5. APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
5.3 REFLEXÕES DA EQUIPE SOBRE SUAS CRENÇAS E
5.3.4 Dificuldades de cuidar do paciente em morte encefálica
Visualizou-se também falas mencionando os sentimentos de maior dificuldade vivenciados no processo de cuidar do paciente em morte encefálica. Esses sentimentos estão voltados principalmente às dificuldades inerentes aos próprios profissionais em compreender o conceito de ME, inclusive com aspectos relacionados à religiosidade, conforme depoimentos a seguir:
Eu sinto algo estranho. Assim, a cabeça da gente fica [...] Tem hora que não entende... Eu não consigo entender. A gente tem que manter aquele paciente vivo [...] Na verdade ele já está, teoricamente, ele já está morto, ‘né’? (T13) O que eu sinto é dúvida. A dúvida em saber se... Se já ‘tá’ morto de verdade... Se o espírito ‘tá’ ali mesmo. Se quando realmente o cérebro morre, morreu tudo mesmo... Eu acho na verdade, o sentimento que tem é o da religiosidade, ‘né’? É a dúvida sem saber se está ali ou não, se está morto ou não. (T19) [...] Eu acho que é isso que mais dói na gente. Porque por uma questão religiosa, ‘né’? Muitas pessoas não se propõem a cuidar de paciente potencial doador. Tem muita dificuldade de cuidar. (E1)
A fala de um técnico de enfermagem (T19) evidencia fortemente a crença religiosa sobre a criação do homem sugerindo que o ser é mais que corpo e mente e que a vida humana é dada pelo espírito conforme o texto bíblico: “E formou o SENHOR Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente.” (BIBLIA, V. T. Gênesis, 2:7).
Boff (2004) corrobora com esta citação bíblica e em seus estudos defende esta visão transcendental do ser humano como um ser tridimensional no qual corpo-mente- espírito se harmonizam, constituindo-o, e dão sentido a sua existência humana.
semanas que apresentou um aneurisma cerebral e evoluiu para morte cerebral, mas o seu feto permanecia vivo e foi cuidado até o parto, no entanto, apesar do diagnóstico de ME os membros da equipe sentiam e cuidavam como se estivesse viva. E assim, expressaram como a percebiam: “Sua inteligência se foi, mas talvez não sua alma [...] ela foi menos do que um humano, mas mais do que um morto”.
Esta visão nos remete a percepção de que nas questões de morte e vida, morte encefálica e doação há muito que ser discutido e compreendido, pois emergem crenças e sentimentos inerentes à pessoa humana, sua existência e finitude que são discutidas além da comunidade científica, portanto, permeadas pela cultura que cada um carrega dentro de si e que foi sendo construída nas suas vivências. (VARGAS; RAMOS, 2006; ROZA et al, 2010).
Outros participantes, apesar de não terem dificuldades em cuidar destes pacientes referem sentimentos de dúvidas relacionados às atitudes das equipes envolvidas no processo de captação e transplante de órgãos, conforme falas a seguir:
[...] Depois começou a ver o descaso que tinha com os outros, os vivos realmente, entendeu? Que no CRO não tem médico. Então ficamos sem os médicos, aí quando surge um paciente em morte encefálica, aí sobe. Surgem milhões de médicos [...] Surge tanta gente que a gente fica até pensando ‘Não! Vai surgir algum dinheiro pra alguém. Só pode surgir [...]. (T5)
Assim, entra um pouco na minha crença. Eu não acredito muito nas pessoas que estão envolvidas. Vou falar assim por baixo... Eu não acredito muito nas pessoas que estão envolvidas na doação de órgãos [...] O pessoal da OPO vem falar com a família. Traz cobertor, traz num sei o que. E quando a família diz que não vai doar, aí eles abandonam esse paciente. (T8)
Estes participantes trazem a tona um dos temas mais polêmicos no processo de doação e transplantes de órgãos e ao mesmo tempo, a problemática presente no sistema de saúde representado aqui pela dicotomia existente nos programas assistenciais.
Com o advento dos transplantes de órgãos políticas públicas foram implementadas a fim de otimizar o processo. Criaram-se equipes próprias para atuar no processo de transplante, no entanto, observa-se que não houve um investimento proporcional nas ações de suporte básico e avançado de vida nas portas de acesso aos serviços de saúde (RIBEIRO; SCHRAMM, 2006).
Além do que, à medida que há um implemento nas tecnologias avançadas para identificar os PD, cresce o seu número nos serviços de emergência, compartilhando dos
mesmos recursos humanos e materiais destinados aos demais pacientes. No entanto, o mesmo avanço não é observado na implementação e treinamento das equipes assistenciais. (O’DWIER; OLIVEIRA; SETA, 2009; RIBEIRO; SCHRAMM, 2006).
Assim, muitas vezes o paciente grave não é devidamente assistido, porém ao ser constatado a ME, tem uma equipe específica para atendê-lo visando à doação de seus órgãos, sem, contudo, atuarem na assistência direta, conforme citado por participantes deste estudo. De modo que, as estratégias de capacitação e de aumento dos recursos humanos adotadas têm-se mostrado insuficientes para sanar as carências existentes em especial na etapa de identificação e manutenção do PD. (BRASIL, 2006a, p.25).
