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LIBERDADE INDIVIDUAL DO EMPREGADO E PODER DIRETIVO DO EMPREGADOR:

3 DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA E IDENTIDADE CULTURAL

Os direitos fundamentais firmam-se sobre, dentre outros, o princípio da dig- nidade da pessoa humana, sendo relevante notar que a proteção da dignidade possui conexão com os direitos dos trabalhadores, como, por exemplo, no que diz respeito aos direitos à vida privada, imagem, honra, bem como à identidade cultural.

A identidade cultural, portanto, está intimamente relacionada à garantia

da dignidade, posto que a ausência desta última (principalmente devido às gritan-

tes desigualdades existentes) dá origem a óbices que dificultam a criação daquela. Quando se fala em dignidade humana se está, necessariamente, a falar de identidade, visto que a dignidade só se consolida quando são respeitados os direitos de personalidade do indivíduo (além de outras nuances de sua persona- lidade) que alcançam elementos sociais e culturais de sua formação.

O direito à dignidade “assume relevo como valor supremo de toda socie- dade para o qual se reconduzem todos os direitos fundamentais da pessoa hu- mana”, posto que se trata de um dos “princípios fundamentos” do Estado brasileiro (art. 1º, III, CRFB/88). Ela é uma “qualidade intrínseca e distintiva de cada ser hu- mano que o faz merecedor do mesmo respeito e consideração por parte do Estado e da comunidade, implicando, neste sentido, um complexo de direitos e deveres fundamentais” assegurados à pessoa (CUNHA JÚNIOR, 2017, p. 483).

Através dos objetivos previstos em seu artigo 3º, “a Constituição [Fede- ral brasileira] impõe ao Estado a construção e organização de uma sociedade fra- terna onde as pessoas possam, com iguais oportunidades, desenvolver as suas

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potencialidades e gozar dos mesmos bens materiais e espirituais, sem qualquer tipo de preconceito, seja de quem for.” (CUNHA JÚNIOR, 2017, p. 484).

Além disso, muitas vezes, apesar da igualdade de capacidade para o tra- balho, pessoas são tratadas de maneira desigual devido à sua etnia, credo ou até mesmo aspectos físicos, como obesidade e tipo de cabelo, por exemplo. Como visto acima, a dignidade da pessoa humana pode ser conceituada, resumida- mente, como uma característica intrínseca de todo ser humano, que distingue uns dos outros, mas que faz com que todos mereçam igual respeito e considera- ção tanto por parte do Estado, quanto da sociedade em geral, de maneira que, a atitude de desqualificar alguém por característica externa se traduz em atitude que viola esse preceito.

3.1 A identidade cultural no contexto dos direitos fundamentais

Assim sendo, a identidade é formada e transformada por representações da sociedade em que o indivíduo se encontra. O local de vivência dos seres cria “sentidos que influenciam e organizam tanto as ações quanto as concepções que temos de nós mesmos.” (MIRANDA, 2000, p. 82). Na medida em que o meio sofre alterações, possível é a mudança na identidade dos indivíduos que vivem nele. Assim refletem Maria Chalfin Coutinho, Edite Krawulski e Dulce Helena Penna Soares:

As transformações sociais provocam mudanças também nas identidades pes- soais, ao desestabilizar a ideia de si próprio como sujeito integrado, fazendo-o perder a estabilidade do sentido de si mesmo (Hall, 2001). Nessa perspectiva, o conceito é compreendido como uma construção histórica e cultural, de forma não essencializada, uma vez que:

[...]Os teóricos culturalistas apontam a centralidade da cultura na constituição da subjetividade, da própria identidade e da pessoa como um ator social. O foco na cultura, como componente das identidades e dos processos de subjetivação, gera uma compreensão de identidade como algo múltiplo, instável e depen- dente da adesão a grupos, afirmando uma identidade coletiva e não mais como uma realização individual. Segundo esta perspectiva, a cultura é pensada no domínio simbólico, na produção de significações, constituindo visões de mundo que, neste processo, constituem também posições-de-sujeito (Bernar- des & Hoenisch, 2003). Para estes autores, o conceito de subjetividade pode ser associado ao de identidade:

... subjetividade não é o ser, mas os modos de ser, não é a essência do ser ou da universalidade de uma condição, não se trata de estados da alma, mas uma produção tributária do social, da cultura, de qualquer elemento que de algum modo crie possibilidades de um ‘si’, de uma ‘consciência de si’, sempre provisória... São modos pelo qual o sujeito se observa e se reconhece como um lugar de saber e de produção de verdade (p. 117).

