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Interseção entre os direitos fundamentais no trabalho e o conteúdo jurídico

A compreensão dos dispositivos e do alcance da Convenção nº 94 e da Recomendação nº 84 da OIT possibilita avançar no estudo das cláusulas trabalhistas nos contratos públicos, em direção à proposta idealizada no estudo vertente, a saber, a juridicidade de sua utilização para a afirmação dos direitos fundamentais no trabalho.

A Convenção nº 94 e a Recomendação nº 84 da OIT representam, efetivamente, o reconhecimento internacional da adoção das cláusulas trabalhistas nos contratos públicos enquanto instrumentos jurídicos válidos e necessários para assegurar aos trabalhadores envolvidos na contratação pública, remuneração, jornada de trabalho, proteção à saúde, segurança e outras condições de trabalho que não sejam menos favoráveis do que as instituídas para atividades profissionais da mesma natureza, no mesmo setor econômico, na mesma região.

Do mesmo modo, as normas internacionais em análise expõem o indispensável papel ativo dos governos como agentes essenciais na afirmação dos direitos sociais. Definitivamente, não parece aceitável que recursos públicos financiem a violação de direitos trabalhistas, ou que autoridades administrativas autorizem atividades de particulares que desprezem a proteção dos trabalhadores.

O processo de construção e de lutas pelo respeito aos direitos fundamentais no trabalho têm, nas declarações internacionais, seu registro. A tutela efetiva de tão valiosos bens jurídicos, entretanto, demanda a conjugação de instrumentos verdadeiramente categóricos. Em referido direcionamento, a profícua interseção entre os direitos fundamentais no trabalho e o conteúdo jurídico da Convenção nº 94 da OIT.

Embora estejam distantes no tempo por um significativo interregno de quase cinco décadas, há inegável consonância entre as propostas contidas na Convenção nº 94 da OIT (1949) e na Declaração sobre Princípios e Direitos Fundamentais no Trabalho (1998).

A exigência do cumprimento das normas de proteção ao trabalho por meio dos instrumentos formuladores das contratações públicas representa, na vertente da realização dos direitos fundamentais no trabalho, elemento basal para o desenvolvimento do arcabouço de proteção e promoção plena do trabalho produtivo e apropriadamente remunerado, executado em condições de liberdade, equidade e segurança, sem discriminação e apto para assegurar uma vida digna aos indivíduos que dele dependam.

Em um cenário global de crescente complexidade, em que os desafios para implementação de direitos mostram-se cada vez mais expressivos, há inegável coerência na inserção dos critérios sociais nos contratos públicos. A própria OIT reconhece que ―a Declaração de 1998 e Convenção nº 94 caminham em direções paralelas e certamente partilham objetivos comuns‖.230

A proposta evidencia rara conjugação em que elementos econômicos e sociais se reforçam mutuamente. Assim, apresenta sua autêntica vocação de contribuir de modo decisivo para aperfeiçoar significativamente o quadro de efetivação dos direitos sociais, os quais passam a sofrer inaceitável diminuição de importância num panorama em que as forças da economia de mercado buscam impor, a todo custo, a desregulamentação, a flexibilização e a precarização da tutela do trabalho.

A cláusula trabalhista nos contratos públicos, focada na correção das práticas laborais na execução do objeto da contratação pública, ao enaltecer o respeito aos direitos fundamentais no trabalho, fora de dúvida, torna-se instrumento precioso para a concretização da proteção da dignidade do trabalhador.

Portanto, para além do conteúdo básico previsto na Convenção nº 94 da OIT, é essencial que o instituto jurídico da cláusula trabalhista nos contratos públicos contemple e

230 ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO. Labour clauses in public contracts. Genebra:

assegure a afirmação dos direitos fundamentais no trabalho em sua completude.231

3.4.1 Mecanismo de complementaridade e efetivação da Declaração de Princípios e Direitos Fundamentais no Trabalho da OIT

A definição de um conjunto de padrões mínimos de proteção ao trabalho no âmbito global corresponde à necessária valorização do trabalho humano enquanto referência fundamental da sociedade contemporânea. Ao sistema jurídico, político, econômico e social compete sua plena efetivação. As normas internacionais de proteção ao trabalho, para atingirem níveis significativos de realização, exigem a ativação de mecanismos complementares de efetivação, os quais intensifiquem e fortaleçam a atuação da OIT. Como já se destacou, a densidade normativa dos direitos fundamentais no trabalho, assim como o sistema de aplicação e inspeção das convenções vigentes, são fatores de comprometimento de sua materialização.

Privados de certeza jurídica, os direitos fundamentais no trabalho não atingem suas imprescindíveis finalidades. Consoante se percebe, o robustecimento de institutos jurídicos habilitados a exercer influência determinante sobre os comportamentos em sociedade, notadamente no que respeita à atuação das corporações, necessita ser intensificado. É preciso compreender que a Declaração sobre Princípios e Direitos Fundamentais no Trabalho da OIT deve representar, de fato, instrumento jurídico apto a proteger as condições de trabalho digno.

O vertente estudo propõe o fortalecimento da ideia essencial contida na Convenção nº 94 da OIT, relacionada à utilização da força vinculante dos contratos públicos como instrumento de efetivação da proteção das condições laborais dos indivíduos, atualizando seu conteúdo para contemplar a concretização dos direitos fundamentais no trabalho, sem os quais se torna inconcebível a afirmação da tutela da dignidade do trabalhador. Da conjugação dos elementos mencionados emerge, com força inelutável, valoroso instituto jurídico.

