• Nenhum resultado encontrado

Office for Communications do Reino Unido (OFCOM)

No documento juliocesarcoelho (páginas 118-124)

PARTE II – ANÁLISE DE TRAJETÓRIAS

3.4 COMPONENTES DA REGULAÇÃO

3.4.1 Autoridade regulatória e reguladora

3.4.1.2 Office for Communications do Reino Unido (OFCOM)

Em funcionamento a partir dos anos 20 e 30 do século XX, a BBC manteve o monopólio de radiodifusão até 1954, quando é autorizada pelo Governo e Parlamento a operação da Inde- pendent Television Network (ITV). Independente da BBC, mais tarde denominada de Canal 3, é a primeira rede nacional de emissoras de televisão comercial. Até 2003, quando passa a ter o OFCOM como autoridade reguladora, a BBC sempre foi regulada somente por uma Carta Real e um Acordo (espécie de contrato) entre a instituição pública e o Estado, renovados a cada dez anos, com supervisão do Parlamento. A fiscalização ficava por conta do Conselho dos Gover- nadores, explicitado abaixo.

reguladora para dar conta da operação das televisões independentes ou comerciais. Trata-se da Independent Television Authority (ITA), comandada por um presidente, um vice-presidente e cinco outros representantes nomeados pelo governo britânico para um mandato de cinco anos. Criada pela Lei da Televisão (Television Broadcasting Act 1954) (ITA, 2014) para supervisio- nar a implantação da ITV, a autoridade reguladora foi responsável por determinar o local, a construção e operação das estações de transmissão utilizadas pela rede comercial, bem como para determinar as áreas de franquia e concessão de franquias para cada emissora comercial regional. O tempo das concessões comerciais é estabelecido pelo prazo de dez anos.

Entre 1954 e 1981, a televisão comercial adquire o mesmo dever geral de prover a radi- odifusão como “um serviço público para disseminar educação, informação e entretenimento” (REINO UNIDO, 2006), semelhante à BBC. Conforme orientações estatutárias, essas emisso- ras têm de seguir algumas regras de serviço público como a variedade de programas equilibra- dos para todos os gostos, incluindo entretenimento leve, eventos esportivos, teatro, música e assuntos educacionais. Entretanto, é a lógica liberalizante do mercado que as mantém financi- ada por intermédio da publicidade. Em 1974, a Independent Broadcasting Authorith (IBA) substitui a ITA e passa a regular também os novos pontos de rádios comerciais (Independent Local Radio (ILR), regulamentadas pela Sound Broadcasting Act 1972. É importante destacar que esta lei marca o início das operações comerciais para o rádio da mesma forma que ocorreu com a televisão nos anos 1950.

Outras regras entram vigor no decorrer dos anos para dar conta da radiodifusão comer- cial que se expande significativamente nos anos 1980 com a flexibilização das leis. O segundo canal comercial, o Channel 4, autorizado pela Lei da Radiodifusão de 1980, começou a trans- mitir, em 1982, como uma subsidiária integral da Independent Broadcasting Authority. O canal é financiado através de assinaturas anuais obrigatórias de empresas independentes de televisão em troca de direitos de publicidade. O sistema de cabo, criado em 1985, é colocado sob o con- trole regulatório da autoridade de cabo.

A partir do Broadcasting Act de 1990, o setor de radiodifusão comercial é reorganizado substancialmente, com as funções reguladoras do Independent Broadcasting Authority e Cable Authority, remanejadas para a Independent Television Commission (ITC) 83 e a Radio Authority

