5.1 QUADRO GERAL DO DEBATE
5.1.2 Diferenças e conflitos em termos de falseabilidade
Um critério inicial para compreendermos uma das diferenças entre as duas
perspectivas conflitantes – uma, atomista, centralizada nos trabalhos de Fodor
(1970; 1975; 1980; 1981; 1992; 1994; 1998; 2003; 2008), e a outra,
decomposicionista, baseada em trabalhos em semântica conceitual de diversos
autores, com destaque para Jackendoff (1983; 1987a; 1987b; 1990; 1995; 2002),
Pinker (1989; 2008), Levin (1993), e Levin e Rappaport (1995) (sendo esses autores,
principalmente os dois primeiros, nossa base de referência para a perspectiva) – é o
caráter de falseabilidade. Popper (1980, p. 4) afirmara que “[t]oda teoria científica
boa é uma proibição: ela proíbe certas coisas de acontecer. Quanto mais uma teoria
proíbe, melhor ela é.” O autor, ao dizer isso, referia-se ao problema de algumas
teorias não se mostrarem possíveis de serem refutadas e de elas darem conta de
uma excessiva quantidade de explicações. Em outros termos, uma teoria que não
pode ser falseada em nenhuma condição possível, isto é, sobrevive como
verdadeira em qualquer situação, não pode, portanto, ser verificada. Longe de
reforçar um posicionamento nomativista segundo o qual as teorias “têm de ser
assim”, mas assumindo que a falseabilidade tem um papel distintivo importante na
ciência (mesmo em um plano ideal que norteia uma visão de ciência), essa ideia nos
é útil para demonstrar algumas características relevantes das perspectivas em
questão.
O atomismo léxico-conceitual de Fodor parece não ter problemas de se
adequar a esse critério. Se um determinado conceito simples corresponde a um
determinado item lexical, o que faz de um item lexical um átomo conceitual, então
bastaria encontrarmos uma unidade conceitual menor para que a tese do autor fosse
refutada. Lembremos que o próprio autor (FODOR, 1975) apresenta algumas
condições que poderiam falsear sua proposta, condições essas que diriam respeito
à identificação de uma estrutura conceitual interna a um item lexical por meio da
análise do escopo de um advérbio (se esse escopo poderia alcançar apenas uma
suposta parte, um primitivo abstrato, desse conceito) ou da retomada pronominal de
apenas um desses primitivos abstratos.
Outra condição que poderia falsear sua tese atomista seria a diferença de
processamento entre um item lexical mais complexo (com mais primitivos em sua
estrutura interna) do que outro (como um item simples, com apenas um primitivo em
sua estrutura). O autor (FODOR, 1980), após fazer uma série de testes, acaba por
demonstrar que essa diferença não é verificada, ou seja, não haveria diferença no
tempo de processamento entre um item como “kill”, supostamente mais complexo
em relação a uma suposta estrutura conceitual, e um item como “die”, supostamente
menos complexo. Desse modo, mesmo tendo por foco se posicionar contra o
decomposicionismo léxico-conceitual nessas considerações, Fodor deixa claro que
sua proposta poderia ser falseada em várias situações (mas, conforme a sua defesa,
isso não chegou a ocorrer).
A argumentação de Fodor, em relação a essas considerações, poderia ser
descrita resumidamente da seguinte maneira:
Condições de falseamento do atomismo conceitual: evidências de que
há estruturas conceituais.
114
Se atomismo → ~decomposicionismo
Se decomposicionismo → ~atomismo
Há condições em que o atomismo seria falseado.
Condições de falseamento não verificadas → Evidência para o
atomismo e não plausibilidade do decomposicionismo.
114 Isso não provaria a “verdade” da proposta decomposicionista, já que, seguindo a perspectiva popperiana,
uma teoria não pode ser dita como “verdadeira”; apenas pode ser dita, se houver condições para isso, como
“falsa”.
Essa descrição emerge do discurso de Fodor, não sendo explicitada dessa
forma (apesar de ficar relativamente clara em seus textos). Não se baseia
inteiramente em relações lógicas, mas se sustenta empiricamente por meio de
evidências aparentemente plausíveis. Na primeira parte, como já dito, o autor
demonstra condições de falseamento de sua teoria. A segunda e a terceira parte
dessa descrição aparecem em vários de seus textos (de maneira explícita, aparece
no texto de 1998) e evidencia a incompatibilidade das duas perspectivas, o que
implicaria, caso uma fosse verdadeira (ou próxima disso), que a outra fosse falsa (ao
desqualificar a proposta concorrente, o autor, portanto, está respaldando a sua). A
penúltima parte, seguindo a proposta de Popper, seria evidenciada pelas condições
de falseabilidade comentadas anteriormente. Por fim, segundo Fodor, nenhuma
dessas condições é verificada, o que coloca automaticamente em xeque a proposta
decomposicionista (com base nas duas primeiras partes), fazendo com que o
atomismo surja como alternativa mais sólida.
Lembremos que Fodor, ao seguir essa linha de raciocínio e ao se referir a
seus opositores, sugere paralelamente algumas condições para que uma proposta
decomposicionista seja aceita, e ser falseável seria uma delas (apesar de o autor
não deixar isso explícito, nas condições que ele sugere e no decorrer de seus textos
isso pode ser compreendido como relevante). Disso pode ser inferido uma subcrítica
implícita: se a proposta decomposicionista não está de acordo com essas
observações, ela já é problemática de saída. Vejamos como isso pode ser verificado
no discurso de decomposicionistas.