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Jean-Claude Javillier, com propriedade, enfatiza: ―No que concerne às relações de trabalho todo o mundo deve estar em condições de obter o máximo benefício político, social e também econômico desse patrimônio normativo da humanidade que constituem os convênios e as recomendações internacionais do trabalho‖. (In: JAVILLIER, Jean-Claude. Pragmatismo e inovação no Direito Internacional do Trabalho. Resumo do artigo publicado em Revista Internacional del Trabajo, vol. 113/94. São Paulo: Revista Synthesis, Tribunal Regional do Trabalho da 2.ª Região, n.º 22/96, p. 16).

Isoladamente, sem a ativação de mecanismos complementares de efetivação, os instrumentos normativos tradicionais mostram-se insuficientes para assegurar a concretização dos preceitos das declarações de direitos destinadas à afirmação da dignidade humana nas relações de trabalho. O instituto jurídico da cláusula trabalhista nos contratos públicos exsurge com diferenciada e contundente abordagem, revestido de sensível capacidade para prestar valiosas contribuições ao fomento e à otimização da aplicação de direitos fundamentais no trabalho.

A cláusula trabalhista nos contratos públicos, ao preconizar a concretização dos direitos fundamentais no trabalho definidos internacionalmente, exige, das corporações, a obrigação jurídica e o comprometimento ético com o respeito à dignidade do trabalhador.

As contratações públicas, ao se apropriarem, em suas cláusulas, dos mandamentos definidores do trabalho em condições dignas como exigência jurídica e ética, passam a desempenhar a função de alicerce essencial para a aplicação prática do Direito Internacional do Trabalho, contribuindo notavelmente para a afirmação dos direitos humanos nas diversas nações.

Da força obrigatória dos contratos, lastreada na aplicação de sanções diretas, concretas e individualizadas aos infratores das obrigações que estipula, decorre sua vocação legítima de servir como instrumento capaz de promover meio realista de intervenção afirmativa destinada à concretização e efetivação dos direitos fundamentais dos trabalhadores, protegendo seu mais valioso bem jurídico: a dignidade. De se notar que a própria intervenção do Poder Judiciário, diante do conteúdo concreto da cláusula trabalhista, torna-se ainda mais legítima e aceitável para assegurar, com maior intensidade e clareza, a efetivação dos direitos fundamentais por meio das contratações públicas.

No âmbito das contratações públicas, as diferentes autoridades governamentais, fazendo uso razoável e proporcional da função interventiva e promocional do Estado na execução de suas finalidades, tornam possível a emergência de um modelo regular de implementação de proteção ao trabalho, induzindo e modelando o comportamento do setor privado. A incorporação de critérios sociais nas licitações públicas valoriza, com plena juridicidade, as organizações que respeitam os direitos fundamentais no trabalho e desestimula a atuação das empresas que se utilizam de trabalho análogo ao de escravo, trabalho infantil, enfim, que desrespeitam a dignidade do trabalhador. A dimensão social da contratação por autoridades públicas deve ser consolidada como instrumento autêntico de efetivação dos direitos fundamentais no trabalho.

3.4.2 Condições essenciais dos trabalhadores e afirmação dos direitos fundamentais no trabalho

O princípio da dignidade humana norteia e vincula toda a produção e aplicação normativa no Estado de Direito232. A concretização da vida digna para todos os cidadãos constitui-se, assim, como obrigação primordial do Poder Público. Como já se sustentou, é por meio do exercício laboral em condições decentes, equânimes, que se torna possível assegurar o respeito pleno ao ser humano.

As dimensões do trabalho decente e seguro e a Declaração dos Direitos e Princípios Fundamentais no Trabalho representam instrumentos de exortação da dignidade humana que, por sua natureza, beneficiam todos os indivíduos. Deveriam, portanto, ser implementadas e concretizadas. Ocorre que, na constatação prática, a exigida efetivação não se faz perceber, como seria de se exigir.

A exploração desregrada do trabalho humano deve ser combatida prontamente pela intervenção estatal, notadamente pela aplicação do Direito enquanto seu instrumento de resistência mais efetivo. Destarte, cabe ao Poder Público assegurar a efetivação plena dos direitos sociais, em especial, dos direitos dos trabalhadores.

Com dimensões e alcance mais amplos dos que os definidos pela Convenção nº 94 e pela Recomendação nº 84 da OIT, a cláusula trabalhista nos contratos públicos apresenta- se como vetor de afirmação da dignidade humana e da melhoria das condições de trabalho, revelando-se como fonte geradora da desejável materialização da proteção ao trabalho humano. Os governos devem ser modelos de implementação da tutela ao trabalho. É essencial que o Poder Público promova, de modo amplo e irrestrito, a adoção das cláusulas trabalhistas em suas contratações, com a força concretizadora a elas inerente.

Os efeitos da conjugação da dimensão social da contratação pública com o conteúdo jurídico das declarações de direitos humanos no trabalho materializam conspícuo arcabouço para a construção e efetivação de novo paradigma orientado para a afirmação dos direitos fundamentais trabalhistas.

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Goffredo da Silva Telles Junior pontifica que "O Estado de Direito é o Estado que se submete ao princípio de que Governos e governantes devem obediência à Constituição‖. (In: TELLES JUNIOR, Goffredo da Silva. Carta aos brasileiros. Disponível em: http://www.goffredotellesjr.adv.br/site/pagina.php?id_pg=30. Acesso em: 10 nov. 2013).

A busca contínua e crescente pela efetividade dos direitos fundamentais no trabalho mostra-se, inquestionavelmente, mandatória para a real afirmação da dignidade humana.