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4.4 Mapeamento exploratório de possíveis contribuições e desafios da adoção de

4.4.2 Dificuldades dos discentes

4.4.2.2 Dificuldades com sobrecarga de trabalho extraclasse

Os discentes identificaram como dificuldade também conseguirem ler e entender com profundidade todo o material indicado como preparação anterior às aulas. Os ex-alunos relataram que quase sempre era exigido preparo prévio para as disciplinas, inclusive com a indicação de textos e artigos com linguagem mais elaboradas, e isso era pré-requisito para a boa participação em aula.

Precisa-se atenção, assim, para a carga de trabalho ativo demandada dos estudantes. Mas o que era comum, é que existia sempre o preparo prévio, e o preparo prévio na aula é uma coisa fundamental para o desenvolvimento dos alunos. E a participação nem sempre pela própria participação, mas, o risco de você ter que participar e ser chamado a participar, isso te obrigava de alguma maneira realmente a levar a sério este tipo de preparo. (Ex-aluno 2. Entrevista concedida em 29 de novembro de 2017. Ex-aluno(a) da 1ª turma da DIREITO SP, ingressando em 2005 da DIREITO SP). [...]. Agora muitas vezes no meio do percurso você tem uma sensação de falta de base, porque as vezes, você está discutindo coisas muito complexas e tem coisas muito simples na base, só que é lógico que você se vira para entender a base, mas, se você não tiver feito o trabalho de casa você fica perdido. [...]. (Ex-aluno 3. Entrevista concedida em 5 de dezembro de 2017. Ex-aluno(a) da 4ª turma da DIREITO SP, ingressando em 2008).

Percebeu-se que a compreensão do material pelos alunos parece ser necessária para que a aula cumpra seu propósito de engajar o discente no protagonismo de sua aprendizagem, já que estes precisam, por si só, buscar as bases de seu conhecimento e se apropriar dos textos indicados. Ainda assim, alguns ex-alunos apresentaram os motivos pelos quais, às vezes, não conseguiam acompanhar o curso, mesmo estando sob regime de dedicação exclusiva na instituição até o final do terceiro ano.

De preparação prévia, o que tinha de problema, ao menos na época em que fui aluno, era de calibrar a quantidade de trabalhos que seria razoável e humanamente possível para o aluno. Tínhamos muitos textos para a semana e muitos trabalhos para fazer, [...] Isso deixava todos bastante nervosos, tinha um aluno X quem fazia tudo, mas ele constantemente dizia que não tinha vida, ele tinha uma rotina de estudos de 5 a 6 horas por dia e mais os finais de semana, fora o período integral de estudos, então algo que não parecia muito razoavelmente exigível de ninguém. A maior parte do pessoal, a gente às vezes, se dividia, quem dominava mais uma matéria, ia e ensinava para o outro. Eu não lia todos os textos, por que não conseguia dar conta de toda a preparação prévia[...] como éramos constantemente instados a participar, você poderia passar vergonha pública se falasse alguma besteira [...]. Em alguma medida era bom, porque forçava as pessoas a se manterem estudando, mas como era um pouco descompensada a carga de trabalho, em alguma medida era desesperador. (Ex-aluno 2. Entrevista concedida em 29 de novembro de 2017. Ex-aluno(a) da 1ª turma da DIREITO SP, ingressando em 2005 da DIREITO SP).

Os alunos, então, apesar da dificuldade de se prepararem previamente, visto que frequentavam período integral de aula, montavam estratégias para lidar com a alta carga de leitura, pois esta era necessária para obter boa avaliação em participação. Assim, alguns alunos ficavam até bem tarde na faculdade, bem como outros selecionavam os textos que iriam ler.

Eu sempre tive muita facilidade não só de ler, mas eu fazia parte de um grupo na minha turma que eram os alunos que liam com muita frequência. Então, não tínhamos grandes dificuldades e nos interessávamos bastante pelos textos. O fato da faculdade ser em período integral ajudava bastante a gente ter tempo e organizar o nosso tempo. [...] a escola só fechava as 11 horas da noite naquela época. Tudo isso criou um ambiente adequado para eu conseguir me preparar. (Ex-aluno 7. Entrevista concedida em 24 de novembro de 2017. Ex-aluno(a) da 1ª turma da DIREITO SP, ingressando em 2005).

Depois que pega o ritmo, você acostuma, é lógico que você tem que selecionar não dá para ler tudo. É uma carga de leitura muito alta, mas depois que pega o ritmo vai, não colocaria como uma dificuldade não, sempre tem um peso de adaptação. Digamos que o primeiro semestre ele educa, mas, depois entra na própria sistemática e no próprio respeito ao método dessa exigência, que funciona daquele jeito, isso é muito claro para todo aluno. (Ex-aluno 3. Entrevista concedida em 5 de dezembro de 2017. Ex-aluno(a) da 4ª turma da DIREITO SP, ingressando em 2008).

Alguns estudantes relataram, que no seu período de curso, antes da reforma, a sobrecarga de trabalhos extraclasse era tanta que alguns desistiam do curso, outros tinham problemas ligados a estresse e ansiedade, relacionados à pressão para entregar todo o

resultado esperado. Também, muitos ressaltaram que creem que esse cenário foi alterado com a modificação do currículo na grade nova, que levou à redução de disciplina, com parte da carga horário exigida pela regulação podendo ser feito fora de sala de aula.

Na sua turma, você lembra ou teve alguém que desistiu no meio do caminho?

