Segundo Tartuce (2019a), em amplo sentido, o termo sucessão significa transmissão, que pode processar-se por ato inter vivos ou mortis causa. Entretanto, a sucessão operada em vida é disciplinada pela teoria do direito das obrigações e não se confunde com a sucessão decorrente da morte, disciplinada pelo direito das sucessões. Vale destacar que este trabalho se dedica a verificar somente a sucessão em virtude da morte de uma pessoa.
Nesse norte, Gonçalves (2019a, p. 19,20, grifo do autor) ensina que:
No direito das sucessões, entretanto, o vocábulo é empregado em sentido estrito, para designar tão somente a decorrente da morte de alguém, ou seja, a sucessão causa mortis. O referido ramo do direito disciplina a transmissão do patrimônio, ou seja, do ativo e do passivo do de cujus ou autor da herança a seus sucessores.
O direito sucessório passa a ideia de continuidade da pessoa que morreu na pessoa do sucessor, ou seja, o sucessor continua as relações jurídicas da pessoa falecida. Contudo, a ideia da sucessão não é unicamente de interesse privado, o Estado também tem o objetivo de resguardar o direito à sucessão, de modo que um patrimônio não reste sem titular, assim protege a família e ordena a sua economia própria. (VENOSA, 2019).
Azevedo (2019, p. 17, grifo do autor) ensina que: “O fundamento do direito sucessório é o da continuidade da família por meio da propriedade pela sua
transmissibilidade post mortem.” Destaca-se que o fundamento citado provém da regra prevista no artigo 5º, inciso XXX, da CF/1988, que assim dispõe: “É garantido o direito de herança.” Salienta-se que, além do direito sucessório ser previsto na Lei Maior, também é regulamentado no CC/2002, no Livro V, entre os artigos 1.784 e 2.027 (BRASIL, 1988; BRASIL, 2002).
Destarte, o objetivo do direito das sucessões é estudar e regulamentar a destinação do patrimônio da pessoa física, em virtude de seu falecimento. Assim, na ocasião em que a pessoa “[...] é chamada ao mundo espiritual como consequência de fato jurídico natural ordinário, a morte, o direito patrimonial transmissível que lhe pertencia não se perde, apenas se desloca em favor de outra pessoa ou pessoas, continuando a existir.” (CARVALHO, 2019).
Maluf (2014, grifo do autor) leciona que o direito sucessório:
Representa a transmissão do patrimônio de uma pessoa a uma ou mais pessoas vivas, denominadas herdeiros. É ainda um modo de aquisição de propriedade a título universal, ou seja, referente à totalidade dos bens deixados ou mesmo de uma quota-parte do conjunto do patrimônio.
Para que haja a sucessão, tem-se o pressuposto da morte do autor da herança. Antes desse evento, o titular da relação jurídica é o de cujus (de
cujus hereditatis agitur). Após sua morte, o herdeiro torna-se titular,
sucedendo-lhe em todas as relações jurídicas, as quais se encontrava ungido.
Conforme os ensinamentos de Nader (2016a), o direito sucessório não se origina unicamente da morte, além disso, é indispensável que o falecido tenha deixado um patrimônio a partilhar. Contudo, não somente os valores são transmitidos, mas as dívidas do falecido também. Nesse contexto, Venosa (2019, grifo do autor) dispõe:
Destarte, a herança entra no conceito de patrimônio. Deve ser vista como o
patrimônio do de cujus. Definimos o patrimônio como o conjunto de direitos reais e obrigacionais, ativos e passivos, pertencentes a uma pessoa.
Portanto, a herança é o patrimônio da pessoa falecida, ou seja, do autor da
herança.
O patrimônio transmissível, portanto, contém bens materiais ou imateriais, mas sempre coisas avaliáveis economicamente. Os direitos e deveres meramente pessoais, como a tutela, a curatela, os cargos públicos, extinguem-se com a morte, assim como os direitos personalíssimos.
Nessa continuidade, Madaleno (2019b) explica minuciosamente quais os bens são passíveis de herança:
No universo da herança, são compreendidos bens de qualquer natureza e valor econômico, como móveis, imóveis, semoventes, valores, direitos de crédito por haveres ou ações judiciais ainda pendentes de pagamento ou de execução judicial, direitos de autor, compreendendo também as dívidas do defunto, o passivo deixado pelo autor da herança e inclui ainda as despesas de seu funeral, que também são transmitidas aos seus herdeiros, que não podem responder por encargos superiores às forças da herança (CC, art. 1.792).
Lôbo (2018, p. 15) assevera que a herança da pessoa que faleceu, composta pelo patrimônio ativo e passivo, é transmitida aos seus sucessores. Assim, “o direito das sucessões não é dos mortos, mas sim dos vivos. São estes os reais titulares e destinatários dele.”
Madaleno (2019b, grifo do autor) demonstra o momento em que a transmissão da herança é realizada, com base no princípio da saisine:
Sucedem pelo princípio da saisine (le mort saisit le vi) do Direito francês, onde a posse da herança se transmite aos herdeiros desde o exato instante em que o autor da herança faleceu (CC, art. 1.784). O direito de saisine remonta ao Direito francês e externa a ideia de posse da herança, que é transmitida aos herdeiros do falecido no exato momento de seu óbito, independentemente de qualquer procedimento judicial de abertura do inventário, de aceitação formal da herança e da sua partilha oficial, e independentemente da detenção ou apreensão real da coisa.
O princípio da saisine foi fundado no Direito francês na Idade Média e instituído contra o sistema do regime feudal. Pois, quando um arrendatário morria, a terra arrendada tinha que ser restituída ao senhor feudal, e, caso os herdeiros do falecido quisessem se apropriar da terra, teriam que pagar uma contribuição. Então, “[...] para evitar o pagamento desse tributo feudal, adotou-se a ficção de que o defunto havia transmitido ao seu herdeiro, e no momento de sua morte, a posse de todos os seus bens.” (GONÇALVES, 2019a, p. 38)
Nesse contexto, no Direito brasileiro o princípio da saisine significa que, quando a pessoa falece, a herança deixada é transmitida automaticamente ao herdeiro, legítimo ou instituído. Assim, “dois são os pressupostos da sucessão: a morte do
autor da herança e a vocação hereditária, estimando-se, desta forma, que lhe
sobreviva o herdeiro.” (MALUF, 2014, grifo do autor). Nessa perspectiva, Gonçalves (2019a, p. 33) discorre:
Com a morte, pois, transmite-se a herança aos herdeiros, de acordo com a ordem de vocação hereditária estabelecida no art. 1.829 do Código Civil. Na
falta destes, será a herança recolhida pelo Município, pelo Distrito Federal ou pela União, na conformidade do disposto no art. 1.844 do mesmo diploma. A morte a que se refere o legislador é a morte natural. Não importa o motivo que a tenha determinado. A expressão ‘abertura da sucessão’ é, todavia, abrangente. Por conseguinte, mesmo no caso de suicídio abre-se a sucessão do de cujus.
A lei prevê, ainda, ao lado da morte natural, a morte presumida do ausente, como referido. O art. 6º do Código Civil, com efeito, refere-se à ausência como morte presumida.
Portanto, o direito sucessório tem por objetivo regulamentar o patrimônio que é deixado pela pessoa que morre. A seguir, serão estudadas as espécies de sucessão admitidas no ordenamento jurídico brasileiro, ou seja, as formas de transmitir a herança aos sucessores.