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Dimensões estruturais relacionadas ao funcionamento das redes

Proposição 1 (P.1): Diferentes variáveis contingenciais que atingem as empresas

2.1.6 Dimensões estruturais relacionadas ao funcionamento das redes

As dimensões contingenciais são as forças motivadoras na formação das redes, porém elas funcionarão na prática pela existência de dimensões estruturais viabilizadoras. Castells (1999) argumenta que o desempenho de uma determinada rede dependerá de dois de seus atributos fundamentais: a conectividade, ou seja, a capacidade estrutural de facilitar a comunicação sem ruídos entre seus componentes, e a coerência, isto é, a medida em que há interesses compartilhados entre os objetivos da rede e de seus atores. Por outro lado, Grandori e Soda (1995) argumentam que a governança interna é fundamental e será proporcionada pela existência de mecanismos de coordenação que indicam as regras de funcionamento e os pressupostos éticos a serem observados pelos membros.

Quadro 3. Dimensões estruturais relacionadas ao funcionamento das redes

Dimensões

estruturais Relação com as redes interorganizacionais Conectividade Capacidade de comunicação entre os atores da rede.

Coerência Existência de interesses comuns a serem compartilhados.

Mecanismos de

coordenação Regras de funcionamento e procedimentos a serem observadas pelos membros.

Cada um dos itens do Quadro 3 será aprofundado no estudo empírico, pois eles poderão fornecer elementos de análise para a compreensão do funcionamento e da performance das empresas em um contexto em rede.

2.1.6.1 Conectividade

A conectividade representa a intensidade e a freqüência da interação entre indivíduos, grupos e organizações (Hage e Hollingsworth, 2000). Ela poderá ser possibilitada tanto pelos recursos de comunicação (aparatos tecnológicos ou mecânicos que transmitem, armazenam e processam dados) quanto pelo contato face a face. Atualmente, os recursos de informação apresentam um papel relevante para a conectividade entre os atores em uma rede. Para Caglio (1998), como conseqüência do potencial de uso dos recursos de TIC, o fluxo de informação tem-se tornado hoje a principal variável explicativa do processo que leva à formação e ao funcionamento de redes interorganizacionais.

As TIC exercem dois papéis fundamentais nas redes interorganizacionais. O primeiro é proporcionar uma infra-estrutura capaz de suportar o considerável aumento do fluxo informacional interorganizacional. Nesse sentido, Child (1987) ressalta que os sistemas baseados em TIC têm a capacidade de manejar a informação codificada15 e difundi-la, atravessando os limites espaço-temporais. O segundo é funcionar como mecanismo de coordenação entre os atores de uma rede. De acordo com Miles e Snow (1986), para que as redes possam funcionar adequadamente, é necessário um processo de comunicação eficiente entre os atores.

Como pode ser observado, as redes são facilitadas pelo aumento da capacidade de comunicação e coordenação atualmente disponível pelas TIC (Rockart, 1998). Assim, a sociedade em rede – termo que define esse novo modo de organização social – apóia-se na própria revolução da tecnologia da informação16.

Portanto, as TIC facilitam o fluxo de informação, contribuindo para criar novos links entre os diversos atores que constitui uma rede, oferecendo, assim, a possibilidade de criar novas vantagens nos negócios (Caglio, 1998). Como conseqüência, elas têm ocupado

15 Segundo Child (1987), a codificação da informação refere-se ao equivalente social de estruturação da informação pelos indivíduos. A difusão refere-se à medida do compartilhamento de informação em uma dada população.

16 É preciso entender por revolução da tecnologia de informação a convergência da microeletrônica, da informática e das telecomunicações, entre outras. Todas essas tecnologias têm em comum a possibilidade de lidar com a informação sob diversas formas (Marcon e Moinet, 2000).

um lugar de destaque entre os mecanismos de coordenação empregados nas redes, ganhando reconhecimento na habilidade de integrar fluxo de recursos e atividades de firmas tanto vertical quanto horizontalmente (Child, 1987).

Verifica-se, então, que por meio de TIC as redes podem ser coordenadas mais eficientemente. Nesse sentido, uma das principais conseqüências das “modernas” TIC (como, por exemplo, a internet) foi facilitar a comunicação de informações e conhecimentos entre a empresa e outros atores presentes em seu ambiente institucional. A premissa básica é que as TIC melhoram a disseminação da informação, criam e suportam formas complexas de comunicação e interação, proporcionando condições para a inovação (Powell, 1990).

No entanto, os efeitos de comunicação das TIC devem ser relativizados, pois nem todas as redes interorganizacionais estão preparadas (em seus recursos humanos e físicos) para potencializar todos esses recursos. Da mesma forma, parte considerável dos conhecimentos presentes em uma rede são tácitos, o que dificulta um suporte total pelos recursos das TIC.

Nohria e Eccles (1992) chamam a atenção para a “falácia” de se acreditar que a comunicação mediada eletronicamente suportará toda a necessidade de interação ou substituir a comunicação face a face junto às redes. Rosenfeld (1997, p. 6) também salienta que as TIC dificilmente substituirão o contato face a face nas redes interorganizacionais, acrescentando que:

(...) muitas evidências sugerem que o intercâmbio eletrônico de informações não vai substituir a importância da comunicação pessoal (...) confiança que é um dos principais elementos dentro de uma rede de cooperação é estabelecida por meio de formas informais de negócios e interação social e não por meio de recursos tecnológicos, como, por exemplo, a videoconferência.

