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A ESTÓRIA QUE A HISTÓRIA NÃO CONTA: UMA ANÁLISE SOBRE O REGIME POLÍTICO

2 O REGIME DITATORIAL: APORTES TEÓRICOS E CONCEITUAIS

A definição abstrata de um regime político ditatorial intriga todos aque- les que se preocupam com um significado honesto e adequado do termo. O modo inapropriado como a palavra ditadura é usada reflete um baixíssimo conheci- mento histórico e (também) político da história nacional.

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A palavra, hoje, carrega carga política complexa – acumulada e modifi- cada ao longo dos anos – e não pode ser resumida a quaisquer formalismos ou reducionismos. O seu primeiro significado nasceu na Roma Republicana, e era, inclusive, completamente formal – positivado. No entendimento de Peter Baehr e Melvin Ritcher (2004), de um lado de acordo com o que se pode chamar de ditadura romana “clássica” ou original, tem-se um poder excepcional, mas regu- lado dentro do ordenamento jurídico, inclusive com respaldo constitucional, con- ferido de acordo com procedimentos precisamente definidos, sobre um magis- trado, quando houvesse situações críticas de instabilidade política, ou seja, era um meio de confrontar um estado externo ou interno de calamidade, urgência ou perda de controle, absolutamente inclinado para o bem comum e admitido/legi- timado em nome dele.

Percebe-se que o sentido e os contextos da ditadura romana são bas- tante diferentes da perspectiva moderna, exceto por duas semelhanças: o cenário da crise na qual era instalada e a centralização do poder. No entanto, a ditadura romana, prevista em diplomas normativos, acionava o regime ditatorial (e legiti- mava a existência de um ditador) em um sentido absolutamente formal. Ou seja, o “ditador” era legítimo e querido, naquele determinado momento – tendo em vista que a lei representa de forma indireta a vontade popular. Por outro lado, em consonância com Peter Baehr e Melvin Ritcher (2004) desde o século XVIII, e mais particularmente, claro, desde a Revolução Francesa, o mesmo termo serviu para se referir a despotismos ou tiranias (tradução nossa).

Após a revolução francesa, a ideia de ditadura sai do plano formal e entra num aspecto mais complexo em termos materiais de valor político-social. Ao re- dor do seu cerne passa a girar a separação entre vontade popular e monopólio de poder. Para Norberto Bobbio (1998), nessa espécie de Ditadura, a qual Mau- rice Hauriou chamou de convencional e Carol Schmitt denominou soberana, não havia qualquer relação entre o texto constitucional e o poder ditatorial, pois este não era por aquele nem previsto, nem limitado. Esse poder surgia a partir dos problemas existentes no regime que o antecedia, no entanto, esse regime ditato- rial não se limitava a conter os problemas, pois o seu objetivo era um rompi- mento paradigmático, por meio do qual se estabeleceria, sob a ruína do antigo sistema precedente.

Apesar das mudanças pelas quais o sentido de regime ditatorial passa, a ideia de centralização do poder permanece e é reforçada. Um dos conceitos mo- dernos mais conhecidos é a ditadura do proletariado, que passa por esse pro- blema conceitual, pois a centralização de poder não se concilia com a ideia de uma classe (proletária) a frente dele, pois a partir de uma classe há a possibili- dade de dominar através de um conjunto de regras e valores comuns, no entanto,

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a dinâmica de governo precisa de uma centralização em termos valorativos e (principalmente) práticos.

Segundo Karl Kautsky (1918), uma classe, em suas condições, só pode dominar, mas não governar, pois por ditadura entende-se além de um estado de soberania, um governo. Assim, o regime ditatorial está, necessariamente, relaci- onado à possibilidade prática de governo, o que demanda uma pessoa ou uma organização, desta forma, o proletariado precisaria governar a partir do partido do proletariado.

Assim, a pluralidade de uma classe seria um óbice à governabilidade em termos práticos, “o problema se complica tendo em vista ser o proletariado divi- dido em vários partidos” (KAUTSKY, 1918, p. 36) (tradução nossa)3

A análise da ditadura do proletariado torna fácil a compreensão sobre de onde vem o poder, no entanto, numa reflexão mais genérica a respeito daquele ao redor do qual o poder se concentra: as respostas se tornam menos óbvias. Na ditadura da república romana o poder era legitimado através do ordenamento jurídico, na do proletariado, através da admissão comum da necessidade do rom- pimento com o regime capitalista opressor, e nos outros? Quais as fontes do po- der político ditatorial?

De acordo com Gene Sharp (2010), o poder político ditatorial tem alguns pilares nos quais se sustenta, quais sejam: Autoridade, significando ela a crença popular de que o governo é legítimo de alguma forma e daí resulta um dever mo- ral de obedecê-lo; Recurso Humano, um número substantivo e relevante de pes- soas que apoiam; Habilidades e Conhecimento capazes de trazer aquilo que se promete; Fatores Intangíveis, tais como uma ideologia; Recursos Materiais, a exemplo, o controle econômico; E sanções, por meio das quais há a possibilidade de se fazer cumprir, de forma obrigatória, a agenda estabelecida.

