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Direito internacional

O Direito Internacional é um conjunto de normas que governa as relações entre os sujeitos de direito internacional, isto é, entidades com capacidades jurídicas. São, em particular, os Estados, organizações internacionais públicas e indivíduos. O Comitê Internacional da Cruz Vermelha é uma organização sui generis e tem status de observador nas Nações Unidas.

As fontes principais do Direito Internacional são as convenções internacionais, o costume internacional e os princípios gerais do direito reconhecidos pelas nações civilizadas. As fontes adicionais são decisões judiciais e ensinamentos de juristas altamente qualificados.

Uma convenção internacional (ou tratado ou pacto) é “um acordo internacional concluído por escrito entre Estados e regido pelo Direito Internacional, consubstanciado em um único instrumento ou em dois ou mais instrumentos conexos, qualquer que seja sua designação específica”. (Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados, artigo 2(1)(a)). Um documento desse tipo torna-se legalmente vinculante para um Estado com a assinatura e ratificação ou adesão subsequente. Entretanto, se o tratado permitir, um Estado pode

formular uma reserva a certas partes do tratado, tendo como efeito não se vincular pelas disposições em questão – a menos que a reserva seja incompatível com o objeto e a finalidade do tratado (Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados, artigo 19).

O costume internacional é “a prova de uma prática geral aceita como sendo o direito” (Estatuto da Corte Internacional de Justiça (CIJ), artigo 38(1)(b)). A prova, portanto, necessita ser fornecida por uma prática consistente (habitual) baseada em uma obrigação legal percebida.

Jus cogens ou normas peremptórias do Direito Internacional são as normas do direito consuetudinário das quais nenhuma derrogação é permitida (nem mediante tratados). A absoluta proibição de tortura é um exemplo disto.

Fontes adicionais importantes do Direito Internacional são os documentos de soft law (normas não vinculantes). O soft law engloba instrumentos não vinculantes, estabelecidos através de resoluções da Assembleia Geral das Nações Unidas. Podem servir para fortalecer o compromisso dos Estados com os acordos internacionais, reafirmar as normas internacionais ou estabelecer bases legais para tratados subsequentes. O Código de Conduta para os Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei (CCFRAL) ou os Princípios Básicos sobre o Uso da Força e de Armas de Fogo (PBUFAF) são exemplos de tais instrumentos com particular importância para a aplicação da lei.

Embora a real aplicabilidade do Direito Internacional no sistema interno possa variar dependendo do marco jurídico nacional, um Estado não pode invocar sua Constituição ou outras leis nacionais como motivo para não cumprir com suas obrigações conforme o Direito Internacional. Ao firmar um tratado, um Estado é obrigado a adaptar a sua legislação nacional de acordo com o tratado internacional. Deve também assegurar que representantes ou instituições estatais cumpram com as suas obrigações internacionais. Não o fazer implicará a responsabilidade do Estado no que diz respeito a “conduta, consistindo em uma ação ou omissão [...] atribuível ao Estado conforme o Direito Internacional [e que] constitui uma violação de uma obrigação internacional do Estado”

(Projeto de Artigos sobre Responsabilidade dos Estados por Atos Intencionalmente Ilícitos, artigo 2o). Essa responsabilidade é particularmente relevante quando se trata da aplicação da lei, já que a violação dessas obrigações pelos funcionários responsáveis pela aplicação da lei no exercício de seu dever, segundo o Direito Internacional dos Direitos Humanos, implicará a responsabilidade do Estado no âmbito internacional, incluindo a obrigação de oferecer compensação e reparação.

No âmbito nacional, os Estados têm poderes de legislação (jurisdição prescritiva), assim como poderes de aplicação (jurisdição aplicativa). Esta

última inclui os poderes executivo e judiciário, cobrindo os domínios civil e criminal. No entanto, quando se trata de jurisdição penal para crimes particularmente graves, a jurisdição penal internacional pode entrar em cena.

Após os primeiros tribunais penais internacionais específicos (Nuremberg, Tóquio, Iugoslávia e Ruanda), foi criado um tribunal permanente em 2002, o Tribunal Penal Internacional (TPI). O Estatuto de Roma do TPI, que foi adotado em 1998 e entrou em vigor em 2002, estabeleceu essa corte para lidar com casos de crimes graves em que a jurisdição nacional não fornece uma resposta (efetiva). A jurisdição do TPI cobre os seguintes crimes: genocídio, crimes contra a humanidade, crimes de guerra e crime de agressão. O TPI pode assumir casos em que a pessoa acusada é nacional de um Estado Parte, quando o suposto crime foi cometido no território de um Estado Parte ou quando uma situação tenha sido apresentada pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Duas importantes áreas do Direito Internacional são o Direito Internacional dos Direitos Humanos e o Direito Internacional Humanitário. Seu objetivo comum é proteger a vida, a saúde e a dignidade das pessoas, mas têm diferentes âmbitos de aplicação. O Direito Internacional dos Direitos Humanos se aplica em todos os momentos, sendo vinculante aos Estados em sua relação com os indivíduos que vivem em seu território (uma relação essencialmente

“vertical”); o Direito Internacional Humanitário é aplicável em situações de conflito armado e constitui, nesse sentido, uma lex specialis; é vinculante a todas as partes em conflito.