Para existir alta conectividade, Hage e Hollingsworth (2000) ressaltam que deverá ocorrer uma freqüente e intensa comunicação face a face entre os vários atores de uma rede interorganizacional. Quanto mais freqüente e intensa for essa comunicação, maior será a quantidade de conhecimento tácito comunicado. Talvez seja essa uma das explicações do sucesso dos distritos industriais do norte da Itália, pois, conforme Brown e Hendry (1998), existe uma densa circulação de pessoas entre as firmas da rede, o que fomenta a troca direta de conhecimentos.

Para ampliar o debate, Symon (2000) destaca que existem algumas afirmações quanto às TIC, tidas como verdadeiras, que devem ser relativizadas e problematizadas:

a) A primeira reflete o mito de que toda informação necessária para determinada demanda poderá ser transmitida eletronicamente. Acredita-se que, com o uso de TIC, qualquer informação poderá ser transmitida mais rapidamente e para uma ampla audiência. Contudo, existem duas questões subjacentes a essa idéia que devem ser consideradas: primeiro, caso toda informação pudesse ser transmitida, existiria a sensação de sobrecarga de informação entre os trabalhadores; segundo, as TIC não poderão transmitir toda a informação requerida para determinada situação, pois existem alguns elementos tácitos de informação, como as habilidades e as experiências pessoais, que podem apresentar dificuldades de serem comunicados através delas. Mesmo com a alta qualidade multimídia das novas tecnologias, elas não conseguem replicar o processo face a face da comunicação, conforme pesquisa de Whittaker e O’Conaill (1997).

b) A segunda refere-se à própria disposição das pessoas para usar formas eletrônicas de comunicação. Uma rede organizacional não pode ser suportada por meio de TIC, a menos que uma substancial proporção de atores e indivíduos esteja disposta a usar o sistema. A mera existência de TIC não leva ao seu uso efetivo.

c) A terceira é o argumento de que o aumento dos links de comunicação eletrônica em uma rede possa superar as barreiras de comunicação e participação dos atores. Ciborra e Patriotta (1996) enfatizam que as TIC não podem criar per se um maior ambiente de participação democrático e sugerem que a emergência de padrões de comunicação depende muito mais da pré-existência de condições culturais e contextuais facilitadoras. Zack e McKenney (1995) concluem que a potencialidade das TIC para o suporte de redes organizacionais, especialmente para o aumento de comunicação e participação, está limitado pelos contextos organizacional e social.

Para Nohria e Eccles (1992), a interação eletrônica difere da interação face a face, sobretudo em três dimensões-chave:

a) Identidade – refere-se à imagem mental que é criada em relação às outras

pessoas. Essas imagens são baseadas em critérios e categorias utilizados para entender as pessoas, como forte ou fraco, passivo ou agressivo, conservador ou liberal, competente ou incompetente e assim por diante.

b) Incerteza e ambigüidade – grande parte da evidência teórica e empírica sustenta

que a troca de informação mediada eletronicamente é muito menos efetiva que interação face a face em condições de ambigüidade e incerteza. Grande parte da interação face a face depende não só do que é dito, mas também da maneira como ocorre essa interação. Assim, várias formas de linguagem ocorrem simultaneamente, como expressões corporais e faciais, não-presentes na forma de comunicação mediada eletronicamente. Por esse motivo, Nohria e Eccles (1992) argumentam que esse tipo de comunicação pode ser mais adequada para comunicações rotineiras, ao passo que a comunicação face a face é essencial quando envolve questões de incerteza e ambigüidade.

c) Robustez – as redes eletrônicas não são muito robustas pelo fato de serem

altamente suscetíveis ao comportamento oportunista. Mentira, fraude, sabotagem e outras ações anti-sociais são mais difíceis de detectar na comunicação mediada eletronicamente. Então, a comunicação face a face desempenha um papel essencial no estabelecimento e na manutenção de um robusto processo de relacionamento necessário para uma efetiva integração e coordenação em situações de incerteza, ambigüidade e risco.

De acordo com essas dimensões, Nohria e Eccles (1992) constatam que a comunicação mediada eletronicamente poderá substituir a comunicação face a face somente quando a identidade dos atores que estão interagindo não for relevante, as circunstâncias forem certas e não-ambíguas, as ações necessárias forem padronizadas e rotinizadas, enfim, quando a interação continuada não depender de uma estrutura robusta de relacionamentos.

Essa discussão sugere o argumento de Powell (1998), ao salientar que todas as atividades e os esforços realizados para a informação tornar-se mais amplamente difundida transformaram-se em uma faca de dois gumes: os mecanismos informais podem impedir a ampla disseminação da informação e do conhecimento, e os procedimentos formais podem inibir o aprendizado. Assim, o autor sugere a utilização equilibrada dos mecanismos formais e informais no processo informacional, levando-se em conta os aspectos contextuais de tais redes.

O debate estabelecido neste item objetivou salientar que a conectividade em uma rede poderá utilizar-se dos benefícios das TIC, sem desmerecer o papel da interação face a face, sobretudo para a comunicação de conhecimentos tácitos ou desestruturados. Assim, as evidências apresentadas conduzem à seguinte proposição de pesquisa: