CAPÍTULO 2. EXPERIÊNCIA DE VISITA MULTIATRAÇÃO EM CONTEXTO URBANO
2.4. As atrações como elemento central do destino urbano
2.4.2. Dimensão espacial e temporal das atrações de visitantes
O estudo da viagem multidestino (Hwang, Gretzel, & Fesenmaier, 2006; Lue, Crompton, & Fesenmaier, 1993; Oppermann, 1995b; Pearce, 1987; Santos, Ramos, & Rey-Maquieira, 2012; Tideswell & Faulkner, 1999; Tussyadiah, Kono, & Morisugi, 2006) tem vindo a intensificar-se, na área da geografia e do turismo mas, ainda assim, a grande maioria dos modelos em turismo e recreio funda-se no pressuposto de que os turistas viajam para um destino único (Lue, Crompton, & Stewart, 1996, p. 41).
No contexto intradestino, Hunt & Crompton (2008) cunharam o conceito da visita ‘multiatração’. Efetivamente são vários os estudos que apontam que é comum o turista,
designadamente o turista urbano, visitar várias atrações numa mesma viagem a uma cidade (Lau & McKercher, 2004; Lew & McKercher, 2006; Hunt & Crompton, 2008; Edwards et al., 2009). A cidade é justamente o palco por excelência da visita dirigida a múltiplas atrações pela variedade e concentração de elementos atrativos que oferece (Karski, 1990, citado por Pearce, 2001, p. 927; Edwards et al., 2008, p. 1033; Ashworth & Page, 2011, p. 3), como anteriormente analisado (ponto 2.3.4.).
Com efeito, é mais provável que as pessoas visitem áreas com múltiplas atrações do que áreas com poucas atrações (Hunt & Crompton, 2008, p. 238), devido a fatores como busca de variedade, redução do risco e incerteza, conciliação de diferentes desejos dos elementos do grupo e eficiência de custos (Lue et al., 1996, p. 41; Zillinger, 2005, p. 9). A este propósito, importa referir a teoria de atração cumulativa enunciada por Nelson (1958, citado por Hunt & Crompton, 2008, p. 238), no contexto do comércio a retalho, que defende a vantagem da aglomeração numa determinada área geográfica de estabelecimentos comerciais que vendam o mesmo produto. Em seu entender, o fator cumulativo pode derivar da similaridade ou da complementaridade. Ainda segundo Hunt & Crompton (2008, p. 238), o conceito central da atração cumulativa é o princípio da compatibilidade, que é a medida do efeito que um estabelecimento comercial (ou, mutatis mutandis, atração de visitantes) tem sobre um outro adjacente ou próximo; se o efeito for positivo (em termos de volume de vendas ou de número de visitantes) as unidades de negócio são consideradas compatíveis.
Como discutido no ponto 2.3.2., há uma especialização turística do espaço urbano. Um fator determinante para a distribuição espacial do turismo numa cidade é, como referido, a própria estrutura espacial urbana: como a maioria das atrações está localizada em áreas centrais da cidade, esta concentração leva a uma densidade decrescente do seu interior para a periferia (Jung, 2010, p. 15). A Figura 2.7. evidencia justamente a localização das atrações numa lógica centro/periferia, tendo em conta a organização espacial e funcional da cidade.
Os turistas, com orçamentos temporais limitados (Xia, 2007, p. 37; Zillinger, 2005, p. 22), tendem a buscar eficiência espaciotemporal na visita às atrações. Assim há um ponto de “declínio da distância” (no original, “distance decay”), em termos métricos, a partir do qual há uma diminuição significativa do número de atrações adicionais visitadas (Hunt & Crompton, 2088, p. 241). E, nessa medida, pode afirmar-se que a cidade tende a reduzir a mobilidade espacial do turista porque as atrações se encontram geograficamente concentradas (Zillinger, 2005, p. 9).
Fonte: Ritchie (2008, p. 153, citando Getz, 1993; e Page, 1995)
Figura 2.7. | A localização das atrações na estrutura espacial e funcional urbana
No sentido, em que a localização geográfica relativa das atrações influencia o comportamento do turista, várias classificações (constantes do anterior Quadro 2.4., pág. 62), são particularmente úteis, pela sua natureza ou impacto espaciotemporal:
atrações de circuito ou de longa estada, em termos de tempo de estada (Gunn & Var, 2002, p. 43);
atrações agrupadas ou isoladas, em termos de distribuição/concentração espacial (Robinson, 1976, citado por Beckendorff, 1999, p. 11);
atrações ponto, linha ou área (Wall, 1997, pp. 241-242) e atrações nodais ou lineares (Holloway, 2002, p. 182); ambas as classificações segundo o critério de ocupação no espaço e localização relativa.