Direito internacional dos Direitos Humanos

Os direitos humanos são títulos legais que cada ser humano possui. São universais e pertencem a todos sem distinção. São parte da lei e, embora talvez possam ser violados, não podem ser negados. Para estudar os primórdios dos direitos humanos, é preciso voltar vários séculos no tempo.

Em âmbito universal, contudo, eles começaram a exercer um papel mais significativo no século XX. Depois do fracasso da Liga das Nações, criada após a Primeira Guerra Mundial, as Nações Unidas foram criadas em 1945 para promover e manter a paz e a segurança. Seu instrumento de fundação é a Carta das Nações Unidas (Carta da ONU). O documento contém um importante compromisso sobre direitos humanos no artigo 55, segundo o qual “as Nações Unidas favorecerão [...] o respeito universal e efetivo dos direitos humanos e das liberdades fundamentais para todos, sem distinção de raça, sexo, língua ou religião.”

Os seguintes passos importantes rumo a uma maior codificação dos direitos humanos em âmbito universal formam, em seu conjunto, o que é frequentemente considerado hoje como a Carta Internacional dos Direitos Humanos:

• A Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH), adotada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 1948;

• O Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (PIDESC), que foi adotado em 1996 e entrou em vigor em 1976, e seu Protocolo Facultativo;

• O Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos (PIDCP), que foi adotado em 1966 e entrou em vigor em 1976, e seus dois Protocolos Facultativos, que foram adotados em 1966 e 1989 e entraram em vigor em 1976 e 1991, respectivamente.

A DUDH teve um importante impacto sobre os tratados de direitos humanos universais e regionais subsequentes, além das constituições e outras leis nacionais. Como resultado, existem hoje muitas disposições que podem ser consideradas normas consuetudinárias, como a proibição da discriminação racial, a proibição da tortura e outras formas de maus-tratos e a proibição da escravidão. Após a Carta Internacional dos Direitos Humanos, elaborou-se uma série de tratados para lidar com temas específicos. Entre eles, incluem-se:

• Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial (CIEDR);

• Convenção sobre a Eliminação de Todas as Forças de Discriminação contra as Mulheres (CEDM) e seu Protocolo Facultativo (PF/CEDM);

• Convenção Contra a Tortura e Outras Penas ou Tratamentos Cruéis, Desumanos ou Degradantes (CCT) e seu Protocolo Facultativo (PFCCT);

• Convenção sobre os Direitos da Criança (CDC) e seus Protocolos Facultativos sobre o envolvimento de crianças em conflitos armados e sobre a venda de crianças, prostituição infantil e pornografia infantil.

Os tratados internacionais de direitos humanos que são vinculantes a todos os Estados Partes (e seus agentes) são cada vez mais complementados por documentos de soft law (normas não vinculantes) que oferecem orientação e estabelecem padrões de direitos humanos mais detalhados. Além dos dois documentos já mencionados (CCFRAL e PBUFAF), os seguintes documentos de soft law, por exemplo, são de especial importância para os funcionários responsáveis pela aplicação da lei:

• Regras Mínimas das Nações Unidas para o Tratamento de Presos (Regras Mínimas);

• Conjunto de Princípios para a Proteção de Todas as Pessoas Sujeitas a Qualquer Forma de Detenção ou Prisão;

• Declaração de Princípios Básicos de Justiça Relativos às Vítimas da Criminalidade e de Abuso de Poder (Declaração das Vítimas)

A organização das Nações Unidas e os Direitos Humanos A promoção e proteção dos direitos humanos é uma das principais finalidades

da Organização das Nações Unidas, que, através de seus diferentes órgãos e agências, levou a cabo um amplo exercício de definição de padrões.

O órgão executivo das Nações Unidas é o Conselho de Segurança, que tem a responsabilidade primordial pela paz e a segurança. É formado por 15 membros, cinco deles permanentes (Estados Unidos, França, Reino Unido, República Popular da China e Rússia) e outros 10 eleitos pela Assembleia Geral para um período de dois anos.

