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2.3 As declarações internacionais de direitos e a proteção ao trabalho

2.3.2 Direito ao trabalho decente e suas dimensões

Diante dos novos desafios que se apresentaram no cenário das relações laborais por efeito da economia globalizada, a OIT, ciente de sua função de referência internacional para os assuntos ligados ao trabalho, adotou combativo posicionamento em face das iniquidades sociais produzidas. Assim, ações concretas para a proteção de direitos humanos dos trabalhadores foram lançadas. Confirmando o reordenamento estratégico da organização em torno das questões suscitadas, a OIT dissemina, como tema central da 87.ª reunião da Conferência Internacional do Trabalho, realizada em Genebra em 1999, o trabalho decente. Juan Somavía148, Diretor Geral da OIT de então, afirma que o ―trabalho decente é uma reivindicação mundial com a qual estão confrontados os dirigentes políticos e empresários de todo o mundo. Nosso futuro comum depende em grande parte de como será enfrentado esse desafio‖.

A expressão ‗trabalho decente‘, ou ‗trabalho digno‘, como conceito doutrinário, conjuga diversos elementos necessários a reunir seus múltiplos qualificativos. Trata-se de conceito multidimensional, destinado à proteção efetiva de direitos humanos dos trabalhadores, conforme se demonstrará. Para Ericson Crivelli149, a definição de trabalho decente revela-se singular, representando conteúdo normativo que porta um conjunto de conceitos e princípios jurídicos articulados.

De acordo com publicações recentes, divulgadas pela OIT150:

Trabalho decente é um trabalho produtivo e adequadamente remunerado, exercido em condições de liberdade, equidade e segurança, e que garanta uma vida digna a todas as pessoas que vivem do trabalho e a suas famílias. Permite satisfazer às necessidades pessoais e familiares de alimentação, educação, moradia, saúde e segurança. Também pode ser entendido como emprego de qualidade, seguro e saudável, que respeite os

148 OIT. Memoria del Director General - Trabajo decente. Disponível em:

http://www.ilo.org/public/spanish/standards/relm/ilc/ilc87/rep-i.htm. Acesso em: 07 nov. 2013. Tradução nossa de: El trabajo decente es una reivindicación mundial con la que están confrontados los dirigentes

políticos y de empresa de todo el mundo. Nuestro futuro común depende en gran parte de cómo hagamos frente a ese desafío.

149 CRIVELLI, Ericson. A OIT e o futuro das normas internacionais do trabalho na era da globalização.

Tese (Doutorado em Direito Internacional) - Faculdade de Direito, Universidade de São Paulo, 2004, p. 193.

150 OIT. Emprego, desenvolvimento humano e trabalho decente: a experiência brasileira recente. Brasília:

direitos fundamentais do trabalho, garanta proteção social quando não pode ser exercido (desemprego, doença, acidentes, entre outros) e assegure uma renda para a aposentadoria. Por seu caráter multidimensional, também engloba o direito à representação e à participação no diálogo social. Em todos os lugares, e para todas as pessoas, o trabalho decente diz respeito à dignidade humana. Este conceito está embasado em quatro pilares: a) respeito às normas internacionais do trabalho, em especial aos princípios e direitos fundamentais do trabalho (liberdade sindical e reconhecimento efetivo do direito de negociação coletiva; eliminação de todas as formas de trabalho forçado; abolição efetiva do trabalho infantil e eliminação de todas as formas de discriminação); b) promoção do emprego de qualidade; c) extensão da proteção social; e d) diálogo social. Um elemento central e transversal do conceito de trabalho decente é a igualdade de oportunidades e de tratamento e o combate a todas as formas de discriminação — de gênero, raça/cor, etnia, idade, orientação sexual, contra pessoas com deficiência, vivendo com HIV e Aids etc.151

Para José Cláudio Monteiro de Brito Filho152, trabalho decente representa o ―conjunto mínimo de direitos do trabalhador‖, correspondendo ―à existência de trabalho; à liberdade de trabalho; à igualdade no trabalho; ao trabalho com condições justas, incluindo a remuneração, e que preservem sua saúde e segurança; à proibição do trabalho infantil; à liberdade sindical; e à proteção contra os riscos sociais‖. Para o referido autor153 ―Negar o trabalho nessas condições, dessa feita, é negar os direitos humanos do trabalhador e, portanto, atuar em oposição aos princípios básicos que os regem, principalmente o maior deles, a dignidade da pessoa humana‖.

Ericson Crivelli154 apresenta o trabalho decente como uma ―idéia-chave‖, a qual deve articular, a um só tempo, ―a noção de direito ao trabalho, a proteção de direitos básicos, a equidade no trabalho, segurança social, uma representação de interesses dos trabalhadores e, ainda, que o trabalho esteja envolto num meio ambiente social e político adequado à noção de liberdade e dignidade humana‖.

Juan Somavía155 qualifica o trabalho decente como aquele realizado em condições de liberdade, equidade, segurança e dignidade humana ou, ainda, aquele trabalho produtivo no qual são respeitados os direitos laborais, com a possibilidade de participação nas decisões que afetam os trabalhadores.

