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O bom comportamento carcerário

No documento ANA CLÁUDIA RIBEIRO TAVARES (páginas 108-112)

CAPÍTULO 3 - DA VIOLAÇÃO DE PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS PELA

3.3 Requisitos para a progressão de regime

3.3.2 O bom comportamento carcerário

Para que possa ser progredido, o condenado precisa demonstrar seu mérito, que atualmente é aferido através do atestado de bom comportamento carcerário. Possui bom comportamento carcerário o sentenciado que não pratica falta disciplinar e cumpre seus deveres durante o cumprimento da pena.

Constatada a presença do requisito objetivo, passa-se à análise do requisito subjetivo.

Exige a lei que o preso tenha bom comportamento carcerário, atestado pelo diretor do estabelecimento prisional. Até 2003, constava no artigo 112 que o preso deveria ter “mérito”,

e que a decisão seria precedida de parecer da Comissão Técnica de Classificação e do exame criminológico, quando necessário.

Com a modificação, deixando de constar esta exigência, muito se discutiu sobre a

“suposta” extinção do exame criminológico, que deveria ser o instrumento pelo qual o juiz avalia o “mérito” do condenado.

Pacificou-se o entendimento de que o juiz poderá requerer a elaboração de exame criminológico, pelas peculiaridades do caso e desde que em decisão motivada (Súmula 439 do STJ). No mesmo sentido é a Súmula Vinculante 26 do STF.

Assim, o juiz da execução, ao apreciar o pedido de progressão, poderá determinar, fundamentadamente, que se realize exame criminológico para avaliar o mérito do condenado.

Neste exame, será o preso submetido a entrevistas por psicólogo, assistente social, psiquiatra, e estes, juntamente com os diretores de disciplina e diretor geral, irão apresentar ao juiz as condições do sentenciado.

É de conhecimento notório que não há psiquiatras em todas as unidades prisionais.

Ainda, as psicólogas não podem emitir parecer favorável ou contrário à progressão, apenas apresentar relatório, nos termos da Resolução nº 12/2011 do Conselho Federal de Psicologia.

Determinação semelhante existe para as Assistentes Sociais. Mas os diretores (geral, de produção e de reintegração) opinam favorável ou contrariamente ao pedido do condenado.

De qualquer forma, estabelece a lei que o condenado deve ostentar bom comportamento carcerário atestado pelo diretor do estabelecimento prisional. Mas não consta na LEP com base em quais critérios isso ocorrerá.

O artigo 135 do Código Penitenciário de Pernambuco, que trata da classificação da conduta da pessoa privada da liberdade, estabelece que a conduta da pessoa privada de liberdade será classificada em boa, regular ou ruim, nos seguintes termos:

§ 1º Considerar-se-á como boa a conduta da pessoa privada de liberdade que não tenha cometido falta disciplinar.

§ 2º Considerar-se-á regular a conduta da pessoa privada de liberdade que tenha cometido falta de natureza média ou leve.

§ 3º Considera-se ruim a conduta da pessoa privada de liberdade que tenha cometido falta grave.

Já o §6º do artigo 135 do Código de Pernambuco estabelece que “a progressão de uma conduta para outra imediatamente superior deverá ocorrer sempre que a pessoa privada de liberdade não cometer nenhuma falta disciplinar de acordo com os períodos, contados da data do fato”, com prazos de 60, 90 e 180 dias de acordo com a natureza da falta praticada,

respectivamente leve, média e grave. No entanto, também se estabelece que “Não haverá prejuízo na classificação da conduta da pessoa privada de liberdade, caso não haja registro de falta disciplinar devidamente apurada e cientificada à autoridade judicial”.

Em resumo, praticada uma falta disciplinar no Estado de Pernambuco, a conduta será considerada boa em 60, 90 ou 180 dias, não podendo ser prejudicada a avaliação da conduta enquanto o fato não for devidamente apurado.

Pelo atual regimento interno do Estado de São Paulo, apresentará bom comportamento carcerário aquele condenado que não possuir falta disciplinar ou, caso possua, tenha sua conduta considerada reabilitada, mas com prazos bem superiores ao do Estado de Pernambuco.

No Estado de São Paulo, de acordo com o artigo 85 do RIP, o comportamento do preso pode ser classificado como ótimo, bom, regular ou mau, dependendo da existência ou não de faltas disciplinares. Estabelece o artigo 89 do RIP que os prazos para reabilitação do comportamento, contados a partir do cumprimento da sanção imposta (no caso, os 30 dias de isolamento celular) será de 03 (três) meses para as faltas de natureza leve, 06 (seis) meses para as faltas de natureza média e 01 (um) ano para as faltas de natureza grave.

Estabelece, ainda, o artigo 91, que em caso de nova falta disciplinar, os prazos para reabilitação devem ser somados. Assim, um sentenciado que cometa duas faltas no mesmo dia terá um prazo de 02 (dois) anos para reabilitar conduta e apresentar bom comportamento carcerário.