Este estudo evidencia que esta diferenciação existente na organização e qualidade dos serviços prestados pelas várias equipes que cuidam do paciente nos vários níveis de atenção desperta nas equipes assistenciais um sentimento de desconfiança no processo de transplante e atribuem as equipes que trabalham com o processo de captação como insensíveis e desumanos.
Contudo, de acordo com o Tribunal de Contas da União (TCU), apesar das deficiências encontradas no SNT brasileiro relativas ao sistema de informação, a capacitação das equipes transplantadoras e assistenciais, a tempestividade e equidade no tratamento, a observância dos critérios de distribuição dos órgãos, é possível identificar boas práticas que aumentam a confiabilidade que reflete positivamente na abordagem familiar. (BRASIL, 2006a). Sugere, portanto, que cada serviço desenvolva suas próprias estratégias a fim de favorecer o processo de doação e transplante de órgãos.
Sabe-se que a função primordial da OPO e da equipe de captação é, respectivamente, encontrar os PD, abordar as famílias e captar os órgãos após consentimento familiar. No entanto, em sua fala um técnico de enfermagem (T8) entende que mesmo diante da negação, estes familiares mereciam mais atenção por parte da equipe da OPO.
Enfatiza o respeito ao PD e seu corpo como um fator que expressa a humanização da assistência tanto por parte daqueles que prestam os cuidados diretos quanto pelas equipes que vem captar os órgãos, interferindo na aceitação dos próprios funcionários em serem doadores:
Eu particularmente, talvez, não doaria, nem deixaria doar meus órgãos e nem doaria de um ente meu pelas coisas que eu vejo em nosso meio, entendeu? [...] Da equipe de captação, da OPO. A equipe toda. De modo geral. Eu não gosto dos gestos, não gosto das atitudes [...] Eu cuido como se fosse um paciente normal e pra mim ele é um paciente. O corpo tem que merecer respeito, né
isso? Tá morto a gente tá fazendo até, preparando aquele paciente pra dá pra família para o enterro mesmo assim eu estou tratando ele com delicadeza e com respeito. (T8)
[...] O paciente potencial doador, muitas vezes as pessoas não respeita. A gente escuta muito, às vezes algumas pessoas falar: Ah! Mas cuidar de morto! Então assim, é bom que tivesse, assim, tipo, mais um respeito entendeu? Mais consideração [...] Se o corpo ainda está ali, então tem que se prestar assistência adequada, entendeu? Respeito, e até entregar o corpo para a família, você tem que ter aquele respeito. Não é só porque agora ele é o doador, acabou. É só tirar aquilo e acabou. Assim vejo os comentários. O que mais me dói são esses comentários. (E1)
Estas falas refletem a preocupação que os participantes têm sobre a própria morte e a de entes seus queridos, em como serão tratados pelas equipes que cuidam destes pacientes. Evidencia assim a necessidade de reflexão sobre o significado da pessoa humana, a qual, diante do advento do avanço tecnológico e dos transplantes, passou a ser tratada como um objeto. Fato este, evidenciado pelo direcionamento da terapêutica, que visa apenas restabelecer a vitalidade dos órgãos para que estejam aptos à doação. (LIMA; SILVA; PEREIRA, 2006).
Assim, espera-se que estas atitudes sejam repensadas e atos de solidariedade e respeito pelos pacientes e seus familiares sejam expressos em ações concretas mantendo-os informados sobre o quadro clínico do paciente. E, em caso de ME, abordagem humanitária de forma que independente da aceitação ou recusa à doação, a família receba apoio e orientações de como proceder neste momento de dor, e agilidade na liberação do corpo para que seja velado e sepultado.
Mesmo assim, ainda que seja uma ação puramente técnica é possível ter uma atitude de zelo e compaixão pelo outro evidenciando assim respeito à vida e a dignidade do falecido, cujo corpo representa a memória humana da pessoa a quem pertenceu. (LIMA; MAGALHÃES; NAKAMAE, 1997). De modo que “perder o respeito pelo corpo de um ser humano morto significaria desrespeito por esta pessoa, pelos parentes, enfim, pelos seres humanos, em geral”. (ROZA et al, 2010, p. 418). Assim, ao cuidar deste corpo com respeito e delicadeza e agilizar sua liberação para que a família preste sua homenagem representa preocupação genuína e solidária com os mesmos.
A discussão desta problemática está muito além do que é proposto neste estudo devido a sua complexidade, no entanto, vale salientar que neste momento a questão ética relacionada ao cuidado com o corpo emerge como uma responsabilidade moral a
qual a equipe de saúde deva refletir e posicionar-se eticamente a favor do que é correto e bom.
Pressupõe-se, portanto, que as dificuldades em cuidar dos PD não se referem aos cuidados técnicos do fazer, e como fazer. Mas sim, relativas à compreensão do conceito de ME e a incorporação de atitudes que favoreçam o processo de doação e transplante, tais como distribuição de recursos humanos e materiais adequados às reais necessidades dos serviços, orientações e apoio a família durante todo o período em que esteve no hospital, de forma que todos sejam tratados com dignidade e respeito. Pois, não sabemos quem evoluirá para uma ME e será um PD ou não. E principalmente, agilidade na liberação do corpo após a captação dos órgãos.