3 A DIAKONIA NO NOVO TESTAMENTO
3.4 MARTA E MARIA (Lc 10,38-42)
3.4.1 Diakonia e Logos
Lc 10,38-42 narra a conversa entre Marta e Jesus. O texto informa que Marta, é proprietária da casa e é ela quem recebe Jesus e também é ela também quem inicia o diálogo de forma imediata; Marta é o sujeito da narrativa. O texto também informa que o diálogo se desenvolve no contexto de um cenário totalmente diferente
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Richter Reimer (2011) traz mais informações sobre as descrições feitas sobre Marta, uma delas é justamente sobre a construção de sua imagem feita como representando a igreja judaica e a igreja cristã.
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O livro dos Atos nos dá a dimensão da importância das mulheres para as origens do Cristianismo. O texto sugere que elas não eram silenciosas, que eram mulheres que tinham significado expressivo para suas comunidades assumindo inclusive posições de liderança.
A primeira menção de mulheres é encontrada em At 1,14 onde observamos que no núcleo central da igreja encontram-se aos apóstolos juntamente com Maria mãe de Jesus e com seus irmãos. Em At 2 os discípulos estavam todos reunidos no dia de Pentecostes, “E todos ficaram repletos do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia se exprimirem”. Há aqui a permissão de Deus para que as mulheres viessem e profetizassem em várias línguas e em todos os lugares onde estivessem reunidos homens e mulheres em oração. Contudo é sabido que na tradição judaica eram poucos os precedentes que autorizavam as mulheres a falar em público, o que justifica o fato de as mulheres não ser mencionadas como oradora no livro de Atos. Em Filipos as mulheres se encontram no “lugar de oração” (At 16, 13), e Lídia, demonstra que a confiança no Senhor deve ser a única regra a reger a hospitalidade compartilhada: “Tendo sido batizada, ela e os de sua casa, fez-nos este pedido: ‘Se me considerais fiel ao Senhor, vinde hospedar-vos em minha casa’. E forçou-nos a aceitar” (At 16,15).
do contexto do cenário de uma ‘cozinha’. Isso fica evidente, uma vez que, não há menção alguma sobre os ambientes da casa. Marta tem uma irmã chamada Maria, que é secundária no texto e que se senta aos pés de Jesus logo depois que ele na entra na casa.
Ponto interessante a salientar, é que em Lucas-Atos há mulheres que são mencionadas independentemente da presença masculina em suas vidas, isso produz reflexos positivos nos inícios da igreja primitiva66.
É importante insistir que as mulheres, independentemente dos homens, receberam outros homens em suas casas. Isso é certamente incomum em uma sociedade patriarcal, mas um acordo com o relato de Lucas isso ocorreu. Assim, no movimento de Jesus e no começo da missão cristã, não houve lugar para a governação política patriarcal, exercida em outros lugares; compulsões sociais de subordinação foram eliminadas na práxis de solidariedade dos humildes. Nestas casas foi criado um lugar para mulheres e homens onde eles pudessem viver por outras normas, no serviço mútuo, dirigindo suas energias para o fim onde ninguém precisa sofrer. (RICHTER REIMER, 1995, p. 125-126, nossa tradução).
As diferenças nas interpretações começam a ser apresentadas. O modelo de comportamento de Maria como alguém que escuta, é elogiado e Marta passa a ser ‘julgada’ com implicação supostamente, negativa que aparece através das palavras ‘ocupada pelo muito serviço’. Enquanto Maria é retratada de forma virtuosa como estando ouvindo tranquilamente as palavras e ensinamentos de Jesus. Maria é um ativo discípulo, que aprende, ensina, e quem sabe se engaja em discussão com Jesus, ela aparece como líder ativo (diakonia).
