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Diferentes olhares a respeito do sujeito que se autolesiona

2.2 Sobre os riscos de certos riscos: o comportamento autolesivo

2.2.2 Diferentes olhares a respeito do sujeito que se autolesiona

Em Lang, Barbosa e Caselli (2009), o fenômeno da autolesão parece-nos delineado de maneira mais ampla e condizente com a abordagem histórico-cultural que considerei para este estudo. Desse ponto de vista, os autores percebem a automutilação “como um modo de escrita e de inscrição do corpo e de uma subjetividade no campo da realidade. Uma forma de individualizar-se, mas também de sujeitar-se a algo” (p. 236). O esforço dos autores está no sentido de superar a dicotomia homem-sociedade, ou ainda, de transpor os limites entre a psicologia individual e a psicologia social, bastante presente na asserção que evidencia um processo que, ao mesmo tempo, individualiza e “inscreve na realidade”. Eles entendem, portanto, que o corpo é um locus onde a subjetividade pode se dar ao diálogo.

Nessa perspectiva, os autores percebem a necessidade de abordar o fenômeno da autolesão a partir da singularidade de cada sujeito na intenção de valorizar a experiência pessoal. Adotam uma ação que possa “positivar as experiências”, isto é, percebem os

“fenômenos subjetivos, que constituem não o sinal de uma doença, mas a expressão do conflito onipresente na relação do sujeito com a sua imagem e com a alteridade” (LANG; BARBOSA; CASELLI, 2009, p. 237). Esse conflito onipresente relembra a epígrafe de Dostoiévski, quando o autor se refere à dor que não tem fim da experiência humana. Esse entendimento teórico aponta, então, um distanciamento da linguagem e lógicas patologizantes e biomédicas - tal qual Patto (1997) e Contini et al (2002) - que dividem em unidades o sujeito e a doença, o indivíduo e a patologia.

A prática da automutilação nos serve como guia na tentativa de inscrição subjetiva/objetiva do corpo e na tentativa de escrita no corpo, como a inscrição de algo que diz respeito ao sujeito, algo “interior”, que passa a ser “exterior” no corpo, e que pode ser visto pelos outros. Nesse sentido, vemos que não há distinção entre o que está “dentro” e “fora” do sujeito, de modo que esses conceitos se misturam e se relacionam (LANG; BARBOSA; CASELLI, 2009, p. 237).

Essa teorização busca aproximação no campo das práticas históricas e culturais, pois reconhece que, em todos os tempos, homens e mulheres modificaram intencionalmente seus corpos por meio de intervenções, isto é, tatuam suas peles, diminuem e/ou modificam cirurgicamente seus lábios, orelhas e narizes. Ainda segundo esses mesmos autores, a humanidade lançou mão de usos e técnicas de intervenção estética, ritualística, de sexualidade, de intenção religiosa ou das mais variadas expressões da atividade humana com representação em sua própria carne. De alguma forma, os modernos piercings, as tatuagens no estilo Maori, as argolas de certas tribos africanas, as pinturas corporais de alguns povos indígenas brasileiros, dentre outras incontáveis expressões da cultura corporal, são aproximações culturais de práticas que fazem intervenção nos corpos das pessoas, mesmo que no caso da autolesão esteja singularmente permeada de sofrimento psíquico e dificuldade de simbolizar. Essa relação com intenso sofrimento e limitada significação diferencia a autolesão das outras intervenções sobre o corpo, porém, o ponto a que quero chegar é que, mesmo a autolesão diferindo em grande medida de expressões culturais como a tatuagem, tem em comum a intervenção intencional modificadora do corpo.

A automutilação, bem como as tatuagens, piercings e demais marcas corporais, podem ser percebidas tanto como um ato coletivizado, por fazer referência à cultura e ter função social, quanto individualizado, por representar uma vivência do próprio sujeito. Essas práticas, de autolesão, não são expressões que tem sua origem no “ser individual” do indivíduo como se fosse possível pensar um sujeito isolado de seu contexto. Por mais que não costumem ser realizadas publicamente, dialogam, no sentido bakhtiniano, com outras pessoas. Mesmo não estando duas pessoas em frente uma para a outra, se cortando, é possível

compreender que há na autolesão uma responsividade, em relação a um “outro”, isto é, o comportamento autolesivo também pode ser entendido a parir dessa reflexão, quando o sujeito interage em função dessa modalidade de automutilação com médicos, psicólogos, professores, amigos e outros adolescentes com a mesma expressão (LANG; BARBOSA; CASELLI, 2009).