151

Grifo nosso.

152

BRITO FILHO, José Cláudio Monteiro de. Trabalho decente. São Paulo: Ltr, 2004, p. 61.

153 BRITO FILHO, José Cláudio Monteiro de. Trabalho decente. São Paulo: Ltr, 2004, p. 62.

154 CRIVELLI, Ericson. A OIT e o futuro das normas internacionais do trabalho na era da globalização.

Tese (Doutorado em Direito Internacional) - Faculdade de Direito, Universidade de São Paulo, 2004, p. 194.

155 SOMAVÍA, Juan. Reducir el déficit de trabajo decente: un desafío global. Disponível em:

Essencialmente, a definição de trabalho decente está relacionada com a afirmação da dignidade humana do trabalhador. Nesse sentido, relevante destacar que o conceito de trabalho decente, seus requisitos e mandamentos aplicam-se a toda e qualquer forma de trabalho, em benefício de todo tipo de trabalhador, não apenas o empregado típico.

Destarte, forçoso constatar que, para a configuração do nominado trabalho decente, quatro distintas dimensões, pertinentes a diferentes enfoques de valorização e tutela, precisam estar obrigatoriamente conjugadas, a saber: a) a proteção e aplicação dos princípios e direitos fundamentais no trabalho e normas internacionais do trabalho; b) a geração de oportunidades de trabalho, emprego e renda; c) a proteção e a segurança social; e d) o diálogo social e o diálogo tripartite.

Das quatro dimensões citadas, as quais conformam o trabalho decente, o tópico dos princípios e direitos fundamentais no trabalho foi tratado em item anterior. No tocante à geração de oportunidades adequadas de trabalho, emprego e renda como instrumento de afirmação do trabalho decente, é imperioso ressaltar a necessidade da criação de ocupações laborais de qualidade para homens e mulheres. Explicita, conforme se denota, o direito fundamental ao trabalho, de acesso à atividade laboral, sem o qual não há que se falar em outros preceptivos e garantias juslaborais.

Para o conceito de trabalho decente, o objetivo da geração de empregos é dos mais importantes, pois se trata do meio essencial para evitar a pobreza e para permitir a aplicação dos demais direitos inerentes à proteção do trabalho humano. A incorporação das pessoas às atividades produtivas permite, efetivamente, a criação de riqueza e o desenvolvimento social. Importante destacar que não se trata, apenas, de garantir ocupação produtiva e sua manutenção. É fundamental o acesso a condições dignas de trabalho.

A dimensão da proteção social, como postulado exigido para a constituição do trabalho decente, manifesta-se por meio de sistemas de seguros sociais que dêem suporte a eventualidades como desemprego, doença, velhice, além da adoção de políticas dirigidas à capacitação profissional e à proteção em face da flutuação do emprego no mercado de trabalho. Relaciona-se com o atendimento das necessidades humanas, elidindo a exclusão social, notadamente em momentos de crise.

O diálogo social e o diálogo tripartite constituem outro vetor do trabalho decente. Trata-se de dimensão estratégica fundamental para o fortalecimento dos demais aspectos da configuração do trabalho decente. Nesse sentido, colocam-se a proteção e o respeito à

liberdade sindical e de associação dos trabalhadores, além da promoção das negociações coletivas. A organização e a união dos trabalhadores para a defesa de seus interesses revelam-se elementos fundamentais, fora de dúvida.

O trabalho decente é objetivo a ser perseguido com obstinação. Para o doutrinador José Cláudio Monteiro de Brito Filho156, o conceito de trabalho decente apenas se materializa com a plena afirmação de todas as suas dimensões, concomitantemente. Assim:

Não há trabalho decente sem condições adequadas à preservação da vida e da saúde do trabalhador. Não há trabalho decente sem justas condições para o trabalho, principalmente no que toca às horas de trabalho e aos períodos de repouso. Não há trabalho decente sem justa remuneração pelo esforço despendido. Não há trabalho decente se o Estado não toma todas as medidas necessárias para a criação e para a manutenção dos postos de trabalho. Não há, por fim, trabalho decente se o trabalhador não está protegido dos riscos sociais, parte deles originada do próprio trabalho humano.

Segundo o pensamento de José Cláudio Monteiro de Brito Filho157, o trabalho decente, ademais, deve ser assegurado em três planos distintos, quais sejam, o individual, o coletivo e o da seguridade. No plano individual, para a conformação do trabalho decente se mostra imprescindível assegurar: a) direito ao trabalho; b) liberdade de escolha do trabalho; c) igualdade de oportunidades para e no exercício do trabalho; d) direito de exercer o trabalho em condições que preservem a saúde do trabalhador; e) direito a uma remuneração justa; f) direito a justas condições de trabalho, mormente quanto à limitação da jornada de trabalho e preservação de períodos de descanso e g) proibição de trabalho infantil. No plano coletivo, o autor aponta a necessidade de garantir a plena liberdade sindical, com a união dos trabalhadores para a defesa de seus interesses. Por fim, no plano da seguridade, preconiza a proteção contra o desemprego e outros riscos sociais, pois a força de trabalho é o patrimônio essencial do trabalhador.