CAPÍTULO 2. EXPERIÊNCIA DE VISITA MULTIATRAÇÃO EM CONTEXTO URBANO
2.3. O destino urbano
2.3.5. Tipologias de destinos urbanos
Sendo o turismo uma entre muitas funções urbanas, Ashworth & Page (2011, p. 9) defendem que este é geralmente um delineador pobre de tipos de cidade ou até mesmo de zonas dentro das cidades. Ainda assim, registam-se várias tentativas de classificar as áreas urbanas enquanto destinos turísticos (Quadro 2.1.).
Page (1995, citado por Page et al., 2001, p. 337) enuncia uma classificação de destinos urbanos (Quadro 2.1.) que, segundo Hall & Page (2002, p. 188) reflete, de certa forma, o conceito de urbanização turística de Mullins (1991) e evidencia o problema de deduzir generalizações a partir de casos de estudo individuais sem ter por base uma estrutura conceptual adequada.
Law (1996, pp. 15-6), reconhecendo a dificuldade de uma classificação dos destinos urbanos devido à dificuldade em definir limites quanto ao significado das funções turísticas, criou uma tipologia (Quadro 2.1.), porventura mais clara que a de Page (1995, citado por Page et al., 2001, p. 337), tendo por base as funções, recursos e atrações que as cidades turísticas possuem, embora seja discutível se uma população numerosa e um importante papel comercial são específicos das cidades industriais (Thompson, 2003, p. 16).
Fainstein & Judd (1999, citados por Henriques, 2003, p. 45) entendem que os destinos urbanos podem ser categorizados em três grandes tipos tendo em conta caraterísticas históricas, culturais e de desenvolvimento turístico das cidades (Quadro 2.1.). Esta classificação realça a problemática dos potenciais desequilíbrios de desenvolvimento entre o núcleo urbano e a sua zona envolvente, não incluindo qualquer diferenciação com base no tamanho das cidades. Smith et al. (2010, p. 180) classificam as cidades de acordo com a sua ‘proposta exclusiva de venda’(no original, “unique selling preposition”), isto é, com os seus elementos atrativos dominantes ou distintivos, a partir duma perspetiva do marketing de lugares. E é aí que reside o interesse da classificação: sendo que não reflete questões de desenvolvimento turístico ou dimensão da cidade, tem como pano de fundo conceitos e questões atualmente pertinentes no contexto do turismo urbano, designadamente a busca de vantagem competitiva pela sua diferenciação face às outras cidades.
Quadro 2.1. | Tipologias de cidades enquanto destinos turísticos
AUTOR TIPOS DE CIDADES
Page (1995, citado por Page et al., 2001:337) Capitais
Centros metropolitanos, cidades muralhadas e pequenas cidades fortificadas Grandes cidades históricas
Áreas no centro das cidades
Áreas revitalizadas de frentes de água Cidades industriais
Estâncias marítimas e de desportos de inverno
Estâncias integradas construídas com propósito turístico Complexos de diversão turísticos
Centros de serviços turísticos especializados, termas e santuários Cidades culturais/artísticas
Law (1996:15-6)
Capitais
Com uma importante função administrativa e/ou de negócios, têm adicionalmente museus nacionais, monumentos e edifícios históricos de relevo mundial. Atraem visitantes de uma vasta área geográfica tanto em turismo de negócios como em turismo de lazer. Cidades
industriais
Produto do desenvolvimento industrial (que pode constituir um obstáculo à atividade turística); têm um papel importante a nível comercial. Geograficamente, os seus visitantes de lazer provêm em geral de áreas próximas, mas os de negócios podem chegar de origens mais distantes.
Cidades high-
amenity
Caracterizadas por grande diversidade de atrações, paisagens naturais, e atividades recreativas e empresariais, atraem visitantes de lazer e de negócios vindos habitualmente duma área alargada. Cidades de
grande atratividade
Multifuncionais, são reconhecidas como cidades turísticas devido à sua natureza histórica ou à existência de estâncias turísticas. Estas cidades atraem sobretudo visitantes de lazer de áreas distantes.
Fainstein & Judd (1999, citados por Henriques, 2003:45)
Cidades resort Lugares expressamente destinados para o consumo dos visitantes.
Cidades históricas turísticas
O desenvolvimento da atividade turística advém da identidade cultural da cidade podendo ser destinos turísticos já consolidados ou, na sua maioria, resultado da promoção e reconstrução do seu património histórico e cultural.
Cidades reconvertidas
Cidades onde se constroem infraestruturas e equipamentos com o intuito de atrair visitantes, por exemplo tradicionalmente
associadas à manufatura e infraestruturas portuárias e alvo de intervenção tendo em vista novos usos, designadamente pela construção de equipamentos turísticos.
Quadro 2.1. | Tipologias de cidades enquanto destinos turísticos (cont.)
AUTOR TIPOS DE CIDADES
Smith et al. (2010:180-2) Cidades globais/ Mundo
Cidades que correspondem a pós-metrópoles; económica, política e culturalmente heterogénea, aparentemente sem fronteiras de delimitação, com uma paisagem compósita e com novos modos de vida contemporânea justapostos com outros profundamente históricos. Ex.: Londres, Nova Iorque
Capitais nacionais
Cidades com um papel importante em termos de turismo, combinando funções políticas, económicas, administrativas, culturais e simbólicas, embora haja algumas cujo estatuto de capital é relativamente ofuscado por outra cidade nacional (ex.: Camberra /Sidney; Ancara/Istambul)
Capitais culturais
Cidades com grande concentração de património e atrações artísticas, esteticamente bonitas, frequentemente apinhadas. Ex.: Budapeste, Praga, Viena
Cidades patrimoniais
Correspondente ao conceito da ‘cidade histórico-turística’ de Ashworth & Tunbridge (1990), com um centro histórico que atrai muitos turistas e que tendem a desenvolver uma nova periferia. Ex.: Veneza, Oxford, Cracóvia
Cidades artísticas
Cidades com grande concentração de galerias, museus e espaços artísticos e, muitas vezes, famosas pelas suas coleções de arte. Ex.: Florença, Madrid
Cidades criativas
Cidades criativas, não necessariamente relacionadas com a arte e a cultura mas que refletem caraterísticas inovadoras e atrações de negócios de alta tecnologia, frequentemente com um “índice boémio” e “índice homossexual” elevado.