Se um preso, por alguma razão perde o controle e comete várias faltas por desrespeito aos funcionários num curto período de tempo, poderá ficar por anos com mau comportamento carcerário.

Em razão disto, há casos em que o preso cumpre a pena imposta na condenação, sem que tenha reabilitado seu comportamento e, neste período, ficou impossibilitado de pleitear progressão de regime, livramento condicional, comutação ou indulto.

Além das sanções disciplinares previstas na LEP, verifica-se que a mais severa punição, para os presos no Estado de São Paulo, está prevista no Regimento Interno, e diz respeito ao prazo para reabilitação do comportamento ou conduta.

O que se questiona é se teria a Administração Penitenciária, através de Resolução, legitimidade para assim proceder. Viola o princípio da legalidade se imputar a um sentenciado anos de mau comportamento sem base em determinação legal.

Nesse sentido, julgado proferido pela 16ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça, com a seguinte ementa:

Agravo em execução. Resolução SAP nº 144. Ilegalidade. Ocorrência.

Matéria de ordem penal regulada por norma da administração pública.

Ofensa ao art. 1º do CP.

Prazo para reabilitação de falta que deve observar o princípio da legalidade.

Lacuna legal que não pode ser suprida por Resolução. Vício configurado.

Nulidade reconhecida.

(TJ-SP Agravo 0034934-96.2014.8.26.0000, Relator: Guilherme de Souza Nucci, Data de Julgamento: 03/02/2015, 16ª Câmara de Direito Criminal, Data de Publicação: 03/02/2015)

Constou na fundamentação do julgado que seria “impossível a criação de prazo de reabilitação pelo Executivo, porquanto além de usurpar função tipicamente legislativa, incorreria em patente ofensa ao princípio da legalidade”, uma vez que “a despeito da carência de lei dispondo sobre o prazo de reabilitação, não cabe à Secretaria da Administração Penitenciária criá-lo, ao seu bel prazer, tampouco ao magistrado submeter-se a tal regramento, evidentemente ilegal”.

No entanto, o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, na maioria dos casos, autoriza esse procedimento. Veja-se os seguintes julgados:

AGRAVO EM EXECUÇÃO COMETIMENTO COMPROVADO DE FALTA DISCIPLINAR DE NATUREZA GRAVE ABSOLVIÇÃO Impossibilidade: Comprovada a prática de falta disciplinar em regular procedimento no qual houve oportunidade de ampla defesa, não há falar-se em desconstituição ou desclassificação. PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA APLICAÇÃO Impossibilidade: Não há como aplicar o princípio da insignificância à conduta em que o sentenciado agrediu companheiro de cela, fato que gera desordem e indisciplina no ambiente carcerário, independente do resultado advindo da agressão.

REABILITAÇÃO FIXAÇÃO DO LAPSO COM BASE NO REGIMENTO INTERNO PRISIONAL Possibilidade: A fixação de lapso para reabilitação não afronta o regime jurídico uma vez que a administração penitenciária tem atribuição legal para assim proceder, sem contrariar os preceitos constitucionais. Agravo não provido.

(TJ-SP - EP: 0027237-24.2014.8.26.0000 SP 0027237-24.2014.8.26.0000, Relator: J. Martins, Data de Julgamento: 31/07/2014, 7ª Câmara de Direito Criminal, Data de Publicação: 21/08/2014)

Agravo em Execução. Indeferimento do pedido de progressão de regime prisional. Insurge-se a Defesa por entender preenchidos todos os requisitos por lei exigidos para a progressão de regime. Pretende o afastamento dos artigos 89 e 90 da Resolução SAP. Requisitos subjetivo e objetivo não preenchidos para a concessão do benefício pleiteado. Mau comportamento carcerário. Prática de recente falta grave. Legalidade da Resolução SAP-144/10. Válido e recomendável o período de reabilitação. Precipitada a concessão do benefício almejado. Agravo improvido.

(TJ-SP - EP: 70068875620138260637 SP 7006887-56.2013.8.26.0637, Relator: Péricles Piza, Data de Julgamento: 19/10/2015, 1ª Câmara de Direito Criminal, Data de Publicação: 27/10/2015)

Apesar da disposição constitucional de que os Estados podem legislar em Direito Penitenciário, em se tratando da aferição de bom comportamento carcerário, que afeta diretamente o direito de ir e vir do sentenciado, com cunho de direito material, seria adequado que o regramento se desse através de legislação federal, aplicada a todo o território nacional.

Pretende-se, com o PLS nº 513/2013, a inclusão de um parágrafo no artigo 53 da LEP onde se determina que Resolução do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária regulamentará a classificação do comportamento prisional. Caso venha a ser alterada a LEP nesse ponto, isso as regras seriam nacionais, apesar de não serem disciplinadas por lei ordinária.

No documento ANA CLÁUDIA RIBEIRO TAVARES (páginas 108-112)