(RA). Enquanto a ITC se encarrega do licenciamento e regulação de todos os serviços do setor de televisão comercial, incluindo ITV (rebatizado Channel 3 em 1993), Channel 4, e os serviços

de cabo e satélite, a autoridade de rádio se responsabiliza pela concessão de franquias por até três novos canais nacionais de rádio comerciais e para o licenciamento e regulação estações comerciais locais (PIERANTI e SANTOS, 2008). No início dos anos 2000, duas novas legis- lações passam a ser responsáveis pela regulação do sistema de comunicação do Reino Unido: Office Communications Act 2002 e Communications Act 2003. A primeira é uma lei para esta- belecer um órgão corporativo (Office of Communications – OFCOM), com a finalidade de con- ferir propostas sobre a regulação das comunicações por este organismo, a partir de determina- dos reguladores existentes e na Secretaria de Estado. A segunda lei estabelece funções para o OFCOM, entre as quais destacam-se a regulação da oferta de redes e serviços de comunicações eletrônicas e da utilização do espectro eletromagnético e a regulamentação da prestação de ser- viços de rádio e televisão. Também é responsável por debater fusões envolvendo jornal e outras empresas de mídia e, neste contexto, a alteração da Enterprise Act 2002, que proíbe cartel, complô ou acordo prejudicial à competição, entre outras providências. A Lei de comunicação de 2003 também fixa regras para a prestação e aplicação dos serviços universais que garantam princípios em defesa da concorrência com base no poder significativo do mercado da União Europeia, com imposição de obrigações adicionais aos detentores de PMS (Poder de Mercado Significativo). O OFCOM ainda estabelece regras aplicáveis em processos de fusão e aquisição (MENDONÇA, 2009)

O OFCOM começa a atuar em 2003 como a nova autoridade reguladora britânica, in- corporando e centralizando ações regulatórias feitas por diversos outras entidades até então em operação: Office of Telecommunications (Oftel)84, Independent Television Commission (ITC),

Radio Authority (RA)85, Broadcasting Standards Commission (BSC)86 e Radiocommunications

Agency (RAGE)87.

84 Criada pela Telecommunications Act de 1984, o OFTEL era encarregado por promover a concorrência e manter

os interesses dos consumidores no mercado das telecomunicações do Reino Unido (OFCOM, 2013).

85 Sobre as atribuições extintas do ITC e RA ver parágrafos anteriores.

86 A Broadcasting Standards Commission foi criada pela Broadcasting Act 1996 (REINO UNIDO, 1996) que introduz e atualiza a lei de 1990 para os serviços de rádio e televisão no formato digital. A BSC é responsável por preparar o código de conduta a ser cumprido pelos concessionários comerciais na prevenção de tratamento injusto ou desleal ou interferência com a privacidade de qualquer pessoa física ou jurídica, bem como de monitorar os conteúdos relativos à violência, comportamento sexual, gostos e decência nos serviços de radiodifusão (OFCOM, 2013).

87 A Radiocommunications Agency, que atuava com escritórios em Londres, País de Gales, Escócia e Irlanda do Norte, era uma agência executiva do Departamento de Indústria e Comércio, responsável pela gestão do espectro de radiofrequências não-militar que envolvia a representação internacional, o comissionamento de pesquisas, a alocação de espectro e licenciamento de sua utilização, mantendo o espectro livre de interferências que pudessem colocar em risco a segurança de pessoas e serviços essenciais à sua utilização (OFCOM, 2013).

Agora, como única autoridade reguladora, o OFCOM é responsável por duas áreas crí- ticas da ação em um ambiente convergente: 1) regular o conteúdo que agora se transmite por qualquer infraestrutura de rede digital, inclusive pelas antigas redes de broadcasting e de tele- comunicações; 2) regular a infraestrutura de forma a permitir o florescimento da competição na prestação dos diversos serviços de comunicações eletrônicas (MENDONÇA, 2009).

As decisões e a orientação estratégica são tomadas pelo OFCOM Board (“Conselho”), composto por até dez representantes, sendo seis não-executivos, três membros executivos e o presidente não executivo. Os representantes executivos operam a organização e dão satisfação ao Conselho, que, por sua vez, se reúne mensalmente e tem suas agendas, resumos, notas de reuniões publicadas regularmente no site da OFCOM88. O Conselho funciona conforme os pres-

supostos de responsabilidade coletiva através de várias instâncias colegiadas89 para cuidar da

gestão da organização, da agenda regulatória geral, supervisionar a concessão de espectro, de- finir e impor padrões de qualidade para a televisão e rádio, considerando nas suas decisões os pontos de vista e os interesses dos que vivem em diferentes partes do Reino Unido. Essa estru- tura organizativa do OFCOM inclui um conjunto de instâncias consultivas, técnicas ou delibe- rativas. Estas pressupõem a participação de representantes dos cidadãos que não estão necessa- riamente na estrutura formal do governo e aponta para alguma noção de participação civil. “Ou seja, algo que difere de um órgão estatal regular, como uma secretaria de governo ou departa- mento de Estado diretamente subordinada e dependente do titular governamental” (SILVA, 2010, p. 13).