Lang, Barbosa e Caselli (2009) buscam um recurso retórico em função da etimologia da palavra “cutting”, variável de língua inglesa do termo “cortar” no idioma português. Em latim, “curtare” expressa a ação de reduzir, tornar curto. Assim, o sujeito da ação de “cutting”, “o cortador”, atuaria no sentido de reduzir (amenizar) a dor, cortar a dor, corta/dor no sentido do sofrimento psíquico, mesmo que, para isso, seja necessário infligir a si próprio uma dor física.

Continuando a leitura de Lang, Barbosa e Caselli (2009), noto que os autores mencionam o fato de que pessoas que se mutilam reportam dificuldade para falar sobre a sua dor, para expor o sofrimento em palavras, ou seja, para exprimir o que sentem. Ainda segundo esses autores, isso ocorre “como se as próprias palavras [também] ficassem mutiladas” (p. 238). Indo mais fundo em sua investigação, esses autores fazem um apanhado de estudos clássicos acerca da automutilação e citam como sendo pioneiros os trabalhos de Karl Menninger, que publicou a partir de 1934, e Armando Favazza, que realizou seu estudo em 1988. Embora Menninger e Favazza abordem o fenômeno de forma distinta, ambos contribuíram, cada um, a seu modo, para a fundação dos estudos sobre automutilação.

Segundo Turner5 (apud LANG; BARBOSA; CASELLI, 2009), o artigo6 que inaugurou os estudos sobre automutilação na literatura médica é de 1846. Consistia em um caso relatado no qual uma viúva de 48 anos, acometida de transtorno maníaco-depressivo, teria retirado seus próprios olhos. Este ato extremo foi realizado para que não mais desejasse os homens e, por isso, entrasse em pecado, o que configura uma interpretação literal e radical do ensinamento bíblico presente no versículo nove do capítulo dezoito do livro de Mateus. De acordo com o texto bíblico, “se um dos teus olhos te faz pecar, arranca-o, e lança-o fora de ti, pois melhor é entrares na vida com um olho só, do que, tendo os dois, seres lançados no fogo do inferno”.

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5 TURNER, V.J. Secret Scars: uncovering and understanding the addiction of self-injury. Minnesota: Hazelden,

2002.

6 BERGMANN G. H. Ein Fall bon religiöser Monomanie, die eine unerhörte Selbstvertletzung veranlasste

Karl Menninger, fundador da Associação Psicanalítica Americana, é psiquiatra graduado em Harvard e escreveu, em 1934, sobre a visão psicanalítica da automutilação. O autor concluiu que havia três importantes unidades que constituíam o fenômeno:

a) a relação de amor-ódio sentida por, provavelmente, um dos pais, é projetada em forma de agressão contra si mesmo;

b) a estimulação física ou mesmo sexual;

c) a “função autopunitiva”, que fazia com que a ação tivesse função expiadora de pecados e culpas. Essas unidades constituem elementos imprescindíveis para a análise psicanalítica do fenômeno autolesivo.

Em acréscimo, Strong7 (apud LANG; BARBOSA; CASELLI, 2009, p. 241) afirma que “a pesquisa mais extensiva sobre a automutilação foi conduzida por Armando Favazza, um professor de psiquiatria da universidade de Missouri [...] e cofundador da Sociedade para o Estudo de Psiquiatria e Cultura”. O estudo foi conduzido com a participação de 240 pessoas que se automutilavam cronicamente. A conclusão da pesquisa revelou que a função da autolesão era, naquele contexto, a busca pela amenização temporária de sintomas de ansiedade, despersonalização e pensamentos muito acelerados. Em alguns casos, conforme relata o autor, houve também tentativa de suicídio entre os achados de sua pesquisa.

Nos anos 1980, parte significativa do pensamento acadêmico abordava a autolesão como “parasuicídio”, ou seja, o comportamento autolesivo faria parte dos comportamentos que cercavam a ideação suicida e as tentativas suicidas. Diferentemente dessa posição, e em certa medida oposta a ela, Menninger entendia que, “enquanto aparentemente uma forma de suicídio atenuada, a automutilação é, na verdade, a formação de um compromisso, um acordo, para evitar a total aniquilação do sujeito, isto é, o suicídio” (LANG; BARBOSA; CASELLI, 2009, p. 242); isto é, se através de um olhar superficial do observador desatento, a autolesão poderia transparecer que seria um comportamento suicida, Menninger entendia que a autolesão seria um comportamento que evitaria o suicídio. Isso se justifica porque, ao olhar de Menninger, a autolesão sustentava o sujeito e o livrava de cometer o derradeiro ato, já que,

