2 O ESTADO CONSTITUCIONAL DE DIREITO 2.1 O surgimento do Estado Constitucional de Direito
2.2 As diferenças entre a teoria e modelos de norma no positivismo e no pós positivismo
De uma maneira geral, pode-se afirmar que o modelo de norma no Estado positivista está fundamentado basicamente num “modelo de regras” ou “modelo de subsunção”, em que o primado da lei e o princípio da legalidade ocupam a centralidade do ordenamento jurídico.
Bobbio ressalta que a teoria do ordenamento jurídico positivista se baseia em três caracteres fundamentais: unidade, coerência e completitude286, ou seja, pode-se dizer que o direito é um sistema fechado, uno, coerente e completo, que não possui lacunas, as quais são preenchidas pelos métodos de integração tradicionais (analogia, costumes, princípios gerais de direito), e que opera segundo um “modelo de regras”.
Nesse paradigma, o postulado do positivismo jurídico clássico é o princípio da legalidade, a partir do qual se exalta uma perspectiva formal do direito, que surge como elemento de limitação da atuação do Estado a fim de proteger a liberdade e a propriedade burguesas, ou seja, há uma separação entre direito e moral ou entre validade e justiça287.
Por sua vez, no pós-positivismo, um mesmo enunciado linguístico pode gerar normas jurídicas diferentes nos casos concretos, à medida que é possível que uma norma provenha de vários preceitos ou enunciados linguísticos (interpretação sistemática). Pode- se asseverar que o contexto do pós-positivismo caracteriza-se por ser substancialista e, como enfatiza Ávila, estrutura-se basicamente em quatro fundamentos: o normativo ("da regra ao princípio"); o metodológico ("da subsunção à ponderação"); o axiológico ("da justiça geral à justiça particular") e o organizacional ("do Poder Legislativo ao Poder Judiciário")288.
Nessa ordem de ideias, no cenário das Constituições do pós-guerra e também do pós-positivismo, entre as quais se inclui a Constituição de 1988, supera-se uma visão meramente positivista do Direito, baseada num modelo exclusivamente de regras, para uma perspectiva neoconstitucionalista em que coexistam regras e princípios”289
. A distinção entre regras e princípios não é, assim, uma mera distinção de grau, porquanto, no
285 SARMENTO, Daniel. op. cit. 286
BOBBIO, Norberto. O positivismo jurídico: lições de filosofia do direito. Tradução de Márcio Pugliesi, Edson Bini e Carlos E. Rodrigues. São Paulo: Ícone, 2006, p. 198.
287 FERRAJOLI, Luigi. Por uma teoria dos direitos e dos bens fundamentais. Tradução de
Alexandre Salim, Alfredo Copetti Neto, Daniela Cadermatori, Hermes Zaneti Junior, Sérgio Cadermatori. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2011, p. 43.
288 ÁVILA, Humberto. Neoconstitucionalismo: entre a Ciência do Direito e o Direito da Ciência.
Revista Brasileira de Direito Público ‐ RBDP, Belo Horizonte, ano 6, n. 23, out./dez. 2008.
289
Página | 103 pós-positivismo, há uma diferença entre eles de ordem qualitativa, estrutural ou mesmo funcional. Para Canotilho, regras e princípios são normas jurídicas, de modo que a distinção entre regras e princípios é efetivamente uma distinção entre duas espécies de normas jurídicas, que se opera entre vários critérios, dentre os quais se destacam:
a) Grau de abstracção: os princípios são normas com um grau de abstracção
relativamente elevado; de modo diverso, as regras possuem uma abstracção relativamente reduzida; b) Grau de determinabilidade na aplicação do caso concreto: os princípios, por serem vagos e indeterminados, carecem de mediações concretizadoras (do legislador, do juiz), enquanto as regras são susceptíveis de aplicação directa; c) Caráter de
fundamentalidade no sistema das fontes de direito: os princípios são normas de natureza
estruturante ou com um papel fundamental no ordenamento jurídico devido à sua posição hierárquica no sistema das fontes (ex.: princípios constitucionais) ou à sua importância estruturante dentro do sistema jurídico (ex.: princípio do Estado de Direito); d)
“Proximidade” da ideia de direito: os princípios são “standards” juridicamente
vinculantes radicados nas exigências de “justiça” (Dworkin) ou na “ideia de direito” (Larenz); as regras podem ser normas vinculativas com um conteúdo meramente funcional; f) Natureza normogenética: os princípios são fundamento de regras, isto é, são normas que estão na base ou constituem a ratio de regras jurídicas, desempenhando, por isso, uma função normogenética fundamentante.290
Já para Dworkin as distinções entre regras e princípios, principalmente pela importância que essa diferenciação ganhou no domínio do neoconstitucionalismo, caracterizam-se pela presença dos seguintes critérios:
A diferença entre princípios jurídicos e regras jurídicas é de natureza lógica. Os dois conjuntos de padrões apontam para decisões particulares acerca da obrigação jurídica em circunstâncias específicas, mas distinguem-se quanto à natureza da orientação que oferecem. As regras são aplicáveis à maneira do tudo-ou-nada. Dados os fatos que uma regra estipula, então ou a regra é válida, e neste caso a resposta que ela fornece deve ser aceita, ou não é válida, e neste caso em nada contribui para a decisão. (...) Um princípio (...) não pretende (nem mesmo) estabelecer condições que tornem sua aplicação necessária. Ao contrário, enuncia uma razão que conduz o argumento em uma certa direção, mas (ainda assim) necessita uma decisão particular. (...) Os princípios possuem uma distinção que as regras não têm – a dimensão do peso ou da importância. Quando os princípios se intercruzam (...), aquele que vai resolver o conflito tem de levar em conta a força relativa de cada um. (...) As regras não têm essa dimensão. (...) Se duas regras entram em conflito, uma delas não pode ser válida291.