A Assembleia Geral é o plenário da ONU, consistindo de todos os Estados Membros. Tem o poder de discutir quaisquer questões ou assuntos dentro do âmbito da Carta da ONU. No entanto, não pode impor a legislação diretamente aos Estados Membros, procedendo por meio de recomendações em vez de decisões vinculantes.

Outro dos principais órgãos das Nações Unidas é o Conselho Econômico e Social (ECOSOC). Entre outras coisas, tem o poder de “estabelecer comissões nos campos econômico e social e para a promoção dos direitos humanos”

(Carta da ONU, artigo 68). Entre os importantes órgãos subsidiários estabelecidos pelo ECOSOC no campo dos direitos humanos, incluem-se:

• Comissão Sobre Prevenção do Crime e Justiça Penal, cujo trabalho de definição de normas, como a formulação dos Princípios Básicos Sobre a Utilização da Força e de Armas de Fogo pelos Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei (PBUFAF), é de especial relevância para os funcionários responsáveis pela aplicação da lei;

• Comissão sobre o Status da Mulher;

• Comissão sobre Direitos Humanos, cujo trabalho foi assumido em 2006 pelo Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas;

• Comitê sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais.

O Conselho de Direitos Humanos é um órgão subsidiário da Assembleia Geral das Nações Unidas e foi criado em 2006. Consiste de 47 membros, cada um deles eleitos para um período de três anos. Na Revisão Periódica Universal, o Conselho revisa a situação de direitos humanos em todos os Estados membros a cada quatro anos. Também é incumbido de considerar um padrão consistente de graves e seguramente atestadas violações de direitos humanos e liberdades fundamentais por meio de um procedimento de denúncia, sendo apoiado pelo Grupo de Trabalho sobre Comunicações e pelo Grupo de Trabalho sobre Situações.

O principal funcionário nessa área das Nações Unidas é o Alto Comissário para Direitos Humanos, que pode tratar de qualquer problema contemporâneo de direitos humanos e engajar-se ativamente nos esforços para prevenir violações em todo o mundo. O Comissário também presta apoio a outros

mecanismos da ONU, em particular o Conselho de Direitos Humanos, além de diferentes órgãos de monitoramento de tratados nesse âmbito. Esses órgãos são encarregados de monitorar a implementação de tratados internacionais específicos de direitos humanos e existem para 10 tratados (CCT, CEDM, CIEDR, CIPDF, CDC, CDPD, PIDCP, PIDESC, CIDTM, PFCCT). Podem também emitir interpretações sobre disposições de direitos humanos por meio de “comentários gerais” ou “recomendações gerais”.

Além do sistema universal de direitos humanos da ONU, há também importantes acordos regionais que estabelecem e promovem essas normas:

• União Africana: a Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos (CADHP) é o principal tratado regional de direitos humanos, sendo a Comissão Africana dos Direitos Humanos e dos Povos o principal órgão de monitoramento; a Corte Africana de Justiça e Direitos Humanos (uma fusão entre a Corte Africana de Justiça preexistente e a Corte Africana sobre Direitos Humanos) é o principal órgão judicial da União Africana;

• Organização dos Estados Americanos (OEA): a Carta da OEA e a Convenção Americana sobre Direitos Humanos (CADH) são os instrumentos fundamentais de direitos humanos. A Comissão Interamericana de Direitos Humanos é o órgão de monitoramento, e a Corte Interamericana de Direitos Humanos é o principal órgão judicial da OEA;

• Liga dos Estados Árabes: a Carta Árabe sobre Direitos Humanos é o principal tratado de direitos humanos, sendo o Comitê Árabe de Direitos Humanos o órgão de monitoramento para esse instrumento;

• Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN): a Comissão Intergovernamental de Direitos Humanos é encarregada de formular estratégias para a promoção e a proteção dos direitos humanos e liberdades fundamentais, além de elaborar uma Declaração de Direitos Humanos da ASEAN;

• Na Europa, há uma estrutura dual de direitos humanos:

– Conselho da Europa: A Convenção Europeia de Direitos Humanos (CEDH), promulgada pelo Conselho da Europa, é o principal tratado nessa área. O Comissário para os Direitos Humanos é responsável pela promoção dos direitos humanos e o monitoramento da Convenção. Já a Corte Europeia de Direitos Humanos é o órgão judicial com jurisdição sobre o respeito pela Convenção.

– União Europeia (UE): A Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia é o mais importante instrumento de direitos humanos do bloco;

a Comissão Europeia, como órgão executivo da UE, e a Corte de Justiça da União Europeia são encarregadas de assegurar que os Estados membros cumpram com suas obrigações conforme o direito dos tratados da UE, o que inclui a Carta.

A maioria dos acordos regionais também adotou tratados específicos de

direitos humanos. Por exemplo, relativos à proibição da tortura, aos direitos da criança e aos direitos da mulher.