...além de ser uma forma de sustentar a vida e manter a sanidade ao lidar com conflitos psíquicos, a automutilação também é uma forma primitiva e poderosa de comunicação para indivíduos incapazes de verbalizar o que sentem. A automutilação acaba proporcionando uma expressão concreta para a dor, uma linguagem escrita no

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7 STRONG, Marilee. A Bright Red Scream: self-mutilation and the language of pain. London: Penguin Books,

corpo, através de sangue, feridas e cicatrizes (LANG; BARBOSA; CASELLI, 2009, p. 242).

As marcas de autolesão no corpo são, por assim dizer, uma forma primitiva de linguagem (LANG; BARBOSA; CASELLI, 2009) ou sinais (BAKHTIN, 1988). Elas sinalizam estados intrasubjetivos não-nomeados, originados de interações intersubjetivas. Na prática, ao visualizarmos um sujeito que se autolesiona, frequentemente são encontradas marcas nos seus antebraços, feitas com traços cuja visão não é muito diferente disso: “////\\\\|||\\\||||\\\//////////////”. São marcas frequentemente retas, verticalmente orientadas, algumas vezes inclinadas para a direita ou para esquerda, outras vezes se entrecruzam. Tomo, pois, esses sinais como uma maneira do adolescente lidar com emoções e pensamentos e com todo o mundo privado e público, que, por sua vez, é constituído a partir das determinações sócio-históricas.

Essa prática é passível de significação, pois enquanto um jovem marca seu corpo, ele não está em silêncio absoluto nem neutro em suas emoções. Ao contrário, enquanto ele se marca está repleto de afetos - angustia, culpa, raiva e/ou tristeza - bem como está pensando ou falando - verbalizando hipóteses sobre o mundo e sobre si, planejando outras ações, etc. Essas marcas, portanto, estão circunscritas a um contexto passível de ser elucidado, interpretado.

Assim, um sujeito que marca à lâmina a superfície do próprio corpo, ao invés de papel, usa uma “linguagem não-alfabética” e primitiva: uma sinalidade. Imagine que, na sala de aula, um estudante, em fase inicial de um processo de alfabetização, ao ser solicitado pela professora que escreva sobre a escola, verbalize: “- professora, eu gosto da escola” e no papel escreva: “////\\\\|||\\\||||\\\//////////////”. Certamente a professora tomaria os traços como um esforço inicial de escrita, ainda que ineficiente socialmente e, pelo conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal (VYGOTSKY, 2001), auxiliaria a criança a se alfabetizar, dominando os signos e símbolos próprios da cultura letrada.

Meu entendimento, acerca desse ponto, é, portanto, que um discurso em ciências humanas tem sido construído para lidar com o fenômeno da autolesão e superar o discurso psicopatológico.

Isso se justifica porque a superação não está restrita à negação do saber biomédico, mas no fato de que o transcende na medida em que propõe, à dinâmica interpretativa, elementos poéticos, antropológicos, sociológicos e psicossociais. Constitui, com isso, um exercício ético ao abordar os fenômenos humanos pela sua expressão positiva ao invés de tachá-los como “disfuncionais” ou “patológicos”. De fato, esta postura faz todo sentido quando se está na lida diária com pessoas concretas, com seres humanos e não

somente com laboratórios, estatísticas e corporações8. Entendo, portanto, que abordar a temática a que me propus proporciona uma ampliação da compreensão sobre a subjetividade porque pressupõe uma visão disposta a se surpreender com o novo como ser dotado de particularidades e em singulares interações históricas e culturais, mesmo que, no tecido cultural e social mais amplo, esteja imiscuído em fenômenos comuns e de massa.

Nessa perspectiva, é preciso admitir que a história individual marca a subjetividade, assim como o sujeito pode marcar o seu corpo. Logo, o corpo não é tomado como uma variável acidental ou interveniente, mas como parte mesmo daquilo que se chama de subjetividade. Para Lang, Barbosa e Caselli, isso também parece evidente quando afirmam: Entendemos que o corpo, na automutilação, [...] onde marcas e cicatrizes contam uma história, revelam a subjetividade. Elas permanecem gravadas na pele, umas mais apagadas, outras mais nítidas, marcas sobre (no duplo sentido da palavra) marcas, cada uma delas carregando uma história singular (LANG; BARBOSA; CASELLI, 2009, p. 243).