Apesar dessas características se referirem à manutenção do poder dita- torial, elas poderiam também estar relacionadas a outros termos da ciência polí- tica, consoante Juan J. Linz (2000, apud SARTORI, 1962) o uso de termos como totalitarismo, autoritarismo, ditadura, despotismo e absolutismo – os quais ao longo do tempo foram colocados como opostos à definição de democracia – fez com que nos tempos modernos fique cada vez mais difícil dizer o que não é de- mocracia.

Não há diferenças absolutas entre os termos, assim, Juan J. Linz (2000), complementa ao explicar que no século XVIII, absolutismo e despotismo se tor- naram termos ideológicos e descritivos de governos que eram livres da obrigação de respeitar as leis. Depois, no século XIX e no início do século XX, após os gover- nos constitucionais terem sido estabelecidos, na maioria dos países ocidentais 3 No original: The problem is then complicated so soon as the proletariat itself is divided into various parties.

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nos quais o liberalismo e o “estado das leis” haviam se tornado símbolos do pro- gresso político, as formas autocráticas de governo passaram a ser chamadas de ditaduras.

Portanto, em uma definição positiva do regime político ditatorial, chega- se a algumas características centrais mantidas ao longo do tempo, quais sejam: (1) centralização do poder, (2) atuação em desconformidade com o ordenamento jurídico vigente (tendo em vista ser o Estado Democrático de Direito símbolo da democracia ocidental) e (3) instalação via rompimento paradigmático com a agenda política antecedente.

Ainda referindo ao termo, “com a palavra Ditadura, tende-se a designar toda classe dos regimes não democráticos especificamente modernos, isto é, dos regimes não democráticos existentes nos países modernos ou em vias de moder- nização [...].” (BOBBIO, 1998, p. 372). Apesar da possibilidade de traçar algumas características positivas (o que é) de definição, faz-se mister uma conceituação negativa (o que não é), a qual – necessariamente – gira em torno da ontologia do regime democrático.

A palavra democracia, em lição dada pelo professor Pasquale Cipro Neto (2003), é de origem grega e formada por dois radicais, quais sejam: “demo” que significa povo; “cracia” que quer dizer poder. Daí a famigerada frase proferida por Abraham Lincoln, em seu histórico discurso de Gettysburg, segundo o qual democracia seja “[...] aquele governo do povo, pelo povo, e para o povo, [...]”4.

Em se tratando de democracia, para Eduardo C. B. Bittar (2016), Tocque- ville é um autor sempre associado à liberdade e à igualdade, daí o motivo pelo qual seja uma grande referência sobre o assunto. Para ele, para que haja demo- cracia real e efetiva, realmente implantada e vivida nos mínimos atos humanos cotidianos, bem como em toda a atuação do governo, há a necessidade de um conjunto de fatores, num somatório, quais sejam: liberdade, igualdade e sobera- nia popular. Cabe salientar que por igualdade o autor refere-se à isonomia e à equidade das pessoas em relação às leis. Assim, ao lado de liberdade e soberania popular, o estado de direito (das leis) é um dos pilares de existência do regime democrático.

Nesse mesmo sentido, porém, de forma mais analítica, Norberto Bobbio (1998) admite que as definições de democracia tendem a seguir um caminho sempre reiterado nos países de tradição democrático-liberal, o qual é norteado por alguns elementos universais, quais sejam: Elegibilidade do legislativo pelo povo de forma direta ou indireta; Separação e Independência de poderes, por meio das quais exista a possibilidade de fiscalização e imposição de limites; Par- ticipação eleitoral dos maiores de idade; Inexistência de peso nos votos, tendo 4 <http://www.culturademocratica.com.br/abrahan-lincoln.html>.

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todos eles o mesmo valor; Liberdade – para formar a própria opinião – no voto; Possibilidade de escolha; Defesa dos direitos das minorias – quantitativas – no processo eleitoral.

Ainda nessa toada, a Declaração Universal dos Direitos Humanos (prin- cipal marco formal dos direitos humanos), em seu art. XXI, estabelece uma clara relação entre o regime democrático e os direitos fundamentais, à medida que “a vontade do povo será a base da autoridade do governo; esta vontade será ex- pressa em eleições periódicas e legítimas, por sufrágio universal, por voto se- creto ou processo equivalente que assegure a liberdade do povo” (ASSEMBLEIA GERAL DA ONU, 1948).

Assim sendo, em uma definição negativa de regime ditatorial, apresen- tam-se como requisitos principais: (1) Inexistência (dos mecanismos) de partici- pação popular ampla e decisiva na tomada de decisões; (2) Ausência de um es- tado de direito (capaz de limitar o poder e garantir direitos fundamentais); (3) Cerceamento das liberdades individuais (impossibilidade de reais possibilidades de escolha).

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