CAPÍTULO 1 - PRINCÍPIOS LIMITADORES DO JUS PUNIENDI
1.8 Dignidade da pessoa humana e princípio da humanidade
Certamente, das limitações ao poder punitivo estatal, o respeito à dignidade da pessoa humana é o mais importante na fase de execução penal.
De acordo com Bechara (2011, p. 161), “ao estabelecer valores, interesses e garantias fundamentais, a Constituição Federal não se dirige originalmente à regulação do comportamento dos cidadãos entre si, e sim ao reconhecimento de limitações fundamentais ao exercício do poder político do Estado”.
A Constituição de 1988 erigiu a dignidade da pessoa humana como fundamento da República (artigo 1º, inciso III).
Como esclarece Silva (1998, p. 91), ao reconhecer a dignidade da pessoa humana, a Constituição transformou-a num valor supremo da ordem jurídica, acrescentando que, “nem mesmo um comportamento indigno priva a pessoa dos direitos fundamentais que lhe são inerentes, ressalvada a incidência de penalidades constitucionalmente autorizadas”. (SILVA, 1998, p. 93)
No plano internacional, devem ser citados o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos (Decreto 592, de 6 de julho de 1992 – art. 10) e Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Pacto de São José da Costa Rica, promulgado pelo Decreto 678, de 06 de novembro de 1992 – art. 5º) que também proclamam o respeito à integridade física e moral dos presos.
Ainda, especificamente para a execução penal, podemos citar as “Regras Mínimas para o Tratamento dos Reclusos”, documento adotado pelo 1º Congresso das Nações Unidas sobre a Prevenção do Crime e o Tratamento dos Delinquentes, realizado em Genebra em 1955. Em 2015 essas regras sofreram uma revisão, tendo As Nações Unidas oficializado um novo quadro de normas, incorporando novas doutrinas de direitos humanos, e passaram a chamá-las de “Regras de Mandela”. As novas regras ampliaram o respeito à dignidade dos presos, garante acesso à saúde e o direito de defesa e regula punições disciplinares como o isolamento solitário e a redução de alimentação. 3
Ressalte-se que o artigo 143 da Constituição do Estado de São Paulo, sobre Política Penitenciária, estabelece que “A legislação penitenciária estadual assegurará o respeito às regras mínimas da Organização das Nações Unidas para o tratamento de reclusos”.
Infelizmente, ainda não há legislação penitenciária estadual e não há implementação, de fato, das regras mínimas.
Sobre a validade, no plano interno, destes documentos internacionais, veja-se o artigo 5º, parágrafo 2º, da Constituição Federal: “Os direitos e garantias expressos nesta Constituição não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados, ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte”.
Dentre os princípios básicos das Regras de Mandela, deve ser citada a Regra 1, que dispõe o seguinte:
Todos os presos devem ser tratados com respeito, devido a seu valor e dignidade inerentes ao ser humano. Nenhum preso deverá ser submetido a tortura ou tratamentos ou sanções cruéis, desumanos ou degradantes e deverá ser protegido de tais atos, não sendo estes justificáveis em qualquer circunstância. A segurança dos presos, dos servidores prisionais, dos prestadores de serviço e dos visitantes deve ser sempre assegurada.
Portanto, a dignidade inerente à condição de ser humano do preso nunca pode ser esquecida, deixada de lado ou mitigada pelo Estado.
3 Consta na apresentação do documento, feita pelo Presidente do Conselho Nacional de Justiça e disponível no site do CNJ que: “o novo Estatuto levou em consideração instrumentos internacionais vigentes no país, como o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos, o Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais e a Convenção contra a Tortura e Outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanos ou Degradantes e seu Protocolo Facultativo” Ainda, verifica-se que: “Apesar de o Governo Brasileiro ter participado ativamente das negociações para a elaboração das Regras Mínimas e sua aprovação na Assembleia Geral das Nações Unidas, em 2015, até o momento não está essa normativa repercutida em políticas públicas no país, sinalizando o quanto carece de fomento em nosso país a valorização das normas de direito internacional dos direitos humanos”.
