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CAPÍTULO 1. O VALOR SOCIAL E O PRIMADO DO TRABALHO

1.4. Meio ambiente e trabalho

1.4.2. Direito ambiental do trabalho

Compreendendo o trabalho como parte do meio ambiente, segundo o art. 200, VIII, da Constituição Federal, inserindo-se no âmbito do chamado meio ambiente artificial, então às questões referentes à saúde do trabalhador, em face das condições ambientais em que exerce sua atividade, estão sujeitas à aplicação da normativa, princípios e regras do Direito Ambiental.

78

MACHADO, Paulo Affonso Leme. Direito Ambiental brasileiro. 12. ed. São Paulo: Malheiros, 2004, p. 47.

Na verdade, entre os estudiosos da saúde e da segurança do trabalho, vem surgindo o entendimento acerca da existência de um ramo autônomo: o Direito Ambiental do Trabalho, com princípios e disciplina própria.

O objeto de estudo do novo Direito Ambiental do trabalho é o meio ambiente do trabalho que lida com o direito difuso fundamental inerente às normas sanitárias e de saúde do trabalhador e em que se busca sua qualidade de vida e o seu bem-estar, não apenas pelo aspecto físico, mas também sua sanidade mental79.

A Convenção n. 155 da OIT relaciona meio ambiente do trabalho com "instalação, arranjo, utilização e manutenção dos componentes materiais do trabalho (locais de trabalho, meio ambiente de trabalho, ferramentas, maquinário e equipamento; substâncias e agentes químicos, biológicos e físicos; operações e processos)" (art. 5, "a") e com as "relações existentes entre os componentes materiais do trabalho e as pessoas que o executam ou supervisionam, e adaptação do maquinário, dos equipamentos, do tempo de trabalho, da organização do trabalho e das operações e processos às capacidades físicas e mentais dos trabalhadores" (art. 5, "b").

Evanna Soares80 entende que o ambiente de trabalho não está restrito ao interior das fábricas:

deve abranger tudo que se refira ao habitat laboral, mormente o local de trabalho (aberto ou fechado, interno ou externo) e adjacências que nele interfiram, bem como as práticas e métodos de trabalho, a edição, cumprimento e fiscalização das normas de saúde, segurança e higiene do trabalho, a implementação de medidas preventivas de doenças e acidentes do trabalho, a conscientização ou educação de trabalhadores e empresários sobre a necessidade de zelar pelo meio ambiente laboral adequado, a adoção de equipamentos de proteção coletiva e individual dos trabalhadores, a rejeição de máquinas e equipamentos que ponham em risco a saúde e a vida dos trabalhadores, a abolição de contato direto do trabalhador com substâncias nocivas à saúde, entre outros.

79

MINARDI, Fabio Freitas. Direito Ambiental do Trabalho: fundamentos e princípios. Revista eletrônica do Tribunal Regional do Trabalho do Paraná. Curitiba, n. 23, v. 2, out. 2013, pp. 182-183. Disponível em: <https://juslaboris.tst.jus.br/bitstream/handle/1939/95518/2013_minardi_fabio_direito_ambiental.pdf?sequ ence=1>. Acesso em: 17 out. 2018.

80

SOARES, Evanna. Educação ambiental no trabalho. Revista do Ministério Público do Trabalho. Brasília, a. XV, n. 30, set. 2005, p. 12.

O meio ambiente de trabalho alcança, portanto, o ambiente físico e o maquinário, ferramentas, equipamentos e substâncias manuseadas, como também a interação do empregado com tais componentes, com o tempo, a organização do trabalho e das operações considerando sua capacidade física e mental. Ou seja, o meio ambiente de trabalho compreende toda a organização de trabalho, isto é, os fatores de produção, os fatores humanos e as condições de trabalho.

O núcleo da proteção do Direito Ambiental do trabalho é o trabalho humano, erigido a partir da dignidade da pessoa humana81.