Os autores concluem que “com ou sem medicação, o que pode realmente ajudar um automutilador é autorizá-lo a falar, expressar-se” (LANG; BARBOSA; CASELLI, 2009, p, 243). Importa, então, atentar para as histórias e narrativas, devendo-se ouvir a expressão do sujeito e da processualidade de sua subjetividade.

Ainda no sentido de discutir a autolesão no âmbito da cultura, proponho uma reflexão a partir da aproximação com o conceito de Geertz (2014, p. 4) de cultura. Nas palavras do autor:

O conceito de cultura que eu defendo [...] é essencialmente semiótico. Acreditando, como Max Weber, que o homem é um animal amarrado a teia de significados que ele mesmo teceu, assumo a cultura como sendo essas teias e a sua análise; portanto não como uma ciência experimental em busca de leis, mas como uma ciência interpretativa, à procura de significado.

Dialogando com o conceito de Geertz, uma vez que se possa interpretar a prática da autolesão à luz do contexto social em que ela se expressa, podemos compreender a prática de se cortar como uma prática cultural. Outro autor que auxilia a compreender esse debate é Vygotsky (1998). Permita-me o leitor que recorra mais uma vez ao autor russo antes de retornar a Geertz: é apenas uma lembrança do conceito exposto no tópico primeiro, quando defini cultura em Vygotsky como mediação entre a atividade humana e a realidade por meio de instrumentos e signos. Por meio de instrumentos o ser humano intervém diretamente na realidade, enquanto os signos são acessados para mediar as relações consigo mesmo e com os

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8 Inevitável foi me recordar do dramaturgo romano Publio Terêncio Afro (195-185 a.C) ao dizer: “homo sum:

outros seres humanos. Dito isto, afirmo que a autolesão se dá através do uso frequentemente de lâminas de aço, instrumentos que intervém diretamente sob o corpo do sujeito, alterando sua realidade intrasubjetiva. Concluo, portanto, afirmando que cortar a si mesmo possui características culturais pelo uso intencional de instrumentos que modificam a realidade do corpo.

Há pesquisas que apontam para um início da ação autolesiva como “acidental” ou espontânea (SANTOS; FARO, 2018), compreendendo que autolesão só passe, no decorrer do tempo, a fazer parte de um estilo de vida, e de uma forma cultural mais ampla. Veja, então, que a percepção de que a ação começa com uma “autolesão acidental”, a meu ver, carece de sustentação, pois não esclarece o contexto histórico-cultural em que a “autolesão acidental” ocorre, é preciso entender o que veio primeiro na história de vida da adolescente. É fácil supor, desde que se leia o mundo através das lentes sócio-históricas, que primeiro ocorre a exclusão social, a sociedade patriarcal e disciplinar visto que essas condições já estão postas antes mesmo de nascermos. É preciso, portanto, admitir que, se uma menina começa a se lesionar, bem antes disso, ela já está inserida em uma sociedade que dispôs condicionantes para essa condição. Portanto, da mesma forma que a linguagem se inicia culturalmente para depois ser internalizada, apropriada e particularizada (VYGOTSKY, 1998), a violência (heterolesão) é primeiro cultural e social, para depois ser igualmente internalizada, apropriada e particularizada, se constituindo como autolesão. Creio ser essa equivalência possível de ser feita através do conceito de internalização, que explicaria tanto a aquisição da linguagem quanta internalização da violência.

Retomando as ideias de Geertz (2014), o antropólogo aborda o fenômeno da autolesão a fim de ganhar acesso ao “mundo conceptual” (p. 17) e semiótico do sujeito, isto é, para que seja possível dialogar com ele. Neste sentido essa pesquisa se utiliza de uma abordagem interpretativa a fim de conhecer, dialogar com o adolescente que se autolesiona a partir dos seus sentidos, ou seja, na intenção de compor um ponto na teia de significações, para usar a expressão de Geertz. A atividade autolesiva, como veremos em Cavalcante e Cavalcante (2013), inclui uma ética, uma estética, uma apreciação artística, ou seja, é uma forma de se conviver socialmente em que a ação autolesiva é apenas a expressão aguda e sinalizadora que nos choca, visto que assume a forma socialmente inaceitável de um adolescente comportar-se em relação a si mesmo. Voltarei a esse ponto mais à frente; por ora, importa dizer que para realizar este estudo é preciso conhecer os pensamentos das estudantes. Para Geertz (2014, p. 15), conhecer o pensamento é mais que desvelar o espaço interpsíquico. Para o autor,

Pensar consiste não nos “acontecimentos da cabeça” [...], mas num tráfego entre [...] as palavras, para a maioria, mas também gestos, desenhos, sons musicais, artifícios mecânicos como relógios [...] na verdade qualquer coisa que esteja afastada da simples realidade e que seja usada para impor um significado à experiência.

