MULTIPARENTALIDADE:
EFEITOS JURÍDICOS NO DIREITO SUCESSÓRIO
Florianópolis 2020
STELLA MARYS OLIVEIRA SILVA
MULTIPARENTALIDADE:
EFEITOS JURÍDICOS NO DIREITO SUCESSÓRIO
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Graduação em Direito, da Universidade do Sul de Santa Catarina, como requisito parcial para obtenção do título de Bacharel em Direito.
Orientadora: Prof.ª Patrícia Fontanella, Dra.
Florianópolis 2020
STELLA MARYS OLIVEIRA SILVA
MULTIPARENTALIDADE:
EFEITOS JURÍDICOS NO DIREITO SUCESSÓRIO
Este Trabalho de Conclusão de Curso foi julgado adequado à obtenção do título de Bacharel em Direito e aprovado em sua forma final pelo Curso de Graduação em Direito, da Universidade do Sul de Santa Catarina.
Florianópolis, 22 de julho de 2020.
______________________________________________________ Prof.ª e orientadora Patrícia Fontanella, Dra.
Universidade do Sul de Santa Catarina
______________________________________________________ Prof.ª Danielle Maria Espezim dos Santos, Dra.
Universidade do Sul de Santa Catarina
______________________________________________________ Prof.ª Luciana Faísca Nahas, Dra.
TERMO DE ISENÇÃO DE RESPONSABILIDADE
MULTIPARENTALIDADE:
EFEITOS JURÍDICOS NO DIREITO SUCESSÓRIO
Declaro, para todos os fins de direito, que assumo total responsabilidade pelo aporte ideológico e referencial conferido ao presente trabalho, isentando a Universidade do Sul de Santa Catarina, a Coordenação do Curso de Direito, a Banca Examinadora e o Orientador de todo e qualquer reflexo acerca deste Trabalho de Conclusão de Curso.
Estou ciente de que poderei responder administrativa, civil e criminalmente em caso de plágio comprovado do trabalho monográfico.
Florianópolis, 22 de julho de 2020.
____________________________________
RESUMO
O objetivo geral do presente trabalho é verificar os efeitos jurídicos da multiparentalidade no direito das sucessões. No que tange aos procedimentos metodológicos, o método de abordagem é de pensamento dedutivo e de natureza qualitativa. O método de procedimento é monográfico. Busca-se apresentar o conceito de filiação no ordenamento jurídico brasileiro, sua evolução histórica, passando pelo advento da Constituição Federal de 1988, e as espécies de filiação, com destaque para a filiação socioafetiva. Na sequência, verifica-se o conceito de multiparentalidade, seu reconhecimento e consequências jurídicas. Por fim, são demonstrados os efeitos da multiparentalidade no direito sucessório, sendo necessário verificar as generalidades do direito de suceder bem como as espécies de sucessão, para, assim, constatar-se a solução jurídica para o caso de falecimento do pai/mãe ou do filho multiparental. A conclusão alcançada na pesquisa é a de que, na multiparentalidade, o filho tem direito a receber herança de dois pais, ou de quantos pais ou mães constarem em seu registro de nascimento, a jurisprudência já decidiu nesse sentido. Ademais, verificou-se que a doutrina majoritária entende que todos múltiplos pais ou mães têm direito de herdar do filho, devendo ser dividida a herança em partes iguais entre todos eles.
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO ... 7
2 A FILIAÇÃO NO ORDENAMENTO JURÍDICO BRASILEIRO ... 9
2.1 CONCEITO ... 9
2.2 EVOLUÇÃO HISTÓRICA ... 10
2.2.1 A Constituição Federal de 1988 ... 12
2.3 ESPÉCIES “CLÁSSICAS” DE FILIAÇÃO ... 14
2.3.1 Filiação socioafetiva ... 17
3 A MULTIPARENTALIDADE NO BRASIL ... 21
3.1 CONCEITO DE MULTIPARENTALIDADE ... 21
3.2 RECONHECIMENTO DA MULTIPARENTALIDADE ... 23
3.2.1 Repercussão Geral nº 622 do Supremo Tribunal Federal... 26
3.3 EFEITOS GERAIS ... 29
4 MULTIPARENTALIDADE E SEUS EFEITOS NO DIREITO SUCESSÓRIO ... 33
4.1 DIREITO DE SUCEDER ... 33
4.2 ESPÉCIES DE SUCESSÃO ... 36
4.3 O STF E O DIREITO DE SUCESSÃO NA MULTIPARENTALIDADE ... 39
4.3.1 Solução para o caso de falecimento do pai/mãe ou do filho ... 39
5 CONCLUSÃO ... 45
1 INTRODUÇÃO
A presente monografia, requisito parcial para conclusão do curso de Direito da Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL), apresenta como tema a multiparentalidade e os efeitos jurídicos no direito sucessório.
O objetivo geral do presente trabalho é verificar os efeitos jurídicos da multiparentalidade no direito das sucessões.
A multiparentalidade, reconhecida primeiramente pela doutrina e, após, pela jurisprudência do Supremo Tribunal Federal (STF) é uma nova situação no Direito de Família e que permite a coexistência de múltiplos pais no registro de nascimento. Nesse sentido, este trabalho busca responder à seguinte questão: quais são os direitos sucessórios decorrentes da multiparentalidade?
O presente tema é atual e seu estudo é de relevante importância para o Direito e a sociedade. A situação, reconhecida pelo STF, não possui legislação própria e subsistem várias dúvidas, que serão verificadas com a presente pesquisa, acerca de seus efeitos no direito de herdar, visto que o Código Civil de 2002 (CC/02) não prevê a multiparentalidade na sucessão entre os herdeiros.
No que tange aos procedimentos metodológicos, no presente trabalho o método de abordagem é o de pensamento dedutivo, pois parte da demonstração do conceito jurídico de filiação para verificar os efeitos da multiparentalidade no direito sucessório, e de natureza qualitativa. O método de procedimento é monográfico, com técnica de pesquisa bibliográfica em artigos científicos, doutrinas, legislação e decisões judiciais.
Para a realização deste trabalho, a pesquisa estruturou-se em cinco capítulos, sendo distribuídos os assuntos da seguinte forma. A princípio, a presente introdução, que se faz necessária para contextualizar o tema objeto de estudo, o objetivo, o método utilizado e a estruturação do trabalho.
No segundo capítulo, demonstra-se o conceito de filiação no ordenamento jurídico brasileiro, traçando um relato de sua evolução histórica. Ainda, expõem-se as espécies de filiação, com destaque para a filiação socioafetiva.
No terceiro capítulo, apresentam-se o conceito de multiparentalidade, seu reconhecimento e as consequências jurídicas.
No quarto capítulo, destacam-se os efeitos da multiparentalidade no direito sucessório, abordando o posicionamento de doutrinadores, legislação e as decisões e interpretações jurisprudenciais.
Por fim, o capítulo cinco consiste na conclusão formada pela pesquisadora com o trabalho.
2 A FILIAÇÃO NO ORDENAMENTO JURÍDICO BRASILEIRO
Este capítulo aborda o tema filiação no Direito brasileiro e está organizado em três tópicos: conceito, evolução histórica e espécies de filiação.
2.1 CONCEITO
Para compreensão do tema da pesquisa, faz-se necessário verificar o conceito de filiação no ordenamento jurídico brasileiro. Tal conceito evoluiu muito com o passar dos anos, conforme será evidenciado no decorrer deste capítulo.
De acordo com Rizzardo (2019), “importante questão que integra o direito de família diz respeito à filiação, posto que os filhos são uma das razões maiores do casamento, representando a continuidade da espécie, e sendo uma amostra do futuro da humanidade.”
A palavra filiação deriva do latim filiatio, significa procedência, laço de parentesco dos filhos com os pais, enlace, dependência. No Direito brasileiro, a filiação é uma concepção cultural, decorrente da convivência familiar e da afetividade, abrangendo a origem biológica e outras origens não biológicas (LÔBO, 2017, p. 211). Filiação é a relação jurídica derivada do parentesco por consanguinidade ou outra origem, definida entre os ascendentes e descendentes de primeiro grau. Trata-se da relação jurídica efetiva entre os pais e os filhos (TARTUCE, 2019b).
