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4.2 EM DEFESA DA PLAUSIBILIDADE EMPÍRICA

4.2.1 Sintagmas preposicionais e estrutura conceitual

Mesmo que as preposições não representam um grupo de itens analisado e

elencado tão grande como o dos verbos na literatura decomposicionista, elas têm

uma relevância considerável em tais trabalhos, pois suas estruturas conceituais

interagem muitas vezes com as dos verbos, formando “conceitos sentenciais”, como

diz Jackendoff (1983), lembrando que os conceitos, para o autor, são constituintes

concretos de significado estruturados por regras de composição que não diferenciam

substancialmente os níveis sintagmáticos, ou seja, há conceitos lexicais, de

sintagmas nominais, de sintagmas verbais, entre outros. É importante lembrar

também que toda uma estrutura conceitual, como as tratadas nesta subseção, pode

estar relacionada a um sintagma, como o preposicional, ou a um único item (quando

este corresponder a todo um sintagma, por exemplo), que, nesse caso, seria

decomposto (sendo relacionado esse mesmo item a mais de um primitivo

conceitual). Comecemos pela análise dos sintagmas preposicionais espaciais.

Alguns sintagmas, como “aqui”, “aquele caminho”, “na mesa” e “no parque”

(adaptados para o português de exemplos de Jackendoff, 1983, p. 161), que

funcionam referencialmente, têm em suas representações conceituais [PLACES] e

[PATHS]. Pensando na categoria ontológica [PLACE], podemos sugerir a seguinte

regra de boa formação de estrutura conceituai geral:

36.

[PLACE] → PLACE

PLACE-FUNCTION ([THING])

Nessa representação, há duas possibilidades de composição. A primeira

corresponde a itens como “aqui”, que expressa [PLACE] sozinho. A outra

corresponde a itens como “na mesa”, em que a preposição “em” apenas expressa

[PLACE-FUNCTION], precisando de outro item categorizado como [THING] (no

caso, “a mesa”) para poder expressar [PLACE]. Assim, “aqui” teria uma

representação conceitual mais complexa que “em”. Simplificando a representação

em 36, a encontrada em 37, mais próxima ao que os decomposicionistas costumam

utilizar, deixa as categorias ontológicas subscritas (poderiam ser simplesmente

apagadas):

37. [

Place

x] → [

Place

PLACE-FUNCTION ([

Thing

y])

Essa representação captura, de maneira mais clara, a generalização feita

em relação aos SPs “aqui” e “na mesa”: à esquerda há a representação da categoria

geral, lexicalizada em sua integridade por “aqui” (e “x” seria preenchido pelo lugar

onde se encontra o falante), e à direita há a decomposição em traços (primitivos)

mais específicos, sendo a parte em caixa alta correspondente à preposição. Com

esse tipo de representação, podemos notar que uma mesma categoria ontológica,

como [PLACE], pode representar uma estrutura superficial mais complexa ou menos

complexa, ou seja, pode ser lexicalizada (presente na representação de um único

item lexical) ou estar relacionada a uma estrutura superficial como “na mesa”. Fica

claro, conforme já dito, que as categorias ontológicas podem ser decompostas, mas,

mesmo assim, são finitos e universais. Para não haver confusão, o que não é finito

são as categorias ontológicas específicas (que não são primitivas, portanto), como

“aqui” ou “na mesa”, dois [PLACES], geradas composicionalmente de modo a

permitir infinitas estruturas. Por outro lado, os demais primitivos não são, à primeira

vista, decomponíveis (mais adiante veremos o primitivo CAUSE, que tem, na

verdade, uma sugestão de decomposição, mas em traços, e não em um formato de

vocabulário de primitivos).

Outra categoria ontológica que pode ser relacionada a SPs é [PATH], mais

complexa que [PLACE]. Vejamos os exemplos a seguir (adaptados para o português

de Jackendoff, 1983, p. 163-164), sendo apenas o segundo com um [PATH]:

38.a O rato está embaixo da mesa.

[Place UNDER ([Thing MESA])])]

95

38.b O rato correu pra baixo da mesa.

[Path TO ([Place UNDER ([Thing MESA])])]

Nessas duas representações, em caixa alta estão o [PLACE-FUNCTION]

UNDER e o [PATH-FUNCTION] TO. Esses dois primitivos são lexicalizados,

respectivamente, pelas preposições “embaixo” e “pra”. Mais especificamente em

38.b, vemos que, encaixado no [PATH], há um [PLACE], com “baixo” lexicalizando

[PLACE-FUNCTION]. Desse modo, é possível confirmar que a estrutura de [PATH] é

mais complexa.

Há alguns casos em que as preposições são ambíguas. Por exemplo, “em”

pode ser representado por [PLACE], como em “estar na mesa”, ou [PATH], como em

“ir no mercado”. O mesmo ocorre com a preposição “embaixo” em “ir embaixo da

cama” e “estar embaixo da cama” (no primeiro caso, é possível dizer que “em”

      

95 Os primitivos ficam em “inglês” porque, na verdade, são primitivos inatos universais. Por isso não

estaria associada a [PATH] e “baixo”, a [PLACE], ao passo que, no segundo caso,

“embaixo” seria um mesmo bloco associado a [PLACE], mas isso careceria de

análise mais detalhada de acordo com julgamentos de falantes).

Os [PATHS] podem ser divididos pelo menos em três tipos, conforme a

relação entre eles e os [PLACES] ou [THINGS]. O primeiro é o dos bounded paths

(paths “limitados”), subdivididos em goal-path (path de objetivo/destino),

representado por TO, já demonstrado em representação conceitual; e source-path,

representado por FROM (como no SP em “ir de Curitiba”).

O segundo tipo é o de “direções”. Os SPs “em direção a” ou “de” (que pode

também ter leitura de source-path) são exemplos relacionados à ideia de que há

uma movimentação em direção a algo ou de algo, sem expressar os limites da

origem ou do destino (como os [PATHS] do primeiro tipo). Por fim, há os [PATHS] do

tipo “rota”, em que os objeto de referência está no caminho (não no destino, nem na

origem). Os SPs em “passar pela casa”, “pular através da janela”, “ir ao longo do rio

são exemplos.

Para representar todos os [PATHS] em estruturas específicas, Jackendoff

sugere a seguinte regra de boa formação de estrutura conceitual:

39. [PATH] → TO

FROM [

Thing

y]

TOWARD [

Place

y]

AWAY-FROM

Path

VIA

Nessa representação, TO e FROM são os PATH-FUNCTIONS bounded

paths, TOWARD e AWAY-FROM são os PATH-FUNCTIONS de direções, e VIA é o

PATH-FUNCTIONS de rota.

Assim, todos os SPs espaciais, relacionados a localização ou direção, têm

estruturas conceituais de acordo com padrões capturados por essas sugestões de

descrições. Um mesmo grau de complexidade conceitual pode estar associado a um

item lexical (como “aqui”) ou a um SP mais complexo (como “na mesa”), o que

demonstra como o mesmo tipo de perspectiva usado para representar

conceitualmente um constituinte sintático complexo é usado para decompor

conceitualmente um item lexical, sendo esse segundo uso motivo de oposição por

parte dos atomistas.

Como já dito, não é nosso objetivo tratar com exaustão todas as estruturas

conceituais relacionadas aos SPs nem a outros tipos de constituintes sintáticos, mas

apenas tratar de algumas análises referenciais que dão corpo à sustentação

empírica da perspectiva decomposicionista. Estruturas conceituais relacionada a

SPs temporais, por exemplo, seriam analisadas de maneira similar. Tais estruturas

relacionadas a SPs, conforme vimos, interagem sobretudo com SVs, pois

geralmente são complementos verbais. Sobre os verbos, trataremos de algumas

representações de estrutura conceitual na sequência.