PARTE II – ANÁLISE DE TRAJETÓRIAS
3.4 COMPONENTES DA REGULAÇÃO
3.4.4 Direito de Resposta – correção e respeito
Com origem na França durante o século XIX, o Direito de Resposta é uma extensão do Direito de Imprensa, até então um direito irrestrito, que tinha como meta garantir a livre manifestação nos meios de comunicação impressos de forma independente frente à hostil cen- sura estatal. Entretanto, constatou-se posteriormente que esses veículos poderiam exercer tam- bém um poder social, e que a liberdade de expressão pudesse trazer prejuízo aos bens morais dos indivíduos. Assim, a noção jurídica do Direito de Resposta aparece como um contrapeso institucional para “defender não só a liberdade da imprensa, mas também a liberdade face à imprensa” (MOREIRA, 1994, p. 9)104.
Ballester (1987) ressalta que o Direito de Resposta permaneceu por algum tempo restrito aos meios impressos, sendo considerado como válido para os veículos de radiodifusão somente a partir da década de 1970, quando realmente os meios audiovisuais despontam no cenário das poliarquias. Mesmo assim, levar tal direito para mensagens julgáveis oriundas da televisão, envolve,
ao contrário da imprensa, maior complexidade analítica, pois logicamente não é ape- nas o texto que está em jogo, mas sua interconexão com a imagem e som. Isto na prática se reflete numa maior subjetividade do julgamento, pois formatos típicos do cinema e da televisão precisam ser interpretados no decorrer do julgamento. Entona- ção, ritmo, cenário de ambientação, edição de cortes, transposições de quadros, mon- tagens, escolha de cores, enfim, todo um conjunto de ferramentais próprios da televi- são passam a fazer parte da mensagem (STEIBEL, 2007, p. 56)
Considerando essa reflexão como importante e trazendo-a para o ambiente da radi- odifusão, à luz dos telespectadores e ouvintes, observa-se como os EUA e RU lidam com a noção do direito de resposta e entendem sua prática em seus marcos regulatórios.
Entretanto,
nos sistemas jurídicos fundados na common law[leis que são, em sua maioria, apli- cáveis a todos os negócios], há certa aversão ao direito de resposta. O direito ameri- cano, em sua concepção atual, considera o exercício deste direito incompatível com a primeira emenda e, portanto, inconstitucional. A tese defendida é a de que não há diferença entre determinar aquilo que um jornal deve publicar (direito de resposta) e aquilo que ele não pode publicar (censura), não cabendo ao Estado intervir na liber- dade editorial da imprensa. A tese prevalecente, nada obstante, nem sempre foi esta (SANKIEVICZ, 2013).
104 Com efeito, o direito de resposta consiste essencialmente no poder, que assiste a todo aquele que seja pessoal- mente afetado por notícia, comentário ou referência saída num órgão de comunicação social, de fazer publicar ou transmitir nesse mesmo órgão, gratuitamente, um texto seu contendo um desmentido, retificação ou defesa. (...) Visto do outro lado, ele define-se como a obrigação que todo o meio de comunicação social tem, de difundir, no prazo e condições estabelecidas na lei, a retificação ou refutação que a pessoa mencionada, prejudicada ou ofendida numa notícia ou comentário julgue necessária para os corrigir ou rebater (MOREIRA, 1994, p. 10).
3.4.4.1 Estados Unidos
Nos EUA nem sempre a objeção apontada acima prevaleceu. A evidência disso está no âmbito de regulamentação adotada pela Comissão Federal de Comunicação (FCC) no perí- odo do pós-Segunda Guerra até abraçar os pressupostos neoliberais dos anos 1980, sob a vi- gência da fairness doctrine. Ela estabelecia a obrigatoriedade de um determinado tempo na programação de rádio e televisão para a cobertura de conteúdos e acontecimentos relacionados ao interesse público e, ao mesmo tempo, indicava que essa cobertura deveria ser feita de ma- neira equilibrada, possibilitando a apresentação para ouvintes e telespectadores de informações e fatos sob a luz do princípio do contraditório. Nos anos 1960, a FCC também criou a regra do ataque pessoal (personal attack rule) que estabelece a obrigação das estações de radiodifusão de notificar e dar oportunidade de resposta àqueles que tivesse a sua integridade, honestidade, caráter ou qualidades pessoais atacadas no momento da exposição de posições e opiniões con- troversas em temas de interesse público (SANKIEVICZ, 2011a).
Mesmo que as corporações de comunicação fossem contrárias a doutrina da equi- dade e a cada oportunidade pressionassem a autoridade reguladora para o seu fim, em 1969, a Suprema Corte dos EUA considerou por algum tempo a doutrina compatível com a primeira emenda. O argumento foi embasado nos preceitos constitucionais que não davam a qualquer um o direito de monopolizar os feixes de radiofrequência em detrimento de seus concidadãos. Portanto, a primeira emenda não impedia ao governo de exigir dos portadores de concessão pública o compartilhamento da faixa de frequência em certas ocasiões.
Outro caso com os mesmos objetivos de validar o direito de resposta teve resultado contrário e a Suprema Corte norte-americana declarou sua inconstitucionalidade. Em meados da década de 1970, o Estado da Flórida julgou a constitucionalidade de uma lei sobre o direito de resposta para um caso ocorrido em mídia impressa. Ao contrário do que decidiu da primeira vez, a Suprema Corte considerou inconstitucional qualquer regra impositiva a um jornal sobre a publicação compulsoriamente de algo que, do contrário, ele não publicaria. O julgamento da Corte destacou que a mídia impressa é mais do que um receptáculo passivo de notícias, comen- tários ou publicidade (SANKIEVICZ, 2011a).