A respeito do conceito de filiação, Gonçalves (2019b, p. 315, grifo do autor) elucida:
Filiação é a relação de parentesco consanguíneo, em primeiro grau e em linha
reta, que liga uma pessoa àquelas que a geraram, ou a receberam como se a tivessem gerado. Todas as regras sobre parentesco consanguíneo estruturam-se a partir da noção de filiação, pois a mais próxima, a mais importante, a principal relação de parentesco é a que se estabelece entre pais e filhos.
Segundo Diniz (2012, p. 488, 489), o conceito jurídico de filiação é:
Filiação é o vínculo existente entre pais e filhos; vem a ser a relação de parentesco consanguíneo em linha reta de primeiro grau entre uma pessoa e aqueles que lhe deram a vida, podendo, ainda, (CC, art. 1593 e 1597 e 1618 e s.), ser uma relação socioafetiva entre pai adotivo e institucional e filho adotado ou advindo de inseminação artificial heteróloga.
Por sua vez, Maluf e Adriana (2016, p. 478) ensinam que:
Assim, na pós-modernidade, podemos definir como filho todo ser gerado de forma natural ou mediante o emprego de técnicas de biotecnologia, de reprodução artificial medicalmente assistida, que pertence ao núcleo familiar, equiparados entre si por força do art. 227, § 6º, da CF, que veda qualquer designação discriminatória no tocante à filiação, prevendo a legitimidade a todos os filhos, independentemente de serem fruto do casamento ou não, ou mesmo independentemente da forma de sua geração.
Hoje, não mais se faz menção discriminatória sobre o status dos filhos, pois a constituição da família transcende à formalidade que lhe fora peculiar para fincar-se como o núcleo socioafetivo necessário à plena realização da personalidade de seus integrantes.
Independentemente da origem da filiação, todos os filhos são juridicamente iguais, conforme explica Lôbo (2017, p. 211):
No Brasil, a filiação é conceito único, não se admitindo adjetivações ou discriminações. Desde a Constituição de 1988 não há mais filiação legítima, ou filiação ilegítima, ou filiação natural, ou filiação adotiva, ou filiação incestuosa, ou filiação matrimonial ou extramatrimonial, ou filiação adulterina, como o direito anterior as classificava. Os direitos e deveres dos filhos, de qualquer origem, são plenamente iguais.
Rizzardo (2019) acrescenta que a todos os filhos é assegurada uma série de direitos, e salienta os seguintes:
[...] o estado de filho, pelo que decorrem várias outras relações e direito de serem denominados filho; o direito ao uso do nome dos pais, ou ao patronímico; o direito de receber alimentos, de ser criado, educado, e receber toda série de atenções e atendimentos que uma pessoa necessita até capacitar-se a subsistir por suas próprias condições; e a contemplação na herança.
Desse modo, nota-se que a filiação se caracteriza por ser plural e fundamentada na igualdade de direito entre as diversas espécies de filhos. A seguir, verifica-se que foram diversas transformações ocorridas ao longo dos anos até alcançar o conceito atual de filiação.
2.2 EVOLUÇÃO HISTÓRICA
A história da filiação no Direito brasileiro é marcada pela desigualdade de direitos entre os filhos nascidos antes ou depois do casamento. Com o decorrer do
tempo, a legislação passou grandes avanços e foi abrandando a discriminação entre os filhos até alcançar a decretação da isonomia entre eles pela Lei Maior.
Destaca-se que a matéria sobre filiação era regulamentada pelo Código Civil de 1916 (CC/16) em capítulos intitulados da seguinte forma: da filiação legítima, arts. 338 a 351; da legitimação, arts. 352 a 354; e do reconhecimento dos filhos ilegítimos, arts. 355 a 367 (BRASIL, 1916). Nesse sentido, Madaleno (2019a, grifo do autor) ensina que:
[...] os filhos legítimos originavam das justas núpcias, e os filhos ilegítimos poderiam vir a ser legitimados se seus pais casassem; enquanto todos os demais filhos cuja origem não vinha do casamento eram considerados ilegítimos e se subdividiam em naturais, caso os pais não fossem casados e
espúrios quando existisse algum impedimento ao matrimônio dos genitores.
Os filhos espúrios ainda eram subdivididos em adulterinos e incestuosos. Adulterinos eram os filhos de pais casados, ainda que só um deles ou mesmo ambos, e incestuosos eram os filhos advindos de uma relação proibida pelo parentesco muito próximo dos pais [...]
A família brasileira tem origem no patriarcalismo, caracterizado por eleger como legítima a família constituída pelo casamento e por discriminar os filhos nascidos fora do matrimônio, conforme Lôbo (2017, p. 213) demonstra:
A desigualdade entre filhos, particularmente entre filhos legítimos, ilegítimos e adotivos, era a outra e dura face da família patriarcal que perdurou no direito brasileiro até́ praticamente os umbrais da Constituição de 1988, estruturada no casamento, na hierarquia, no chefe de família, na redução do papel da mulher, nos filhos legítimos, nas funções de procriação e de unidade econômica e religiosa. A repulsa aos filhos ilegítimos e a condição subalterna dos filhos adotivos decorriam naturalmente dessa concepção.
Na concepção de Dias (2020, p. 204, 205, grifo do autor):
A necessidade de preservação do núcleo familiar – leia-se, preservação do patrimônio da família - autorizava que os filhos fossem catalogados de forma absolutamente cruel. Fazendo uso de terminologia plena de discriminação. [...]
Negar a existência de prole ilegítima simplesmente beneficiava o genitor e prejudicava o filho. Ainda que tivesse o pai quem cometera o delito de adultério – que à época era crime -, infringindo o dever de fidelidade, o filho era o grande perdedor. Singelamente, a lei fazia de conta que ele não existia. Era punido pela postura do pai, que se safava dos ônus do poder familiar. E negar reconhecimento ao filho é excluir-lhe direitos, é punir quem não tem culpa, é brindar quem infringiu os ditames legais. O nascimento de filho fora do casamento colocava-o em uma situação marginalizada para garantir a paz social do lar formado pelo casamento do pai, prevaleciam os interesses da instituição matrimônio.
O CC/16, em seu artigo 358, proibia expressamente o reconhecimento dos filhos adulterinos e incestuosos (BRASIL, 1916). Entretanto, conforme relatam Monteiro e Silva (2016, p. 476), novas legislações foram abrandando a discriminação entre os filhos.
A partir do Decreto-Lei nº 4.737, de 27 de setembro de 1942, passou a ser permitido que o filho havido pelo cônjuge fora do matrimônio, depois do desquite, fosse reconhecido ou demandasse a declaração de sua filiação (BRASIL, 1942).
Em outubro de 1949, a Lei nº 883 estatuiu, no artigo 1º, que, “dissolvida a sociedade conjugal será permitido a qualquer dos cônjuges o reconhecimento do filho havido fora do casamento e, ao filho, a ação para que se lhe declare a filiação.” (BRASIL, 1949).
Em dezembro de 1977, a Lei nº 6.515 modernizou, posto que, pelo artigo 51, instaurou um parágrafo único no artigo 1º da Lei nº 883, de 1949, assim titulado: “Ainda na vigência do casamento, qualquer dos cônjuges poderá reconhecer o filho havido fora do casamento, em testamento cerrado, aprovado antes ou depois do nascimento do filho, e, nessa parte, irrevogável.” (BRASIL, 1977).
Nesse sentido, Nader (2016b) complementa:
[...] dado o grande interesse em valorizar o casamento, protegendo-o contra fatos que pudessem abalá-lo, impedia-se a ação de investigação de paternidade em face de pessoa casada. A injustiça era patente. Considerava-se relevante o casamento, ao mesmo tempo em que Considerava-se condenava ao desamparo o ser inocente, humilhado ainda por não ostentar o nome paterno. [...]
O impedimento do reconhecimento dos filhos ilegítimos foi objeto de gradual abrandamento, mas foi extirpado somente a partir da promulgação da Constituição Federal de 1988 (CF/88), que proibiu qualquer tratamento discriminatório quanto à filiação, o que possibilitou a revogação do dispositivo do CC/16, que negava reconhecimento aos filhos (DIAS, 2020, p. 206).
2.2.1 A Constituição Federal de 1988
A filiação foi um dos temas, no ramo do Direito de Família, que mais sofreu influência dos valores consagrados pela Constituição Federal de 1988. (GAGLIANO; PAMPLONA FILHO, 2019, p. 625). A Carta Magna foi um marco histórico e aboliu
qualquer discriminação entre as espécies de filiação, conforme demonstra o artigo 227, § 6º, da CF/88: “Os filhos, havidos ou não da relação do casamento, ou por adoção, terão os mesmos direitos e qualificações, proibidas quaisquer designações discriminatórias relativas à filiação.” (BRASIL, 1988).