As duas últimas partes do resumo apresentado sobre a argumentação de
Fodor, que tratam sobre a falseabilidade, requerem análise com mais atenção por
serem mais contestáveis (não há polêmica, em relação aos debatedores, a respeito
das três primeiras partes). Para tanto, lembremos o que Jackendoff (1988) e Pinker
(2008) afirmam. Conforme exposto no quarto capítulo, para rebater a crítica de
Fodor, os autores se utilizam do conceito de chunk. Retomando o que querem dizer
com tal conceito, chunk seria uma espécie de agrupamento de primitivos, que
formariam uma estrutura conceitual complexa processada como uma unidade, tal
como ocorreria com uma estrutura conceitual simples, formada por apenas um
primitivo. Isso explicaria a falta de diferença no processamento (em relação a tempo
e a dificuldade por parte do falante) entre “kill” e “die” (“kill” corresponderia a um
chunk dos primitivos CAUSE, BECOME e DIE, o que o faria ser processado da
mesma maneira que “die”).
É importante localizar esse argumento porque, de modo geral, ele aparece
disperso e difuso nos trabalhos decomposicionistas conceituais sob a seguinte forma
aproximada: um primitivo e uma estrutura conceitual de primitivos não têm o mesmo
funcionamento que um item lexical, pois são elementos presentes em níveis
diferentes de abstração. Isso não costuma ser problematizado nos trabalhos de
decomposicionistas conceituais (LEVIN, 1993; VERBNET (2016); SOTELO, 2015;
CANÇADO et al., 2013, entre outros), o que parece estar relacionado a certa
“obviedade” que não precisaria de uma discussão extensa. Seria óbvio (e isso
Pinker, 2008, parece sugerir ao dizer que a proposta de Fodor está relacionada à
falta de bom senso), então, que uma estrutura conceitual abstrata não tem de ser
processada como uma estrutura formada composicionalmente por itens lexicais, e o
conceito de chunk daria conta disso.
Porém, como comentado no quarto capítulo, o poder explicativo dos chunks
é relativamente grande, o que, em uma perspectiva popperiana, não é uma
qualidade teórica. Eles podem dar conta de qualquer caso de falta de verificação
empírica das estruturas conceituais: como o que temos concretamente são itens
lexicais e estruturas formadas composicionalmente por eles, só seria possível
verificar algo por meio de análises que considerassem itens lexicais isolados e/ou
presentes em sentenças, mas qualquer problema para a proposta decomposicionista
apontado com base nessas análises seria rebatido com a postulação de que as
estruturas conceituais funcionam sem se espelharem na estrutura superficial, sendo
que uma estrutura lexical concreta e composicionalmente formada opera não com
primitivos isolados, mas com chunks, cuja dimensão estrutural é abstrata e não seria
identificável facilmente. Em outros termos, em razão da proposta de chunks poder
responder qualquer problema imaginado a respeito de qualquer incompatibilidade
sugerida entre uma estrutura superficial e uma estrutura conceitual, ela não pode ser
falseada.
Como já havíamos adiantado, não se trata de seguir uma perspectiva
normativista e excluir uma perspectiva teórica do rótulo de “ciência” por não
contemplar condições de falseabilidade. Nosso intuito, com esse apontamento, é
demonstrar que, por algum motivo, uma perspectiva teórica, mesmo com problemas
em termos popperianos, não tem problemas de sobrevivência e desenvolvimento. É
preciso, então, ir além da perspectiva de Popper para explicar esse quadro.
5.1.3 Diferenças e divergência em termos de comunidade científica e paradigma
Outro aspecto relevante que diferencia as duas perspectivas teóricas
conflitantes é a caracterização de uma “comunidade científica”, conforme
entendimento de Kuhn (2013), relacionada a apenas uma delas. Para esse autor,
quando uma ciência atinge determinado grau de maturidade, um conjunto de
“paradigmas”, isto é, de leis, teorias, aplicações e instrumentações (KUHN, 2013, p.
72-73), são compartilhados por um determinado grupo de pesquisadores (a
“comunidade científica”). Os paradigmas e a comunidade científica estão
relacionados a uma relativa estabilidade, o que poderia ser interrompido por uma
revolução científica (o que não é o caso em relação a nenhuma das perspectivas
concorrentes, não sendo relevante, portanto, para nossa análise do debate).
Podemos relacionar essa ideia de comunidade científica e conjunto de
paradigmas à perspectiva decomposicionista da semântica conceitual (KUHN, 2013,
p. 73, diz que o padrão relacionado às comunidades científicas e aos seus
paradigmas podem ser aplicados em diferentes dimensões; nesse caso, estamos
aplicando a um grupo de pesquisadores que segue uma determinada linha teórica).
Como havíamos comentado no capítulo anterior, autores como Jackendoff (1983;
1987a; 1987b; 1990), Pinker (1989; 2008) e Levin (1993) são representativos da
perspectiva decomposicionista que ficou conhecida como “semântica conceitual”,
tanto é que foram a base de nossa exposição; no entanto, há toda uma comunidade
de pesquisadores que segue procedimentos de análise similares (BEAVERS, 2008,
CANÇADO et. al, 2013; SOTELO, 2015; VERBNET, 2016, entre outros). Essa
comunidade, cuja base tem certa centralidade nos trabalhos de Jackendoff (todos os
considerados neste trabalho citam e/ou se baseiam no autor), compreende
pesquisadores que compartilham o pressuposto teórico decomposicionista
conceitual, de que os itens lexicais podem ser relacionados a estruturas conceituais
formadas por primitivos abstratos.
Como, para Kuhn, paradigmas relacionam pesquisadores em uma mesma
comunidade, para dizer que há uma comunidade de decomposicionistas conceituais
é preciso demonstrar que seus integrantes compartilham os mesmos paradigmas. A