Por se desenvolver a partir do Direito ambiental, os princípios do Direito Ambiental têm especial aplicação ao Direito Ambiental do Trabalho.

O princípio do desenvolvimento sustentável busca a coexistência harmônica entre economia e meio ambiente82. No âmbito laboral, o desenvolvimento da atividade econômica produtiva deve observar a sustentabilidade e a salubridade do ambiente de trabalho, respeitando a condição humana e os direitos da personalidade do trabalhador afetos a sua integridade física, psíquica, moral, intelectual e social83. Incide, no particular, o art. 7º, XXII, da Constituição que coíbe degradações ambientais no trabalho84.

O princípio poluidor-pagador consiste em tornar mais caro o custo para o poluidor a fim de que ele doravante adote medidas preventivas no momento adequado85. Poluidor, segundo o art. 3º, IV, da Lei n. 6.938/1981, é a pessoa física ou jurídica responsável direta ou indiretamente pela atividade causadora de degradação ambiental prejudicando a saúde, a segurança e o bem-estar da população, criando condições

81

MINARDI, Op. cit., p. 183.

82

FIORILLO, Celso Antonio Pacheco. Curso de direito ambiental brasileiro. 8. ed. São Paulo: Saraiva, 2007, p. 29.

83

ALVARENGA, Rúbia Zanotelli de. Meio ambiente do trabalho saudável e equilibrado: proteção à saúde do trabalhador. Revista eletrônica do Tribunal Regional do Trabalho do Paraná. Curitiba, n. 23, v. 2, out. 2013, p. 49.

84

ANDRADE, Laura Martins Maia de. Meio ambiente do trabalho e ação civil pública trabalhista. São Paulo: Juarez de Oliveira, 2003, p. 109

85

MELO, Raimundo Simão de. Direito ambiental do trabalho e a saúde do trabalhador. 5. ed. São Paulo: LTr, 2013, p. 52.

adversas às atividades sociais e econômicas, afetando desfavoravelmente o bioma, alterando as condições estéticas ou sanitárias do meio ambiente e lançando matérias ou energia em desacordo com os padrões ambientais estabelecidos.

Nessa ótica, a responsabilidade civil do poluidor é de caráter objetivo, sem necessidade de comprovação da culpa ou dolo. Esse princípio poluidor-pagador também é aplicável à lesão à saúde e ao meio ambiente de trabalho, em face dos arts. 225, § 3º, da Constituição e, 14, § 1º, da Lei n. 6.938/198186 e 927 do Código Civil e 2º, § 2º, da CLT87.

O princípio da prevenção e da precaução decorre do dever de defender e de preservar o meio ambiente (art. 225 da Constituição), sendo a prevenção a base sustentadora do direito ambiental e seu objetivo fundamental88. No campo laboral, a prevenção ganha espaço para as aplicações de medidas e de normas de redução aos riscos ambientais. A precaução, quando há incerteza dos riscos de certas atividades, exige medidas acautelatórias que devem ser tomadas ou minimizadas89.

O princípio da participação estabelece uma solidariedade entre Poder Público, coletividade e pessoas jurídicas e físicas na defesa e na preservação do meio ambiente. Decorre desse princípio a necessidade de promoção de uma educação ambiental. Na seara laboral, Estado, empregados, empregadores e sindicatos são chamados a participarem e se envolverem na proteção ambiental do trabalho.

Decorre do princípio da ubiquidade, que traduz uma ideia de onipresença, a exigência de que a proteção e a preservação ambiental devem ser conhecidas e praticadas por todos os atores sociais. Todos devem combater as causas e não apenas os sintomas. No meio ambiente do trabalho, a ubiquidade alcança a proteção da

86

ALVARENGA, Op. cit., p. 53.

87

MINARDI, Op. cit., p. 187.

88

FIORILLO, Op. cit., p. 42.

89

integridade psicofísica do trabalhador90, isto é, física, mental e social, de modo a eliminar a degradação ambiental causadoras de acidentes e doenças ocupacionais91.