Responsável pela regulação dos serviços prestados pelos concessionários comerciais, o OFCOM atua junto aos interesses dos cidadãos em relação aos assuntos de comunicações e junto aos interesses dos consumidores em mercados relevantes, neste caso, promovendo a com- petição e o serviço postal universal. Neste contexto, a autoridade reguladora deve garantir ainda serviços de radiodifusão de qualidade e diversificado, sempre atenta à pluralidade de fornece- dores de diferentes serviços de televisão e rádio. A veiculação de conteúdo ofensivos e preju- diciais aos cidadãos, os tratamentos injustos em programas e violação injustificada da privaci- dade também são alvo da atuação da autoridade reguladora (OFCOM, 2013).

De uma maneira mais geral, o OFCOM se detém sobre três grupos amplos de ações, envolvendo suas atividades de fiscalização e aplicação da lei no segmento das comunicações.

88 Ver em funções e papel do ‘Conselho” (ENCICLOPEDIA, 2013).

89 O Ofcom Board funciona com as seguintes instâncias colegiadas: Comitê Executivo; Executivo de Políticas; Conselho de Administração de Concessão de Espectro e Programa de Prêmios; Diretoria de Operações; Comis- são de conteúdo; Comitês Consultivos; Ofcom nas Nações e Regiões (OFCOM, 2013).

O primeiro cuida dos casos sobre concorrência de mercado e direitos do consumidor, sob o viés da Competition Act 1998 (Lei de Concorrência)90 com a finalidade de atuar para evitar infrações

que inibam acordos anti-concorrenciais (formação de cartéis, por exemplo) ou abusos de poder econômico; os conflitos entre empresas de comunicação como na falha de negociação comer- cial entre as partes; investigar as suspeitas na área de comunicações de violar direito do consu- midor. O segundo grupo dispõe de casos sobre conteúdos ofensivos ou inadequados, estabele- cendo normas para proteger o público dos conteúdos nocivos veiculados por emissoras de tele- visão e rádio e evitar injustiças ou infrações injustificadas da privacidade praticadas por pro- gramas. Por último, detêm-se em casos sobre a gestão do espectro radioelétrico, no sentido de cuidar e administrar o espectro como bem público, especialmente, lidando com irregularidades técnicas como interferências de sinal ou uso ilegal das faixas de frequência (emissoras clandes- tinas; operação inadequada de equipamentos de transmissão (SILVA, 2010).

O OFCOM é classificado como “pessoa coletiva” pelo Office of Communications Act 2002 (REINO UNIDO, 2002) e opera segundo as leis definidas pelo Parlamento britânico como: Communications Act 2003, Wireless Telegraphy Act 2006 (REINO UNIDO, 2006a), Broadcasting Act 199091, Broadcasting Act 1996 (REINO UNIDO, 1996), Digital Economy

Act 201092 e Postal Services Act 2011 (REINO UNIDO, 2011). Com ênfase nas leis de 2003 e

de 1996, a autoridade reguladora conta com orientação do OFCOM Broadcasting Code93 (Có-

digo de Radiodifusão do OFCOM), voltado para as atividades de fiscalização, punição e enfor- cement of OFCOM de conteúdo para televisão e rádio, cobrindo padrões em programas, patro- cínio, colocação de produtos em programas de televisão, justiça e privacidade.