As duas decisões opostas referentes ao direito de resposta – uma para a radiodifu- são, em razão da escassez do espectro radioelétrico, e outra para a mídia escrita, completamente livre – criaram duas regulamentações diferentes dentro da perspectiva. As críticas desconhecem
haver uma diferença intrínseca entre a escassez tecnológica e a escassez econômica. Para San- kievcz (2011a), a imprensa atual, seja escrita ou radiodifundida, não é aberta para todos e a diferença regulatória não ficou isenta de censura.
As revistas semanais e os jornais diários de grande circulação representam uma ver- dadeira instituição, de modo que seria praticamente impossível para um competidor entrar neste mercado de ideias tendo em vista as barreiras econômicas. Em termos práticos, o resultado é que jornais e revistas, como as televisões e as rádios, não são abertos para todos, apenas para poucos. Tratá-los de modo distinto em razão da escas- sez tecnológica não faria sentido (IDEM).
De uma forma ou de outra, a FCC extinguiu a fairness doctrine, em 1987, argumen- tando que a divergência de perspectivas poderia ser alcançada pela diversidade existente no então mercado de radiodifusão devido à pluralidade nas últimas décadas. Hoje, portanto, os EUA não têm uma legislação específica sobre direito de resposta.
3.4.4.2 Reino Unido
O Reino Unido também não dispõe de uma legislação que determine a concessão do direito de resposta pelas corporações de mídia impressa. Entretanto, este pressuposto é fruto de autorregulamentação prevista em estatutos dessas empresas, incorporado pela Press Com- plaints Commission, que foi substituída pela Independent Press Standards Organisation105. O
código dos empresários da mídia impressa britânica regula a precisão jornalística e dispõe sobre a concessão do direito de resposta como uma oportunidade ao cidadão para sua réplica a im- precisões divulgadas pela mídia quando isto for solicitado106. Portanto, não é uma obrigação
legal, mas uma determinação moral.
Quanto ao direito de resposta para a radiodifusão é regulamentado pelo Broadcas- ting Code do OFCOM. O código da autoridade reguladora fixa sobre conveniência de resposta, expondo que ao indivíduo ou organização deve ser dada informação suficiente sobre os argu- mentos e provas a serem incluídos no programa para que possam responder adequadamente. O
105 Ver site da Organização Prima Standards Independente (IPSO). Após a conclusão do Caso Leveson (o caso esclarece “o papel da mídia e da polícia no escândalo de escutas telefônicas ilegais”, em julho de 2011, produzindo um amplo diagnóstico do funcionamento da mídia no Reino Unido e fez várias recomendações tanto ao governo como às próprias empresas de mídia), a Press Complaints Commission) deveria ser extinta, o que ocorre em se- tembro de 2014 (IPSO, 2015).
106 Ver cláusula 2 do Código de Práticas do Editor (Editor’s Code of Practice), que diz: “A fair opportunity for reply to inaccuracies must be given when reasonably called for.” (IPSO, 2015)
programa deve apresentar adequadamente a substância de qualquer resposta, mas não é normal- mente necessário, no interesse da justiça, reproduzir uma resposta na sua totalidade107.
Da mesma forma, a BBC prevê “direito de resposta” ao estabelecer que uma crítica forte e prejudicial a uma instituição ou indivíduo como presunção deve ser reparada através de uma oportunidade justa de responder as alegações infundadas108. Nesse sentido, é preciso afir-
mar que o direito à informação precisa e correta é visto como uma questão de equidade e uma obrigação legal para as emissoras de radiodifusão.
Ressalta-se ainda que os pedidos de resposta são analisados por um comitê autorre- gulamentado, formado por profissionais dos meios, representantes da sociedade organizada e Estado. Este comitê verifica a denúncia ofensiva e, caso seja considerada coerente, encarrega- se de fazer a difusão da resposta em comum acordo com as corporações mediáticas envolvidas. “Esse método aumenta o grau de profissionalismo e de polissemia do “tribunal” e garante ser mais ágil, especializado e representativo do que o sistema puramente jurídico” (STEIBEL, 2007, p. 56).
Em suma, atualmente, o direito de resposta nos EUA e no RU não consta como lei formal, mas existe como reparação moral constituída nos códigos de conduta das próprias cor- porações midiáticas e sugerido pelas autoridades reguladoras como algo que deve ser contem- plado a partir de regras claras, justas e equitativas na produção de informações que considere todos os lados envolvidos. Uma vez ocorrido um erro, os códigos comunicacionais e a justiça devem ser acionados para que haja reparação de danos a terceiros. Para essas poliarquias, o direito de resposta aplicado à imprensa escrita é visto como inconstitucional, sendo que a obri- gação de inclusão de opiniões ou fatos pelos indivíduos vai contra a autonomia de gestão do meio, e desta maneira sua liberdade de expressão. Como dito anteriormente, outras esferas têm a responsabilidade de rever possíveis erros e corrigi-los, como os tribunais regulares civis e penais e da própria área de livre concorrência comunicacional. No intuito de compensar, as autoridades reguladoras incentivam extrajudicialmente que os meios destinem espaços para o contraditório, o que na maioria dos casos é atendida a publicação na seção de “cartas do leitor” ou, como é comum, em defesas publicadas juntamente com as matérias de crítica (STEIBEL, 2007).
107 Ver a seção 7, artigo 11, do Broadcasting Code, que ressalta: An individual or organisation needs to be given sufficient information concerning the arguments and evidence to be included in the programme to enable them to respond properly. The programme should fairly represent the substance of any response but it is not normally necessary, in the interests of fairness, to reproduce a response in its entirety. (REINO UNIDO, 2015)