Nesse sentido, Madaleno (2019a,) comenta:
O artigo 227, § 6º, da Constituição Federal veio para terminar com o odioso período de completa discriminação da filiação no Direito brasileiro, sob cuja epidemia viveu toda a sociedade brasileira, e sua história legislativa construiu patamares discriminando os filhos pela união legítima ou ilegítima dos pais, conforme a prole fosse constituída pelo casamento ou fora dele.
O texto constitucional em vigor habilita-se a consagrar o princípio da isonomia entre os filhos, ao pretender estabelecer um novo perfil na filiação, de completa igualdade entre todas as antigas classes sociais de perfilhação, trazendo a prole para um único e idêntico degrau de tratamento, e ao tentar derrogar quaisquer disposições legais que ainda ousassem ordenar em sentido contrário para diferenciar a descendência dos pais. [...]
O princípio da igualdade dos filhos, consagrado pela CF/88, é reiterado no artigo 1.596 do CC/02, que enfatiza: “Os filhos, havidos ou não da relação de casamento, ou por adoção, terão os mesmos direitos e qualificações, proibidas quaisquer designações discriminatórias relativas à filiação.” (BRASIL, 2002). Lôbo (2017, p. 212) afirma que:
A norma constitucional não necessitava de concretização infraconstitucional, porque é dotada de força normativa própria, suficiente e auto executável. Todavia, sua reprodução no artigo introdutório do capítulo do Código Civil destinado à filiação contribui para reforçar sua natureza de fundamento, assentado no princípio da igualdade, determinante de todas as normas subsequentes. Não se permite que a interpretação das normas relativas à filiação possa revelar qualquer resíduo de desigualdade de tratamento aos filhos, independentemente de sua origem, desaparecendo os efeitos jurídicos diferenciados nas relações pessoais e patrimoniais entre pais e filhos, entre os irmãos e no que concerne aos laços de parentesco.
Na mesma esteira, Nader (2016b) ensina que, sob a ótica da lei, não há diferenciação entre filho consanguíneo e adotivo, entre o concebido em casamento, união estável, concubinato ou em relação eventual. A visão humanista do Direito, conquistada na segunda metade do século XX, transferiu o foco da lei, retirando-o do casamento, para dedicá-lo à pessoa humana, legitimando a dignidade própria e imperando o princípio do melhor interesse da criança.
Segundo Maluf e Adriana (2016, p. 478, grifo do autor), atualmente, “[...] não se faz menção discriminatória sobre o status dos filhos, pois a constituição da família
transcende à formalidade que lhe fora peculiar para fincar-se como o núcleo socioafetivo necessário à plena realização da personalidade de seus integrantes”. Prega-se a igualdade entre os filhos, o respeito ao alcance do estado de filho independentemente das circunstâncias de seu nascimento, o enaltecimento da afetividade e o princípio do melhor interesse da criança.
2.3 ESPÉCIES “CLÁSSICAS” DE FILIAÇÃO
O Direito de Família brasileiro distingue três critérios de filiação: a biológica, a jurídica e a socioafetiva. No primeiro critério a filiação dá-se pela consanguinidade, o segundo define-se por presunções legais. O último critério, o socioafetivo “[...] dimana de uma situação fática, que nasce da educação, amparo, proteção, afetividade, aplicados na criação de uma pessoa e por quem não é pai ou mãe biológica.” (NADER, 2016b).
A filiação biológica decorre do vínculo consanguíneo entre o filho e seus pais, podendo a concepção ser por método natural ou artificial. Natural é a forma convencional ou instintiva da concepção, que é a cópula. O método artificial é por meio de técnicas de inseminação artificial, homóloga e heteróloga (NADER, 2016b).
Nesse sentido, Dias (2020, p. 219) ensina que os avanços científicos possibilitaram a identificação da filiação biológica pelo exame de DNA, bem como as técnicas de reprodução assistida, que proporciona a gestação por substituição, pelo uso de material genético de diferentes pessoas, fato que pluralizou o conceito de filiação biológica.
De acordo com Rizzardo (2019, grifo do autor):
Biológica é denominada a filiação quando, como o nome indica, decorre das relações sexuais dos pais. O filho tem o sangue dos pais – daí ser filho consanguíneo. [...]
De outro lado, o fato de nascer o filho enquanto perdura o casamento, ou até certo tempo após a sua desconstituição, faz presumir que o pai é aquele que convive com a mãe, porquanto dúvidas inexistem no pertinente à maternidade – mater semper certa. Já torna-se elemento definido da paternidade o fato do matrimônio: pater is est quem nupciae demonstrant.
Trata-se, aí, de filiação biológica presumida.
A respeito da filiação biológica presumida, Gonçalves (2019b, p. 317) afirma que a presunção de paternidade resulta da regra proclamada no Direito Romano:
relações sexuais dos cônjuges e a fidelidade da mulher, assim, o filho concebido durante o matrimônio tem por seu pai o marido de sua mãe. E, consequentemente, presume-se filho o concebido na constância do casamento.
Nesse norte, dispõe o artigo 1.597 do CC/2002:
Art. 1.597. Presumem-se concebidos na constância do casamento os filhos: I - nascidos cento e oitenta dias, pelo menos, depois de estabelecida a convivência conjugal;
II - nascidos nos trezentos dias subsequentes à dissolução da sociedade conjugal, por morte, separação judicial, nulidade e anulação do casamento; III - havidos por fecundação artificial homóloga, mesmo que falecido o marido; IV - havidos, a qualquer tempo, quando se tratar de embriões excedentários, decorrentes de concepção artificial homóloga;
V - havidos por inseminação artificial heteróloga, desde que tenha prévia autorização do marido. (BRASIL, 2002).
Segundo Tartuce (2019b, grifo do autor):
O dispositivo está amparado na velha máxima latina mater semper certa est
et pater is est quem nuptiae demonstrant, que pode ser resumida da seguinte
forma: a maternidade é sempre certeza, a paternidade é presunção que
decorre da situação de casados. É fundamental ressaltar que essa máxima
perdeu relevância prática. Ora, a maternidade nem sempre é certa, pois pode ocorrer a troca ou a subtração de recém-nascidos em maternidades, a motivar eventual ação de investigação da maternidade. [...]
Ainda, Dias (2020, p. 203, 204, grifo do autor) faz uma crítica a respeito da filiação biológica presumida:
[...] o legislador ainda fazer uso de presunções de paternidade. Dita a excrescência decorre da visão sacralizada da família e da tentativa de sua preservação a qualquer preço. Nem que para isso tenha de atribuir filhos a quem não é o pai simplesmente para a mantença da estrutura família.
Passa-se, a seguir, a verificar a espécie de filiação jurídica, que corresponde à adoção. Nesse sentido, Monteiro e Silva (2016, p. 461) explicam:
O parentesco civil é aquele que tem outra origem, como antes visto, no qual se enquadra o instituto da adoção. Pai e filho adotivo são parentes civis; a relação jurídica que os vincula é produto exclusivo da lei, que procura imitar a natureza (Cód. Civil, art. 1.596).
Nas palavras de Madaleno (2019a): “A adoção imita a natureza, dando filhos aos que não podem tê-los, por cuja circunstância era mais frequente se desse a
adoção por casais estéreis, empenhados em buscar corrigir a natureza que lhes negou a descendência.”
Para Gonçalves (2019b, p. 376), a “adoção é o ato jurídico solene pelo qual alguém recebe em sua família, na qualidade de filho, pessoa a ela estranha.”
De acordo com Diniz (2012, p. 558, 559):
A adoção vem a ser o ato judicial pelo qual, observados os requisitos legais, se estabelece, independentemente de qualquer relação de parentesco consanguíneo ou afim, um vínculo fictício de filiação, trazendo para sua família, na condição de filho, pessoa que, geralmente, lhe é estranha. Dá origem, portanto, a uma relação de parentesco civil entre adotante e adotado. É uma ficção legal que possibilita que se constitua entre o adotante e o adotado um laço de parentesco de 1º grau na linha reta.
A adoção é, portanto, um vínculo de parentesco civil, em linha reta, estabelecendo entre adotante, ou adotantes, e o adotado um liame legal de paternidade e filiação civil. Tal posição de filho será definitiva ou irrevogável, para todos os efeitos legais, uma vez que desliga o adotado de qualquer vínculo com os pais de sangue, salvo os impedimentos para o casamento (CF, art. 227, §§5º e 6º) criando verdadeiros laços de parentesco entre o adotado e a família do adotante.
