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Marcos Normativos da Educação do Campo
A Educação do Campo pode ser entendida como o resultado de um processo social que envolve diferentes agentes que acreditam no direito da população do campo em ter uma educação de qualidade e contextualizada. Desta forma, é resultado da força da sociedade e dos movimentos sociais em exigir que o poder público garanta um direito: o direito à Educação do Campo.
Desta forma, é possível afirmar que a materialização de uma Educação do Cam- po envolve uma construção coletiva que abarca diferentes setores da sociedade, motivo pelo qual também representa um desafio, que é o de construir uma política educacional que reconheça a grande diversidade que é a população rural brasileira. Diante disso, o desafio que envolve os setores sociais e o próprio poder público diz respeito ao reconhecimento da histórica dívida com a população do campo em termos de acesso à educação de qualidade e, consequentemente, reconhecer a necessidade de construção de uma política diferenciada para esse setor.
Isso porque, ao falarmos de Educação do Campo como uma política educacional brasileira, precisamos afirmar que não se trata de uma imposição de um modelo educacional construído e referenciado na dinâmica de vida e de aprendizados da população urbana. Por isso, exige a compreensão da diversidade de sujeitos do campo, da diversidade de realidades e locais de vida no campo, da diversidade de conhecimentos tradicionais que essas populações possuem. Ou seja: exige desde o reconhecimento do espaço social rural e de seus agentes sociais até mesmo ao reconhecimento de que essa diferença exige formas de ensino-aprendizagem di- ferenciadas, estratégias e práticas pedagógicas alternativas e processos formativos específicos para a formação de professores e de materiais didáticos.
Evidenciamos que ao longo da história da educação no Brasil a Educação do Campo foi excluída das políticas públicas. Recentemente, aconteceram algumas mudanças. Hoje, a Educação do Campo não representa apenas o direito ao acesso à educação, mas sim o direito a uma educação diferenciada. Isso tem sido possível através das inúmeras ações dos movimentos sociais e sindicais e por um conjunto de documentos que tem sido elaborado como forma de referenciar as ações que envolvem Educação do Campo no Brasil. Iremos abordar alguns exemplos no quadro 14.
Fonte: Adaptado de Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão do Ministério da Educação (sECAdi, 2012).
A partir do Parecer nº 36 de 2001, onde se realiza estudo do tratamento recebido pela educação do campo nas Constituições Brasileiras foi possível o reconhecimento da diversidade sociocultural e do direito à igualdade e à diferença, bem como a proposição de medidas de adequação da escola à vida no campo.
No Brasil, todas as constituições contemplaram a educação escolar, merecendo especial destaque a abrangência do trata- mento que foi dado ao tema a parti de 1934. Até então, em que pese o Brasil ter sido considerado um país de origem eminen- temente agrária, a educação rural não foi sequer mencionada nos textos constitucionais de 1824 a 1891, evidenciando-se, de um lado, o descaso dos dirigentes com a educação do campo e, de outro, os resquícios de matrizes culturais vinculadas a uma economia agrária apoiada no latifúndio e no trabalho escravo [...] Na verdade, a introdução da educação rural no ordenamento jurídico brasileiro remete às primeiras décadas do século XX, incorporando, no período, o intenso debate que se processava no seio da sociedade a respeito da importância da educação para conter o movimento migratório e elevar a produtividade no campo. (sECAdi, 2012, p. 10-11).
Com isso, o Parecer propõe o tratamento da Educação do Campo como projeto onde as pessoas sejam reconhecidas como sujeitos de direitos com modo de vida e utilização do espaço próprios, reafirmando assim uma identidade para a escola no campo. Desta forma, o Parecer ofereceu subsídios para o desenvolvimento de
propostas pedagógicas de acordo com essa diversidade observada e com o direito à igualdade e à diferença.