Porém, o ponto decisivo na distinção entre regras e princípios, segundo Alexy, é que princípios são normas que ordenam que algo seja realizado na maior medida possível dentro das possibilidades jurídicas e fáticas existentes, pelo que princípios são, por conseguinte, “mandamentos de otimização”, que são caracterizados por poderem ser satisfeitos em graus variados e pelo fato de que a medida devida de sua satisfação não
290 CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito constitucional e teoria da Constituição. 7. ed.
Coimbra: Almedina, 2003, p. 1160-1161.
291
DWORKIN, Ronald. Levando os direitos a sério. Tradução de Nelson Boeira. São Paulo: Martins Fontes, 2011, p. 39-43.
Página | 104 depender somente das possibilidades fáticas, mas também das possibilidades jurídicas, cujo âmbito é determinado pelos princípios e regras colidentes292.
Para Alexy, as regras são normas que são sempre ou satisfeitas ou não satisfeitas, pois se uma regra vale, então deve se fazer exatamente aquilo que ela exige, nem mais, nem menos; as regras contêm, portanto, determinações no âmbito daquilo que é fática e juridicamente possível, o que significa que a distinção entre regras e princípios é uma distinção qualitativa, e não uma distinção de grau, de modo que toda norma é ou uma regra ou um princípio293.
Já Virgílio Afonso da Silva acentua que o principal traço distintivo entre regras e princípios, segundo a teoria dos princípios, é a estrutura dos direitos que essas normas garantem: “no caso das regras, garantem-se direitos (ou se impõem deveres) definitivos, ao passo que no caso dos princípios são garantidos direitos (ou são impostos deveres) prima
facie”294, o que também é afirmado por Alexy (os princípios não contêm um mandamento definitivo)295.
A dimensão do peso também é ressaltada por Alexy, para quem os conflitos entre regras “ocorrem na dimensão da validade, enquanto as colisões entre princípios – visto que só princípios válidos podem colidir – ocorrem, para além dessa dimensão, na dimensão do peso”296
. Vale ainda ressaltar que a doutrina de Robert Alexy enfatiza a necessidade de sopesamento no caso de conflito entre princípios, estabelecendo-se aí uma relação entre a teoria dos princípios e a regra da proporcionalidade:
Há uma conexão entre a teoria dos princípios e a máxima da proporcionalidade e não poderia ser mais estreita: a natureza dos princípios implica a máxima da proporcionalidade e essa implica aquela; afirmar que a natureza dos princípios implica a máxima da proporcionalidade significa que a proporcionalidade, com suas três máximas parcial da adequação, da necessidade (mandamento do meio menos gravoso) e da proporcionalidade em sentido estrito (mandamento do sopesamento propriamente dito) decorre logicamente da natureza dos princípios, ou seja, que a proporcionalidade é deduzível dessa natureza. (...) Princípios são mandamentos de otimização em face das possibilidades jurídicas e fáticas, de modo que a máxima da proporcionalidade em sentido estrito, ou seja, exigência de sopesamento, decorre da relativização em face das possibilidades jurídicas. Quando uma norma de direito fundamental com caráter de princípio colide com um princípio antagônico, a possibilidade jurídica para a realização dessa norma depende do princípio antagônico, ou seja, para se chegar a uma decisão é necessário um sopesamento nos termos da lei de colisão297.
Mas, como observa Virgílio Afonso da Silva, a teoria de Alexy é contrariada por Frierich Müller, especialmente no que diz respeito à possibilidade de sopesamento entre normas de direitos fundamentais:
292 ALEXY, Robert. Teoria dos direitos fundamentais. Tradução de Virgílio Afonso da Silva. 2.
ed. 2. Tiragem. São Paulo: Malheiros, 2012, p. 90.
293 Ib. id. p. 91. 294
SILVA, Virgílio Afonso da. Direitos Fundamentais: conteúdo essencial, restrições e eficácia. São Paulo: Malheiros, 2009, p. 45.