No contexto urbano, as atrações tendem a caracterizar-se como ‘agrupadas’, atrações ‘área’ e nodais.
Na seleção das atrações a visitar, segundo argumenta Zillinger (2005, p. 12), a distância medida tanto em termos de espaço quanto de tempo é um fator importante para o turista, também influenciado por questões económicas e pela informação de que dispõe no destino. No estudo que fez de turistas alemães na Suécia, a viajar com carro próprio, a autora
Atrações centrais Naturais Patrimoniais Culturais Eventos Compras Congressos Funções do CBD Administrativa Comercial Governamental Reuniões Serviços Transporte para Acesso dentro Restauração Alojamento Informação
identificou um certo ritmo temporal quanto às paragens para visitar atrações (nem demasiado próximas nem demasiado afastadas).
Por outro lado, no mix nuclear de Leiper (1990), isto é, no conjunto das atrações disponíveis no destino para visita turística, estas não têm todas a mesma importância para o turista ou grupos de turistas. Por isso, podem ser hierarquizadas segundo classificações como as de Leiper (1990) e Caccomo & Solonandrasana (2002, citados por Botti et al., 2008, p. 594).
A classificação de Leiper divide as atrações em primárias – que constituem o propósito da vista; secundárias – onde pretendem passar pouco tempo; e terciárias – de que o turista nem sequer conhecia a existência antes de chegar ao destino.
Por sua vez, Caccomo & Solonandrasana (2002, citados por Botti et al., 2008) colocaram a ênfase na ligação entre satisfação e duração da estada: identificando as “atrações D” – de “descoberta” em que o turista uma vez satisfeita a sua curiosidade vê a sua satisfação diminuir até abandonar o local; e as “atrações E” – de “escape” em que a sua satisfação se mantém num nível aceitável durante um período de tempo considerável, propiciando uma estada mais longa. A Figura 2.8. representa o paralelo entre as duas classificações e dois eixos temporais relativos à cronologia da classificação e a duração da estada na atração.
Fonte: Botti et al. (2008, p. 596)
Figura 2.8. | Tempo e atrações turísticas
Segundo estes (Botti et al., 2008, pp. 594-5), as duas classificações estão ligadas por uma unidade comum de medida – o tempo (planeado ou efetivamente decorrido na visita): a classificação de Leiper corresponde a uma avaliação por antecipação, antes de chegar ao destino e que pode alterar-se uma vez no local; a de Caccomo & Solonandrasana (2002)
resultante da experiência de visita e da satisfação efetivamente obtida. Botti et al. (2008, p. 595) referem ainda um terceiro tipo de atração de Caccomo & Solonandrasana (2002): um “cluster de atrações D” que, no seu conjunto, prolongam a satisfação do turista e, por conseguinte, a sua estada, afigurando-se com particular aplicação no contexto urbano.
Shoval & Raveh (2004), no seu estudo empírico da cidade de Jerusalém, também classificaram as atrações de acordo com as características dos turistas e as atrações que estes visitaram, identificando quatro grupos de atrações espacialmente agrupadas, através do método de análise estatística multivariada co-plot.
Brito-Henriques (1996), a partir de uma perspetiva geográfica, analisou a espacialização do turismo urbano. Através de um inquérito aos visitantes de Lisboa, o investigador identificou as atrações visitadas, extraindo, a partir destas, conclusões sobre o comportamento espacial dos turistas que comparou com as imagens turísticas da cidade presentes nas brochuras turísticas.
Ritchie & Dickson (2007) estudaram os padrões de visita às várias atrações da capital australiana, em termos espaciotemporais, através de um inquérito aos turistas, concluindo que as dez principais atrações respondem por 60 por cento das visitas, distribuindo-se as restantes por mais de 150 outras atrações, atividades e eventos. As diferenças estatísticas observadas foram relativas aos que viajam com e sem crianças, motivo da viagem, origem dos visitantes e sexo.