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3 POESIA NA SALA DE AULA E ESTRATÉGIAS METACOGNITIVAS DE

3.1 DIMENSÕES DA LEITURA POÉTICA

3.1.1 Dimensão das imagens dos bosques da poesia

Humberto Eco (1994, p. 12) emprega o termo “bosque” para qualquer texto narrativo: “‘Bosque’ é uma metáfora para o texto narrativo não só para o texto dos contos de fadas, mas para qualquer texto narrativo”. Diferentemente do percurso traçado por Umberto Eco, tomamos o termo bosque para aludir aos textos descritivos poéticos, tendo em vista que eles, como um jardim, apresentam caminhos, que, durante a leitura do texto, podem se bifurcar. Mesmo quando as trilhas do poema não são bem definidas, cada leitor empírico, de que fala Eco (1994), poderá traçar sua própria trilha, decidindo ir para a esquerda ou para a direita e, a cada árvore obstáculo que encontrar, optando por esta ou aquela direção.

Nesse sentido, empregamos a metáfora dos bosques da poesia, tendo como finalidade apresentar as imagens ou conteúdos, que, via de regra, compõem a arte poética. O termo bosque refere-se, com base em Houaiss (2010, p. 115), a uma “reunião de árvores e arbustos que resta de antigas florestas”. Tal como os bosques florestais, que são compostos de espaços, trilhas e elementos múltiplos (planalto, planície, mata densa e aberta, cachoeiras, montanhas, lagos, fauna e flora, dentre outros), a poesia desvenda imagens do interior do espírito absoluto, de que fala Hegel (2004). “Ela realiza isto através da intuição, que tem a capacidade de propor por imagens a projeção do absoluto sobre o sensível e o concreto” (MELO; OLIVEIRA, 2013, p. 45).

Os conteúdos imagéticos da poesia, considerados como imitação da natureza humana, “segundo o verossímil ou o necessário”, como afirma Aristóteles (2003, p. 43), tais quais os elementos múltiplos dos bosques, representam questões universais, pois “a poesia é mais filosófica e de caráter mais elevado que a história, porque a poesia permanece no universal e a história estuda apenas o particular” (ARISTÓTELES, 2003, p. 43). Assim, como arte da imitação, que manifesta a idealidade espiritual totalizadora, a poesia exclui o exterior enquanto tal, os

elementos naturais porque “a poesia não tem sol, montanhas, floresta, paisagens ou a forma humana exterior, sangue, nervos, músculos etc., mas interesses espirituais como o seu tema [Gegestande] propriamente dito” (HEGEL, 2004, p. 23).

Os bosques da poesia, como expressão da universalidade absoluta, exprimem a natureza subjetiva do ser, “sua alegria, seu maravilhamento, sua dor e seu sentir” (HEGEL, 2004, p. 158). Desses bosques íntimos surgem diversas imagens poéticas, formando espaços de linguagem e pensamento, uma vez que “o verso tem sempre um movimento, a imagem se escoa na linha do verso, levando a imaginação, como se a imaginação criasse uma fibra nervosa” (BACHELARD, 1978, p. 191). É com base nesse movimento contemplativo e criador, sempre enriquecido de novas imagens, pois o devaneio e a imaginação criam incessantemente, que Bachelard (1978, p. 196) – a partir de uma abordagem fenomenológica das imagens poéticas da intimidade, da subjetividade ou do interior – coloca o problema da poética da casa, tendo em vista que “a imagem da casa se transforma na topografia de nosso ser íntimo”.

Com base nesse postulado de Bachelard, podemos afirmar que as imagens dos bosques da poesia desnudam a subjetividade da alma humana, pois “nossa alma é uma morada” tal como uma casa, além disso, elas evocam múltiplos sentimentos e percepções externas e internas. Ao tomar a casa como instrumento de análise para a alma humana, por meio de poemas, Bachelard (1978, p. 197, grifos do autor) afirma:

Ajudados por esse ‘instrumento’, não reencontraremos em nós mesmos, sonhando em nossa simples casa, os confortos da caverna? Foi a torre de nossa alma arrasada para sempre? Somos nós, seguindo o hemisfério famoso, seres ‘com a torre abolida’ para todo o sempre? Não apenas as nossas lembranças, mas também os nossos esquecimentos estão aí alojados. Nosso inconsciente está ‘alojado’. Nossa alma é uma morada. E quando nos lembramos das casas, dos aposentos, aprendemos a ‘morar’ em nós mesmos. Vemos logo que as imagens da casa seguem nos dois sentidos: estão em nós assim como nós estamos nelas.

A intimidade da alma humana, lugar de morada do devaneio, da imaginação, do sonho, das lembranças e das imagens poéticas, como metáfora da casa, tem telhado e escada, quarto e sala, porão e sótão, cantos e corredores, gaveta, cofre e armário. Esses lugares físicos da casa, visualizados por Bachelard (1978, p. 208), com base na fenomenologia da poética do espaço, desvendam imagens dos bosques da poesia ou dos ecos da subjetividade, pois “a casa é imaginada como um

ser vertical. Ela se eleva. Ela se diferencia no sentido de sua verticalidade. É um dos apelos à nossa consciência de verticalidade”.

Como imagens poéticas da intimidade, os elementos da casa evocam valores, sentimentos, percepções e elementos metafísicos. O telhado da alma humana revela proteção contra os dramas do universo, racionalidade e clareza do pensamento. Outrossim, o seu aspecto pontiagudo cortando nuvens fala de sonhos. A escada do porão revela a descida às lembranças profundas, caracterizada pelo onirismo, ao passo que a escada do sótão desvenda a subida para a mais tranquila solidão. Quarto evoca sono, insônia, choro e sonho. Estando vazio, ele revela a tonalidade da luz e os doces aromas. Quarto e sala da subjetividade do ser evocam os abrigos de solidão, a familiaridade e comunhão de ternura e força. O porão fala de comodidade, como também de obscuridade, das potências subterrâneas, da irracionalidade das profundezas, do inconsciente, da loucura enterrada, dos dramas murados e do medo. O sótão fala de refúgio, distanciamento, tédio e medo, que podem ser apagados com a experiência do dia, da vida, da luz. O canto evoca o espírito empoeirado, a nostalgia, o esconderijo, a imobilidade, a confabulação conosco mesmos. Os corredores sugerem os labirintos dos sonhos, como santuários dos segredos. Gaveta, cofre e armário falam de esconderijo, de lugares, onde o Homem encerra seus segredos (BACHELARD, 1978).

A poesia desvela os devaneios da casa, transmitindo da intimidade os estágios do ser, casas do ser, em que se concentra uma certeza do ser. “Parece que habitando tais imagens, imagens que nos tornam estáveis também, recomeçaríamos outra vida, [...], nas profundezas do nosso ser” (BACHELARD, 1978, p. 218). Para Paz (1982, p. 187), “a experiência poética é uma revelação de nossa condição original”, porque desvela nosso ser. Como acabamos de apresentar os espaços da intimidade, do interior da casa poética, finalizamos esta subseção afirmando que as imagens dos bosques da poesia evidenciam um espírito humano complexo, profundo, enigmático, onírico, belo, evanescente, memorialista, que, pela fenomenologia do devaneio e da imaginação, se materializa por meio das matrizes sonoras, visuais e verbais da linguagem e pensamento.