Sarlet conceitua a dignidade da pessoa humana como uma qualidade intrínseca, inseparável de todo e qualquer ser humano, é característica que o define como tal. Concepção de que em razão, tão somente, de sua condição humana e independentemente de qualquer outra particularidade, o ser humano é titular de direitos que devem ser respeitados pelo Estado e por seus semelhantes. É, pois, um predicado tido como inerente a todos os seres humanos e configura-se como um valor próprio que o identifica. (SARLET, 2002, p. 22)
Liberati (2011, p. 25) esclarece que:
No Estado Constitucional a dignidade da pessoa humana torna-se, ao mesmo tempo, fundamento e instrumento limitador do poder público, pois ela obriga o Estado a tomar atitudes legislativas para tornar exequível a satisfação de todos os direitos fundamentais, com o fim precípuo de sustentar a dignidade da pessoa humana.
Deste modo, resta impedida a violação, por qualquer dos poderes do Estado, da dignidade dos indivíduos presos. E isto não se dá apenas de modo pragmático, mas de modo concreto. Veja-se:
A atividade estatal está obrigada a reger toda a sua atuação pelas normas constitucionais e toda a sua atividade deve dirigir-se à realização das metas e propósitos estabelecidos na Constituição. O poder de escolha do Estado encontra limites na própria norma que o instituiu e, primordialmente, nas normas constitucionais. Dentre estas, o princípio da dignidade humana reflete sua soberania. (LIBERATI, 2011, p. 35)
Os direitos fundamentais são considerados imprescindíveis para a satisfação integral da pessoa humana, em sua dignidade, e, desta forma, são limitadores do poder público. E a dignidade da pessoa humana deve ser tida como parâmetro de valoração a orientar a interpretação e compreensão do sistema constitucional e infraconstitucional.4
De acordo com Sarmento (2016, p. 98), “o princípio da dignidade, que tem campo extremamente amplo, vincula o Estado e os particulares e envolve prestações positivas e negativas”, mas não possui natureza absoluta, sujeitando-se a eventuais restrições e ponderações. A proibição da tortura, no entanto, é absoluta.
4 Diante da imperiosa necessidade de respeito à dignidade humana do preso, ainda que tenha praticado um delito considerado hediondo, não se pode aceitar as críticas feitas, por vezes, ao princípio da dignidade da pessoa humana, de que seria um coringa argumentativo também na questão penitenciária. As violações ao princípio comprovadamente existem, como se verá.
Negar o caráter absoluto da dignidade humana não significa aceitar a banalização das restrições a esse princípio. Apesar de não ser absoluta em toda a sua extensão, a dignidade humana, pela sua estatura moral e relevância ímpar em nosso sistema constitucional, deve assumir um peso abstrato muito elevado na ponderação de interesses, de forma que, nos casos em que esteja efetivamente presente, ela quase sempre prevaleça no confronto com outros bens e princípios. (SARMENTO, 2016, p.98)
Para Sarmento (2016, p. 97), se o princípio da dignidade humana tivesse caráter absoluto, todos aqueles que estivessem presos em condições desumanas e degradantes, teriam que ser colocados em liberdade. Como isso não é possível, se aceita a ponderação da dignidade humana dos presos com o interesse social na preservação da segurança pública.
Colnago (2013, p.33) relata que:
Ainda que louvável a introdução no ordenamento de preceitos que valorizam e efetivam a dignidade do sentenciado, a situação atual de nossas penitenciárias apresentam-se em total discrepância com os valores constitucionalmente protegidos. Delas, testemunhamos a presença ínfima de concretude quanto à defesa e a proteção do princípio da dignidade.
Savazzoni (2010, p. 33-34), esclarece que a dignidade da pessoa humana também deve sustentar a elaboração de leis penais, “de modo que sejam criadas em ampla consonância com as garantias que este princípio exprime”, ressaltando que:
A aplicação e a execução das penas, com maior razão, por serem o momento em que o apenado se verá tolhido de sua liberdade e, bem assim as normas que a disciplinam deverão ser pautadas também por este supra-princípio, considerando-se o valor da pessoa humana como um fim em si mesmo e não como um meio de se garantir a ordem social. Conclui-se, assim, que o Estado, principalmente, em fase de execução penal, há que se portar como garantidor da dignidade e não como seu violador.
