do Trabalho, ex-Presidente da Associação Nacional dos Procuradores do Trabalho (ANPT) – em entrevista condedida em 18 de maio de 2018 durante a realização do IV Encontro de Direito Sindical, promovido em conjunto pela AGETRA e pela ABRAT, evento no qual ele participou de uma das atividades –, é significativa na representação do que alguns meses após o início da coleta de dados viria a se confirmar em todas as entrevistas realizadas, conforme se observará a seguir.
Para o juiz do trabalho Átila Roesler, membro da associação Juízes para a Democracia (AJD), não houve debate porque nem mesmo havia quórum para a instalação de algumas
comissões. Além disso, ele salienta que “a ANAMATRA, no dia da votação da reforma na Câmara foi proibida de entrar no Congresso, assim como a CUT, enquanto a FIESP estava lá dentro”. Devido a essas questões, ele entende que “se houve debate, foi apenas para um dos lados, apenas para os que defenderam essa Reforma”.
Em algumas entrevistas, os atores realizaram uma crítica a respeito do crescimento do tamanho do Projeto de Lei em comparação com a sua primeira versão. Esse foi o argumento utilizado por Antônio Castro, advogado trabalhista e ex-Presidente da AGETRA: “Não teve debate, ele chegou no Congresso Nacional como um Projeto de Lei de sete artigos, e se transformou num substitutivo com cento e dez artigos em um período de trâmite de 60 dias, então não teve discussão”. No mesmo sentido o posicionamento da advogada trabalhista e ex- Presidente da AGETRA, Maria Cristina Carrion: “Entra um Projeto de Lei que altera meia dúzia de artigos ou parágrafos. Em questão semanas, se apresenta um relatório de alteração que altera mais de duzentos itens entre artigos, parágrafos e incisos da CLT”. Para ela, essa foi uma alteração “muito grande, que não foi debatida com a sociedade em geral, com os sindicatos de trabalhadores e de empregadores”. A advogada trabalhista Sílvia Burmeister, ex- presidente da AGETRA e da ABRAT, também emitiu a mesma opinião sobre o aumento do tamanho do projeto, mas explicou minuciosamente os acontecimentos a partir do ponto de vista de sua atuação junto à ABRAT no Congresso Nacional:
Não foi debatido não, de forma alguma! Primeiro porque ele não tramitou no Congresso Nacional, ele caiu de pára-quedas no Congresso Nacional do dia para a noite, ele não teve a tramitação ordinária, normal, como a que deveria ter uma projeto desta envergadura. Se tomarmos como parâmetro o projeto do novo Código de Processo Civil, está longe de ter a mesma forma de tramitação. O novo Código de Processo Civil teve dez anos de tramitação, com várias comissões, com vários juristas iluminados, no qual foi dada a importância que deve ter para a vida da sociedade brasileira. Não foi dada essa mesma importância para a Reforma Trabalhista. Então parece que para o legislador brasileiro o trabalhador não tem a mesma importância, o valor do trabalho não tem a mesma importância que o patrimônio da sociedade brasileira; me parece que é bem isso. [...] (Entrevista com Sílvia Burmeister, concedida em 16/05/2018)
A fala de Sílvia Burmeister também revelou que a ABRAT realizou “uma assembleia no dia 02/02/2017 em Brasília”, com o objetivo de examinar o projeto e “por ampla maioria – porque é uma entidade com 26 associações – resolvemos rechaçar a reforma e resistir a ela, lutar contra ela”. Prossegue a advogada trabalhista:
E assim passamos até a sua aprovação. Fomos para dentro do Congresso acompanhados de representantes das associações estaduais (inclusive com a AGETRA) e fizemos contato com todos os Senadores. Fizemos um trabalho junto aos senadores e deputados; fomos aos gabinetes, levamos memoriais. Nós fizemos esse trabalho em conjunto com a ANAMATRA, com o SINAIT e com o MPT, que são entidades parceiras, porque analisar aquele absurdo número de artigos exige que