A partir da Carta Real, do Acordo e da Lei da Comunicação de 2003, o OFCOM regula a BBC sob diversos aspectos, inclusive a prerrogativa de multar em até 250 mil libras (cerca de 1 milhão de reais) a BBC caso descumpra seus deveres de atuação como serviço público. A

90 Competition Act 1998 é uma lei que regula a concorrência e abuso de posição dominante no mercado, para conferir poderes em relação aos inquéritos efetuados no âmbito do artigo 85 º e 86 º do Tratado que institui a Comunidade Europeia, a alteração do Fair Trading Act 1973, em relação às informações que podem ser necessárias em conexão com investigações na forma da Lei, bem como prever o significado de “prestação de serviços” no Fair Trading Act de 1973. (REINO UNIDO, 1998).

91 Broadcasting Act of 1990 levou ao fim a Independent Broadcasting Authority e sua substituição pela Indepen- dent Television Commission e Radio Authority. Ambos, agora, substituídos pela Ofcom (REINO UNIDO, 1990). 92 Digital Economy Act 2010 (“DEA”) tem por objetivo coibir a violação de direitos autorais on-line, buscando pontos de vista sobre um código de prática chamada de “The Online Copyright Infringement Initial Obligations Code” (REINO UNIDO, 2010).

93 O Código de Radiodifusão, estabelecido a partir das leis para radiodifusão de 1996 e 2003, visa dar conta de padrões em programas, patrocínio e privacidade. É atualizado continuamente a partir das demandas e opiniões pesquisadas entre os telespectadores, ouvintes e emissoras. O Código substituiiu os códigos que a Ofcom herdou de seus predecessores - incluindo a Broadcasting Standards Commission e a Independent Television Commission. (REINO UNIDO, 2015).

cooperação da BBC com o OFCOM está prevista no Acordo como: dispor informações solici- tadas; guardar todos os programas de televisão por, pelo menos, 90 dias e todos os programas de rádio por, pelo menos, 42 dias.

Mendel (2011), com base na legislação, ressalta que os poderes mais significativos da OFCOM em relação à BBC se referem ao conteúdo de programação, considerando os códigos que são aplicados para todas as emissoras: Código de Imparcialidade da OFCOM; regras de Código de Programa da OFCOM; regras de notícias e atualidades, adotadas após consulta à OFCOM; cotas de produção original, acordadas com a OFCOM; cotas regionais de programa- ção e produção, também acordadas com a OFCOM; cotas de produções independentes, de acordo com a Lei de Comunicações de 2003; código da OFCOM para surdos e deficientes visuais e modificações a ele relacionadas; e retenção de gravações. A Carta e o Acordo também concedem poderes substanciais a vários ministros de Estado, frequentemente ao titular do De- partamento de Estado para Cultura, Mídia e Esporte, para regulamentar ou requisitar alguma ação da BBC.

Ao avaliar os serviços públicos de radiodifusão designados, o OFCOM segue as norma- tizações da Lei de Comunicações de 2003 ao apresentar seu Relatório Anual 2013 (REINO UNIDO, 2013), analisando os cinco principais canais do Sistema Público de Radiodifusão (BBC One, BBC Two, ITV-Channel 3, Channel 4 e Canal 5). Enquanto a rede de transmissão ITV (Channel 3) é constituído de 15 canais regionais e um nacional, a BBC é responsável por 10 canais.

Além de incentivar a inovação e eficiência na gestão do espectro de radiodifusão, tanto a FCC quanto o OFCOM licenciam, monitoram, atendem reclamações e aplicam sanções a partir das diretrizes sobre padrões básicos de conteúdo estabelecidos na legislação, na tenta- tiva de garantir serviços de qualidade, dinamismo do mercado competitivo dos serviços de co- municações e transmissão. No cumprimento das prerrogativas do Estado Democrático de Di- reito, as autoridades reguladoras das poliarquias buscam manter atualizado o amplo arcabouço de regulamentos técnicos e regras estabelecidas na legislação, verificando desde o uso do es- pectro para evitar interferências da distribuição de frequências até a fiscalização de seu uso pelos radiodifusores no que se refere ao conteúdo e no respeito às obrigações de serviços e interesses públicos. A seguir, os componentes regulatórios analisados conforme dito anterior- mente.

No documento juliocesarcoelho (páginas 118-124)