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3 A ESCRITA DE SI: PROCESSOS DE AUTONOMIA POR MEIO DE

3.1 Reflexões iniciais sobre a linguagem e a escrita

José Ferrater Mora, em seu “Dicionário de Filosofia” (MORA, 1998), reserva um verbete exclusivo para o problema da linguagem. Desde os pré-socráticos, diversos filósofos clássicos se preocuparam com a linguagem em sua interface com a razão. Linguagem estava diretamente associada à racionalidade que, por sua vez, definia a própria natureza humana que, em essência, seria a de um animal racional. A diferença entre seres humanos e a natureza animal estava, portanto, em ser um ente com capacidade de falar.

A partir do homem, “o universo podia falar” (MORA; 1998, p. 422). O homem era o próprio logos. Até mesmo Heráclito e Parmênides concordavam, pelo menos, nesse aspecto: o homem pode falar e isso é a realidade da racionalidade e a “linguagem do ser”. Mora prossegue sintetizando o clássico de Platão, no seu diálogo “Crátilus”, em que propõe o

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9 Lucas e Celestino fundamentam-se em Gaudreault (1999), com o conceito de “mostração”, e Genette (1995), à

debate entre dois pensamentos antagônicos representados em Hermógenes e Crátilus. Seriam os nomes essências que emergiriam das coisas mesmas ou seriam eles provenientes de convenções? Platão, contudo, superou as teses sofistas e a de Hermógenes propondo que os nomes são simultaneamente convenções e permanência. Em suma: os entes teriam em Platão uma natureza fixa e um nome adotado que lhe expressa (MORA; 1998).

A linguagem, nesse sentido, constitui tema central na filosofia ao ponto de, na atualidade, o próprio pensamento filosófico ser definido por uma “filosofia linguística”, ou seja, “a linguagem acerca da linguagem”. O principal pensador responsável pela virada linguística foi Wittgenstein (1973) com seus jogos de linguagem. Para este autor, o papel da filosofia é desvendar o enfeitiçamento da linguagem e revelar o jogo de relações: os usos da linguagem como sua essência. Para tal abordagem, não há algo misterioso e metafísico por trás da linguagem e, por isso, só se pode aprender a língua pela compreensão de seus usos.

Noutra direção, Câmara Cascudo (2017), em sua perspectiva antropológica, situa os usos da linguagem na história do desenvolvimento humano. Segundo ele, o homem iniciou o uso da fala há 7.200 anos, “faculdade que ainda se discute ter sido oferta dos deuses, função fisiológica natural, conquista, adaptação orgânica para a produção intencional sonora pelo exercício da vontade” (p. 647). O autor analisa, destarte, que o homem possui a exclusividade da capacidade de “mentir” e explica o mecanismo sofisticado envolvido nessa operação linguística através do quod volumus, facile credimus10. Logo, seja intencionalmente ou por conveniência, a mentira é um fenômeno privativo da expressão vocabular.

A primeira linguagem em termos de aparecimento, na verdade, foi a gestual. Ela está presente até hoje nas línguas de sinais para pessoas surdas ou como parte do repertório das pessoas falantes, em acompanhamento à fala. No início era o gesto e sua significação, mas, em algum momento, em meio ao exercício da caça e da pesca, com as mãos ocupadas e o corpo voltado para a ação prática, a emissão de sinais sonoros passou a ser mais razoável. A linguagem é, pois, uma expressão formada na passagem do nomadismo para o agrupamento em torno das tribos e famílias, ou seja, um fenômeno produzido a partir da sedentarização.

Os sinais gráficos, contudo, vieram posteriormente. Câmara Cascudo (2017, p. 653) atribui aos egípcios a representação do pensamento através de figuras de animais, ao dizer: “falaram quando a mão gravou o primeiro sinal, fixador do pensamento, da imagem, do símbolo, vencedor do tempo e da morte”. Um passo a mais e o Egito traria outra revolução, o surgimento do Homo Scribens. Com base nisso, Câmara Cascudo (2017) concebe o culto à

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morte na perspectiva de vida-após-a-morte que possibilitou ao Egito o desenvolvimento da escrita como uma forma de reverenciar o eterno e de superar o tempo.

O fugaz tempo em que o indivíduo vive e realiza seus feitos finalmente poderiam transcender sua presença material e conduzir à eternidade. No primeiro sistema pictográfico, a imagem sintetizava os conceitos, ou seja, um conjunto de imagens dispostos sugeria frases e relações. Por volta de 4.000 a 5.000 a.C., os egípcios passaram a construir as representações mais abstratas que as formações de desenho: 22 consoantes formavam o que mais usual se perpetuava como sendo o surgimento do alfabeto egípcio. Este foi, posteriormente, aperfeiçoado pelos fenícios, que se apropriaram de 15 letras egípcias e acrescentaram outras 7, perfazendo seu sistema com 22 letras.

Um terceiro povo, o grego, cumpriu a missão de novamente assimilar o alfabeto incluindo, por usa vez, as vogais. Do grego evoluíram o latim e todas as línguas neolatinas da qual o português é a “última flor do lácio”. Enquanto o mediterrâneo escrevia, chineses, astecas e incas, nesse ínterim, permaneciam desenhando. Em função disso, para Câmara Cascudo (2017, p. 656-657), “as letras são sínteses nominativas de coisas, objetos, seres. É o que nos resta da antiga visualização pictográfica na figura literal, vieram ao símbolo e daí para assinalação fonética”. Não é à-toa que, pertencendo à mesma raiz latina, a palavra scribere (pintar, desenhar) designa “escrever”, mas também a ideia de cavar, uma vez que se remete à ação de escavar, de gravar, de fincar os signos e símbolos em pedra, madeira ou qualquer outra superfície perene. Portanto, é por meio de um longo e sinuoso processo que a história, como construção social, é criada.

A narrativa bíblica do “gênesis” tem seu ponto máximo quando Adão, o primeiro homem, nomeia cada alma vivente, animal e vegetal. “Não podiam existir coisas sem nome que é próprio título e personalização, indissolúveis para sempre. O nome é essência da coisa, da entidade denominada. Sua exclusão extingue o que se denominou” (CÂMARA CASCUDO, 2017, p. 658). Assim sendo, o nome não é mera trivialidade, pois, por exemplo, não se pronuncia o nome de Deus em vão. O nome de uma pessoa é sua honra e dignidade; em nome de alguém, pode-se realizar as mesmas coisas que o possuidor do nome; um pronome como “excelentíssimo” ou “vossa majestade” muda completamente a possibilidade de ação daquele ao qual o tratamento se refere. Enfim, a linguagem e suas consequências são fontes de problematização e de pesquisa inesgotáveis, pois têm sido elas mesmas, o fundamento da existência humana. Assim sendo, uma construção social tão importante teria implicações relevantes para a maneira em que a própria humanidade enxergaria a si mesma. A

linguagem escrita é uma prática compreendida nos tecidos da história e cultura humanas, e por conseguinte merece uma abordagem sócio-histórica nos termos que segue.