façamos as análises em conjunto. Fizemos também os pareceres e as visitas, mas estas de forma individual, até para sempre reforçar o número de visitas. Então nós agendávamos com os senadores (e cabia a mim os agendamentos) e na medida do possível nós agendávamos sempre no Senado. Conseguimos conversar com todos os senadores, exceto um do Rio de Janeiro, e outro do Paraná, que disseram que não nos receberiam; todos os outros, de alguma forma – nem que fosse para formalmente receber o memorial, colocar na mesa, e nos dar até logo –; mas outros nos receberam muito bem, disseram que iriam ler; e os que sabíamos que eram de esquerda trabalharam conosco diretamente. (Entrevista com Sílvia Burmeister, concedida em 16/05/2018)
Em alguns trechos, a entrevistada revelou as dificuldades para que as entidades fossem efetivamente ouvidas pelos deputados e senadores, destacando também que só foi possível acompanhar presencialmente o processo legislativo por causa da relevante atuação desses atores na área trabalhista e da importância das associações que eles estavam ali representando. Esse argumento se torna fidedigno quando é exemplificado o caso da representatividade da OAB, pois como o Presidente da Comissão Nacional de Direitos Sociais da OAB pediu demissão do cargo19 por incompatibilidade com o viés político da presidência da OAB, restou para um ator pouco conhecido no ambiente legislativo realizar a entrega do parecer sobre a Reforma, e ele sequer conseguiu acessar o Congresso Nacional para levar o parecer produzido pela OAB:
Nas sessões todas de discussão e debate nós estávamos presentes na comissão, tentamos fazer um trabalho junto à OAB na Comissão Nacional de Direitos Sociais, mas não foi possível levar adiante por conta da barreira que encontramos – o Presidente, o Dr. Maurício Gentil, que é conselheiro federal de Sergipe, ele inclusive renunciou, porque a OAB decidiu por fazer audiências públicas em todas as seccionais do Brasil, e dessa audiência pública todas as seccionais enviaram ao Conselho Federal as suas conclusões, e seria feita uma compilação das conclusões para ser levada ao Conselho Pleno. Quando o então Presidente da Comissão Nacional de Direitos Sociais (CNDS), o Maurício, faz a compilação e propõe a pauta para o Conselho Pleno, o Presidente negou dizendo que não tem interesse de levar a pauta. Com isso, o Dr. Maurício fez uma carta aberta e dizendo que o motivo da renúncia é pela falta de interesse do Presidente do Conselho Federal da OAB (Cláudio Lamachia) em discutir a Reforma Trabalhista. A CNDS está acéfala até hoje, e com isso o Conselho Federal da OAB não discutiu a reforma trabalhista, tendo se limitado a discutir pontos de inconstitucionalidade, para não dizer que não fez nada, e esses pontos foram discutidos no limite da votação da reforma. Tanto isso é verdade que a sessão que aprovou o parecer dos dezessete pontos de inconstitucionalidade ocorreu doze horas antes da última votação da comissão. E o que acontece? Onze horas da noite termina a votação no Conselho; no dia seguinte, no turno da manhã, é o último dia de votação no Congresso. E quem leva os pontos
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Trecho da carta de demissão de Maurício Gentil: “os direcionamentos, as posições e as estratégias pensadas e utilizadas pela direção do Conselho Federal, notadamente no que se refere à PEC nº 241, à reforma trabalhista como um todo e à terceirização em particular (temas nos quais a Comissão produziu material e pediu que o Conselho Federal se posicionasse formalmente e rapidamente, para a resistência a esses terríveis retrocessos nos direitos sociais, mas que sequer ainda foram pautados para debate em plenário), evidenciaram a incontornável divergência de pensamento e de posição no que se refere à atuação da OAB em tema de direitos sociais”. Fonte: <http://www.blogdomagno. com.br/ver_post.php?id=173999>. Acesso em: 17/09/2018.
