7 DISCUSSÕES
7.3 Diagnosticando o funcionamento da rede de TIC em Alagoas
Compartilha-se a seguir do diagnóstico da rede de TIC alagoana, no sentido de testar o modelo como instrumento viável de análise da relação empresa-rede. Para tanto, serão discutidos alguns achados e destacadas algumas características do setor.
Inicialmente, partiu-se de uma análise panorâmica do modelo por meio da variância explicada (quadrado das correlações obtidas entre os compenentes). Essa análise ajuda a compreender a dinâmica da rede de TIC alagoana, ao explicar o grau de importância da relação entre os componentes do modelo. Por exemplo, observa-se que a participação na rede está explicando 44% do resultado (Figura 27), isso demonstra a relevância da inserção nas redes e que pode ser estimulada pela governança da rede.
Figura 27 – A variância explicada do modelo.
De forma ampla, percebe-se que a variância dos compenentes superiores do modelo são maiores do que a parte inferior, isso pode ocorrer porque os gestores e as instituições estão mais presentes neste momento da rede, considerando-se que rede tem uma dependência inicial dos gestores com a promoção de ações para rede, mas, que a partir do Sistema Relacional e Cognitivo Interorganizacional essa dependência passa a diminuir no momento em que ocorrem as mudanças do capital humano e intelectual combinados na rede e potencializados pelo capital social, daí por diante os resultados passam a depender única e exclusivamente das ações de cada empresa, ou seja, o quanto cada uma consegue converter em resultados para o seu negócio.
Na parte superior do modelo estão, principalmente, as agendas de eventos e cursos realizados no arranjo e as comissões internas criadas para governança da rede. E existem ainda outros órgãos e as próprias empresas que se envolvem como apoiadores, na capacitação, no fomento e na promoção da rede. Neste sentido, entende-se que a interação dos indivíduos
parece resultar numa certa ordem, que guia o desenvolvimento da rede, daí a importância do SRCI para a sinergia da rede. Quanto mais estimulado for o SCRI, maiores são as chances de resultados positivos para rede, visto a sua significância na correlação com o capital social potencializado (seção 6.3).
Além disso, parece haver também o forte papel de atenuadores, que agem como forma de organizar e mediar as interações da rede analisada, com destaque para o Sebrae-AL, ASSESPRO e SECTI (Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação de Alagoas), ITEC, AFAL e FAPEAL. Talvez, a ideia de consolidação dos APL esteja ainda muito relacionada à capacidade dessas instituições de apoio estarem na ponta, reforçando o poder de capilaridade dessas instituições e, principalmente, o papel do Sebrae, como coordenador dessa rede.
Os resultados evidenciaram que o caminho percorrido pela rede do setor de TIC – AL tem acertado mais do que errado em suas ações, todavia, o contexto institucional ainda incipiente e a falta de um norte estratégico claro para o setor, condiciona, muitas vezes, para ações de “convergência” em detrimento às estratégias “prospectivas”. Ou seja, atualmente, tem-se buscado reduzir as principais diferenças produtivas em relação às outras redes mais desenvolvidas. Neste sentido, as principais ações estão mais condicionadas às capacitações, certificações, participação em eventos e missões de benchmarking. Considera-se, entretanto, que as estratégias “prospectivas”, talvez possam favorecer muito mais ao desenvolvimento da rede, na busca por uma identidade estratégica singular, guiada principalmente pela aprendizagem e inovação em rede.
Percebe-se ainda que ao relacionar a eficiência e a estratégia para a inovação, o caminho com maior variância explicada foi o da estratégia. Isso releva que na rede de TIC alagoana, a estratégia está mais relacionada a inovação do que a eficiência operacional, talvez seja forçoso ainda afirmar que existe uma hierarquia entre esses dois construtos, na qual a eficiência operacional deve servir à estratégia e não o contrário, o que corrobora a literatura (PORTER, 1996). A estratégia, portanto, implica a construção de vantagens competitivas sustentáveis, as quais só podem ser obtidas através de escolhas (trade-offs) em relação ao posicionamento, estrutura de custos e nível de serviço ao cliente, entre outros componentes da operação. Neste caso, o modelo pode diagnosticar se as escolhas foram bem feitas, se permitirão uma performance econômica melhor e se gerou vantagem competitiva sustentável.
Outro achado relacionado à rede alagoana, refere-se as modalidades (tipologias) de participações no arranjo. Os resultados relevam um grupo de empresas estratégicas, que talvez estejam mais alinhadas às ações “prospectiva”, fato que pode ser explicado pelo posicionamento no mercado, que talvez permita uma visão privilegiada de oportunidades e de
prospectivas de futuro. Por outro lado, existe uma grande barreira para o avanço da rede, a existência de uma grande quantidade de empresas do tipo inertes (Figura 22). Muito embora, os resultados tenham revelado também o papel crucial da rede na diminuição da quantidade destes tipos de empresas, pois a analise da dinâmica dessas tipologias em função do tempo envidenciou uma diminuição significativa do número de empresas inertes com o passar do tempo a partir das ações em rede (Gráfico 04). Isso quer dizer, obviamente, que a participação na rede aumentam as chances de crescimento das empresas, principalmente, pelo volume capital social potencializado e de vantagens organizacionais adquiridas (seções 6.5.1 e 6.5.2).
Dentre as quatro tipologias identificadas (estratégico, inerte, egoísta e estrategista), os resultados revelaram que a maior parte das empresas jovens estão nos grupos dos inertes e altruístas. Algo bastante óbvio, pois tratam-se daquelas empresas com pouca experiência no mercado. Mas, o que inquieta é a quantidade de emrpesas inertes (59%), aquelas com baixa participação ou nenhuma participação na rede e baixo ou nenhum posicionamento no mercado. Talvez esse grupo de empresas esteja inconsciente das oportunidades advindas da participação na rede.
Aparentemente a rede exerce uma função habitat de inovação, pois possibilita um ambiente de complementariedades: conhecimento, tecnologia, aprendizagem, etc., para alavancar o potencial empreendedor, acelerar o acesso ao mercado e estimular o desenvolvimento de inovações. O grupo dos jovens altruístas talvez estejam mais próximos destes benefícios. De toda sorte, a rede se mostrou capaz de modificar esta realidade ao longo do tempo, especificamente:
ü Existe um aspecto motivador para participação na rede: o aumento do capital social e a vantagem organizacional (seção 6.5.2).
ü Foi encontrada uma tendência significativa de diminuição do número de empresas inertes e o aumento de empresas estratégicas, ao longo do tempo (seção 6.5.3). O que prova que a rede está acertando em suas ações, porém existe ainda um caminho de oportunidades, diante do quadro de empresas a serem convertidas em estratégicas.
ü A vantagem organizacional tende a criar uma tendência favorável para o melhor posicionamento no mercado. Todavia, de forma cooperativa a empresa pode aumentar a sua participação na rede e a medida em que o tempo vai passando a participação e o uso cooperativo aumentam e trazem mais retorno para a rede como um todo. No caso de Alagoas existe uma forte tendência para cooperação, contudo, cabe ressaltar a importância da competitividade para impulsionar a economia, conforme discutido anteriormente.
Conclui-se que as ações direcionadas para estimular a participação na rede e o fortalecimento da interação das empresas junto ao Sistema Relacional e Cognitivo Interorganizacional, possa ajudar a suplantar barreiras que impedem o desenvolvimento da efetivo dessa rede.
Diante destes resultados, entende-se que além das implicações teóricas o modelo acaba se tornando um método que auxiliará os gestores de redes, nas quais o aspecto da inovação seja algo que se quer avaliar.