7 DIRETIVAS: CAMINHOS PEDAGÓGICO-METODOLÓGICOS
7.6 Didáticos e paradidáticos: as faces da complementaridade
Tenho medo do homem de um só livro. Santo Tomás de Aquino (1225 – 1274)
Nas últimas décadas, a Educação, sob uma visão geral, vem buscando mudanças quanto aos aspectos ensinar/aprender, a fim de redirecionar suas práticas, tornando a Educação mais atraente e significativa para o aluno.
Em meio a essa nuance de transformações, encontra-se a Matemática tentando transformar e ser transformada, isto é, tem a intenção de fazer-se perceber como Ciência dinâmica que é, e não pronta e acabada como foi e/ou é, muitas vezes, concebida.
Outro aspecto relevante que se junta às mudanças em Educação, é a questão do papel do livro didático, em especial aqui tratado o de Matemática da 1ª série do Ensino Médio, através do qual se objetiva sintetizar e operacionalizar o ensino da referida disciplina.
No entanto, esse importante instrumento de apoio ao ensino da Matemática, manteve-se por décadas abordando os conteúdos do respectivo componente curricular e série, de uma forma algebrista, formalista, axiomática e descontextualizada. Somente nos últimos anos a postura relatada começa a sofrer alterações.
Os aspectos apontados foram identificados mediante análise realizada em mais de trinta exemplares de livros didáticos de diferentes autores e editoras, no que concerne ao conteúdo matemático da 1ª série do Ensino Médio, a partir de 1967 até 2006.
Os livros da década de 60, na grande maioria, abarcam as concepções da Matemática Moderna: formalista, axiomática e descontextualizada de situações reais. Os dos anos 70 não são diferentes, o caráter algebrista é o âmago da Matemática da época, e problemas de aplicação matemática são raros. Já nos anos 80, alguns livros trazem exemplos da utilização da Matemática em outros ramos das Ciências, também começa a haver uma contextualização através de exercícios oriundos de vestibulares, porém os exercícios propostos como atividades continuam descontextualizados, algebristas e manipulativos. Os da década de 90 não diferem dos da de 80, em sua maioria; entretanto, destaca-se um exemplar de 1999, que apresenta a Matemática contextualizada, tanto na introdução da teoria quanto nos exercícios, estabelece o elo entre o caráter formal próprio do conteúdo matemático desse nível e situações visíveis ao aluno no cotidiano.
Quanto aos livros da geração 2000, há uma mudança significativa na abordagem de alguns autores, que passam a conceber a Matemática num aspecto contextualizado: a concepção estimuladora do pensar, a visão interdisciplinar, a concepção histórica, o aprender e fazer matemática e não, apenas, exercícios algébricos e mecânicos, exigindo quase exclusivamente o uso da memória. Mas, todas as qualidades evidenciadas, não estão contempladas em um único exemplar. Ainda há livros atuais que são meras reedições dos anos 70, mantendo vivo o caráter da Matemática Moderna, a coqueluche da época.
Após esta revisão dos livros didáticos, pode-se afirmar que eles devem ser vistos como um recurso didático complementador e auxiliador da prática do professor. Que sua adoção não implique em torná-lo a alma da disciplina ou restringir-se a ele somente. O seu uso necessita ser mais um entre os vários recursos didáticos existentes. Destaca-se que um livro didático complementa o outro, logo o uso de apenas um, por parte do professor, torna seu trabalho incompleto, monótono e rotineiro; também pode ocultar aspectos ou partes interessantes da Matemática.
Entretanto, a realidade dos professores e as dificuldades apresentadas por eles, evidencia que “o livro didático vem assumindo, há algum tempo, o papel de única referência sobre o saber a ser ensinado, gerando, muitas vezes, a concepção de que o mais importante no ensino da Matemática na escola é trabalhar o livro didático de capa a capa.” (BRASIL, 2006, p.86).
Esta postura de muitos professores, ás vezes transparece no aspecto do livro por eles utilizado o qual, muitas vezes, encontra-se sem capa ou com um aspecto deplorável, devido a tantos anos de utilização exclusiva.
Dessa forma, o educador perde sua autonomia, não desenvolve a criatividade, não aprende formas diferentes de intervir no processo de transposição didática.
Um forte auxiliar ao livro didático são os paradidáticos, os quais proporcionam ao professor, segundo Dante (2005), alternativas para melhor aprofundar e esclarecer detalhes de assuntos importantes abordados em um determinado conteúdo da disciplina.
Geralmente, esses livros são escritos abordando aspectos históricos atraentes ao aluno, integram-se naturalmente com outras áreas do conhecimento, tornando a Matemática visível no cotidiano, estabelecendo a conexão entre a Matemática do dia-a-dia e a Matemática formal, sem tornar o processo doloroso. A linguagem utilizada apresenta um estilo coloquial, o que torna a disciplina perceptível, atuante e utilizável pelo aluno.
Alguns livros paradidáticos enriquecem o ensino e o conteúdo matemático no nível de ensino já mencionado, entre eles destacam-se os seguintes: Padrões numéricos e Funções, Padrões numéricos e Seqüências, ambos da autora Maria Cecília Costa e Silva Carvalho, da Editora Moderna, São Paulo. Coleções como
Vivendo a Matemática, publicada pela Editora Scipione, São Paulo e a série A Descoberta da Matemática pela Editora Ática, São Paulo, podem ser indicadas para uma retomada do conteúdo do Ensino Fundamental. A abordagem gráfica presente em um dos volumes da série acima sugerida, pode enriquecer o conteúdo de funções. Livros como O homem que calculava, de Malba Tahan, O diabo dos números de Hans Magnus Enzensberger, A aritmética da Emília, de Monteiro Lobato, podem despertar no aluno a:
Capacidade de utilização do seu tempo livre em exercícios intelectuais que reforçam as bases culturais (daí o ressurgimento de jogos matemáticos, da matemática recreativa e mesmo de exercícios numéricos como em divisibilidade, números primos e quadrados mágicos). (D’AMBRÓSIO, 1998, p.54).
E ainda segundo o referido autor, os aspectos que caracterizam esses livros reforçam a idéia de que os conhecimentos matemáticos estão impregnados no
componente cultural, ou seja, Matemática e realidade estão imbricadas naturalmente.
Ocorre, portanto, que a utilização de livros paradidáticos, seja como tarefa de casa, como fonte de consulta, aprofundamento ou desencadeamento de um conteúdo, vêm a complementar os livros didáticos, dinamizando as aulas de Matemática, tornando essa disciplina prazerosa e instigante ao aluno.