não é o Lamachia, mas o Bruno Reis, Conselheiro Federal do Presidente da Comissão de Direito Sindical, ou seja, alguém pouco significante para o assunto tratado. Portanto, o Presidente do Conselho Federal da OAB sequer levantou da cadeira para ir ao Congresso levar o parecer. E o Bruno Reis, quando vai levar o parecer com os 17 pontos de inconstitucionalidade, não consegue ter acesso sequer à Comissão. Ele só consegue entrar no Congresso porque nós estávamos lá dentro e – junto aos nossos senadores e deputados – lutamos para que ele tivesse a oportunidade de entrar no Congresso, só então ele conseguiu ingressar na sessão e entregar o trabalho da OAB. (Entrevista com Sílvia Burmeister, concedida em 16/05/2018)
A entrevista com Sílvia Burmeister relevou um elemento que estaria também presente no argumento de vários outros atores sociais entrevistados, que diz respeito à comparação do tempo de tramitação do Projeto de Lei da Reforma Trabalhista com outros grandes projetos de alteração legislativa, que foram do Código Civil e do Código de Processo Civil. Retomando a outro trecho da entrevista com Antônio Castro, ele também destaca que “o Código de Processo Civil passou cerca de dez anos em debate, o Código Civil passou uns vinte anos em debate, e uma mudança desse porte da CLT teve 60 dias”. E ele vai além na crítica, ao salientar que mesmo com a organização de “algumas audiências que permitiram que as associações pelo menos registrassem a sua contrariedade ao projeto”, ele não foi verdadeiramente debatido, pois “o debate foi meramente formal, [...] as opiniões e expressões dos opositores sequer foram levadas em consideração”. Da mesma forma, a fala de Maria Cristina Carrion também comparou a tramitação da Reforma Trabalhista com os dois outros códigos mencionados, códigos esses que para ela nem chegam a ser tão complexos quanto a CLT, que “tem uma parte que é administrativa, de Direito Administrativo; tem uma parte que é do direito material, que é o Direito do Trabalho em si, com o número de horas extras e a jornada de trabalho, por exemplo; e a parte processual”, e destaca que tudo isso foi modificado sem a realização de discussão séria e aprofundada.
A questão já destacada em outras entrevistas de que o debate realizado no Congresso Nacional foi meramente formal também foi evocada por outros atores, como a juíza Valdete Severo e o advogado trabalhista Renato Paese, ex-Presidente da AGETRA. O último afirmou que “por mais que alguns personagens [...] tenham sido convidados, algumas entidades através de seus representantes tenham sido chamadas, os relatos que tenho é que não era um espaço propriamente de debates onde houvesse a intenção de realmente acolher propostas” relacionadas aos temas trabalhistas que se pretendiam modificar.
Em outras entrevistas foi destacada a configuração do Congresso Nacional como fator preponderante para a ausência de um debate aprofundado a respeito do Projeto de Lei. Essa foi a opinião do João Vicente Araújo, advogado trabalhista e ex-Presidente da AGETRA,
quando mencionou que “o defeito formal da reforma” foi a ausência do debate, pois a Reforma “na verdade foi encomendada pelo setor empresarial e comprada pelo Congresso, [...] fizeram aberrações em uma velocidade absurda e esperaram para ver no que ia dar, e ela acabou sendo aprovada”. Denis Einloft, também advogado trabalhista ex-Presidente da AGETRA, posicionou-se de maneira semelhante, ao argumentar que “essa reforma trabalhista veio para atender os patrocinadores do Golpe”, para “atender a um interesse”. No mesmo sentido foi a fala do entrevistado Tarso Genro, advogado trabalhista, ex-Presidente da AGETRA em 1978 e 1982, quando afirma que “trata-se de processo autoritário que acompanhou os cânones da exceção do processo golpista em curso”.