295 ALEXY, Robert. op. cit. p. 140. 296
ALEXY, Robert. op. cit. p. 94.
297
Página | 105 (...) Não parece ser fácil defender, ao mesmo tempo, as teorias de Müller e Alexy, simplesmente porque ambas partem de concepções irreconciliáveis acerca da definição dos deveres prima facie e definitivos de cada direito fundamental. Müller defende que a definição do âmbito de proteção de cada direito fundamental é feito de antemão, por intermédio dos procedimentos e métodos de sua teoria estruturante e, principalmente, sem a necessidade de sopesamento; enquanto Alexy defende que não há decisões corretas no âmbito dos direitos fundamentais que não sejam produto de um sopesamento.298
Para Müller, o sopesamento é um método irracional, uma espécie de “sugestionamento linguístico”, vinculando-se a “pré-compreensões mal-esclarecidas” e a “envolvimento afetivo em problemas jurídicos concretos”, cujo resultado não passaria de “mera suposição”299
, não podendo substituir o esforço da interpretação, tampouco a concretização racional300. Essa busca da concretização racional da norma jurídica se opera a partir das noções de âmbito normativo e programa normativo:
No Direito Constitucional deve-se manter firme, portanto, o efeito clarificador e estabilizador do teor literal da norma como algo imprescindível no Estado de Direito, especialmente frente às pretensões da investigação tópica do Direito, isto é, tratar a norma com limites definidos pelo próprio texto, isto é, como um mero ponto de partida para a solução de um problema que pode ser ignorado em qualquer momento, como parece deixar de responder ao contexto do problema. O texto determina os limites extremos de possíveis variantes no significado. Mas além de tais limites não é lícito que os elementos do âmbito normativo, frequentemente apenas insinuados nos preceitos constitucionais mediante palavras-chave (...), convertam-se no fator decisivo da aplicação jurídica. Como não podia ser de outro modo, haverá de dizer algo distinto naqueles casos nos quais o texto resulte manifestamente incorreto ou equivocado. As distinções entre âmbito material, âmbito normativo e programa normativo, suas subordinações em cada caso concreto e o trabalho com estes conceitos estruturais não podem, em suma, nem garantir que as decisões sejam corretas nem substituir os métodos tradicionais e recentes da aplicação do Direito.301
Além disso, conforme ressalta Virgílio Afonso da Silva302, a divergência acerca do sopesamento é apenas um dos pontos incompatíveis entre Müller e Alexy, e o principal deles giraria em torno do conceito de norma jurídica, pois Alexy parte de um “conceito semântico de norma”, o que, para Müller, trata-se apenas do início do procedimento de concretização normativo, ou seja, o que para Alexy é norma, para Müller é tão-somente o que ele chama de “programa normativo”.
Apresentadas sucintamente as diversas teorias que mais se destacam no contexto do neoconstitucionalismo, é possível afirmar que no pós-positivismo convivem dois ou
298 SILVA, Virgílio Afonso da. Interpretação constitucional e sincretismo metodológico. In:
SILVA, Virgílio Afonso da (Org.). Interpretação constitucional. 1. ed., 3. tir. São Paulo: Malheiros, 2010, p.115-143.
299 Idem.
300 MÜLLER, Friedrich. Teoria estruturante do direito. Tradução de Peter Naumann e Eurides
Avance de Souza. 2. ed. rev. atual. e ampl. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2009, p. 281 e 290.
301
MÜLLER, Friedrich. Tesis acerca de la estrutura de las normas jurídicas. Madrid: Centro de Estudios Constitucionales, 1989.
302 SILVA, Virgílio Afonso da. Interpretação constitucional e sincretismo metodológico. In:
SILVA, Virgílio Afonso da (Org.). Interpretação constitucional. 1. ed., 3. tir. São Paulo: Malheiros, 2010, p.115-143.
Página | 106 três modelos de normas jurídicas (lembrando apenas que, para Barcellos, há diferença entre enunciado linguístico e norma), todos eles coexistindo, um sem excluir ou afastar o outro: modelo de regras, modelo de princípios e um modelo de regras e princípios.
Partindo-se da teoria dos direitos fundamentais de Robert Alexy, é possível afirmar-se que, por meio das disposições de direitos fundamentais, podem ser estatuídas duas espécies de normas – as regras e os princípios – , o que é o fundamento do caráter duplo das disposições de direitos fundamentais, mas isso não significa ainda que também as normas de direitos fundamentais compartilhem desse mesmo caráter duplo, ou seja, as normas de direitos fundamentais adquirem um caráter duplo se forem construídas de forma a que ambos os níveis sejam nelas reunidos, pois uma tal vinculação de ambos os níveis surge quando na formulação da norma constitucional é incluída uma cláusula restritiva com a estrutura de princípios, que, por isso, está sujeita a sopesamentos303.