A partir disso, foram elaboradas diretrizes operacionais para a educação básica nas escolas do campo pela Resolução CNE/CEB nº1/2002. Essas diretrizes, por sua vez, falam sobre princípios e procedimentos necessários para a universalização do acesso e a permanência da população do campo a todas as etapas da Educação Básica. Além disso, ressaltam a elaboração de propostas pedagógicas específicas e formação inicial e continuada de professores, de acordo com a especificidade do campo.
Na sequência é aprovado o Parecer CNE/CEB nº 1/2006, o qual normatiza o tem- po destinado a atividades comunitárias no regime da Pedagogia da Alternância.
(...)a educação do campo é assunto estratégico para o desen- volvimento sócio-econômico do meio rural e a Pedagogia da Alternância vem se mostrando como a melhor alternativa para a Educação Básica, neste contexto, para os anos finais do Ensino Fundamental, o Ensino Médio e a Educação Profissional Técnica de nível médio, estabelecendo relação expressiva entre as três agências educativas – família, comunidade e escola. (siCAdi, 2012, p. 39).
A partir do parecer em questão, são definidos os dias letivos para a aplicação da Pedagogia da Alternância na rede dos Centros Familiares de Formação por Alter- nância (CEFFA) – Escolas Famílias Agrícolas (EFAs), Casas Familiares Rurais (CFRs) e Escolas Comunitárias Rurais (ECORs). Para tanto, se reconhecem como dias e horas letivos as atividades desenvolvidas fora da sala de aula, mas dentro do Pla- no de Estudo de cada aluno, durante o período da alternância destinado ao meio socioprofissional (família/comunidade).
O Parecer nº 3 de 2008 define orientações para o atendimento da Educação do Campo e estabelece uma discussão conceitual sobre os fundamentos da Educação do Campo. Já a resolução nº 2 do mesmo ano estabelece as diretrizes complementares, normas e princípios para o desenvolvimento de políticas públicas de atendimento da Educação Básica do Campo e define a Educação do Campo como Educação que compreende a Educação Básica em todas as suas etapas: educação infantil, educação fundamental, ensino médio e educação profissional técnica de nível médio inte- grada, com a finalidade de atender às populações do campo considerando as suas mais variadas formas de vida e de produção – agricultores familiares, pescadores, assentados, acampados, quilombolas, indígenas, extrativistas, ribeirinhos e outros. Além disso, as diretrizes da resolução definem que a Educação do Campo de- verá atender, na modalidade de Educação de Jovens e Adultos, aqueles que não concluíram seus estudos em idade própria e também orientam que o atendimento da educação básica do/no campo se de o mais próximo possível à comunidade do aluno, respeitando as características do seu meio e a necessidade de transporte escolar, preferencialmente evitando o processo de nucleação escolar.
O Decreto nº 6.755 de 2009 institui a Política Nacional de Formação de Profissionais do Magistério da Educação Básica, com a finalidade de organizar, em regime de
colaboração entre União, Estados, Distrito Federal e os Municípios, a formação inicial e continuada dos profissionais do magistério para as redes públicas de educação básica. Além disso, disciplina a atuação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES no fomento a programas de formação inicial e continuada. Recentemente, o decreto foi revogado através do Decreto 8.752/2016, que dispõe sobre a Política Nacional de Formação dos Profissionais da Educação Básica, no qual em seu artigo 12, sem muitos detalhes, é feita menção à especifi- cidade da Educação do Campo:
VI - estímulo ao desenvolvimento de projetos pedagógicos que visem a promover desenhos curriculares próprios à formação de profissionais do magistério para atendimento da Educação Profissional e Tecnológica, Educação de Jovens e Adultos, Edu- cação Especial, Educação do Campo, de povos indígenas e de comunidades remanescentes de quilombos. (BrAsil, dECrETo 8.752/2016).