Dentro da mesma perspectiva teórica, Woodward (2004) reitera a concepção de que o termo identidade só se torna possível se pensado em relação à dife- rença, ou seja, tomado relacionalmente, de modo que só apreendemos um

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conceito a partir do outro. Com relação a esse aspecto, Silva (2004) argumenta que a diferença não é produto da identidade, mas tanto uma quanto a outra resultam de um processo de inclusão e exclusão:

A identidade e a diferença se traduzem, assim, em declarações sobre quem pertence e sobre quem não pertence, sobre quem está incluído e quem está excluído. Afirmar a identidade significa demarcar fronteiras, significa fazer distinções entre o que fica dentro e o que fica fora (Silva, 2004, p. 82).

A relação entre subjetividade e identidade também é apresentada por Santos (2001). Para o autor, a subjetividade é o nome pós-moderno da identidade, uma vez que é por meio da primeira que a última se manifesta. (CHALFIN COUTINHO; KRAWULSKI; PENNA SOARES, 2007, p. 30-31).

Especificamente com relação ao Brasil, percebe-se uma imensa diversi-

dade de etnias causada, principalmente, pelos movimentos migratórios, além de haver grande miscigenação (mestiçagem) de povos, havendo, inclusive, discus-

sões acerca da chamada “identidade nacional” (PINHO, 2004; MUNANGA, 2006). Caracterizado como uma sociedade híbrida, o Brasil colonial parece ter sido favorecido por um ambiente de “quase reciprocidade cultural”. [Gilberto] Freyre [...] atribui ao negro a participação fundamental na formação da alma nacional. O trecho é muito citado, mas vale a pena revê-lo: “Todo brasileiro, mesmo o alvo, de cabelo louro, traz na alma, quando não na alma e no corpo [...] a sombra ou pelo menos a pinta do indígena ou do negro.” (PINHO, 2004, p. 97, grifo nosso).

Além do mais, considerando as influências do meio externo, pode-se afirmar que a identidade muitas vezes é manipulada, uma vez que se criam pa- drões do que seria aceitável em determinada cultura. Para isso, há quem sujeite

suas raízes em prol de incluir-se com o meio em que vive. Assim explica Coutinho:

A ideia do sistema de mercado como um meio de sustentação da sociedade é recente e marca, outrossim, a passagem da constituição do sujeito em identifi- cação narcísica. Note-se, segundo Contardo Calligaris, que o sujeito se consti- tui ou mediante identificações simbólicas, através de valores, obrigações e tradições advindas de sua cultura, ou por identificação narcísica, assu- mindo uma imagem que satisfaz aos outros, ora ditada pela via do mer- cado. Recusando o patrimônio herdado e o legado da tradição, o indiví- duo, livre, autônomo, suplanta a própria comunidade e, desde o século XVIII, vem construindo sua subjetividade na sociedade precipuamente mediante a referida identificação narcísica, na idolatria do individua- lismo, deixando-se levar pela sedução das imagens propostas. (COUTINHO, 2007, p. 96-97, grifo nosso).

A identidade cultural, na pós-modernidade, é indicada pela exibição do quanto se pode gastar para se manter incluído em determinada forma dela. Uma vez que certas pessoas são privadas de meios de sobrevivência (como aquelas

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em situação de rua, por exemplo), tornam-se excluídas da possibilidade de criar uma identidade (COUTINHO, 2007).

Apesar de ser a dignidade um dos fundamentos e mecanismos de efeti- vação dos ideais do Estado Democrático de Direito,

esse princípio constitucionalmente expresso convive com subhomens empi- lhados sob viadutos, crianças feito pardais de praça, sem pouso nem ninho cer- tos, velhos purgados da convivência das famílias, desempregados amargura- dos pelo seu desperdício humano, deficientes atropelados em seu olhar sob as calçadas muradas sobre a sua capacidade, presos animalados em gaiolas sem porta, [...] excluídos de todas as espécies, produzidos por um modelo de socie- dade que se faz mais e mais impermeável à convivência solidária dos homens. [...] a produção da miséria não se faz mais apenas no sentido da rejeição do homem pelo mundo; o sinistro globalismo [...] gera não apenas a expulsão do homem pelo outro, mas a sua rejeição por si mesmo, tal como posto na fórmula de Hannah Arendt. Antes, negava-se ao homem a sua plena integração; hoje, expulsa-se o homem do mundo; ou, o que é pior, faz-se com que ele se intimide e se dê por excluído, rejeite-se por não ter obtido o mérito de poder ser aceito, inclusive por si mesmo. (ANTUNES ROCHA, 2001, p. 50).

Assim, a ausência de dignidade acerta não só direitos, mas também a hu- manidade em si. Porém, não bastando impossibilidade de inúmeras pessoas fir- marem sua identidade, posto que vivem em situação de exclusão social, essa mesma ausência faz com que sejam estigmatizadas, agravando sua condição de marginais (que vivem à margem da sociedade, excluídas).

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