Como se vê, é uma medida de proteção e uma instituição de caráter humanitário, que tem por um lado, por escopo, dar filhos àqueles a quem a natureza negou e por outro lado uma finalidade assistencial, constituindo um meio de melhorar a condição moral e material do adotado. Portanto, ‘a adoção será deferida quando apresentar reais vantagens para o adotando e fundar-se em motivos legítimos. [...]
Observa Lôbo (2017, p. 267) que a adoção é um ato jurídico de natureza complexa, pois necessita de decisão judicial para gerar seus efeitos. Não é negócio jurídico unilateral, nem pode ser revogada. O ato é personalíssimo e não pode ser exercido por procuração.
Conforme salientam Monteiro e Silva (2016, p. 518):
Enquanto no passado a adoção tinha em vista atribuir prole a casal que não podia ter filhos, satisfazendo seus anseios pessoais e sociais, já que a finalidade do casamento naquela época era o nascimento de filhos e sua criação, atualmente a adoção tem como objetivo principal a proteção de crianças e adolescentes em situação de abandono, inclusive porque a finalidade do casamento nos dias de hoje é a realização pessoal ou felicidade, nem sempre atrelada à existência de filiação.
A adoção é instituto dos mais nobres e importantes, que tem como princípio norteador o melhor interesse da criança. O objetivo de colocar dentro de seio familiar adequado menor que se encontra em situação familiar de risco ou mesmo sem pais é essencial para a realização desse princípio. Além disso, tanto na adoção de maiores quanto na de menores, tem-se em vista estreitar laços afetivos, dando a esses elos do afeto efeitos jurídicos.
A adoção se presume como a paternidade do futuro, arraigada no exercício da liberdade. “[...] A filiação não é um dado da natureza, é uma construção cultural, fortificada na convivência, no entrelaçamento dos afetos, pouco importando sua origem. Nesse sentido, o filho biológico é também adotado pelos pais no cotidiano de suas vidas.” (DIAS, 2020, p. 327).
2.3.1 Filiação socioafetiva
A família brasileira passou a dar mais importância aos laços afetivos do que à descendência genética ou civil. Os vínculos biológicos não bastam para definir a paternidade ou maternidade, quem nunca quis exercer a função de pai ou mãe não deve ser considerado genitor. A filiação é construída com afeto, amor filial, zelo, dedicação ao filho e pela vontade de ser pai ou mãe (MADALENO, 2019a).
Assim, “[...] a filiação real não é a biológica, e sim cultural, fruto dos vínculos e das relações de sentimento cultivados durante a convivência com a criança e o adolescente.” (MADALENO, 2019a).
A filiação socioafetiva é garantida em vários dispositivos do ordenamento jurídico brasileiro, “[...] tanto é que esta filiação lastreada exclusivamente no vínculo socioafetivo está consolidada na literatura e jurisprudência brasileiras há mais de três décadas.” (CALDERÓN, 2017).
O artigo 1.593 do CC/02 dispõe que “o parentesco é natural ou civil, conforme resulte de consanguinidade ou outra origem.” (BRASIL, 2002). Sobre esse artigo, Maluf e Adriana (2016, p. 522) esclarecem que, no que tange à filiação socioafetiva, a expressão “outra origem” foi utilizada de modo amplo, abrangendo outras espécies de parentesco, além do consanguíneo, civil ou por adoção.
A princípio, imagina-se que a regra em análise estaria ligada somente aos filhos gerados por meio de técnicas de reprodução assistida. No entanto, dada a pluralidade de composições familiares, esse conceito abrange também a paternidade e a maternidade socioafetivas, cujo vínculo resulta do reconhecimento social e afetivo da parentalidade.
Nessa linha, Monteiro e Silva (2016, p. 463, grifo do autor) anotam que:
A expressão ‘outra origem’ foi utilizada de maneira inovadora pelo Código Civil vigente, de modo a abranger outras espécies de parentesco, além do
consanguíneo e do civil ou por adoção, antes dispostos no Código Civil de 1916, arts. 330 e 336.
Se a expressão ‘outra origem’ significasse apenas a adoção, o legislador teria repetido a regra do Código Civil anterior.
Numa primeira vista, poder-se-ia pensar que a regra em análise estaria adstrita aos filhos gerados por meio de técnicas de reprodução assistida, quando realizada com gameta de terceiro, chamada heteróloga (Cód. Civil, art. 1.597, v).
No entanto, essa regra compreende também a paternidade e a maternidade socioafetivas, cujo vínculo não advém de laço de sangue ou de adoção, mas, sim, de reconhecimento social e afetivo da paternidade, que passa a ser analisado.
No mesmo sentido, Nader (2016b, grifo do autor) esclarece que, na expressão “ou outra origem” descrita no artigo citado, “[...] a doutrina está identificando a categoria da posse do estado de filho, que é a relação fática em que duas pessoas se relacionam afetivamente como progenitor e filho [...]”.
A respeito da posse do estado de filho, Dias (2020, p. 229, 230) assevera que:
A filiação socioafetiva assenta-se no reconhecimento da posse de estado de filho; a crença da condição de filho fundada em laços de afeto. A posse de estado é a expressão mais exuberante do parentesco psicológico, da filiação afetiva. A maternidade e a paternidade biológica nada valem frente ao vínculo afetivo que se forma entre a criança e aquele que trata e cuida dela, lhe dá amor e participa de sua vida. A afeição tem valor jurídico. Na medida em que se reconhece que a paternidade se constitui pelo fato, a posse do estado de filho pode entrar em conflito com a presunção pater est. E, no embate entre o fato e a lei, a presunção precisa ceder espaço ao afeto.
Ainda, Diniz (2012, p. 539) ensina que:
[...] A posse do estado de filho, que é a situação de fato estabelecida entre o pretenso pai e o investigante, capaz de revelar tal parentesco’ desde que o filho use o nome do investigado (nomen), receba o tratamento como filho (tractatus) e goze na sociedade do conceito de filho do suposto pai (fama). Embora constitua mera aparência, que, por si só, não basta para comprovar a filiação, mas possibilita sua investigação, de maneira que se o autor apenas provar que desfrutava da posse do estado de filho, sem acrescentar outra evidência, decairá o pedido [...].
Destaca-se que o reconhecimento registral de certa pessoa como sendo filho de outros que não se constituem como seus pais biológicos consiste na adoção à brasileira, tipificando o crime de falsidade ideológica, previsto no artigo 299, parágrafo único, do Código Penal (BRASIL, 1940). Ainda assim, a filiação socioafetiva pode ser estabelecida na adoção à brasileira se laços de afeto forem desenvolvidos entre o que promoveu o registro e a pessoa registrada como filho, sem que necessariamente tenha ciência da veracidade ou falsidade do registro de filiação (MADALENO, 2019a).
Nessa perspectiva, afirmam Monteiro e Silva (2016, p. 464, grifo do autor):
Essas situações são chamadas ‘adoção à brasileira’, por tratar-se de reconhecimento voluntário da paternidade, quando não existe vínculo biológico, que se aproxima da paternidade adotiva, embora não se submeta ao devido processo legal.
Essa expressão nasceu em tempos nos quais essas situações eram havidas como irremediavelmente irregulares.
Por essa razão, utilizaremos a expressão ‘adoção’ somente para os casos em que existe o processo judicial regulado em lei, quando o filho é adotado por meio da sentença judicial respectiva.
A expressão correta para a situação antes apontada é a da ‘paternidade socioafetiva’.
Observa Lôbo (2017, p. 213) que os critérios para o reconhecimento da socioafetividade são assentados na convivência familiar e na consolidação do estado de filiação. “[...] O tempo e aparência também são fundamentais, apreciados caso a caso, pois a lei brasileira não estabelece tempo mínimo para tal [...]”.
Entretanto, a filiação socioafetiva não é configurada se esta nunca se deu no plano fático, exceto se os pais forem casados, pois, neste caso, incide a presunção de paternidade prevista em lei. “[...] Veja-se a hipótese de homem que, atendendo ao desejo de sua parceira ocasional registra, como seu, filho biológico de outrem, sem nunca ter convivido com ele; neste caso, jamais houve a constituição do estado de filiação.”
Lembra Madaleno (2019a) que o CC/02 menciona indiretamente a filiação socioafetiva em vários dispositivos. A iniciar pelo inciso V do artigo 1.597, que reconhece a filiação conjugal havida por inseminação artificial heteróloga, que é realizada com sêmen de outrem, expressamente aceito pelo marido que será reconhecido como pai.
No artigo 1.603, há referência à filiação socioafetiva quando confere absoluta prevalência ao registro de nascimento como prova de filiação, assim como o artigo 1.604, que dispõe que ninguém pode reclamar de estado contrário àquele resultante do registro de nascimento, exceto se provar erro ou falsidade do registro. Desse modo, a jurisprudência vem consolidando a filiação socioafetiva, ao negar a desconstituição das adoções à brasileira.
Por fim, o inciso II, do artigo 1.605, determina que a filiação sem registro de nascimento ou em que ele apresente defeito poderá ser provada pela existência de presunções resultantes de fatos já certos, podendo ser considerado o fato da posse de estado de filiação (BRASIL, 2002).
Ressalta-se que a realidade jurídica da filiação não é firmada apenas nos laços biológicos, mas na realidade de afeto traduzida juridicamente na posse do estado de filho, e que une pais e filhos, e se manifesta em sua subjetividade perante o grupo social e a família. Nesse seguimento, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) tem proclamado que o vínculo socioafetivo prevalece sobre a verdade biológica. Todavia, a paternidade socioafetiva, mantida com o pai registral, não afasta os direitos decorrentes da paternidade biológica, como se verá adiante (GONÇALVES, 2019b, p. 304).
Por conseguinte, o reconhecimento da filiação socioafetiva pelo ordenamento jurídico brasileiro fez surgir o conceito de multiparentalidade, conforme será apresentado a seguir.
3 A MULTIPARENTALIDADE NO BRASIL
O presente capítulo apresentará o conceito jurídico da multiparentalidade, em seguida verifica-se como se deu o reconhecimento da multiparentalidade no Direito brasileiro. Por último, serão demonstrados os possíveis efeitos advindos desse reconhecimento.
3.1 CONCEITO DE MULTIPARENTALIDADE
Com os avanços sociais, as relações interpessoais se modificaram e surgiram novas composições familiares, de modo que a legislação não acompanhou tais avanços. Entretanto, esses novos núcleos familiares devem ser protegidos juridicamente, como, por exemplo, a situação de fato que ocorre quando um filho tem mais de um pai ou mais de uma mãe (PÓVOAS, 2017, p. 104).
Destaca-se que, a partir do reconhecimento jurídico da afetividade, o conceito de que a filiação é exclusivamente biológica foi superado, passando a ser possível o reconhecimento da multiparentalidade. Assim, caso uma pessoa venha a ter um pai socioafetivo em seu registro de nascimento, ela poderá ter também o seu pai biológico reconhecido formalmente (CALDERÓN, 2017).
Segundo Gonçalves (2019b, p. 306), “a multiparentalidade, pois, consiste no fato de o filho possuir dois pais ou mães reconhecidos pelo direito, o biológico e o socioafetivo, em função da valorização da filiação socioafetiva”.
Ainda, Gagliano e Pamplona Filho (2019, p. 652) definem a multiparentalidade como “[...] uma situação em que um indivíduo tem mais de um pai e/ou mais de uma mãe, simultaneamente, produzindo-se efeitos jurídicos em relação a todos eles”.
Nesse contexto, Calderón (2017, grifo do autor) exemplifica uma situação de multiparentalidade:
Para exemplificar: uma pessoa possui um ‘pai socioafetivo’ por longos anos, com essa figura paterna registrada no assento de nascimento e consolidada faticamente, e, entretanto, em um dado momento, descobre que o seu ‘pai biológico’ é outro (com comprovação por exame de DNA, inclusive). Ou seja, o seu ‘pai socioafetivo’ não é o seu ascendente genético, o que significa que esse filho terá um ‘pai socioafetivo’ e outro ‘biológico’; duas figuras paternas com duas espécies distantes de vínculos. Isso leva à possibilidade de que esse filho pretenda ver reconhecida judicialmente essa paternidade biológica, mas sem abrir mão da paternidade socioafetiva que já possui, mantendo as duas paternidades concomitantemente, lado a lado. Caracterizada, assim, uma situação de multiparentalidade.
A esse respeito, Madaleno (2019a, p. 504) informa que:
[...] a pluriparentalidade surgiu no sistema jurídico brasileiro a partir da adoção conjunta para casais do mesmo sexo, existindo um sem-número de precedentes que acolhem o registro de filiação constando, nas hipóteses de casais homoafetivos, o nome de dois pais ou de duas mães ao invés do clássico registro de pai e mãe.
De acordo com Calderón (2017), “essa pluralidade de vínculos filiais é típico exemplo da atual complexidade das relações familiares, que no cenário brasileiro ainda não possui regulamentação em lei expressa.” E essa situação encontra amparo na doutrina e na jurisprudência, consoante Dias (2020, p. 234-236, grifo do autor):
A multiparentalidade passou a ser chancelada pela Justiça a partir do reconhecimento de que a parentalidade não tem origem exclusivamente no vínculo biológico. A filiação socioafetiva é reconhecida, inclusive, como prevalente. O tema foi aceito como de repercussão geral pelo STF. E é objeto de enunciado do IBDFAM [Instituto Brasileiro de Direito de Família]. Admitido que a parentalidade socioafetiva pode coexistir com a biológica, foi aberto o caminho para a relação fática existente. Do mesmo modo. Na reprodução assistida. A participação de mais pessoas no processo procriativo torna possível que todos os envolvidos sejam pais. Tal ocorre, de modo mais frequente, nas relações homoafetivas.
[...]
A pluriparentalidade é reconhecida sob o prisma do filho, que passa a ter dois ou mais pais. Coexistindo vínculos parentais afetivos e biológicos ou apenas afetivos, mais do que apenas um direito é uma obrigação constitucional reconhecê-los. Não há outra forma de preservar os direitos fundamentais de todos os envolvidos, sobretudo no que diz respeito à dignidade e à afetividade. O direito de uma criança ou adolescente ter retratado em seu assento de nascimento o espelho de sua família constitui elemento essencial para a formação e desenvolvimento de sua identidade pessoal, familiar e social. Sua identificação no mundo é indissociável daqueles que fazem parte de sua história, dos quais carrega o DNA em sua alma. (DIAS, p. 234-236, grifos da autora)
Sendo assim, a multiparentalidade é garantida pela Carta Magna de 1988, de modo a preservar os direitos fundamentais e a afetividade humana, tendo em vista que “existem mesmo situações concretas que a opção pelo vínculo biológico ou pelo vínculo afetivo - um excluindo o outro - pode gerar traumas praticamente irrecuperáveis nos envolvidos nesta relação.” (PÓVOAS, 2017, p. 97).
Percebe-se que a multiparentalidade é um novo instituto do Direito de Família, que possibilita a coexistência de múltiplos vínculos filiais, e que aos poucos foi ganhando espaço na doutrina e jurisprudência, conforme será apresentado a seguir.
3.2 RECONHECIMENTO DA MULTIPARENTALIDADE
Na presente seção, será verificado o caminho percorrido pela doutrina e jurisprudência até alcançar o reconhecimento da multiparentalidade pelo STF.
Calderón (2017) ensina que a doutrina e a jurisprudência divergiam a respeito da melhor solução nos casos de conflitos entre os vínculos biológicos e socioafetivos. As divergências se davam no seguinte sentido:
[...] deveria ser adotado um vínculo prevalecente de modo apriorístico (em tese, abstratamente), ou, ao contrário, se apenas em cada caso concreto deveria ser constatada qual modalidade de vínculo seria prevalente. Outro aspecto que estava em pauta: deve prevalecer sempre o vínculo socioafetivo; deve prevalecer sempre o vínculo biológico; ou, então, podem eles eventualmente coexistir?
Conforme o referido autor, o STJ foi o primeiro a propor uma solução para esse conflito, indicando que somente um dos vínculos poderia prevalecer em cada caso, observado o interesse do filho. Assim, o filho poderia pleitear em juízo o reconhecimento da paternidade biológica e, consequentemente, a exclusão da paternidade socioafetiva e registral, com objetivo exclusivamente patrimonial. A esse respeito, Tartuce (2019b, grifo do autor) comenta:
Com o devido respeito, entendemos que essa forma anterior de julgar representaria um retrocesso, uma volta ao passado, desprezando a posse de estado de filho fundada na reputação social (reputatio) e no tratamento dos envolvidos (tractatus). Ademais, abria a possibilidade de um filho ‘escolher’ o seu pai não pelo ato de afeto, mas por meros interesses patrimoniais, em uma clara demanda frívola.
Nesse contexto, Dias e Oppermann (2015, p. 5) asseveram:
Atentando para esta realidade, decisões Brasil afora passaram a admitir a inserção do nome de mais de um pai ou de mais de uma mãe no registro de nascimento do filho, sem a exclusão do nome do genitor biológico. As hipóteses mais recorrentes são quando, depois da morte de um dos genitores, se consolida vínculo de filiação socioafetiva com quem passou a exercer as funções parentais.
Abandonou-se como única possibilidade a chamada adoção unilateral, em que há a exclusão do nome de um genitor para a inserção do nome do cônjuge ou do companheiro de quem permaneceu com o filho sob sua guarda.
Segundo Tartuce (2019b), a primeira sentença que reconheceu a multiparentalidade no Brasil foi prolatada em 2012, na Comarca de Ariquemes, estado
de Rondônia, pela juíza Deisy Cristhian Lorena de Oliveira Ferraz. A decisão reconheceu a paternidade biológica sem desconstituir a paternidade socioafetiva consolidada, em virtude do pedido de ambos os pais que queriam constar no registro de nascimento do filho.
Nesse sentido, em vários estados brasileiros surgiram decisões que reconheceram a multiparentalidade. A exemplo de decisão colegiada, pode-se citar a proferida pelo Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, no ano de 2012, que reconheceu a multiparentalidade entre duas mães e um filho, conforme a seguinte ementa:
EMENTA: MATERNIDADE SOCIOAFETIVA.
Preservação da Maternidade Biológica. Respeito à memória da mãe biológica, falecida em decorrência do parto, e de sua família - Enteado criado como filho desde dois anos de idade Filiação socioafetiva que tem amparo no art. 1.593 do Código Civil e decorre da posse do estado de filho, fruto de longa e estável convivência, aliado ao afeto e considerações mútuos, e sua manifestação pública, de forma a não deixar dúvida, a quem não conhece, de que se trata de parentes - A formação da família moderna não-consanguínea tem sua base na afetividade e nos princípios da dignidade da pessoa humana e da solidariedade Recurso provido. (SÃO PAULO, 2012).
Em 2015, o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul decretou a multiparentalidade entre o filho, dois pais e duas mães:
APELAÇÃO CÍVEL. DECLARATÓRIA DE MULTIPARENTALIDADE.
REGISTRO CIVIL. DUPLA MATERNIDADE E PATERNIDADE.
IMPOSSIBILIDADE JURÍDICA DO PEDIDO. INOCORRÊNCIA.
JULGAMENTO DESDE LOGO DO MÉRITO. APLICAÇÃO ARTIGO 515, § 3º DO CPC [Código de Processo Civil].
A ausência de lei para regência de novos - e cada vez mais ocorrentes - fatos sociais decorrentes das instituições familiares, não é indicador necessário de impossibilidade jurídica do pedido.
É que ‘quando a lei for omissa, o juiz decidirá o caso de acordo com a analogia, os costumes e os princípios gerais de direito’ (artigo 4º da Lei de Introdução ao Código Civil).
Caso em que se desconstitui a sentença que indeferiu a petição inicial por impossibilidade jurídica do pedido e desde logo se enfrenta o mérito, fulcro no artigo 515, § 3º do CPC.
Dito isso, a aplicação dos princípios da ‘legalidade’, ‘tipicidade’ e ‘especialidade’, que norteiam os ‘Registros Públicos’, com legislação originária pré-constitucional, deve ser relativizada, naquilo que não se compatibiliza com os princípios constitucionais vigentes, notadamente a promoção do bem de todos, sem preconceitos de sexo ou qualquer outra forma de discriminação (artigo 3, IV da CF/88), bem como a proibição de designações discriminatórias relativas à filiação (artigo 227, § 6º, CF), ‘objetivos e princípios fundamentais’ decorrentes do princípio fundamental da dignidade da pessoa humana.
Da mesma forma, há que se julgar a pretensão da parte, a partir da interpretação sistemática conjunta com demais princípios
infra-constitucionais, tal como a doutrina da proteção integral o do princípio do melhor interesse do menor, informadores do Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.069/90), bem como, e especialmente, em atenção do fenômeno da afetividade, como formador de relações familiares e objeto de proteção Estatal, não sendo o caráter biológico o critério exclusivo na formação de vínculo familiar.
Caso em que no plano fático, é flagrante o ânimo de paternidade e maternidade, em conjunto, entre o casal formado pelas mães e do pai, em relação à menor, sendo de rigor o reconhecimento judicial da ‘multiparentalidade’, com a publicidade decorrente do registro público de nascimento.
DERAM PROVIMENTO. (RIO GRANDE DO SUL, 2015).
Ainda no ano de 2015, o Tribunal de Justiça de Sergipe reconheceu a multiparentalidade entre o filho, dois pais e uma mãe:
Apelação Cível – Ação de reconhecimento de paternidade biológica – Paternidade socioafetiva já declarada em outra ação judicial - Multiparentalidade – Possibilidade - Ausência injustificada da genitora do menor em realizar o exame de DNA – Julgamento de improcedência do pedido autoral, mas com pedido de exame genético não produzido – Cerceamento do direito de ação caracterizado – Sentença nula - Recurso conhecido e provido. I – Não há prevalência entre os critérios de filiação (biológico e socioafetivo), pois não é porque se tem o pai socioafetivo que o vínculo biológico desaparece. Nesse sentido, é que a jurisprudência vem reconhecendo a aplicação da multiparentalidade. Precedentes do STJ e deste Tribunal; II – Da mesma forma que toda criança tem direito personalíssimo, indisponível e imprescritível ao estado de filiação, podendo ser exercitado contra os pais e seus herdeiros (artigo 1.606 CC e artigo 27 do ECA), todo pai tem direito ao reconhecimento genético de seu filho, como também o de contestar a paternidade do mesmo (artigo 1.601 CC), sendo estes direitos inerentes a personalidade e afetos ao princípio da dignidade da pessoa; III – Tendo o apelante direito personalíssimo à paternidade e pedido a realização do exame genético, prova esta cabal para aferir o vínculo biológico, o magistrado ao deixar de produzi-la e julgar improcedente o pleito autoral, cerceou o seu direito de ação, sendo nula a sentença, pois a paternidade socioafetiva não veda a possibilidade de ser reconhecida à paternidade biológica, concomitantemente; IV - Recurso conhecido e provido. (Apelação Cível nº 201500802706 nº único 0000602-51.2013.8.25.0070 - 2ª CÂMARA CÍVEL, Tribunal de Justiça de Sergipe - Relator(a): Vaga de Desembargador(Desa. Marilza Maynard) - Julgado em 07/04/2015). (SERGIPE, 2015)
Destaca-se que o reconhecimento jurídico da filiação socioafetiva desencadeou demandas jurídicas a respeito do conflito entre as paternidades biológica e socioafetiva. Em busca da solução, a doutrina e jurisprudência divergiam entre acolher uma paternidade e excluir a outra ou acolher os múltiplos vínculos parentais. O tema chegou ao STF, que pacificou o entendimento ao acolher a tese da multiparentalidade, como se verificará adiante.
3.2.1 Repercussão Geral nº 622 do Supremo Tribunal Federal
Tartuce (2019b, grifo do autor) esclarece que “[...] A decisão do STF é o fim do
caminho. A regra passou a ser a multiparentalidade, nos casos de dilemas entre a
parentalidade socioafetiva e a biológica. Uma não exclui a outra, devendo ambas conviver em igualdade plena.”
Ainda, Calderón (2017) comenta que “[...] A decisão da Corte Suprema se afastou um pouco da solução engendrada pelo STJ e, de forma inovadora, reconheceu a possibilidade jurídica da multiparentalidade no Direito de Família brasileiro [...]”.
Com base em Madaleno (2019a), em 21 de setembro de 2016, o STF, no Recurso Extraordinário nº 898060, de relatoria do Ministro Luiz Fux, aprovou a tese da multiparentalidade, “[...] com todas as suas consequências patrimoniais e extrapatrimoniais. [...]”. A tese foi declarada em repercussão geral e em ampla maioria no Enunciado 622.