A observância da dignidade da pessoa humana nos remete ao princípio da humanidade das penas, que se consagrou no direito penal com o iluminismo, nos séculos XVII e XVIII, com a defesa dos direitos inerentes à condição humana e com proibição de penas degradantes.
Isto porque “o princípio da humanidade está estreitamente ligado ao princípio da dignidade humana, que na verdade encontra nele seu fundamento substancial último”
(PRADO, et. al., 2009, p. 21-22). E completam esses autores que:
o princípio da humanidade deve orientar toda ação estatal voltada ao condenado, não só na feitura da lei e no âmbito do cumprimento efetivo da pena, como também na aplicação da sanção administrativa e no resgate do condenado como pessoa humana.
A Constituição Federal de 1988 expressamente o adota, em vários dispositivos, assegurando “aos presos o respeito à integridade física ou moral” (artigo 5º, XLIX), bem como no inciso XLIX, ao proibir as penas de morte (salvo em caso de guerra declarada), as penas de caráter perpétuo, de trabalhos forçados, de banimento ou penas cruéis.
Não poderia ser diferente. Sendo fundamento da Constituição Federal a dignidade da pessoa humana, o princípio da humanidade é importante limitação ao direito de punir do Estado, vedando principalmente a pena de morte e a prisão perpétua.
Para Nucci (2015, p. 174) este princípio significa, “acima de tudo, atributo ímpar da natureza humana, consistindo em privilegiar a benevolência e a complacência, como formas de moldar o cidadão, desde o berço até a morte”. Assim, o Estado não pode assumir um papel de vilania ao pretender aplicar uma pena maldosa, com conotações de vingança.
Nucci (2015, p. 175) aduz ainda que:
Respeita-se, por óbvio, eventual sentimento inferior de vingança e rancor subsistente na vítima do crime ou em seus familiares ou amigos. Entretanto, o Estado, por seus agentes constituídos, deve atuar com imparcialidade, aplicando as leis de maneira justa e equilibrada, com o fim de demonstrar a sua superioridade no universo da aplicação de sanções às infrações cometidas.
A lei de execução penal proíbe o emprego de celas escuras e prevê as condições mínimas de higiene e salubridade, e, ainda, mesmo em se tratando de sanção disciplinar, estas não poderão colocar em perigo a integridade física e moral do condenado (artigo 45, §1º e 2º da LEP).
Bitencourt (2011, p. 47), ao discorrer sobre esse princípio, ressalta que:
A proscrição de penas cruéis e infamantes, a proibição de tortura e maus-tratos nos interrogatórios policiais e a obrigação imposta ao Estado de dotar sua infra-estrutura carcerária de meios e recursos que impeçam a degradação e a dessocialização dos condenados são corolários do princípio de humanidade.
Infelizmente, o que se verifica no sistema prisional é a completa violação ao princípio da humanidade. O Poder Executivo, representado pelas Secretarias Estaduais de
Administração Penitenciária, constantemente viola os direitos dos presos, não se podendo esquecer que o Poder Judiciário, em muitas situações, deixa a desejar em sua atuação.
Nesse sentido foi o relatório da Comissão Parlamentar de Inquérito do Sistema Carcerário, chamada de CPI Carcerária (2009):
o sistema punitivo e repressivo expressa uma situação de descontrole por parte das autoridades responsáveis, seja a nível das Secretarias de Governo, seja a nível do Sistema Judiciário propiciando a perpetuação de uma lógica interna nos estabelecimentos, que penaliza tanto funcionários como presos, ainda que estes participem e reproduzam esta lógica desumana e violenta.
O fato é que os presos não perdem os direitos que não foram atingidos pela condenação e possuem a dignidade inerente à condição de seres humanos, que deve ser zelada pelo Poder Público, ressaltando-se que o princípio da dignidade humana deve orientar toda ação estatal, inclusive por determinação constitucional, ainda que se trate de uma minoria repudiada pela sociedade.
No entanto, o que se verifica é a sistemática violação da dignidade humana dos presos, como recentemente reconhecido pelo Supremo Tribunal Federal, ao declarar o Estado de Coisas Inconstitucional do sistema prisional.