Não menos importante é Marta que está ocupada preparando-se para a função e para o papel do "serviço de mesa eucarística, proclamação e liderança eclesial" em sua “casa/igreja”. Talvez este seja o caso onde se pode afirmar que é o texto que contém elementos discriminatórios, como muito bem ensina Richter Reimer (2000, p. 24):
A meu ver a discriminação não se apresenta na menção da diaconia de Marta e do discipulado de Maria, nem sequer no sentido de que o “serviço” de Marta estivesse restrito ao “serviço doméstico” (como sempre é interpretado), pois o texto não fala disso. [...] Nós recaímos na exegese e interpretação patriarcais quando aceitamos que a diaconia de Marta seja o “serviço doméstico”, que a reduz ao espaço da casa e a silencia nesse espaço, sem sequer ter o direito de reclamar. É essa exegese tradicional – e não o texto bíblico – que faz a distinção da diaconia [...].
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Outras referências de benfeitoras que trazem um modelo exclusivamente feminino podem ser encontradas em: Safira (At 5,1-12); Tabita (At 9,36-43); Maria mãe de João (At 12,12); Lidia (At 16,14- 15,40); Priscila (At 18).
As interpretações que salientam o interesse em subordinar um ministério ao outro são partidárias do mesmo argumento patriarcal que provavelmente foi utilizado para sustentar os interesses da igreja da época, mas que não descreve uma condição que prevaleceu então ou anteriormente.
A divisão de uma única diaconia em duas, ou seja, o serviço à mesa e o serviço da palavra, reflete provavelmente uma prática posterior do movimento missionário cristão, ao passo que a subordinação de um ao outro, e a adscrição destes serviços a certos grupos expressam a situação própria de Lucas (SCHÜSLLER FIORENZA, 1992, p. 196).
Richter Reimer (2011, p. 223) oferece ainda uma recente exegese e interpretação sobre Marta e Maria, onde justifica que o processo de recepção dos textos bíblicos é permeado de “polifonia interpretativa” e que a tarefa de interpretação é tanto objetiva quanto subjetiva.
O texto interpretado é povoado de experiências, de ditos e interditos, de imaginários que releem, reproduzem e reconstroem experiências, em um processo constante e dinâmico de dar sentido à existência do que se refaz. Assim, um texto interpretado pode produzir efeitos historicamente poderosos na vida de pessoas, das comunidades e gerações, que, no próprio processo histórico, igualmente dinâmico, podem ser transformadas a partir de outras experiências, de outras perguntas, de outra vontade de fazer crer e formar identidadespara outra práxis e sentido de vida. Esse processo dinâmico de desconstrução e reconstrução de texto e sua interpretação podem ser observados na narrativa e em tendências interpretativas das personagens Marta e Maria (Lc 10,38-42) (RICHTER REIMER, 2011, p. 224).
A polêmica sobre Marta e Maria é bastante sugestiva, no que tange às dificuldades de interpretação, pois surge aqui uma nova perspectiva de romper barreiras antes intransponíveis e que se apresentavam como impeditivas do exercício da dignidade das mulheres. Jesus dá lição de encorajamento para liderança das mulheres, ao defender o direito de Maria de estudar.
Essa passagem deve ser analisada de maneira a contemplar as duas ações de forma complementares, não há que se falar em hierarquia de atitudes. Para Richter Reimer (2000, p. 25) a diaconia envolvia tanto o anúncio quanto a vivência do Evangelho:
O trabalho diaconal e o trabalho da Palavra estavam unidos. Por isso, não sei se o conflito de relações na divisão das funções entre Marta e Maria existia na sua origem com Jesus ou se foi sendo criado e alimentado no processo de transmissão, escrita e interpretação de tais experiências para legitimar a supremacia do “ministério” da Palavra, que acabou ficando
restrito a homens. Em todo caso, esse processo começa bem cedo, ainda no primeiro século.
No contexto de Lc 10,38-42, Jesus não aparece como alguém que separa ou que divide67, como também o demonstra Lc 12,13, Jesus aparece como aquele que está a favor do ensino e da liderança da mulher e nos mostra que oração, estudo e ação são necessários no discipulado de iguais, um sem o outro jamais se sustentará, desta forma, a história de Marta e Maria desempenha um papel importante no que tange a argumentos sobre a inclusão das mulheres no rol dos discípulos de Jesus.
Podemos perfeitamente entender que Maria não se coloca de forma superior na sua atitude de aprendiz desvalorizando o trabalho de diakonia praticada por Marta. Ao contrário, podemos entender que, assim estabelece um círculo de reforço no sentido de revigorar relacionamentos.