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1.2 ASPECTOS SOCIOCOGNITIVOS DA LEITURA

1.2.3 Processos cognitivos implicados na leitura

1.2.3.2 Processos de compreensão

Ler não se reduz somente à descodificação e reconhecimento das palavras, significa, também, compreender a mensagem escrita de um texto, devendo a compreensão ser o objetivo final ou a função da leitura. Acreditamos que a compreensão de um texto é o produto de um processo regulado pelo leitor e no qual se produz uma interação entre a informação armazenada na memória daquele e a proporcionada pelo texto/discurso11 (CRUZ, 2007; MORAIS, 1997, RIBEIRO, 2005).

Cruz (2007), valendo-se dos conceitos de Lyon, sugere a existência de quatro níveis ou tipos de compreensão, que são: compreensão literal; compreensão interpretativa; compreensão avaliativa ou crítica; e compreensão de apreciação.

A compreensão literal implica o reconhecimento e memória dos fatos estabelecidos no texto, tais como ideias principais, detalhes e sequência dos acontecimentos. Para compreender a informação no texto/discurso, o leitor necessita relacioná-la às experiências passadas, uma vez que é necessário

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Meurer (1997, p. 16, grifo do autor), ao citar Kress (1989), define texto e discurso da seguinte forma: “o discurso é o conjunto de afirmações que, articuladas através da linguagem, expressam os valores e significados das diferentes instituições; o texto é a realização linguística na qual se manifesta o discurso. Enquanto o texto é uma entidade física, a produção linguística de um ou mais indivíduos, o discurso é o conjunto de princípios, valores e significados 'por trás' do texto. Todo discurso é investido de ideologias, isto é, maneiras específicas de conceber a realidade. Além disso, todo discurso é também reflexo de uma certa hegemonia, isto é, exercício de poder e domínio de uns sobre outros. A partir dessas características, o discurso organiza o texto e até mesmo estabelece como o texto poderá ser, quais tópicos, objetos ou processos serão abordados e de que maneira o texto deverá ser organizado”. Cavalcante (2013, p. 18-19) apresenta três concepções básicas de texto: (1) artefato lógico do pensamento – inicialmente, o texto era concebido como um artefato do pensamento do autor, cabendo ao leitor apenas captar essa representação mental e as intenções do produtor; (2) decodificação das ideias – posteriormente, o texto passou a ser entendido como um produto a ser decodificado pelo leitor/ouvinte, bastando, para sua compreensão, apenas o domínio do código linguístico; e (3) processo de interação – hoje, o entendimento sobre a concepção de texto é balizado pela interação. O texto é tomado como um evento no qual os sujeitos são vistos como agentes sociais que levam em consideração o contexto sociocomunicativo, histórico e cultural para a construção dos sentidos e das referências dos textos.

compreender tanto as palavras individualmente como o contexto onde elas são utilizadas para aceder ao significado de um determinado texto.

A compreensão da leitura é algo mais que uma simples construção de significado, pois também implica uma reconstrução de significado, ou seja, o leitor deve ser capaz de obter um significado inferencial da sua leitura, o que corresponde à compreensão interpretativa.

A compreensão avaliativa inclui a formação de juízos, a expressão das opiniões próprias assim como a análise das intenções do autor do texto, pressupondo-se deste modo um processamento cognitivo, elaborado para este nível de leitura. Já a compreensão de apreciação se identifica com o grau em que o leitor é afetado pelo conteúdo, pelas personagens e/ou estilo de expressão do autor, sugerindo que a leitura é um processo de comunicação entre o escritor e o leitor.

A compreensão textual/discursiva é uma tarefa dos interlocutores, que transcende o próprio texto, seja ele verbal ou não-verbal. A integração de elementos da memória do leitor aos elementos trazidos pelo próprio texto é fundamental para a compreensão leitora. A aprendizagem pela leitura está imanentemente relacionada à compreensão. Ratificando esse postulado, Smith (1989) defende a ideia de que o que realmente contribui para a formação do conhecimento é a compreensão, processo que integra a informação visual, (daquilo que está sendo lido) com a informação não-visual, (tudo o que já sabemos) armazenada na memória de longo prazo, através de mecanismos abrangentes e seletivos em termos de conteúdo. Nesse sentido, Gabriel (2006, p. 81) ao se apropriar dos conceitos de Nunes, defende que “a leitura não é uma atividade-fim e, sim, uma atividade-meio para que se possam efetuar outras atividades, tais como a comunicação, o acesso a informações, a fruição, o devaneio, entre outras, que a leitura pode desempenhar [...]”. Ainda de acordo com Smith (1989, p. 24), “A compreensão é mais do que o entendimento sobre as circunstancias nas quais estamos; é o modo pelo qual aprendemos”.