Sim, muita gente. Na minha turma entraram 50 pessoas e saíram 13 eu acho, isso entre reprovações e desistências, [...]. (Ex-aluno 3. Entrevista concedida em 5 de dezembro de 2017. Ex-aluno(a) da 4ª turma da DIREITO SP, ingressando em 2008). [...] Eu não tive uma experiência muito boa para ser sincero, eu tinha muita dificuldade porque a GV é muito difícil, é um curso muito puxado, muito texto, textos densos, então assim, muitas vezes você tem que ler 60 páginas para o dia seguinte, as vezes em inglês, e um texto super denso do Kelsen, e você teve 6, 7 horas de aula em um dia e você precisa chegar em casa e conseguir ler 60 páginas, para o dia seguinte, entender para ir debater com o professor. Isso é extremamente desgastante e cansativo, eu acho que essa pressão acaba penalizando muito os alunos, eu tive 3 semestres muito ruins em questão de desempenho e aprendizado, e eu fui diagnosticado com transtorno e déficit de atenção e hiperatividade[...]E aí no final você tem uma série de alunos com burnout, totalmente estressados, fazendo uso de drogas, café em excesso, energéticos, até tomando remédios controlados pra tensão, isso eu vi muito, sem serem diagnosticados, com transtornos de atenção, mas tomando remédios, porque não aguenta o ritmo de toda semana ter três trabalhos por matéria, ter 50 páginas para ler, então, o método é muito bom, mas, tinha que ser repensado, talvez com a grade nova que eles estão implementando isso seja modificado. [...] Você está sempre atrasado, tem sempre textos para você terminar de ler que você não conseguiu terminar, tem sempre coisas pendentes para entregar, então é muito desgastante. De certa forma, eu acho que eles tentam simular um pouco o mercado de trabalho no seu pior lado que é “como assim você não consegue fazer? O que você faz da meia-noite às seis da manhã?” [...] Eu sei que isso me preparou para qualquer coisa no mercado de trabalho, eu viro uma noite trabalhando se precisar, estou acostumado, mas, não parece saudável, não é um ambiente saudável, é muita competição por nota, por vaga, por intercâmbio, por média, as pessoas se esfaqueiam muito, estão competindo por tudo e acaba sendo um pouco enlouquecedor. [...]A nova grade está mitigando isso não sei se é oficina, atividade planejada, alguma coisa assim, que é cada aula em vez de valer 4 créditos, vale 6, e você tem um horário fora do horário de aula em que você tem aquele horário da sua agenda para estudar para matéria. No meu caso não foi assim, no meu caso era, você tem 4 créditos, 4 créditos são 4 horas de aula por semana, e se vira para conseguir estudar para o resto das aulas, chega aqui sabendo o texto. (Ex-aluno 5. Entrevista concedida em 4 de dezembro de 2017. Ex-aluno(a) da 9ª turma da DIREITO SP, ingressando em 2013).

Outros ex-alunos relataram que, no quarto e quinto ano, a relação com a preparação prévia e com os métodos participativos são alterados, mas não se chegou em uma homogeneidade nas respostas, já que um ex-aluno abordou que, com a redução de disciplinas obrigatórias, conseguiu se dedicar mais às leituras, de modo crítico, mas para outra ex-aluna, nos últimos anos, em virtude de estágio, não desejava realizar ainda mais atividades extras da faculdade, mas somente ansiava por ter aulas mais expositivas.

[...] A leitura prévia, para ela ser realmente boa, para você conseguir participar bem de um debate de sala de aula, não é uma coisa de ler o texto uma vez, e eu acho que a grande contribuição do método participativo é você conseguir trazer outras coisas para sala de aula. E o problema é que quando você tem 9 matérias e uma carga de

leitura muito grande, as pessoas acabam fazendo a leitura do básico, do básico, de todos os textos e no final das contas só sabe do que o texto fala. [...] E só mesmo quando o número de matérias diminuiu, no quarto e no quinto ano, foi que eu consegui me apropriar do material antes de ir para a sala de aula. [...]. (Ex-aluno 4. Entrevista concedida em 2 de dezembro de 2017. Ex-aluno(a) da 8ª turma da DIREITO SP, ingressando em 2012).

Esses métodos participativos uma hora cansa, a gente suplica por uma aula expositiva no fim do curso porque a gente está envolvido com muita coisa, fazendo TCC, fazendo estágio, a gente só quer ir para aula e ficar quietinho, tranquilo. [...] na grade nova parece que eles estão tentando diminuir a quantidade de trabalhos, atividades, tarefas. Mas, eu lembro que tinha muito, muito, quase todas as matérias tínhamos coisas toda semana e a gente cansa, acho bem cansativo. (Ex-aluno 6. Entrevista concedida em 11 de dezembro de 2017. Ex-aluno(a) da 9ª turma da DIREITO SP, ingressando em 2013).

Com isso, percebe-se que os alunos sentiram dificuldades advindas de seu próprio protagonismo, pois precisavam se dedicar mais aos cursos, não só dentro de sala de aula, mas fora desta. Entretanto, uma atenção e cautela especial precisa ser direcionada à seleção do material de preparação, a fim de que seja viável que os estudantes consigam se preparar de modo adequado para sua participação qualificada em sala de aula. Esse tópico tem relação com os desafios na montagem do material didático de cursos participativos, que serão abordados também no tópico relativo à percepção dos professores quanto ao tema.