Ex.: Helsínquia, Barcelona Cidades
industriais
Cidades alvo de várias iniciativas bem-sucedidas de regeneração, geralmente a partir de projeto catalisador como um megaevento, museu, centro de conferências que as coloca no mapa.
Ex.: Glasgow, Bilbao Cidades
desportivas
Cidades que resultam do acolhimento de vários eventos ou da existência de espaços desportivos permanentes e eventos regulares. Ex.: Melbourne, Cardiff
Cidades de festivais
Cidades mundialmente conhecidas pela realização de eventos anuais como o Carnaval no Rio de Janeiro ou o Festival em Edimburgo.
Ex.: Rio de Janeiro, Nova Orleães Cidades
futuristas
Cidades que desenvolvem continuamente elementos novos e de alta tecnologia, que atraem os turistas pela natureza fantástica das suas realizações.
Ex.: Dubai, Tóquio Fonte: elaboração própria
Justamente a propósito deste debate, importa referir a tendência de homogeneização do espaço e equipamentos turísticos urbanos, com consequente perda de carater e identidade. E assim, “muitas cidades pós-modernas do ‘Novo Mundo’ são amplamente distintas pela sua falta de distinção” (Hayllar et al., 2008, p. 4).
Com efeito, nas últimas décadas tem sido cada vez mais notória a globalização das cidades, com “impactos na configuração de novos espaços e das novas formas de urbanismo, contribuindo para a aproximação/banalização das paisagens urbanas”, sendo “patente a estandardização, a repetição dos modelos arquitetónicos e urbanísticos, dos materiais, das cores, das marcas, dos cheiros, dos rituais. Passados quase quatro decénios sobre um texto de Jane Jacobs (1961) sobre A morte e a vida das grandes cidades americanas - o fracasso do
planeamento urbano, a sua visão do que estava a passar-se ou poderia vir a acontecer,
adquire dimensão profética ‘every place becomes more like every other place, all adding up to Noplace’” (Gaspar, 2005, pp. 288-9).
Também algumas cidades portuguesas começam a mostrar sinais desta tendência, tornando- se progressivamente cada vez mais “indiferentes ao local” (Brandão, 2006, citado por Bettencourt, 2010, p. 48).
O fenómeno deriva em larga medida das intervenções de requalificação urbana, o que leva (Fainstein & Judd, 1999, pp. 12-3) a denunciarem um estranho paradoxo: "enquanto o apelo do turismo é a oportunidade de ver algo diferente, as cidades que se estão a refazer para atrair turistas parecem cada vez mais iguais". Assim, a construção da “bolha turística urbana”, inserindo-se dentro das estratégias de revitalização das cidades (Bosley, 2009, p. 17), é comparável a um parque temático (Judd, 1999, p. 39), numa “higienização” do ambiente urbano, oferecendo excitação, espetáculo, estimulação e, ao mesmo tempo, segurança e familiaridade (Tyler & Guerrier, 1998, citados por Bosley, 2009, p. 18).
Assim, as cidades tornaram-se locais de entretenimento (Davis, 1999), a par de um processo de uniformização cultural, com redução da “capacidade de criar singularidade” (Richards & Wilson, 2006, p. 1210) de acordo com as teses de ‘placelessness’ (Relph, 1976), ‘não-lugares’ (Augé, 1995), homogeneização (Ritzer, 1996) e de McDisneyfication (Ritzer & Liska, 1997), que é "o antónimo pós-moderno de sentido de lugar" (Lew, Hall, & Timothy, 2008, p. 20). Por sua vez, Law (1993, p. 170) utilizou a designação ‘cidades clones’ na referência à replicação de fórmulas de desenho urbano, em contraponto com o desenvolvimento de algo distintivo ou especializado, baseado no lugar, na sua história ou num determinado tema local.
Já o património é muitas vezes apontado como um elemento chave na promoção da singularidade de uma cidade (Chang et al., 1996, p. 295; Urry, 1990, p. 118). Gospodini (2001, p. 928) defende justamente que as zonas históricas são atraentes para os turistas, em primeiro lugar, porque respondem à nostalgia individual e se constituem como uma contraestrutura face ao design globalizado, à efemeridade de modas, produtos, valores, etc.; e à aceleração da história que caracteriza a idade pós-moderna. Em segundo lugar, de acordo
com a autora, as zonas históricas refletem diferenças distintivas das cidades e conferem-lhes autenticidade em termos de história, cultura, sociedade e sobretudo pela morfologia do espaço urbano.
Gaspar (2005, p. 296) confirma esta nostalgia: “os novos urbanitas, sonhando com o passado, têm nas cidades valor simbólico, locais de encontro de grupos “que ‘saem’ da rede para exercer os seus rituais”, voltando aos “espaços assinalados das downtowns, renovados e privatizados, aos parques temáticos exurbanos ou, ainda, às cidades-históricas, preservadas, para turistas nostálgicos”. Mas, pessimista, o autor (idem, ibidem, p. 297) questiona: “na realidade, a globalização é isto: o mesmo para todos, mas consoante as suas posses e capacidades – de Chicago a Bombaim, de Orlando a Lisboa?”.
2.4. As atrações como elemento central do destino urbano