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A precisão é um elemento de crucial importância, principalmente quando se trata de política pública e de direito penal. Em um momento pré-empírico, de análise teórica para implementação de uma atuação estatal ou empresarial, a precisão dos termos se reveste de ainda maior importância para que as linhas de ação se tornem claras. Isto porque a precisão permite distinções entre termos aparentemente iguais, mas que podem provocar atuações completamente díspares.

31 Isto se mostra quando buscamos retratar os diferentes tipos de Whistleblower. A definição de Whistleblowing, apesar de ser genérica, como o próprio instituto demanda que seja, tem de ser clara. A definição de Maria Miceli e Janet Near citada no início deste estudo, nesse ponto talvez seja a mais completa, pois traz elementos diversos e focados para correta estruturação dos passos para “soprar o apito”. Todavia, apenas um barulho chamando a atenção não significa que aquilo seja um apito. Nem todo indivíduo que divulga informação apta a elucidar desvios de condutas é um Whistleblower. Por essa diferenciação, busco tornar mais claro o que é Whistleblowing, trazendo contornos mais concretos sobre o instituto.

Para diferenciar aquilo que, de fato, é Whistleblowing e daquilo que é apenas ventilação de informação, Maria Miceli, Janet Near e Suelette Dreyfus propõem o termo bell ringer38. A analogia não poderia ser mais clara. Whistleblower como o apitador, e bell ringer como o tocador de sino. Ambos buscam chamar a atenção, porém por meio de procedimentos diferentes.

Logicamente, o ato de divulgação, exposição, revelação de um determinado fato é um elemento comum aos dois institutos, mas a maneira de informar pode levar a elementos completamente distintos. Por exemplo: suponha um caso no qual exista algum problema relacionado a uma empresa pública, a saber, a CAESB39, e um indivíduo prejudicado resolve ir a rede Globo de Comunicações e relatar as informações do problema vivenciado buscando sua veiculação no noticiário local. Esse caso não se trata de Whistleblowing. Isso é bell ringing.

Como elemento de diferenciação dos dois mecanismos está a exclusão da mídia como o canal de exposição da informação relevante para apurar potencial desvio.

Um dos elementos importantes para que determinado disclosure seja essencialmente Whistleblowing é a divulgação da informação à autoridade competente para solucionar o caso.

A mídia não possui a capacidade para efetuar soluções fáticas específicas a problemas tais como desvios de conduta, fraude ou corrupção. A mídia tem se tornado cada vez mais significativa para informação da sociedade, porém nada mais além disso. Seu papel é meramente informativo. Apesar da sociedade ser genericamente a autoridade democraticamente estabelecida, ela não possui os meios para atuar como autoridade específica capaz de empenhar-se em soluções casuísticas. Logo, o Whistleblowing é um procedimento específico, com informações sensíveis e que demandam soluções cirúrgicas e imediatas. Há o fornecimento de

38 MICELI, Maria; NEAR Janet; e DREYFUS Suelette. Outsider Whistleblowers: Conceptualizing and distinguishing bell-ringing behavior. In: BROWN, AJ; LEWIS, David; MOBERLY, Richard; e VANDEKERCKHOVE, Wim (Org.) International Handbook on Whistleblowing Research. Editora Edward Elgar. 2014

39 Empresa pública responsável pelo abastecimento de águas da região do Distrito Federal.

32 uma informação específica para uma autoridade específica, dentro do contexto recompensatório, como fator integrante do mecanismo.

A mídia, portanto, deve ser vista como um canal que pode receber informações de bell-ringers e, assim, comunicar a sociedade. Mas nada além disso. A própria mídia em si pode ser um bell-ringer, situação na qual cumpre o seu propósito informativo. Porém, se a informação não for levada para a autoridade competente, dentro do procedimento adequado, isto jamais será Whistleblowing, porém meramente bell-ringing.

Outro elemento importante para essa diferenciação é a posição do Whistleblower como um Insider40. O whistleblower tem como característica essencial o posicionamento interno dentro de uma organização ou instituição. Talvez este seja o principal elemento diferenciador entre Whistleblower e Bell-ringer. O exemplo trazido anteriormente da exposição midiática talvez tenha sido de fácil compreensão da diferenciação, porém ao se tratar do vazamento anônimo de informação de segurança nacional americana pelo site Wikileaks, o exemplo não seja de tão fácil encaixe. Nesse momento que a definição de AJ Brown, David Lewis e Robert Moberly é crucial. Os professores apresentam o quadro do Whistleblower como sendo o insider que revela o desvio de conduta, fraude ou corrupção para autoridade competente, com a firme intenção de que ações corretivas sejam empenhadas para o saneamento do problema retratado.

Nesse ponto surgem diferentes posições de debate. Há os que defendem uma abertura maior no conceito do sujeito que leva a informação, como defendem os trabalhos publicados pela Transparência Internacional. Outros propõem uma visão mais restrita, apenas de empregador e empregado, em que o Whistleblowing poderia ocorrer apenas em relações de trabalho. A abertura ou o fechamento conceitual exagerados não colaboram para o propósito central do mecanismo: combater a corrupção e prevenir conflitos. O core do instituto é a informação e toda sua estruturação deve orbitar em torno do tratamento da informação, o que, logicamente, impacta o informante.

Logo, a posição de Brown, Lewis e Moberly é bastante interessante. A condição do insider permite certa flexibilidade: tanto abrindo o leque semântico, quanto limitando o mecanismo a determinadas características, mantendo-o relevante e organizado. Por insider, entende-se que o Whistleblower tenha de estar debaixo da responsabilidade de uma organização ou instituição para que as informações trazidas sejam aptas a produzir a solução esperada. Sem

40 BROWN, AJ; LEWIS, David; e MOBERLY, Richard. Whistleblower, its importance and the state of the research. In: BROWN, AJ; LEWIS, David; MOBERLY, Richard; e VANDEKERCKHOVE, Wim (Org.) International Handbook on Whistleblowing Research. Editora Edward Elgar. 2014

33 esse vínculo interno, trata-se de um caso de bell-ringing, sem os incentivos do mecanismo de Whistleblowing.

Essa condição específica do Whistleblower pode ter sido a causa da conotação negativa que o termo assumiu, principalmente no contexto norte-americano. Diferentemente do bell-ringer que assume as claras, como o alto sonido de um sino, para que todos vejam determinado acontecimento, o Whistleblower é algo mais discreto e normalmente envolvendo elementos éticos, morais e fraudulentos de extrema relevância. A posição do Whistleblower como um insider faz com que seja visto como uma espécie de traidor, ou dedo-duro, e por isso o desejo de vingança, represálias ou qualquer espécie sanção para ele seja tão comum. Por isso, a necessidade de maior proteção e incentivo. Normalmente o bell-ringer não tem mais nada a perder na atitude de chamar a atenção, porém o Whistleblower, até pela sua posição de insider, está em vulnerabilidade e precisa ser visto diferenciadamente.

A condição de insider, portanto, não precisa ser formal. O Whistleblower, de alguma forma, tem de estar debaixo da hierarquia de autoridade da organização, porém não necessita de ser formalmente um empregado ou membro da instituição. Nesse ponto começa a zona cinzenta onde fica difícil a delimitação. Por exemplo, voluntários ou estagiários de uma determinada empresa, ou órgão público são insiders? Existiria essa condição de adesão a este tipo de programa? Pela perspectiva mais genérica possível sobre o instituto, entende-se que sim, porém esse ponto é controverso. Nem sempre a definição legal de membresia ou de subordinação será suficiente, no caso concreto, para abarcar o indivíduo que precisa do amparo do programa de Whistleblowing. Por isso, o programa em si, como mecanismo jurídico de proteção ao colaborador informante, precisa estar pronto a ser flexível quanto à necessidade casuística.

Em suma, o instituto não pode se abrir de forma irrestrita, sob o risco de nada proteger.

Há uma necessidade de delimitação da relevância da informação e da real necessidade do informante em aderir ao programa de proteção. Todavia, o mecanismo também tem de ser flexível, abarcando o insider na acepção genérica do termo, tendo primazia pela realidade e não pelo formalismo legal.