Em 2010, através da resolução nº 4, ocorreu a homologação das diretrizes curri- culares nacionais gerais para a educação básica e a Educação do Campo passou a ser reconhecida como modalidade de ensino. Já através do Decreto 7.352/2010 foi instituída a Política de Educação do Campo e o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária – ProNErA, além de definir os princípios e mecanismos para garantia da manutenção e do desenvolvimento da Educação do Campo nas políti- cas educacionais, entre eles o apoio técnico e financeiro do mEC para a ampliação e qualificação da oferta da Educação Básica e Superior às populações do campo. Apenas em 2012 é encaminhada a lei nº 12695/2012, com o objetivo de possibilitar o apoio técnico e financeiro da União em relação à disponibilização de recursos para instituições que atuam com a Educação do Campo, como forma de viabilizar o Programa Nacional de Educação do Campo - PRONACAMPO.
O ProNACAmPo foi instituído em 2012 e visa disciplinar ações específicas de apoio à Educação do Campo e à educação quilombola, de acordo com reivindicações históricas destas populações pelo direito à educação. O programa representa um conjunto de ações para acesso e permanência na escola, de maneira a permitir o aprendizado e a valorização do universo cultural das populações do campo. É estruturado em quatro eixos: Gestão e Práticas Pedagógicas, Formação Inicial e Continuada de Professores, Educação de Jovens e Adultos e Educação Profissional, Infraestrutura Física e Tecnológica.
Assim, o programa tem por objetivo disponibilizar apoio técnico e financeiro para a implementação da Política de Educação do Campo, visando ampliação do acesso e qualificação da oferta da Educação Básica e Superior, englobando ações de melhoria da infraestrutura das redes públicas de ensino, a formação inicial e continuada de professores e a produção de materiais específicos aos estudantes do campo.
sAiBA mAis:
http://pronacampo.mec.gov.br/
Recentemente, no ano de 2016, foram lançadas quatro importantes portarias que se relacionam com a Educação do Campo. A Portaria nº 391 de 2016 estabele- ce orientações e diretrizes aos órgãos normativos dos sistemas de ensino, para o processo de fechamento das escolas do campo, indígenas e quilombolas. A portaria nº 15 de 2016 estabelece novo prazo para estudo e elaboração de proposta de Po- líticas Públicas que visem ao fortalecimento dos Centros Familiares de Formação por Alternância – CEFFAs.
A portaria nº 16 de 2016 estabelece novo prazo para acompanhamento, su- gestões de aperfeiçoamento e fortalecimento institucional das Licenciaturas em Educação do Campo, de forma a contribuir com a expansão dos cursos e com as metas estabelecidas no Plano Nacional de Educação. Por fim, a Portaria nº 14 de 2016 estabelece novo prazo para a construção de critérios técnicos para: assegurar uma distribuição territorial e espacial das escolas do campo compatíveis com as necessidades da população do campo; propor o aperfeiçoamento pedagógico das escolas do campo; e melhorar a articulação entre Ensino Superior e a Educação Básica, por meio do desenvolvimento de um programa de residência docente nas escolas do campo.
Cabe salientar que o reconhecimento e garantia da educação como direito de todo e qualquer cidadão é bastante recente, pois foi somente reconhecido a partir da Constituição de 1988. Ainda assim, muitas vezes o direito está somente no papel e não nas ações práticas. Além disso, apesar desses inúmeros avanços demonstra- dos, ou seja, apesar das leis apresentadas, sabemos que o descaso com as escolas do campo ainda é muito persistente no Brasil. Há descaso porque há ausência de estrutura pedagógica e física, há professores sem formação suficiente, há insufici- ência de políticas públicas, há fechamento de escolas acontecendo e agora também há um processo de redução de investimentos público em educação.
Questões atuais para a Educação do Campo
Recentemente, três questões polêmicas no âmbito educativo passaram a fazer parte da agenda governamental: a reforma do ensino médio, o projeto Escola Sem Partido e o congelamento de investimentos públicos. Muito provavelmente você já ouviu falar nessas polêmicas.