Observe que o autor situa como passível de interpretação todos os usos de instrumentos e signos humanos que sejam usados para impor significado à experiência”. Assim, fundamento a possibilidade de interpretar “o tráfego” entre as palavras, os desenhos e a práticas de autolesão das jovens, tomando todas essas manifestações como atos de cultura. Um exemplo talvez possa ajudar a elucidar essa questão: Geertz (2014) cita uma exposição de Gilbert Ryle (1900-1976) onde expõe um debate em que dois garotos estão piscando o olho direito. Um deles apenas possui um tique nervoso, enquanto o outro está a piscar para um amigo, como forma de conspirar. Embora a forma de piscar seja idêntica há aqui duas ações distintas. Aquele que pisca está fazendo um gesto deliberado, orientado a outro, comunicando uma mensagem e age em consonância com um “código socialmente estabelecido”. Em relação ao outro, aquele que tem tique nervoso, Geertz argumenta que este apenas “contrai as pálpebras”. Um pisca enquanto o outro contrai as pálpebras.

Analogamente, há uma importante diferença entre quem se autolesiona (corte com lâminas a fim de lidar com situações adversas) e quem se tatua (geralmente desenhos ou palavras inseridas diretamente na pele). Há algumas semelhanças entre a autolesão e o tique nervoso do caso que Ryle expôs. O que se assemelha é, que na ação autolesiva, não me parece haver um código socialmente estabelecido, assim como me parece temerário afirmar que é feita objetivamente para outro. Há, porém, diferenças, pois na autolesão a ação é deliberada e intencional, voltada para si mesmo (a fim de lidar com as emoções adversas) e se faz uso de um instrumento (geralmente uma lâmina de aço). A ação autolesiva, portanto, não é tão deliberadamente uma formação cultural como a tatuagem ou a piscadela, mas não é um ato reflexo tão simples quanto um tique nervoso. Assim, para Geertz (2014), a função do pesquisador é mais próxima da função do crítico literário do que do ofício do “decifrador de códigos”, visto que, o pesquisador deve compreender

Uma hierarquia estratificada de estruturas significantes em termos das quais os tiques nervosos, as piscadelas, as falsas piscadelas, as imitações, os ensaios de imitações, são produzidos, percebidos e interpretados, e sem as quais eles de fato não existiriam (nem mesmo as formas zero de tiques nervosos as quais, como categoria cultural, são tão não piscadelas quanto as piscadelas são não tiques), não importa o que alguém fizesse ou não com sua própria pálpebra (GEERTZ, 2014, p. 5).

Isto posto, analogamente, independente da “forma zero” da autolesão, importa perceber que o impulso de se cortar é tão relevante quanto o significado do corte, e o primeiro não subsiste sem o segundo. Compreender essa relação é mais que determinar o quanto de cultura há na autolesão; a tarefa a que me proponho é a de perceber e interpretar os sentidos que o sujeito da atividade produz sobre a autolesão, não só na sua dimensão da ação, mas como atividade em seu contexto psicossocial.

Sustento ainda que a atividade autolesiva faz parte de uma formação social assemelhada aos grupos de contracultura e subcultura como os punks, emos ou quaisquer outras expressões de grupo de adolescentes (CAVALCANTE; CAVALCANTE, 2013). Distingue-se, porém, por ser uma expressão de dificuldade notável de se relacionar socialmente, e pela presença de sofrimento humano extremo. Constitui-se desta forma como parte de uma cultura da exclusão social, do isolamento social, da solidão, do ensimesmamento, da dificuldade de diálogo, do uso excessivo de tecnologias como o celular e o fone de ouvido (CAVALCANTE; CAVALCANTE, 2013). Para os autores,

...o comportamento autodestrutivo vem sendo bastante observado entre adolescentes e jovens que aderem ou simpatizam com subculturas undergrounds, tais como emo ou gótica [...]. Em algumas delas se pode constatar a manifestação de autolesões, sutis ou extremadas, que podem variar do abuso de álcool ou de drogas ilícitas até à