A redação original da Repercussão Geral nº 622 do STF declarou: “A paternidade socioafetiva, declarada ou não em registro público, não impede o reconhecimento do vínculo de filiação concomitante baseado na origem biológica, com os efeitos jurídicos próprios.” A ementa do caso julgado informa:
Ementa
RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM AGRAVO. DIREITO CIVIL. AÇÃO DE ANULAÇÃO DE ASSENTO DE NASCIMENTO. INVESTIGAÇÃO DE PATERNIDADE. IMPRESCRITIBILIDADE. RETIFICAÇÃO DE REGISTRO.
PATERNIDADE BIOLÓGICA. PATERNIDADE SOCIOAFETIVA.
CONTROVÉRSIA GRAVITANTE EM TORNO DA PREVALÊNCIA DA PATERNIDADE SOCIOAFETIVA EM DETRIMENTO DA PATERNIDADE BIOLÓGICA. ART. 226, CAPUT, DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL. PLENÁRIO VIRTUAL. REPERCUSSÃO GERAL RECONHECIDA.
Decisão
Decisão: O Tribunal, por maioria, reputou constitucional a questão, vencido o Ministro Marco Aurélio. Não se manifestaram os Ministros Gilmar Mendes, Joaquim Barbosa, Ricardo Lewandowski e Cármen Lúcia. O Tribunal, por
maioria, reconheceu a
existência de repercussão geral da questão constitucional suscitada, vencido o Ministro Marco Aurélio. Não se manifestaram os Ministros Gilmar Mendes, Joaquim Barbosa, Ricardo Lewandowski e Cármen Lúcia. Ministro LUIZ FUX Relator. (BRASIL, 2016).
Consoante Calderón (2017), o caso paradigma da Repercussão Geral nº 622 do STF teve início com uma investigação de paternidade biológica proveniente do estado de Santa Catarina.
A ação foi movida por uma filha de 19 anos de idade, que tinha um pai socioafetivo e registral, mas buscava o reconhecimento do pai biológico e a exclusão do pai socioafetivo de seu registro de nascimento. O suposto pai biológico, em sua defesa, alegou que a filha já possuía outro pai socioafetivo e, como ela era maior de idade, seria evidente que a sua intenção era exclusivamente patrimonial.
Em 2003, a demanda foi julgada procedente em primeira instância, reconhecendo a paternidade biológica em substituição à paternidade socioafetiva.
No entanto, o pai biológico recorreu ao Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJ/SC), que decidiu a favor dele. O acórdão negou o reconhecimento da paternidade biológica, pelo fato da paternidade socioafetiva estar consolidada.
Diante da divergência, foram opostos embargos infringentes pela filha perante o TJ/SC, que foi julgado em 2013, mantendo a decisão de primeira instância, que julgou a favor do reconhecimento da paternidade biológica em substituição à paternidade afetiva e registral.
O pai biológico recorreu contra essa decisão final do TJ/SC e interpôs o Recurso Extraordinário pedindo para reformar a decisão. O recurso foi admitido e chegou até o STF, que julgou a Repercussão Geral nº 622, firmando a tese da multiparentalidade.
Na opinião de Calderón (2017), ao julgar a Repercussão Geral nº 622, “[...] agiu bem o Supremo Tribunal Federal ao acenar para a coexistência [dos vínculos biológico e socioafetivo] ao invés de optar por alguma prevalência”. Em sentido contrário, Rizzardo (2019) adverte a respeito da duplicidade de pais ou mães no registro de nascimento:
Essa alteração no registro civil traz sérios efeitos. Primeiramente, há um rompimento da ordem natural, com a criação de um modelo de filiação que desconstitui a paternidade ou maternidade natural. No âmbito pessoal do filho, traz uma indefinição de sua origem e insegurança na própria hierarquia dos progenitores naturais e os instituídos, a par de outros desacertos da personalidade. É possível o surgimento de conflitos internos, e, inclusive, de concorrências na disputa das preferências. Havendo dois pais, ou duas mães, um ou outro poderá agradar mais ao filho, satisfazer seus caprichos exageradamente, de modo a atrair a preferência por sua pessoa. Igualmente, quanto ao filho se possibilita um sentimento de insegurança ou instabilidade, em relação a quem agradar mais ou a quem obedecer. No afã de avançar e impressionar nas inovações, cometem-se atentados e violências às pessoas em formação.
[....]
O Supremo Tribunal Federal, em decisão festejada por aqueles que, ávidos de novidades, não encaram as consequências dos desvios da natureza do ser humano, à luz de mal interpretados princípios constitucionais, como o art.
226, §§ 3º, 4º, 6º e 7º, e do direito comparado, admitiu a dupla paternidade (dual paternity) ou maternidade.
De todo modo, conforme Tartuce (2018), o julgamento do STF na Repercussão Geral nº 622 culminou em três consequências: “[...] a) o reconhecimento de que a socioafetividade é forma de parentesco civil; b) a afirmação da igualdade entre o vínculo biológico e o socioafetivo e c) a admissão da multiparentalidade, com o reconhecimento de mais de um vínculo de filiação [...]”. Portanto, a decisão do STF consolidou a parentalidade socioafetiva.
Nesse sentido, em busca de extrajudicializar os conflitos, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) editou o Provimento nº 63 em novembro de 2017, que passou a permitir o reconhecimento da parentalidade socioafetiva diretamente nos Cartórios de Registro Civil.
Em relação ao reconhecimento extrajudicial da multiparentalidade, destaca-se o artigo 14 do Provimento nº 63, com a seguinte redação: “O reconhecimento da paternidade ou maternidade socioafetiva somente poderá ser realizado de forma
unilateral e não implicará o registro de mais de dois pais e de duas mães no campo
FILIAÇÃO no assento de nascimento.” (BRASIL, 2017a, grifo nosso). De acordo com Tartuce (2018), o referido artigo inicialmente causou polêmicas, surgindo duas correntes interpretativas.
Uma corrente entendia que a norma não permitia o reconhecimento extrajudicial da multiparentalidade, pois o termo unilateral descrito no artigo referia-se a casos em que o filho só tem um genitor em seu registro de nascimento e somando a paternidade socioafetiva iriam constar dois genitores em seu registro, assim, o reconhecimento da múltipla filiação seria possível somente por via judicial.
Outra corrente entendia que a multiparentalidade poderia ser reconhecida extrajudicialmente, de modo que o termo unilateral constante no artigo se referia ao reconhecimento de apenas uma paternidade ou maternidade socioafetiva, desse modo o filho que tivesse o pai e a mãe biológica em seu registro de nascimento poderia ter acrescido um pai ou mãe socioafetivo, totalizando três vínculos parentais. Diante dessas dúvidas, conforme Calderón (2019), no dia 14 de agosto de 2019, a Corregedoria Geral de Justiça do CNJ editou o Provimento nº 83, que alterou o anterior Provimento nº 63 de 2017. As modificações se deram em relação ao registro extrajudicial parentalidade socioafetiva.
Assim, o Provimento nº 83 do CNJ acrescentou dois parágrafos ao artigo 14 do Provimento 63 do CNJ:
§1º Somente é permitida a inclusão de um ascendente socioafetivo, seja do lado paterno ou do materno.
§2º A inclusão de mais de um ascendente socioafetivo deverá tramitar pela via judicial. (BRASIL, 2019).
Portanto, não restam mais dúvidas, a multiparentalidade só pode ser reconhecida judicialmente segundo ensina Dias (2020, p. 238, grifo nosso):
Provimento do Conselho Nacional de Justiça, que sofreu limitações e mutilações, acabou por deixar no limbo um número enorme de crianças, pois faculta o reconhecimento voluntário, diretamente junto ao Cartório de Registro Civil, da parentalidade socioafetiva de quem tiver mais de 12 anos de idade.
Há a necessidade da chancela do Ministério Público.
Para o reconhecimento extrajudicial da parentalidade de caráter socioafetivo de maiores de 18 anos, basta a concordância das partes. Não há a necessidade da manifestação dos pais biológicos, eis o filho não mais sujeito ao poder familiar.
É indispensável a concordância dos pais registrais e o consentimento do filho.
Somente é possível o registro de um ascendente, ou paterno ou materno.
O registro de filiação socioafetiva com relação a mais de um ascendente depende de demanda judicial.
Verifica-se que a multiparentalidade gradualmente foi acolhida pela doutrina e jurisprudência. Assim, com base no princípio constitucional da igualdade entre os filhos, serão verificados os efeitos jurídicos advindos do reconhecimento da múltipla filiação.