Essas questões remetem a desestruturação de um longo trabalho de construção e modificações do Plano Nacional de Educação – PNE, devido a interesses econô- micos. Antes, estava prevista uma mudança para permitir a destinação de 75 % dos royalties do pré-sal para a educação. No entanto, com a aprovação da PEC 55, agora Emenda Constitucional 95, a previsão de investimentos foi descartada. No atual momento em que vivemos, de desmanche das políticas públicas, são muitos os desafios que se colocam para a Educação do Campo. E com a aprovação da PEC 55, que prevê o congelamento dos gastos públicos nas áreas de saúde e educação por um período de 20 anos, a situação se agrava ainda mais.
Imagine como seria a Educação do Campo de hoje, se há 20 anos atrás, os in- vestimentos públicos em educação tivessem sido congelados. Será que existiria alguma experiência de Educação do Campo no âmbito público? Será que existiriam cursos de Educação do Campo nas universidades públicas brasileiras? E os cursos
de pós-graduação vinculados ao Residência Agrária? É possível perceber uma fra- gilidade da educação brasileira frente à ameaça conservadora que vem crescendo em nosso país, que sofrerá os impactos do congelamento de investimentos no setor da educação.
Como fica a Educação do Campo nesse contexto? Inicialmente já se sabe da ocorrência de cortes no orçamento do Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (ProNErA), o que infelizmente nos leva a acreditar na grande possibilidade de aumento da precarização das escolas do campo e no fechamento de diversos cursos, como as especializações do Residência Agrária.
Além disso, a Medida Provisória 746, da Reforma do Ensino Médio, faz exigências que ferem o direito fundamental à formação humana integral, que impossibilitam a compreensão do mundo do trabalho e suas contradições, além de desrespeitar a diversidade e a pluralidade. A medida aumenta a carga horária e muda o currículo de forma a não ser compatível com os preceitos da Educação do Campo, além de restringir as áreas de conhecimento fundamentais para uma formação humana integral. Além disso, a Educação do Campo rejeita os conceitos de formação apenas por competência e por habilidades, por serem muito limitadores frente a grande complexidade de questões envoltas nos processos de aprendizagem e de formação.
A concepção de formação por área, presente na Educação do Campo, prevê um Núcleo Básico de conhecimentos nas áreas de Ciências Humanas e Sociais, Ciências da Natureza e de diversas linguagens humanas, como por exemplo a Arte. Esse Núcleo Básico é entendido como condição essencial para a formação básica e integral. Indo contra essa ideia, a reforma do ensino médio desrespeita a concepção da Educação do Campo.
É por isso que as escolas do campo não podem dar conta de atender as exigên- cias da Reforma do Ensino Médio, porque as novas medidas vão contra a própria forma de ser da Educação do Campo e contra os seus objetivos. Podemos inclusive afirmar que a reforma carrega concepções urbanas de educação, o que reflete uma contradição que já abordamos nas outras unidades: uma educação para o meio rural pensada a partir de olhares urbanos. Pelo que já estudamos, sabemos que esse não é o melhor caminho para a população do campo.
Diante disso, sabemos que as novas medidas previstas com essa reforma po- derão vir a contribuir com o fechamento de escolas do campo porque, além das condições precárias que essas escolas já enfrentam devido à falta de investimentos públicos, agora irão se deparar com um conjunto de exigências que contradizem os preceitos da Educação do Campo.
É com isso que afirmamos que a Educação do Campo possui muitos desafios pela frente e que a mudança do cenário atual em relação à educação é fundamental. Sabemos que com garantia de investimentos públicos podemos avançar muito, pois atualmente a Educação do Campo – em suas mais variadas modalidades - possui inúmeras experiências consolidadas e com ótimos resultados que poderão servir de exemplo para futuras e novas experiências no Brasil. Por isso chamamos a atenção: o caminho para avanços na Educação do Campo passa pela garantia de investimentos públicos e não pelo corte de, por isso demanda que os profissionais da área estudem, debatam, elaborem sobre a Educação do Campo, se organizando para defender as experiências em voga. Educação do Campo é direito!