A compreensão leitora é um processo complexo, que depende de inúmeros fatores para que resulte em aprendizagem. Esse processo depende dos conhecimentos prévios do leitor, da motivação para a leitura, dos objetivos estabelecidos por elefrente a um dado texto e de capacidades cognitivas, que dêem conta do manejo dos componentes linguísticos, que constituem um discurso. A estruturação desses componentes parte dos fonemas, passando pelos morfemas,

pela sintaxe, pelo domínio do léxico, pela semântica e pela prosódia até chegar ao discurso – exigindo o amadurecimento de diferentes estruturas cerebrais (denominado neste trabalho de plasticidade neural), ao longo do desenvolvimento do indivíduo para que ele atinja eficiência e produtividade em leitura (PEREIRA et al., 2009).

Em síntese, a leitura não acaba com o reconhecimento das palavras, mas indo além, existe o nível de compreensão, o qual se relaciona com o processo sintático (ordem das palavras; tipo e complexidade gramatical da oração; categoria das palavras; aspectos morfológicos das palavras; etc.) e com o processo semântico (que vai além da captação dos significados e se encarrega de os integrar com os previamente adquiridos).

O módulo sintático se refere à habilidade para compreender como as palavras estão relacionadas entre si, isto é, refere-se ao conhecimento sobre e estrutura gramatical básica da língua. Desse modo, uma vez que a leitura supõe que as palavras estejam agrupadas em estruturas gramaticais, então, o conhecimento gramatical do leitor, sobre os conteúdos específicos perante os quais está, é básico e necessário para uma leitura correta.

Para Cruz (2007), o processo de análise sintática compreende três operações principais: (a) atribuição das etiquetas correspondentes aos distintos grupos de palavras, que compõem a frase (sintagma nominal, verbo, frase subordinada, entre outros); (b) especificação das relações existentes entre essas componentes; e (c) construção da estrutura correspondente mediante a ordenação hierárquica dos componentes.

Após as palavras serem reconhecidas e relacionadas entre si, o passo seguinte é o último dos que intervêm na compreensão da leitura e diz respeito à análise semântica, referente ao módulo semântico, através da qual o leitor retira o significado da frase ou texto e o integra com os conhecimentos, que já possui, na sua base de dados. Esta é constituída pelas experiências e aprendizagens prévias e pelas emoções e motivações, que são elementos de imersão para que a informação que chega seja processada. Memória de longo prazo, sistema de armazenamento e base de conhecimentos são outros nomes atribuídos à base de dados.

Os conhecimentos prévios são do tipo sintático, declarativo (saber o que uma coisa é) e procedimental (saber como se faz), o que exige a integração do léxico e das distintas palavras num todo coerente, de modo a permitir a extração do

significado da mensagem, que está para além do que cada uma das suas partes componentes representa.

No que diz respeito à leitura, o módulo semântico tem como grande meta a compreensão do significado das palavras, das frases e dos textos, isto é, extrair o significado das palavras. Mas isto não basta, pois é necessário coordenar esta extração de significado com as matizes impostas pela estrutura gramatical e pelo contexto linguístico e extra-linguístico, tendo ainda de ser considerada a inter-relação dos significados das palavras com os conhecimentos prévios e emergentes do leitor. (CRUZ, 2007, p. 76)

Assim, Cruz (2007), se apropriando dos conceitos de Veja, afirma que o módulo semântico consta de dois subprocessos, a extração de significado e a sua integração na memória. Extrair o significado implica a construção de uma representação ou estrutura da frase ou texto, na qual, ao mesmo tempo em que são esquecidos os aspectos gramaticais, estão indicados os papéis de atuação dos elementos, que intervêm na ação assinalada pelo verbo. Compreender um texto implica a construção de um modelo mental referente ao material escrito, que se vai formando com a informação que o leitor vai recebendo do texto. O processo de compreensão termina quando o leitor integra a extração do significado na memória, pois, para compreender, não só é necessário construir uma estrutura como também é preciso juntar essa nova estrutura aos conhecimentos que o leitor já possui.

Deste modo, para integrar novas informações na memória é necessário estabelecer um vínculo entre a nova estrutura e os conhecimentos que já existem, e este vínculo consegue-se através da introdução, na nova mensagem, de informação que o leitor já possui e que lhe servirá para activar os conhecimentos com ela relacionados. (CRUZ, 2007, p. 77)

Em síntese, quanto aos dois níveis abordados neste capítulo, podemos afirmar que a leitura envolve a descodificação de símbolos gráficos (grafemas ou letras) e a sua associação interiorizada com componentes auditivos (fonemas) (que envolve os processos de nível inferior ou de descodificação), que lhes sobrepõem e lhes conferem um significado (que envolve os processos de nível superior ou de compreensão). Como vimos em Cruz (2007), Morais (1997) e Ribeiro (1997), a leitura envolve vários processos, dentre eles, o de compreensão. Ler para compreender é uma chave de interação entre leitor, discurso/texto, autor e ambiente.