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Os ensinamentos cristãos foram um dos primeiros conjuntos de regras que enalteceram a dignidade da vida humana e o direito à vida, ao pregar que o homem é filho de Deus e criado à Sua imagem e semelhança. Inserido no decálogo de Deus, trazido por Moisés aos homens, está a mais famosa norma de conduta protetora da vida: “Não matarás”.

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SCHOOYANS, Michel, op. cit., p. 35-7.

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Sem embargos, os direitos do homem não foram efetivamente garantidos no percurso da História Antiga e Média. Talvez a mais importante consagração dos Direitos Humanos fosse a Magna Charta Libertatum, de João Sem Terra, outorgada em 1215, na Inglaterra, seguida pela Petition of Right, de 1628,

Habeas Corpus Act, de 1679, o Bill of Rights, de 1689, e o Act of Seattlement, de

1701. Em 1789, na França, foi promulgada a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, garantindo, entre outros bens fundamentais, a igualdade e liberdade.174 No Preâmbulo desta Declaração, a Assembléia Nacional Francesa concluiu que a ignorância, o esquecimento e o desprezo aos direitos do homem são as únicas causas de infelicidade do povo e da corrupção dos governantes; sendo assim, consagraram os Direitos Humanos como o caminho para a felicidade de todos.

Somente a liberdade e a igualdade foram prestigiadas nesses momentos históricos, e não a vida, que até então não havia sido considerada inviolável. À época, nem mesmo a igualdade podia ser considerada plena, pois na maioria dos países funcionava o regime de escravidão, inclusive no Brasil.

As proteções às pessoas foram sendo aprimoradas com o passar do tempo e, finalmente, a vida passa a ser consagrada na Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem, proclamada em abril de 1948, na IX Conferência Americana, em Bogotá. No seu art. 1.º está previsto que todo ser humano tem direito à vida, à liberdade e à segurança de sua pessoa. No art. 2.º está consagrada a igualdade entre todos perante a lei, sem qualquer distinção. No art. 5.º está previsto o direito da pessoa contra ataques à sua vida particular e familiar e no art. 7.º está previsto que toda mulher em estado de gravidez ou em época de

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lactação, assim como toda a criança, tem direito à proteção, cuidados e auxílios especiais.

No dia 10 de dezembro do mesmo ano, a Assembléia Geral das Nações Unidas assinou, em Paris, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, prevendo em seu art. 3.º o direito à vida e à segurança pessoal. Seu art. 5.º prevê que ninguém será submetido a tratamento cruel, desumano ou degradante.

O Decreto Legislativo n. 678/92, publicado em 6 de novembro de 1992, aprovou o texto da Convenção Americana sobre os Direitos Humanos (Pacto São José da Costa Rica), celebrada em 22 de novembro de 1969. Entre os direitos civis e políticos protegidos estão o direito à vida (art. 4.º) e o direito à integridade pessoal (art. 5.º):

Art. 4.º. (...)

1. toda pessoa tem o direito que se respeite sua vida. Esse

direito deve ser protegido pela lei e, em geral, desde o momento da concepção. (grifo nosso) Ninguém pode ser privado da vida arbitrariamente.

Art. 5.º. (...)

1. toda pessoa tem o direito de que se respeite sua integridade

física, psíquica e moral.

2. ninguém deve ser submetido a torturas, nem a penas ou

tratos cruéis, desumanos ou degradantes.

Somente esta norma do art. 4.º, 1, seria suficiente para pôr um fim a qualquer discussão sobre permissão ou proibição de novas modalidades de

abortamento, bem como sobre a utilização em experiências ou congelamento de embriões humanos, já que o ser humano deve ser protegido desde o momento da concepção.

A Assembléia Geral da UNESCO, em 1997, adotou a Declaração dos Direitos do Homem e do Genoma Humano, a qual protege, em seu art. 2.º, a dignidade humana, independente das características genéticas.

a) A todo indivíduo é devido respeito à sua dignidade e aos seus

direitos, independente de suas características genéticas.

b) Essa dignidade torna imperativa a não redução dos indivíduos

às suas características genéticas e ao respeito à sua singularidade e diversidade.

A Declaração reforça os preceitos sobre o respeito à diversidade e determina que ninguém será submetido à discriminação com base em características genéticas, que vise a violar ou que tenha como efeito a violação de direitos humanos, de liberdades fundamentais e da dignidade humana (art. 6.º). Outrossim, determina a declaração que o objetivo principal do avanço da ciência é o alívio do sofrimento e a melhoria da saúde de todos, como versado no art. 12, in verbis:

Art. 12.

b) A liberdade, necessária ao avanço do conhecimento, é parte da

liberdade de pensamento. As aplicações da pesquisa, incluindo aquelas realizadas no campo da biologia, da genética e da medicina, envolvendo o genoma humano, devem buscar o alívio

do sofrimento e a melhoria da saúde de indivíduos e da humanidade como um todo.

Este artigo, porém, enseja uma perigosa dicotomia na interpretação de seu texto, pois ao primar pela diminuição do sofrimento e a melhoria da saúde do

indivíduo e da humanidade, ele pode ser entendido sob dois enfoques que se

chocam. O primeiro seria o ideal, no qual a diminuição do sofrimento convergiria com a proibição do aborto, haja vista o extremo suplício ao qual é submetido o feto. E em relação à melhoria de saúde, a melhor via seria a intervenção cirúrgica intra-uterina, sempre que possível, visando ao saneamento do nascituro. Além disso, poder-se-ia pensar em uma assistência médica pré- natal globalizada, com intuito de orientar as gestantes sobre as formas de se evitar más-formações fetais provenientes do consumo inadequado de substâncias nocivas à saúde, como drogas, bebidas alcoólicas ou a utilização de dispositivos contraceptivos, como o DIU. Sob o segundo enfoque, poder-se-ia afirmar que o referido artigo é o endosso definitivo desta organização mundial à implantação de uma política eugênica internacional. Ao defender a diminuição do sofrimento, pode-se alegar a desnecessidade de a gestante sujeitar-se a nove meses de fragilidade e vulnerabilidade, geradas pelo estado gravídico, quando diagnosticada a anomalia fetal e optar pela interrupção imediata. E, no que tange a melhoria da saúde da humanidade, a prática do aborto eugênico e da eutanásia seriam tranqüilamente aceitáveis como métodos eficazes para este fim.

De acordo com o § 2.º, do art. 5.º da Constituição Federal, os direitos e garantias previstos nas declarações internacionais, assinadas pelo governo brasileiro, são equiparáveis aos existentes na Carta Política brasileira. Sendo

assim, esses direitos e garantias fundamentais têm eficácia plena e aplicabilidade imediata.