A entrevista com o advogado trabalhista, também ex-Presidente da AGETRA, Antônio Vicente Martins, também expressa que a aprovação apressada do Projeto ocorreu por conta da estrutura do Governo que foi formada no período de tramitação da Reforma. Além de destacar a inexistência de quaisquer alterações no corpo do instrumento legal ao longo da tramitação do Projeto de Lei (visto não ter sido aprovada nenhuma emenda examinada pelo Congresso Nacional), Martins foi mais longe na sua análise, ao afirmar que “evidentemente, todo projeto de lei que não permite a discussão da sociedade é um projeto autoritário por essência”. O entrevistado entende que o Governo foi motivado por um aspecto meramente ideológico, tendo por isso utilizado o Projeto de Lei da Reforma Trabalhista como uma manobra legal, visto que o respeito aos aspectos formais do processo legislativo teriam sido utilizados regimentalmente, isto é, apenas para cumprir com a formalidade exigida legalmente. É nesse sentido que ele entende que o Projeto é autoritário por essência.
Até mesmo as entrevistas com os advogados trabalhistas patronais, que em geral concordam com a necessidade de uma modernização da CLT, seguem a mesma linha argumentativa de Antônio Vicente Martins. Nesse sentido, o ex-Presidente da SATERGS, Eugênio Hainzenreder Júnior iniciou sua resposta salientando que poderia ter havido um debate maior durante o trâmite da Reforma, mas que se não tivesse ocorrido dessa forma a Reforma talvez não fosse aprovada, “porque há muito tempo já se debate a necessidade de atualização da CLT, e várias coisas que a Reforma trouxe são de fato coisas que já deveriam ter acontecido há bastante tempo”. A essência desse argumento esteve presente também na entrevista com o advogado trabalhista patronal e ex-Presidente da SATERGS, Eduardo Raupp, quando este afirma que “seja no governo Fernando Henrique ou no governo Lula, em várias oportunidades se criou grupos de pesquisa para alterar a legislação trabalhista, não é a primeira vez. Sempre morreu, sabe por quê? Por que se discutiu muito”. Mesmo temas que
Raupp entende terem sido discutidos em governos anteriores, como a prevalência do negociado sobre o legislado, não foi para ele debatido no momento propício do Projeto de Lei, mas durante épocas anteriores, como durante a presidência de Fernando Henrique Cardoso, o que evidencia mais uma vez o caráter geral de insuficiência de debates durante a tramitação da Reforma. É exatamente esse o sentido do que ressaltou o advogado trabalhista empresarial Luciano Benetti, que entende que “algumas das matérias já haviam sido debatidas, mas não necessariamente num ambiente de projeto de lei”, porque na realidade as discussões aconteciam “em um ambiente de Poder Judiciário, com discussão jurídica judicial”. Outro advogado trabalhista empresarial também ex-Presidente da SATERGS, Benôni Rossi, segue a mesma linha argumentativa e também considera que a Reforma Trabalhista não foi suficientemente debatida enquanto tramitava no Congresso Nacional. Sua fala lembra a primeira das entrevistas ao considerar que essa opinião é um consenso entre os operadores do direito.
As três últimas entrevistas comentadas, com Eduardo Raupp, Luciano Benetti e Benôni Rossi, remetem à hipótese anteriormente proposta, que pode agora ser melhor desenvolvida a partir da contextualização com a fala de Antônio Vicente Martins, para se concluir que uma das causas do iminente protagonismo judicial que poderá ser observado na temática da Reforma Trabalhista se deve ao vácuo aberto na esfera política democrática, que enclausurou-se no uso regimental de uma formalidade legal da fase de discussão do processo legislativo analisado, impossibilitando um aprofundado debate de todos os aspectos da Reforma com a sociedade civil organizada, que pudesse contar com a participação das associações aqui exemplificadas, de organizações sindicais de trabalhadores e patronais ou de outros especialistas na matéria trabalhista.
Portanto, se a assertiva de que os debates legislativos em torno da Reforma Trabalhista foram meramente formais pode ser considerada verdadeira, cumpre analisar as razões pelas quais não houve um suficiente debate, e as implicações jurídicas e sociais dessa maneira de fazer política, forma essa que não parece se restringir especificamente à matéria em análise.