3.3 EFEITOS GERAIS
A multiparentalidade é um dos novos temas do Direito de Família, que foi reconhecido pela Corte Suprema na Repercussão Geral nº 622. “Essa deliberação traz a reboque diversas consequências e indagações.” (CALDERÓN, 2017).
Cabe ressaltar que, no primeiro capítulo do presente trabalho, foi estudado o princípio da igualdade de filiação, consagrado pela CF/88 em seu artigo 227, § 6º, que assegura a todos os filhos os mesmos direitos e qualificações, proibindo quaisquer designações discriminatórias relativas à filiação (BRASIL, 1988). Desse modo, os
filhos que têm a multiparentalidade reconhecida devem ter todos os seus direitos resguardados, sem qualquer discriminação.
Nesse contexto, Madaleno (2019a) explica que a multiparentalidade tem a proposta de dar à socioafetividade o mesmo valor observado à realidade consanguínea. E a corrente doutrinária majoritária entende que deve ser garantido ao filho com múltiplos pais todos os efeitos jurídicos referentes ao parentesco, ao nome, aos alimentos, à guarda, às visitas, aos direitos sucessórios e, quando houver divergência entre os vários pais, eles devem buscar o juiz.
De acordo com Póvoas (2017, p. 111, 112), o primeiro efeito do reconhecimento da multiparentalidade é o estabelecimento de vínculos de parentesco entre o filho e todos os parentes dos pais ou mães. Assim, o filho terá parentesco em linha reta sem limite de grau e colateral até o quarto grau, com a família de todos os pais afetivos e pais biológicos, nos termos dos artigos 1.591 e 1592, do CC/02 (BRASIL, 2002). Nesse sentido, Cassettari (2017) complementa que:
Assim, temos que, quando um pai ou mãe reconhece uma paternidade ou maternidade socioafetiva, esse filho passará a ter vínculo de parentesco com seus outros parentes. Com isso surgirão os conceitos: avós, bisavós, triavós, tataravós, irmãos, tios, primos, tios-avós socioafetivos, que irão acarretar todos os direitos decorrentes dessa parentalidade. [...]
No tocante à multiplicidade de vínculos parentais, Dias (2020, p. 238, grifo do autor) lembra que “esta realidade da vida deve ser retratada no registro de
nascimento [...]”, tendo em vista que “o direito de uso do nome do pai pelo filho é
direito fundamental e não pode ser vedada a sua utilização”. (PÓVOAS, 2017, p. 113). Desse modo, o direito ao nome é outro efeito do reconhecimento da multiparentalidade.
Nessa perspectiva, Calderón (2017) explica acerca do procedimento registral:
O reconhecimento da multiparentalidade exige que essa nova filiação seja averbada no registro de nascimento do respectivo filho em adição à paternidade anterior. Isso porque a filiação produz diversos outros efeitos jurídicos, de modo que é essencial que essa relação de parentesco esteja formalizada, tanto para segurança jurídica das partes como para de terceiros. Assim, deverão ser acrescidos no assento de nascimento do filho (e demais documentos correlatos) o nome do novo pai reconhecido (se for esse o caso), também com a adição dos respectivos novos avós. Essa providência deverá ser determinada na mesma decisão que reconhece a relação multiparental e, como visto, independe da vontade da parte.
Nessa continuidade, Póvoas (2017, p. 114) discorre a respeito dos sobrenomes dos múltiplos pais ou mães:
Reconhecida registralmente a multiparentalidade, o nome do filho, sem qualquer impedimento legal, poderia ser composto pelo prenome e o apelido de família de todos os genitores.
A lei dos Registros Públicos, em seu art. 54, não impossibilita isso. Na realidade, basta às pessoas ter um prenome e um sobrenome. Apenas um. Não há necessidade – por não haver legalmente essa exigência – de que se ostente os apelidos de família de todos os genitores. Contrário senso, também não há impossibilidade de que se ostente o nome de todos os genitores, mesmo que sejam eles mais de dois. O nome, portanto, não seria problema algum quando se fala em multiparentalidade.
[....] Dessa forma, podem os envolvidos, de comum acordo, acrescer ao nome do filho o sobrenome de todos, seja em que ordem for, cabendo ao Juiz, em caso de divergência [...], decidir fundamentadamente como ficará o nome completo do filho que possui mais de dois pais ou duas mães.
Em relação à obrigação alimentar, Póvoas (2017, p. 114, 115) certifica que o reconhecimento da multiparentalidade gera a mesma obrigação já existente no caso de biparentalidade, ou seja, tanto o pai biológico quanto o pai socioafetivo têm a obrigação de prestar alimentos ao filho. Conforme dispõe o artigo 1.696 do CC/02, “o direito à prestação de alimentos é recíproco entre pais e filhos, e extensivo a todos os ascendentes, recaindo a obrigação nos mais próximos em grau, uns em falta de outros.” (BRASIL, 2002).
Os alimentos também podem ser proporcionados pelos filhos aos pais, conforme indica Calderón (2017):
A declaração do vínculo parental de filiação é uma via de reciprocidade e, a partir da sua declaração, todos os efeitos dela decorrem. Como não poderia deixar de ser, inclusive incide o eventual dever de alimentos a serem prestados aos pais pelos filhos, caso aqueles venham a necessitar. Ou seja, quem tiver dois pais e uma mãe declarados, poderá ter que prestar alimentos aos três em dado momento da vida. Também este aspecto deverá ser sopesado por quem pretender ver reconhecida uma situação multiparental.
Quanto à guarda de filhos menores na multiparentalidade, deve ser observado o princípio do melhor interesse da criança e do adolescente. Em situações sem litígio, pode se optar pela guarda compartilhada. E no caso de litígio sobre a guarda, os Tribunais devem considerar as preferências da criança, se ela for suficientemente madura, ou uma equipe interdisciplinar deve analisar com quem deve permanecer o menor. Em tais casos, o melhor critério utilizado é a afinidade e a afetividade, assim,
geralmente os pais afetivos levam vantagem para ficar com a guarda do menor (PÓVOAS, 2017, p. 116, 117).
Nessa continuidade, Cassettari (2017) acresce que “as disposições relativas à guarda e prestação de alimentos aos filhos menores estendem-se aos maiores incapazes.”
No que diz respeito à visitação, Póvoas (2017, p. 117, 118) informa que o regramento é aplicado aos múltiplos genitores nos mesmos moldes em que se estabelece na biparentalidade. Assim, os pais que não possuem a guarda podem visitar e ter em sua companhia o filho, podendo ser convencionada a visita entre todos os pais ou fixada pelo juiz, nos termos do artigo 1.589, do CC/02 (BRASIL, 2002).
Cabe ressaltar que, como defende Calderón (2017), “[...] todos os reconhecidos como pais terão direito à convivência com os filhos, de modo que essa convivência também deverá ser compartilhada entre todos, sempre com prevalência do melhor interesse da criança e do adolescente, obviamente”. “Assim sendo, verifica-se que tanto o pai quanto a mãe e os avós socioafetivos terão direito de conviver com o filho, podendo visitá-lo regularmente, enquanto houver o exercício do poder familiar.” (CASSETTARI, 2017).
Ainda consoante Cassettari (2017), com base no princípio constitucional da igualdade da filiação, o filho socioafetivo menor de 21 anos ou inválido, contanto que não tenha se emancipado (entre 16 e 18 anos), tem os direitos previdenciários garantidos, como a pensão por morte, integral ou parcial na hipótese de ter que ser dividida com os filhos biológicos.
Quanto a prováveis divergências entre os genitores, Póvoas (2017, p. 122, 123) explica que:
É verdade, divergências são possíveis e até mesmo prováveis, como ocorre em situações ditas normais, quando, por exemplo, casal heterossexual dissolve a sociedade conjugal.
Mas, para essas hipóteses de divergência entre os genitores, a lei estabelece textualmente, em vários dispositivos que se deve recorrer ao juiz para dirimi-las. Assim, também, deve-se proceder na hipótese de multiparentalidade, não sendo isso óbice ao seu reconhecimento.
Restou demonstrado que a tese da multiparentalidade foi acolhida pelo STF na Repercussão Geral nº 622. Desse modo, o reconhecimento jurídico dos múltiplos vínculos parentais gera efeitos diversos em várias esferas. Em vista disso, no próximo capítulo serão averiguados os efeitos da múltipla filiação no direito sucessório.