4.8 Semelhanças e diferenças recuperadas dos vídeos
4.8.2 Diferenças
PUCSP – uma tribuna USP – duas tribunas
PUCSP – ausência do conselho universitário no palco
USP – Conselho universitário no palco
PUCSP – ausência da fala do representante do conselho
universitário
USP – Fala do representante do Conselho Universitário
PUCSP – Trajes comuns USP – Vestes talares
PUCSP – entrega de flores USP – ausência de flores
PUCSP – ausência da fala da
PUCSP – ausência de vídeo de
encerramento na fita USP – vídeo de encerramento na fita
Nas duas universidades o início das solenidades se desenvolve de maneira distinta.
Na USP, após a saudação do mestre-de-cerimônias, acontece a entrada solene dos membros do Conselho Universitário, a composição da mesa, a entrada do coral, a declaração de abertura pelo vice-governador e a execução do Hino Nacional.
Na PUCSP a sessão começa com a saudação do mestre-de-cerimônias, apresentação do coral, exibição de um vídeo institucional, composição da mesa, pronunciamento da vice-reitora comunitária, pronunciamento da vice-reitora acadêmica, pronunciamento do Reitor, destaque das autoridades presentes, Cardeal faz a declaração de abertura da solenidade de posse, execução do Hino Nacional.
O desenvolvimento e o encerramento das solenidades também ocorrem de maneira diferente. Após o hino, na USP, o mestre-de-cerimônias faz o destaque das autoridades presentes, a secretária conduz o compromisso feito pelo Reitor empossado, a assinatura do termo de posse e a troca de insígnias. O representante do Conselho Universitário fala e, mesmo sem ser anunciada, questão que trataremos adiante, existe o pronunciamento da representante discente. Imediatamente após, há a fala do vice-reitor, mais uma apresentação do coral da USP e a fala do Reitor empossado. Para encerrar, o mestre-de-cerimônias anuncia as palavras do vice-governador.
O Hino Nacional, na solenidade da PUCSP, marca o início da segunda parte da solenidade, enquanto que na USP, como determinam os cerimonialistas que estudam o cerimonial no Brasil, o Hino Nacional marca o início da cerimônia, com as autoridades já posicionadas na mesa de honra.
Dois pontos chamam a atenção: o primeiro é que na USP há espaço para que o aluno manifeste suas palavras durante a solenidade. O outro ponto é a rigidez da norma em relação ao discurso da maior autoridade. Durante as discussões sobre cerimonial no Brasil e até mesmo em cursos, estudiosos afirmam que após a fala da maior autoridade ninguém mais pode se pronunciar, com exceção ao mestre-de- cerimônias para encerrar a solenidade. Na USP, a regra foi cumprida: após o discurso do vice-governador nem mesmo o mestre-de-cerimônias disse “boa noite”. Na solenidade da PUCSP, não é possível saber o que aconteceu, uma vez que a fita foi cortada e não apresenta o final da cerimônia, porém, o script prevê um encerramento do mestre-de-cerimônias após a fala do Cardeal.
Para finalizar esse texto que antecede a análise do corpus uma questão deve ser respondida: as normas estão submetidas à instituição?
A resposta aparece na teoria bakhtiniana:
Cada época e cada grupo social têm seu repertório de formas de discurso na comunicação sócio-ideológica. A cada grupo de formas pertencentes ao mesmo gênero, isto é, a cada forma de discurso social, corresponde um grupo de temas. Entre as formas de comunicação (por exemplo, relações entre colaboradores num contexto puramente técnico), a forma de enunciação (“respostas curtas” na “linguagem de negócios”) e enfim o tema, existe uma unidade orgânica que nada poderia destruir. Eis porque a classificação das formas de enunciação deve apoiar-se sobre uma classificação das formas da comunicação verbal. Estas últimas são inteiramente determinadas pelas relações de produção e pela estrutura sócio-política. Uma análise mais minuciosa revelaria a importância incomensurável do componente hierárquico no processo de interação verbal, a influência poderosa que exerce a organização hierarquizada das relações sociais sobre as formas de enunciação. O respeito às regras da ‘etiqueta’, do ‘bem-falar’ e as demais formas de adaptação da enunciação à organização hierarquizada da sociedade têm uma importância imensa no processo de explicitação dos principais modos de comportamento (Bakhtin (Volochinov), 1929/2004, p. 43)
Afastar da comunicação verbal a história e a memória de uma organização é impossível. Mesmo não caracterizadas pela situação imediata, a história e a memória constituem o processo de interação. As normas rígidas estabelecidas pelo cerimonial para solenidades universitárias estão submetidas ao componente hierárquico e à tradição da instituição. Assim entendo que as histórias da USP e da PUCSP justificam as diferenças.
As duas universidades mantêm o caráter solene da cerimônia, com a presença no palco de bandeiras e autoridades, composição de mesa e a condução do evento por um mestre-de-cerimônias. A apresentação do coral é a única atração das cerimônias, porém, na PUCSP, um vídeo institucional integra a solenidade.
As fichas com o nome das autoridades e personalidades presentes à solenidade são entregues aos mestres-de-cerimônias para a leitura. As duas universidades destacam os convidados presentes.
Na PUCSP, recepcionar as pessoas e organizar os eventos sempre foi uma tarefa dos próprios professores, diferente da USP, que mantém uma equipe de funcionários para atuar nas cerimônias. Outro diferencial é a utilização da indumentária típica. Na posse da PUCSP o traje social foi usado por todos e as vestes talares não aparecem, como também não aparece a figura do chefe do cerimonial ou do mestre-de-cerimônias contratado para as solenidades da universidade.
O papel da secretária geral na sessão de posse também é fundamental nas duas solenidades. A diferença está no lugar que elas ocupam em cada instituição. Na USP a secretária geral ocupa a mesa de honra, sentada ao lado esquerdo do vice-reitor. Na PUCSP ela entra somente quando anunciada.
Após a identificação das semelhanças e diferenças recuperadas das filmagens das solenidades, pretende-se a seguir analisar o discurso do mestre-de- cerimônias em situação de imprevisto durante as duas cerimônias.
4.9 Análise do discurso do mestre-de-cerimônias
Em cada época, em cada círculo social, em cada micromundo familiar, de amigos e conhecidos, de colegas, em que o homem cresce e vive, sempre existem enunciados investigados de autoridade que dão o tom, como as obras de arte, ciência, jornalismo político, nos quais as pessoas se baseiam, as quais elas citam, imitam, seguem. Em cada época e em todos os campos da vida e da atividade, existem determinadas tradições, expressas e conservadas em vestes verbalizadas: em obras, enunciados, sentenças, etc. Sempre existem essas ou aquelas idéias determinantes dos ‘senhores do pensamento’ de uma época verbalmente expressas, algumas tarefas fundamentais, lemas, etc. (Bakhtin,
1979/2003, p. 294)
A fala do mestre-de-cerimônias é determinada por um script, o prescrito para a atividade na condução de solenidades, porém, esse prescrito se atualiza na realização da atividade. Essa atualização corresponde ao gênero discursivo do mestre-de-cerimônias, definido sob uma perspectiva interacional, composto por elementos relativamente estáveis e elementos instáveis, caso do imprevisto.
Para entender como o imprevisto se caracteriza no gênero discursivo do mestre-de-cerimônias é preciso considerar como esse gênero se desenvolve.